quinta-feira, 12 de junho de 2008

A "Raça portuguesa", Futebol, Ter e Ser




Estranhos Dias. Com o país bloqueado por camiões, Portugal ganhou aos turcos e aos checos com golos de dois portugueses que falam com sotaque brasileiro. Entretanto o presidente elogia a raça portuguesa.

Muito se tem falado e discutido sobre a questão dos jogadores brasileiros a jogar por Portugal. Há quem diga que só deviam jogar jogadores 100% portugueses porque não precisamos de brasileiros, etc. Para já nunca entendi essa do 100% português, como se a nacionalidade fosse como a quantidade de laranja de um sumo natural.

Mas pensemos realmente, o que é ser português? O que é uma nacionalidade? Muitas outras selecções jogam também com "estrangeiros".

Se quisermos, a nacionalidade é, quanto mais não seja, uma questão jurídica. Pela lei, todos estes jogadores são tão nacionais como os outros. Na verdade o Deco ou o Pepe são tão portugueses como um pedreiro, engenheiro ou advogado que veio do Brasil para Portugal, e que passados uns anos obteve a nacionalidade portuguesa. Na verdade não existe qualquer diferença. Quem é contra isto tem que também ser contra a lei da nacionalidade.

Quem defende que as selecções deviam ser "purificadas" deve ter em atenção que existem de facto muitos brasileiros, angolanos, chineses e ucranianos a viver em Portugal. O mesmo acontece com outros países europeus como a Alemanha, Inglaterra, França etc. Não existem só estrangeiros no futebol.

O Futebol não vive separado da vida. Quem diz que o futebol é uma ilusão de massas que nos distraem do "Portugal Real", está equivocado. Isto porque o futebol, na medida em que está inserido na sociedade, é possível também nele vermos os problemas dessa mesma sociedade. A selecção portuguesa tem os seus melhores jogadores a actuar em clubes de topo em Inglaterra e Espanha. Porque não estão estes jogadores a actuar em Portugal? Trata-se de razões económicas.

As centenas de brasileiros que vêm todos os anos para a Europa tentar a sua sorte no mundo da bola, fazem-no por razões económicas. Os que chegam a ganhar muito, são muito poucos. Por parte dos clubes, ir buscar esses jogadores é do mesmo tipo de estratégia das multinacionais que constantemente procuram mão-de-obra mais barata. Do que se trata aqui é de luta de classes.

Quanto à indignação em relação ao facto de haver jogadores "estangeiros" nas selecções eu proponho uma indignação diferente. A indignação é a de que estes jogadores não tiveram oportunidade de jogar e viver do futebol no seu país de origem. Estes jogadores vêm para a Europa onde há capital e melhores condições e meios para ser melhor jogador e ganhar mais dinheiro para a sua família, é por isto que eles vêem para cá.

Perante isto, só nos resta como país decente, receber o melhor possível estes estrangeiros, dar-lhes as condições para darem o melhor que têm para dar ao nosso país.

A globalização tem um efeito inevitável nas nossas vidas e o futebol não é excepção. Quem quiser ser contra os estrangeiros a jogar na selecção deve ser coerente e alinhar junto no protesto contra a globalização.

Quem é adepto do bom futebol deve também defender os valores da solidariedade, da união entre os jogadores das respectivas equipas. O individualismo e a rivalidade dentro delas já se sabe que não augura nada de bom. O que é válido para o futebol também é válido para a vida.

Tenho andado a ler a obra "Ter e Ser" de Erich Fromm (que jogou na minha equipa de futebol filosófico a médio direito da equipa da psicanálise marxista).
Fromm junta de forma coerente os ensinamentos de Buda, Jesus e Marx para estabelecer um programa de mudança social, baseado na distinção entre ter e ser.

A noção de posse é extremamente problemática. É um conceito não só psicológico mas também económico, sendo igualmente importante nas duas acepções.

Assim, levando a noção de propriedade privada muito longe como se tem levado, levantam-se actualmente questões legais altamente problemáticas hoje em dia como a questão dos direitos de autor, das patentes e da propriedade intelectual.

Na vida é muito grande a diferença entre ter e ser. O capitalismo glorifica o modo ter, mas é sem dúvida melhor "ser". Isto pode parecer ao princípio um pouco abstracto e vago mas, quanto a isto, podemos pegar no exemplo do futebol que, mais uma vez, é um bom exemplo do que acontece na vida. Ter uma boa equipa, de facto, não vale nada contra Ser uma boa equipa.

Quem tem uma boa equipa, na verdade não tem nada, pois pode sempre perder esse estatuto no próximo jogo, se o perder. Quando uma equipa É uma boa equipa, só o pode ser jogando. Assim, ser, é um conceito que vive muito mais daquilo que acontece no imediato do que daquilo que já aconteceu ou pode vir a acontecer. A posse define-se mais como algo "que se pode perder".

Não é por acaso que ter a posse da bola não importa muito se não se conseguir fazer nada com ela. E também não é por acaso que se ouve de jogadores e treinadores falar sempre que é melhor pensar "jogo a jogo".

Há quem diga que a política não se devia se intrometer no futebol. O que eu defendo é o contrário: o futebol devia contagiar a política. As combinações entre Deco, Ronaldo, Nuno Gomes e Pepe fazem mais pela união dos povos do que o acordo ortográfico.

Um comentário:

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Bom texto. Ainda o outro dia comentei - já não sei em que blog - sobre o livro do Eric Fromm, que me marcou sobremaneira quando o li há uns bons anos (estudante).