quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O cão e as dobras de Deleuze

Em jeito de "comentário ao comentário" feito no post anterior, que refere uma tendência em muitos dos posts que por aí pululam neste blog "em derrubar barreiras, encurtar distancias e estabelecer a comunicação entre elementos aparentemente díspares":

Diria que o que se trata aqui são de linhas de fuga, fluxos do desejo com seus cortes e recortes, um contínuo processo de desterritorialização e de reterritorialização. Em termos territoriais, a minha inspiração é Gilles Deleuze que, junto com Félix Guattari, penetraram em mim como um vírus sendo essa característica viajante do pensamento de que o comentador anónimo fala, um dos síntomas precisamente desse vírus.

Gilles Deleuze é o filósofo dos movimentos, das formas, dos terrítórios, não gosta de sítios fechados, poder-se-á até dizer que sofria de uma claustrofobia filosófica. Dizia que queria sair da Filosofia através da Filosofia.

Um documento valiosíssimo disponível a todos os mortais que Deleuze nos deixou foi o "Abecedário de Deleuze" que consiste numa entrevista com Claire Parnet gravada em vídeo, documento que, segundo a claúsula da entrevista, apenas podia ser revelado depois da sua morte

Começa com a palavra Animal, onde ele diz que (ao contrário do Iggy Pop ou do Padre António Vieira), nunca se identificou muito com o cão por ser um animal doméstico que ladra. O latido, para Deleuze é um momento de mau gosto na ordem estética da natureza. Deleuze nunca conheceu o famoso Mambo, canino com quem coabito e que tem a notável e louvável caracterísitca de nunca ladrar.

Vejam aqui um excerto da entrevista que mostra um pouco o alcance da filosofia de Deleuze que consegue ser uma inspiração para pintores, médicos, mecânicos, dobradores de papéis, surfistas, exército israelita, mosquitos, carrapatos, prostitutas, homens de negócios e os mais diversos modos de ser.



Gilles Deleuze: Quero sair da filosofia pela filosofia. É isso o que me interessa.

Claire Parnet: O que isso quer dizer?

Gilles Deleuze: Dou um exemplo, como isso é para depois de minha morte, posso deixar de ser modesto. Acabo de escrever um livro sobre um grande filósofo chamado Leibniz e insistindo em uma noção que me parece importante nele, mas que é muito importante para mim: a noção de dobra. Considero que fiz um livro de filosofia sobre essa noção, um pouco estranha, de dobra. O que me acontece depois? Recebo cartas, como sempre, há cartas insignificantes, mesmo se são encantadoras e calorosas, e me toquem muito. São cartas que me dizem, muito bem... são cartas de intelectuais que gostaram ou não do livro. E então recebo duas cartas, dois tipos de cartas, em que esfrego os olhos... Há cartas de pessoas que dizem: "Mas sua história de dobra, somos nós". E percebo que são pessoas que fazem parte de uma associação que agrupa 400 pessoas na França, hoje, e deve crescer. É a associação de dobradores de papéis, eles têm uma revista, me enviam a revista e dizem: "Concordamos totalmente, o que você faz é o que fazemos". Digo para mim: isso eu ganhei. Recebo outra carta, e falam da mesma maneira e dizem: "A dobra somos nós". É uma maravilha.

Primeiro isso lembra Platão, porque em Platão... os filósofos, para mim, não são pessoas abstratas, são grandes escritores, grandes autores bem concretos. Em Platão há uma história que me enche de alegria, e está ligada ao início da filosofia, voltaremos a isso depois. O tema de Platão é: ele dá uma definição, por exemplo, o que é o político? O político é o pastor dos homens, e sobre isso há muita gente que diz: o político somos nós, por exemplo, o pastor chega e diz: visto os homens, logo sou o verdadeiro pastor dos homens. O açougueiro diz: alimento os homens, sou o pastor dos homens. Os rivais chegam... Tive esta experiência, os dobradores de papéis chegam e dizem: a dobra somos nós. Os outros, que me enviaram o mesmo tipo de carta, é incrível, foram os surfistas. À primeira vista não há relação alguma com os dobradores de papéis. Os surfistas dizem: "concordamos totalmente, pois, o que fazemos? Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza. Para nós, a natureza é um conjunto de dobras móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, habitar a dobra da onda é a nossa tarefa". Habitar a dobra da onda e, com efeito, eles falam disso de modo admirável. Eles pensam, não se contentam em surfar, eles pensam o que fazem. Voltaremos a falar disto se chegarmos ao esporte [sport], ao S...

Claire Parnet: Está longe. Partimos do encontro, são encontros, os dobradores de papéis?

Gilles Deleuze: São encontros. Quando digo sair da filosofia pela filosofia... Sempre me aconteceu isso, são encontros, encontrei os dobradores de papéis, não preciso vê-los, aliás, ficaríamos decepcionados, provavelmente, eu ficaria, e eles ainda mais. Não preciso vê-los, mas tive um encontro com o surfe, com os dobradores de papéis, literalmente, saí da filosofia pela filosofia, é isso um encontro.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sair da filosofia através da filosofia é de certo uma aventura que deve exigir perícia. Parece aquela história do veneno que a uns pouco cura e que a quase todos envenena. Não conheço muito o pensamento de Gille Deleuze nem sou versada na filosofia. O único livro que dele li com Félix Guattari, creio, intitula-se "O que é a Filosofia?".Andam à volta desta definição singular e estabelecem pontos de comunicação com a arte e a ciência como diferentes aspectos do cérebro a lidar com o "caos". Aliás, a parte do livro que mais me encantou foi justamente o último capitulo, "Do Caos ao Cérebro" de onde me ficou uma imagem interessante (e agora vou desarticula-la um pouco do contexto, arranca-la da dinâmica do texto) de uma sombrinha que serve de abrigo ao caos, à velocidade infinita, onde toda a forma se dissipa, onde alguns traçam o firmamento e escrevem opiniões, mas onde os artistas e já não sei se os filósofos ou os cientistas, rasgam uma fenda para fazer passar o caos livre e ventoso. Algo assim. Deves saber mais disto que eu. Foi o que me ficou na memória. Mas pareceu-me um texto interessante apesar de complexo. Quanto à filosofia, admiro-te a paciência se ela for acompanhada de paixão, para suplantar a linguagem onde tantas vezes se esconde uma nudez com a qualidade da alvorada. Só com algum empanho se consegue fazer depois, esse jogo fluido com "linhas de fuga", "corte e recorte", "desterritorialização e reterritorialização".

De qualquer modo quanto a mim, a filosofia é como a manteiga ou um condimento. Se for demais, enjoa!

A propósito:

Conheces algum livro de Deleuze sobre imagem, cinema, fotografia? Creio que tem alguma coisa sobre cinema…

Joana

Dioniso disse...

Sobre cinema: Cinema1: L'Image-mouvement (1983); e Cinema2: L'Image-Tamps (1985).

Dioniso disse...

Creio que seria importante referir a tese fundamental do "encontro": "encontro é encontrar uma ideia". Com isto, o aparente relativismo niilista transmuta-se num critério de selecção (só há encontro quando encontro uma ideia), ainda que seja (que tenha de ser em Deleuze) um critério de selecção aberto porque a qualidade das ideias não está pré-definido.

Bons filosofemas!

Joe disse...

O livro "O que é a Filosofia" foi o primeiro que li do Deleuze e Guattari. É uma obra admirável. E quanto esse capítulo final "Do Caos ao Cérebro", é de facto um texto maravilhoso e iluminante. Eles distinguem arte, filosofia e ciência em contraponto com a vulgar "opinião". A opinião é precisamente essa imagem da sobrinha segura e abrigada do caos. A arte, a filosofia e a ciência exigem mais e traçam planos sobre o caos.
Do caos, o filósofo traz variações, o cientista retira variáveis e o artista traz variedades.

Quanto é ideia de encontro de Deleuze, penso que ela encontra a sua expressão mais fiel naquilo que hoje em dia chamamos de Internet. Estes "encontros com as ideias" não é precisamente o que fazemos aqui, neste ambiente puramente ideal, rizomático, caótico, múltiplo onde nos cruzamos por motivos vários, onde os encontros entre pessoas em torno de ideias se sucedem em infinito?

A internet é tudo aquilo com que Deleuze e Platão sonharam: Um mundo platónico.