terça-feira, 15 de abril de 2008

Sobredotados, a Maria e Aldous Huxley

Na semana passada, no dia 9 de Abril, eu e alguns colegas organizámos o seminário ibérico de sobredotação - diferentes olhares na Universidade Fernando Pessoa. Estiveram lá a Doutora Carmén Pomar, e o Doutor Francisco Reyes Cora e a Doutora Ema Oliveira, especialistas em Sobredotação. Eu e meus colegas também participámos numa das mesas, onde apresentei com o meu colega Carlos Marques um estudo de caso. Carlos falou na situação da "Maria", rapariga de 13 anos, sobredotada, com um QI de 149, cujo pai é trolha em Espanha e a mãe é vendedor part-time. Para lá das apresentações mais teóricas, nossa participação suscitou um interesse acrescido por se tratar de um caso pessoal e não de sobredotados em abstracto. Falei no fim, onde apresentei reflexões algo políticas que fizemos acerca deste caso. Para esse momento propus colocarmos no fim uma passagem de um livro de Aldous Huxley de 1927: "Sobre a Democracia e outros Estudos":

"A nossa política educacional baseia-se em duas enormes falácias. A primeira é a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias autónomas, cujos números podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas ideias. A segunda falácia, é que, todas as mentes são semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educação são sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos métodos, para dentro de mentes radicalmente diferentes.
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio."

No fim de ler esta passagem, salientei a data, 1927, e acrescentei por fim que, ou Huxley era um visionário ou que havia problemas muito antigos. No público houve alguns indivíduos que se denominavam professores, que ficaram bastante irritados com a nossa Maria, com o Huxley e com 1927 e fizeram irritadas insinuações e perguntas confusas. Fiquei todo contente, por sentir ter criado aquela agitação. Até àquele momento, o público tinha estado muito sereno e manso.

De facto, este livro de Huxley é fantástico. Fala sobre a Democracia e critica-a de uma forma tão aberta e tão livre, coisa que hoje não estamos habituados a fazer hoje em dia em que o conceito de democracia foi sacro-santificado. Jacques Ranciére é um dos autores referência actuais sobre o tema da democracia. Mas o conhecido livro dele, "Ódio à Democracia", nunca o cheguei a acabar: Foi nessa altura que, por tuta e meia comprei este excelente livro de Aldous Huxley e esqueci Ranciére. Ele fala em democracia, educação, psicologia de uma forma clara e com aquele estilo apelativo e agradável próprio de Huxley, tal como a sua restante obra revela em livros como "Admirável Mundo Novo", ou "As portas da percepção". Recomendo!

3 comentários:

ronas disse...

Sem esquecer "Ponto Contra Ponto", menos conhecido que "Admirável...", mas pra mim um dos melhores romences de todos os tempos....

Joe disse...

Eu comecei a ler Ponto Contra Ponto mas parei a meio. Ainda hei-de voltar a pegar nele

Sónia disse...

Engraçado retomar este livro aqui: foi o primeiro ensaio filosófico que li na vida e teve o seu impacto numa adolescente ;-)

Parabéns pelo blog, um bom aperitivo de referências.