terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cristiano Ronaldo e a Sociedade do Espectáculo de Débord; Pasolini e o futebol como poesia


Eleito Cristiano Ronaldo o melhor jogador de futebol do mundo, seguem-se as "reacções" produzidas pelos jornalistas, para fazer render mais-valias da produção deste espectáculo. Questionam-se figuras celebridades e políticos que dizem muito bem, que é merecido e desejam tudo de bom. Que mais hão-de dizer? Cristiano Ronaldo, face ao seu apagamento futebolístico que dura há uns bons meses, tem vindo a suplicar aos deuses este prémio, tal compensação fálica de uma insatisfação narcísica. O pior para Ronaldo é que agora é mais difícil jogar com o peso de um tal falo e o receber do prémio não vale mais do que um orgasmo fugidio, perpetuando-se a insatisfação.

O que me ressalta de toda estes cerimoniais e rituais à volta deste prémio, é a profunda incompatibilidade do Ronaldo figura pública com o Ronaldo futebolista. Ronaldo é retirado do seu habitat natural, o relvado e a bola, suada e sangrenta, sendo obrigado a vestir fato e gravata, e a produzir discurso, coisa para a qual não é manifestamente talentoso. Ronaldo é obrigado sob a ditadura da celebridade, a dizer as coisas certas nos momentos certos, e a vestir-se sob determinado código, tal o preço da fama. Assistir a Ronaldo alinhar-se em determinados códigos da fala, que dizem que não podemos dizer abertamente que somos os melhores e os maiores (precisamente quando o somos), obrigando-nos a fazer o neurótico movimento de negação pública da sua superioridade fálica privada para se sacrificar ao princípio da realidade, é assisitir ao ritual da sua própria castração.

Ronaldo, o teu prémio já o ganhaste há muito nos relvados, e quem o deu foram os berros dos ingleses de sábado à tarde que gritam "Rohnaaaldoh" todos os fins de semana a cada golo teu. Não tentes dominar um código que não é o teu, por muito que te estimulem a isso.
Guy Debord já avisava que o mundo moderno haveria de expulsar toda a vivência humana para o mundo da representação. Assim também o futebol vive esse perigo de ver a sua espontaneidade e imediatez serem transmutadas em título e notícia vendível. E as belas capacidades e potências corporais atléticas e estéticas de Ronaldo, vão sendo vilipendeadas e atraiçoadas pelos discursos daqueles que Deleuze chamaria de "agentes de sobrecodificação": jornalistas, burocratas e políticos que se associam e transformam Ronaldo numa marca e numa outra coisa qualquer que não aquilo que é. Ronaldo, através deste prémio, passa a ser a figura que simboliza o espírito de sucesso de uma determinada ideologia de competição competitiva capitalista, ou a figura do sucesso Darwinista do melhor sobre os mais fracos, ou até a figura do elemento destacado do resto da equipa, qual burguesia que se aproveita do trabalho colectivo e das mais-valias de toda uma equipa de mais de 10 jogadores.

Agamben reportando-se Débord diz-nos que "é na figura deste mundo separado e organizado através dos media, em que as formas do Estado e da economia se penetram mutuamente, que a economia mercantil acede a um estatuto de soberania absoluta e irresponsável sobre toda a vida social. Depois de a ter falsificado a totalidade da produção, ela pode agora manipular a percepção colectiva e apoderar-se da memória e da comunicação social para transformá-las numa única mercadoria espectacular, em que tudo pode ser posto em questão, excepto o próprio espectáculo, que, em si, nada mais diz do que isto: "o que aparece é bom, o que é bom aparece"

O futebol e os jogadores de futebol como Cristiano Ronaldo devem resistir a estas tentativas de subverter o código do futebol por um outro código que é o código do marketing capitalista.
O futebol deve sim ser respeitado no seu próprio código. Sim, o futebol tem o seu próprio código que é o de uma comunicação não-verbal, sendo que o futebol de Cristiano Ronaldo é mais bem expresso numa linguagem poética, mais próxima da imediatez e espontaneidade dos ritmos do corpo e das emoções do futebol. Mas nisto não sou muito original: o cineasta Pasolini já em tempos definiu o futebol como linguagem própria, sendo que o jornalismo uma sub-código da língua que estaria muito aquém de conseguir traduzir o fenómeno futebolístico. Após a final do Campeonato do Mundo de 1970, em que o Brasil ganhou à Itália, Pasolini dizia que o futebol poético brasileiro havia ganho à prosa estilizante italiana:

"Justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos do golo. Cada golo é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada golo é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [jogador do Bolonha, do Nápoles e da selecção italiana] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais golos é o mais poético. [Tal como Ronaldo]

O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a acção do golo). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [1922-92, um dos principais nomes do cinema cômico italiano] nos "Mágicos da Bola", o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser perfeitamente onírico).

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia -e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo colectivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e golo; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o golo é confiado à conclusão, possivelmente por um "poeta realista" como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo colectivo, fundado por uma série de passagens "geométricas", executadas segundo as regras do código (...)

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é snobada em nome da "prosa coletiva"): nele, o golo pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o golo são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. (...)

Destas reflexões de Pasolini acrescentar-se-ia que o nível literário do futebol português subiu bastante desde os anos 70 até hoje, e que a maneira com que Pasolini fala do futebol brasileiro aplica-se também ao futebol português, muito embora Portugal também é uma espécie de síntese hegeliana entre o futebol europeu e o sul-americano, na medida em que é mais táctico do que sul-americano, mas mais latino e criativo que o restante futebol europeu. Assim, o futebol de Portugal seria uma espécie de poesia clássica, de estrutura e canônes rígidos, sendo que o brasil seria um tipo de poesia neo-romântica, mais liberta de regras e estruturas, menos "racional". Só assim então, por uma questão linguística, Ronaldo se pôde afirmar no meio do pragmatismo e utilitarismo inglês.

2 comentários:

ronin disse...

Lembrando que este ano não há brasileiros no topo dessa tal eleição, não entre os homens, já que Marta foi considerada a melhor do "mundo" pela terceira vez consecutiva.
Mas esse futebol brasileiro que você narrou com maestria se perdeu no tempo, na distância da feijoada, na globalização - céus!, na clichecização deste que vos "fala."
Aquele esporte de 1970, de Pasolini e Pelé, não existe mais... os campeonatos das equipes de base são formados por semi-profissionais cujo desejo é driblar todos os adversários e atingir a Ferrari dos Ronaldos. Enfim, mais uma conversa longa. Nessa caso, perdida na distância. Abraço.

alexandra disse...

adoro a imagem da capa do livre: espectáculo e todos aqueles homenzinhos com os seus «spectacles»