domingo, 23 de novembro de 2008

Futebol, Nacão, Einstein e Freud



Hoje, venho aqui falar de futebol, reagindo tardia, mas não menos oportunamente, à estrondosa derrota de Portugal com o Brasil. Tamanha derrota suscitou as mais variadas reacções nos portugueses, pelo que pude observar.

Por um lado, perder por 6-2 é mau. Mas perder com o Brasil é pior. Isto porque o que está em jogo é o chamado orgulho nacionalista. Descontruindo este sentimento de nacionalidade em perigo, no fundo, os brasileiros são tão parecidos connosco que ameaçam a nossa identidade. Quando vemos jogadores como Deco e Pepe a serem tão portugueses como os outros, a cantarem igualmente o hino, a portugalidade está em perigo.

O mesmo raciocínio que Bauman fez em relação aos judeus na Alemanha, pode ser aplicado aqui: os brasileiros naturalizados portugueses não podem ser brasileiros, nem podem ser efectivamente portugueses, por muito que se esforcem. O esforço só denuncia, aliás, o carácter artifical da nação, tornando-os indesejáveis. Vivem em situação de ambivalência. Não podemos chamar-lhes nem amigos, nem inimigos. São os estranhos. Resistem à categorização, minando então as nossas próprias categorias e identidade.

A partir daí, os jogos com o Brasil têm mais importância. No fundo, tudo é uma questão de superioridade e de inferioridade. Trata-se do poder de definir os outros como amigos e inimigos, de se ultrapassar os outros como estranhos, para se poder estabelecer uma troca simbólica. As nações não têm outro sentido que não esse.

Por estas alturas, há também intelectuais que esperam que, no fundo, os portugueses deixem de ligar tanto à bola, argumentando que esse é um tipo de patrotismo menor. Dizem que os portugueses deviam orgulhar-se de outros feitos mais científicos, culturais e artísticos.

Contudo, um tipo de identificação patriótica desse tipo, por muito louvável que seja, não poderá, talvez, ser comparável ao lado mais corporal, competitivo, catártico e selvagem (porque não) que o futebol coloca em jogo. O futebol tem um elemento de tragédia e glória que não é possível menosprezar.

Tal como os desportos em geral, o futebol contém em si o que se poderia chamar lei da vitória, em que é posta em jogo uma luta pela supremacia de uns povos sobre outros. Os nacionalismos, na sua essência mais histórica, podem traduzir-se como uma luta de poderes. Ao constituir-se como grupo homogéneo, é-o na defesa de uma identidade perante outros grupos.

O nacionalismo surgido como necessidade de união perante um mundo hostil é mais forte quando uma nação se sente ameaçada. Tal como um ego é tanto mais egoísta quanto mais se sente ameaçado no seu orgulho e auto-estima.

Se dantes a guerra era o momento em que se poderia ver uma nação realmente unida por uma rede de identificações comuns, que depois experimenta vitórias ou derrotas,
o desporto é dos poucos fenómenos em que se conserva intacta esta lei da vitória. Há uma troca simbólica profunda entre os povos, quando se trata de ver países jogar uns contra os outros.

O advento do desporto moderno não se pode dissociar do advento do estado de direito moderno, que trocou o conflito físico e violento entre os homens, por um confronto regido por leis, o que se pode chamar jogo, e que está na base de qualquer processo civilizacional. O estado de direito não elimina a violência, pois é a violência que suporta esse mesmo estado de direito gerido por leis, em que a violência é neste caso aplicada a quem não respeita as mesmas leis.

O futebol é, em síntese, o retrato perfeito daquilo que é o estado moderno, com o interesse extra de ser ainda possível ver em cena um confronto físico vivo, levando isto à catarse colectiva que todos conhecemos.

Trata-se aqui no fundo de sublimar uma pulsão de morte do ser humano, que se tem demonstrado ao longo da história por intermédio de uma luta de poderes intensa.
Será que podemos, como seres humanos, algum dia ultrapassar este "instinto de competição", necessidade de domínio e poder a que Freud chamou de pulsão de morte?

Sobre isto recomendo a leitura de uma carta fabulosa que Einstein escreveu a Freud, perguntando o seguinte:

"Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de o solucionar terminaram em lamentável fracasso.
"

A restante carta de Einstein, reveladora de um humanismo ímpar por parte do cientista, complexifica já a questão de uma forma bastante interessante. Freud, por sua vez, respondeu à letra num documento fantástico, adiantando a certa altura o seguinte:

"permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. (...) É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. (...) A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade."

Assim sendo, a violência torna-se lei, e o processo de civilização não tem outro sentido que o aprofundar da constrição, controlo e educação do nosso corpo sob determinadas formas de gerir o corpo definidas pela sociedade. Comer com as mãos por exemplo não é "civilizado", comer com o auxílio de um instrumento, pelas leis que a comunidade instituíram, já é civilizado. Somos tão mais civilizados quanto mais refinado e obsessivo for o controlo social que exercemos sobre os nossos corpos. Em termos de violência, tudo continua igual, há somente, no máximo, um deslocamento desta violência fundadora da civilização do confronto físico, para o confronto de opinião, de interesse, de lei.

O futebol é paradigma da civilização ocidental moderna na forma como educa, constringe e controla os corpos de uma forma planeada, científica e controlada, preparando-os para a competição entre equipas/comunidades, sendo o jogo de futebol um sistema de confrontos violentos regidos por leis. No futebol, a violência não deixa de existir, mas somente ela pode aí assumir uma forma adequada. O futebol jogado pelo respeito máximo pelas leis pode chegar então a ser um acto moral. Como disse Deleuze em referência a Kant, "a lei define-se (...) como pura forma de universalidade. Ela não nos diz qual o objecto da que a vontade deve perseguir para ser boa, mas qual a forma que deve tomar para ser moral."

3 comentários:

Victor Afonso disse...

Boa dissertação.

Dioniso disse...

Belo ensaio sobre a sublimação dos corpos violentos. Talvez Freud preferisse a sublimação pela arte, mas agora que estamos menos subtis o futebol é um bom meio de controlo sem sufocar os nossos instintos mais assassinos.

Joe disse...

Obrigado Victor e Dioniso. Ainda voltarei a seguir este fio