quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Testemunhas de Jeová, Comunismo e Jesus

No fim de uma noite animada do último Sábado à noite, à hora de ir embora, comecei a produzir estranhos discursos políticos e religiosos de uma forma emocionada, quase cantada. Acaba por ser normal, nestas alturas. Há quem chore, há quem rie, há quem comece aos murros e pontapés, a mim dá-me para isto.

Desta vez, quem estava comigo não estava a achar muita piada. Andava eu a dizer entre outras coisas, que havia uma passagem do novo testamento que mostrava o lado mais marxista de Jesus, que é quando, ao contrário da imagem normal do homem sempre calmo e misericordioso, Jesus enraivecido expulsa os mercadores do templo. Ninguém me ligou nenhuma e isto ficou por ali.

Hoje, vieram a minha casa umas senhoras, testemunhas de Jeová e estive então a conversar com elas. Sempre gostei muito de falar com testemunhas de Jeová. Se, quando era adolescente o fazia por motivos muito basicamente anti-clericais, hoje em dia gosto de falar com eles pelo que eles têm de parecido comigo.

Começaram a falar do estado actual do mundo, onde todos são interesseiros, egoístas, manipuladores, mentirosos, mesquinhos e gananciosos, onde tudo se compra e vende desmesuradamente. Diziam que isto correspondia ao que na bíblia se chama de "últimos dias", fase que antecede o "reino de cristo".

Na minha visão marxista das coisas, isto soa-me bem: substituímos apenas "últimos dias" por "capitalismo" e "reino de cristo" por "comunismo".
Disse-lhes que me revia no que me estavam a dizer, que tinha uma religião que até era parecida, e que se chamava "comunismo".

Fiquei surpreendido por ver as senhoras concordarem comigo, e até acrescentarem que Jesus era "comunista". Tentaram fazer outras pontes. Diziam que a Igreja Católica era um negócio ostensivo e falaram nas cestinhas que passam na missa. Com eles, o dinheiro é recolhido de uma forma mais discreta, por intermédio de uma caixa de donativos, dando as pessoas dinheiro por vontade e não por ostentação.

Eu disse que no meu partido, as pessoas não recebem dinheiro por colar cartazes, ao contrário de outros partidos. Concluímos então, eu e as senhoras, que o verdadeiro conhecimento, aquilo em que acreditamos, não devia nunca ser vendido, mas sim dado e partilhado. Então lembrei-me e falei-lhes dessa passagem da bíblia em que Jesus fica zangado, e nem me deixaram acabar exclamando as duas em uníssono: "a parábola dos mercadores do templo!". Rapidamente elas citaram a bíblia direitinho:

"Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes." (Jo 2:15 a 16) (...) Minha casa é uma casa de oração , mas vós fizestes dela um covil de ladrões! (Mt 21:13)

Sim, também o planeta Terra é um lugar maravilhoso para morar, mas o capitalismo fez dela um covil de ladrões. Que venha o "Julgamento Final" ou "Revolução", chamem-lhe o que quiserem.

Um comentário:

Dioniso disse...

Caro colega, não sei se o posso tratar assim, mas arrisco, é absolutamente necessário pensarmos profundamente a ideia de justiça social, sustentada sempre numa distribuição mais equitativa da riqueza do que aquela que as sociais-democracias acabaram por alcançar.

Mas a complexidade do humano, do humano no mundo, neste irredutível jogo de relações, aspirações, conspirações, criações, libertações... deve resistir a tentativas de políticas comparadas como aquela que acabou de realizar (Paulo - Marx).

Perceba-me, ela é válida enquanto experimento intelectual, procura de sentido nas margens da normalidade (sabe bem como Deleuze buscou isso na literatura: Proust e a homossexualidade; Masoch e o masoquismo; Kafka e a burocracia; Klossowiski e a perversidade), mas em política o experimento é muito perigoso, a política não serve para governar o "Mundo da Ideias", ela deve estar ao serviço do humano, demasiado humano, isto é, do homem imperfeito que precisa de comer e de um cabaz de objectos supérfluos que o insiram socialmente.