terça-feira, 1 de setembro de 2009

Para uma Psicologia Social do Voto e da Abstenção

Ferdinand Lindner, An Electoral Philistine – The Doubtful Voter (c. 1890)


Vivemos um momento muito particular da nossa curta vida democrática: se tomarmos em consideração aquilo que foram os resultados das eleições europeias e ainda (mas com desconto) as várias sondagens que por aí pululam, nenhum dos dois partidos que tem habitualmente governado o país (PS-PSD) mostra grandes chances de obter uma maioria absoluta. Aquilo que é opinião de toda a gente, e que se ouve da boca de todos é o seguinte: os políticos são corruptos, mentirosos e oportunistas que só querem um tacho. A abstenção sempre foi até hoje, o maior representante deste descontentamento. São estes, no entanto, que paradoxalmente têm legitimado os governos falsamente maioritários que temos tido. Digo falsamente maioritários pois, segundo as contas que já aqui fiz uma vez, se a abstenção fosse considerada quando são apresentados os resultados das eleições, facilmente se perceberia que nunca tivemos um governo da preferência da maioria dos cidadãos. Nas últimas legislativas por exemplo, o PS não teve o voto de 45% dos cidadãos, mas sim de 28,93% do total de eleitores. Assim, chegamos ao seguinte paradoxo: abster-se de votar apenas legitima os governos desprezados precisamente por aqueles que não votam.

Isto leva-me ao ponto seguinte: um dos grandes falhanços das democracias é o facto de o ódio e o descontentamento político ser politicamente irrepresentável. Um exemplo perfeito disto são as eleições no Reino Unido de 2005: Tony Blair era segundo todas as sondagens, o homem mais impopular do Reino Unido. No entanto, este ódio não se reflectiu nos votos, na medida em que Tony Blair acabou por ganhar as eleições.

Por muito que os portugueses queiram dizer mal e mostrar o seu repúdio,quer através de votos nulos, brancos ou abstenção, na forma como funcionam a democracia quem está descontente com os governos PS/PSD/CDS-PP não se pode dar ao luxo de não votar pois, como já vimos, está apenas a reforçar o actual estado de coisas e a ajudar a manter os partidos no governo que tanto detesta.

Assim, face a esta conjuntura, e na tentativa de canalizar todo este ódio e desprezo, muitos optam pelo chamado "voto de protesto" e o "voto útil", que levanta um outro tipo de problemas: Um ponto fulcral da análise do processo de eleição é: todos votam condicionados pela representação que fazem dos "outros". Não é estranho que toda a gente diga mal dos partidos do poder (PS e PSD), mas que não vote noutros por considerar que não podem chegar a ser poder (por causa dos outros). O voto útil nada mais é do que "se eles votam assim, então terei necessidade de votar de determinada maneira". Temos também o "eu voto no BE porque sei que não vai ganhar". Há também o "não vou votar no partido x, pois não precisa do meu voto para ganhar". E assim se vai, sondagem a opinião, desvirtuando o real querer de um povo. E é assim que, PS e PSD são os partidos mais detestados dos portugueses, apesar de serem estes os mais votados.

No entanto, não são só os eleitores que participam politicamente neste paradoxo. Também os partidos do poder, curiosamente, se alimentam do próprio ódio ao poder. Basta pensar no Sócrates que diz assim: "só pode haver um primeiro ministro: se não querem seja a Ferreira Leite votem em mim". Já a Ferreira Leite diz: "se não gostam do Sócrates votem em mim."

A democracia nestes termos, funciona de forma perversa: o cidadão vota de acordo com uma representação social de um povo que, por sua vez, é construída por cidadãos que votam consoante o que os outros votam; os partidos do poder fazem política adaptando-se a essa ilusória representação social, que na verdade não é ilusória na medida em que todos participam dela. Zizek sobre isto dá o exemplo do Natal: os pais alimentam o mito do Pai Natal para que as crianças não percam a fantasia. As crianças sabem que o Pai Natal não existe, que são os pais que compram as prendas mas participam nessa ilusão de forma a não desiludir os pais. Assim, ninguém acredita verdadeiramente no Natal, muito embora toda a gente participe da mesma ilusão.

Para se compreender melhor este paradoxo, faço aqui alusão a uma experiência paradigmática da Psicologia Social. Nesta experiência de Solomon Asch de 1951, 8 sujeitos foram colocados diante de um quadro com varias cartolinas. Cada cartolina continha do lado esquerdo um linha vertical (figura de base) e à direita três linhas verticais de comprimentos diferentes, numeradas de 1 a 3, uma das quais representava a linha de base.

No grupo experimental, apenas um dos sujeitos é o verdadeiro sujeito experimental, e por isso é o sujeito ingénuo, enquanto os restantes 7, são comparsas do experimentador. Cada um dos sujeitos dá a avaliação em voz alta, sendo que os comparsas dão doze respostas erradas em dezoito ensaios experimentais. Estes respondem antes do sujeito. Deste modo, o sujeito ingénuo encontra-se numa posição minoritária e, apesar de não existir qualquer tipo de pressão explícita por parte do grupo, este chega a cometer erros que atingem os 5 cm. 75% dos sujeitos conformaram-se à opinião errada da maioria, pelo menos uma vez.

É claro que nem todos os indivíduos são influenciados por este efeito de conformismo. Uma das explicações possíveis para indivíduos que não cedem à opinião da maioria é a de que estes indivíduos são mais seguros, não necessitando do apoio do grupo. Outro aspecto que também contribui para minorar o efeito do conformismo é o seguinte: basta a presença de um dissidente no grupo para baixar drasticamente o nível de conformidade de 32% para 6% das tentativas. Sobre este último aspecto, Moscovici fez importantes variações da experiência de Asch precisamente acerca da influência da minoria sobre a maioria. Assim, na experiência de Moscovici, em vez de um único sujeito no meio de um grupo de cúmplices, os investigadores decidiram colocar quatro sujeitos num grupo com mais dois cúmplices (que davam sempre respostas incorrectas. Assim, os participantes cúmplices estavam em minoria. Os resultados mostraram que a minoria era capaz de influenciar cerca de 32% dos sujeitos a darem pelo menos uma resposta incorrecta.

Há consequências deste estudo que podem ser aproveitados do ponto de vista político. Para já, o "voto útil", parece encaixar perfeitamente num efeito de conformismo, visto na experiência de Asch. Já a experiência de Moscovici demonstra, quanto a mim, o quão são importantes os movimentos políticos minoritários, na medida em que possibilitam aos sujeitos que não comungam da opinião da maioria, um cúmplice que facilita uma expressão dessa mesma opinião divergente. Assim, é extremamente saudável termos partidos pequenos que possibilitam a expressão de uma opinião divergente da maioria, possibilitando a inovação e progresso social, para lá dos blocos bipolares partidários, que estimulam o conformismo.

Assim, para concluir deixo a seguinte recomendação: há que votar, não por ódio, nem por "utilidade", mas sim votar-se no partido que, no conjunto das suas propostas, nos identificamos individualmente, sem fazer calculismos nem olhar a sondagens. Há que votar, não no partido que vai fazer melhor oposição (mesmo que provavelmente seja esse o caso), mas sim no partido que consideramos que faria o melhor governo (ou o menos mau). Em suma, há que votar honestamente e de forma positiva, e não em nome de um medo de instabilidade ou por oposição a outro partido qualquer.

(Já agora, se há indecisos quanto a esta matéria, e que não queiram ler os espessos programas dos partidos, aconselho a seguinte bússola eleitoral. Basta responder a algumas perguntas, e ser-lhe-á apresentado o partido que mais se ajusta às suas opiniões políticas nas várias áreas. Não é perfeito, devido a algumas ligeiras imprecisões na forma ambígua como são colocadas determinadas perguntas, mas é um questionário bastante interessante. Podem acontecer surpresas! No meu caso pessoal, o meu partido de sempre é o PCP, muito embora admita que o programa eleitoral do BE para estas legislativas me surpreendeu positivamente. No entanto, inesperadamente ou talvez não, o partido que segundo esta bússola eleitoral mais se ajusta às minhas respostas é o... PCTP-MRPP!)

2 comentários:

Miguel Lopes disse...

Sem surpresas, a bússola deu-me o Bloco de Esquerda. Deve ter sido por causa das questões sobre a União Europeia (esse projecto ambicioso mas blindado ao neoliberalismo), porque de resto, os programas do PCP e do BE não são muito distintos.
Aproveito para agradecer Lou Reed e John Cale do outro postal sobre música para escrever. Serve de inspiração até esse acidente catalisador, que poderá muito bem ser uma queda do terceiro andar =P

Abraço

José Magalhães disse...

Sobre a União Europeia, ninguém duvida de que tem sido um projecto neoliberalizante até à data. No entanto, não sou contra a União Europeia em si, mas sim contra ESTA União Europeia. Sou daqueles idealistas que acredita que a Europa é o único espaço possível (mais do que a América Latina) onde se pode afirmar um espaço comunitário alargado de esquerda, pois considero a Europa como o espaço mundial mais politicamente e culturalmente avançado deste mundo. No entanto, claro que uma Europa de Esquerda não se faz através das quotas de produção, da produção de normas comunitárias acerca do tamanho dos melões e das maçâs e com moeda única. Faz-se com a defesa comunitária dos direitos dos trabalhadores, com a intransigência perante importações chinesas que pagam mal aos seus empregados, com a afirmação de sindicatos europeus, etc. E acredito sinceramente que a União Europeia pode mudar. Basta que os Europeus votem bem nas Europeias, que é a única réstia de democracia que a UE tem.

Já agora, obrigado pelo teu comentário, e que Lou Reed e John Cale te continuem a inspirar!