quinta-feira, 20 de maio de 2010

SMS, 19 de Maio

Para: Professor Milton Madeira

Professor, escrevi um longo requerimento suportado nas leis e no regulamento da universidade, argumentando do ponto de vista científico a inadequação das objecções do júri à luz dos critérios de avaliação definidos. Contudo, após reflexão ponderada, decidi não enviar o requerimento. Abraço

Requerimento 18 de Maio

No dia 17 de Maio teve lugar a discussão e defesa da dissertação de mestrado "FILHOS DO DRAGÃO: CRENÇAS E EXPECTATIVAS INTERSUBJECTIVAS DE PAIS RELATIVAMENTE À PRÁTICA DE FUTEBOL DOS FILHOS NA ESCOLA DE FUTEBOL DRAGON FORCE DO FUTEBOL CLUBE DO PORTO",apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa, como parte integrante dos requisitos para a obtenção do grau de Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde.
O Júri, constituído pelo Professor Daniel Seabra, Professor Manuel Sérgio, e o Professor Milton Madeira (respectivamente, presidente, arguente e orientador), deliberou a aprovação da referida dissertação com a classificação de 15 valores.
Tendo em conta a classificação obtida e a forma como decorreu a discussão pública, venho por este meio requerer, de acordo com o artigo 19º do regulamento pedagógico da Universidade Fernando Pessoa, um Processo de Recurso de Classificação. Apesar de considerar que este pedido será, eventualmente, pouco habitual no caso de uma classificação referente a uma dissertação de mestrado, o referido artigo 19º não faz qualquer menção a esta unidade curricular em particular, não tendo encontrado qualquer referência no regulamento que proíba ou impeça esta possibilidade. Assim, cabe-me igualmente, de acordo com o artigo 19º, fundamentar devidamente este pedido de recurso. Assim, quero antes de mais esclarecer que este pedido não se prende com a qualidade do juri nomeado.
O Professor Manuel Sérgio é, sem dúvida, uma referência inigualável e de mérito reconhecido na área da Filosofia e Epistemologia do Desporto e da Motricidade Humana.Considero igualmente o Professor Daniel Seabra um grande autor de referência na àrea da Antropologia do Desporto, tendo eu próprio inclusivamente citado o seu importante trabalho na referida dissertação.Por último, tenho o professor Milton Madeira na mais alta estima, que muito me tem apoiado e ajudado com a sua sabedoria e experiência, quer como professor, quer como orientador de estágio e de dissertação.
Este pedido prende-se exclusivamente com determinadas objecções e discordâncias de cariz científico, que passo a explicar. As maiores objecções colocadas durante a defesa da dissertação foram, em primeiro lugar, a escolha do uso de metodologia quantitativa, quer da parte do arguente Manuel Sérgio, quer da parte do professor Daniel Seabra.
Esta dissertação recorre a metodologia quantitativa, tendo sido formulado um questionário próprio para avaliar crenças e expectativas de pais relativamente à prática de futebol dos seus filhos. Considero legítimo haver preferências pessoais dos investigadores quanto ao uso de um ou outro tipo de metodologias. Aliás, acrescente-se que eu próprio não tenho um especial apreço pelo uso de metodologia quantitativa, muito embora ao longo do meu percurso académico haver constatado que a metodologia quantitativa é a metodologia de investigação mais comunmente utilizada na àrea da Psicologia, sendo pouco comum em Portugal e na nossa universidade em particular o uso de metodologia qualitativa nesta àrea. Se escolhi utilizar metodologia quantitativa, deve-se ao facto de haverem diversos estudos quantitativos sobre esta mesma temática, muito embora alguns apontem para um desfasamento entre o que os pais afirmam e os seus comportamentos concretos (este mesmo capítulo onde são referidos vários destes estudos quantitativos, curiosamente foi elogiado pelo professor Daniel Seabra). Para suprir esta lacuna, contruí um instrumento de raíz utilizando metodologia inovadora nesta àrea, de análise da intersubjectivdade, com resultados que considero bastante interessantes.
No entanto, aquando da defesa não houve qualquer referência à parte prática desta dissertação, aos seus resultados e conclusões, tendo ao contrário sido criticado o uso de metodologia quantitativa em si, quer por parte do professor Daniel Seabra, quer por parte do professor Manuel Sérgio. Não foi explicado em que medida é que esta opção se ajusta ou não ao objecto de estudo em causa neste caso. O Professor Arguente, Manuel Sérgio, teceu longas considerações pessoais e gerais acerca do desporto, considerações estas que ouvi  tentamente dada a sua grande experiência acumulada ao longo de muitos anos, e que muito me agradou ouvir. Após vários minutos de considerações, o arguente criticou de forma geral o uso de metodologia quantitativa e, finalmente referindo-se à dissertação em causa formulou a seguinte questão que não soube responder: "Você percebe alguma coisa de epistemologia?", ao que respondi tentei responder respeitosamente que não saberia certamente tanto quanto o professor Manuel Sérgio. De seguida perguntou-me o que era um corte epistemológico e, assim que inicei a minha resposta fui interrompido pelo professor, continuando este a fazer comentários acerca do desporto e filosofia, bastante interessantes aliás, mas nunca fazendo referências específicas à dissertação em causa.
 Sua última questão foi "Quem é o pai da Epistemologia?". Sendo difícil para mim responder, na medida em que considero haver muitos epistemólogos importantes e de referência, não sabendo escolher somente um, referi dois nomes, Thomas Kuhn e Bachelard. Com esta resposta, o professor começou a tecer elogios a Bachelard e a discorrer comentários vários que, repito, apesar de muito interessantes, nunca se referiu em específico à tese, exceptuando o facto de ter elogiado o uso da obra de Karl Marx na dissertação. Passado bastante tempo, o professor deu por terminada a sua intervenção e não tive mais oportunidades de interpelar o arguente.
Em seguida, o professor Daniel Seabra fez o seu comentário, elogiando alguns capítulos da dissertação mas criticando o facto de, como já foi referido, ter usado metodologia quantitativa. Depois criticou também em particular um capítulo (Futebol, Totemismo e Religião), classificando-o de "delírio especulativo", na medida em que, segundo este, usei uma obra de Sigmund Freud, "Totem e Tabu", que este classificou como ultrapassada, sugerindo vários antropólogos modernos que descartam a visão de Freud. Desconhecendo eu os antropólogos referidos, na medida que estou naturalmente inclinado a usar autores de referência da àrea da Psicologia (como Freud), tendo contudo suportado esta interpretação na obra de outros dois autores, o antropólogo Desmond Morris e o ensaísta Àlvaro Magalhães que, na sua obra sobre futebol, fundamenta-se em vários autores da antropologia. Assim, perante a qualificação de "delírio especulativo", respondi respeitosamente que realmente se tratava de uma hipótese especulativa, decorrente de se tratar da parte teórica onde são lançadas várias hipóteses de interpretação, não fazendo qualquer menção ao qualificativo de "delírio", que não me ocorreu como poderia contrariar em termos científicos.
Por fim o professor Milton Madeira teceu também algumas considerações, elogiando o trabalho em geral, tendo sido o único elemento do juri que colocou comentou e colocou questões acerca da parte prática do trabalho. Assim, foi com grande surpresa que pude constatar a nota final de 15 valores, quando é da minha mais profunda convicção que o trabalho merecia uma melhor avaliação, e que vários dos seus aspectos de qualidade e inovadores não foram devidamente valorizados, tais como a parte prática, por preferências pessoais da maioria dos elementos do júri relativamente ao uso de uma determinada metodologia e, por outro lado, o uso de uma obra de um determinado autor (Totem e Tabu de Sigmund Freud, que considero, acreditando não ser o único, umas das obras-primas de Freud). É também de referir que achei algo paradoxal o facto de, no final, o professor Manuel Sérgio ter tecido grandes elogios, considerando-me um "jovem promissor de grande futuro", e que deveria "publicar o trabalho", achando este elogio estranhamente incompatível com a nota final. As preferências pessoais em relação a metodologias e autores são, repito, legítimas. Contudo, consultando os critérios do regulamento pedagógico da Universidade Fernando Pessoa, constato que, quer a escolha do uso de um autor como Freud, quer a opção pelo uso de metodologia quantitativa, nunca poderão ter um peso muito grande dentro dos critérios de avaliação definidos para uma dissertação de Mestrado. A saber:

1. Respeito das normas de edição
2. Qualidade gráfica do relatório escrito
3. Clareza do relatório escrito
4. Validade do tema
5. Complexidade e qualidade da pesquisa bibliográfica
6. Estrutura da monografia
7. Profundidade da análise e desenvolvimento do trabalho
8. Originalidade
9. Metodologia científica
10. Aplicação de conceitos apreendidos ao longo da licenciatura.
11. Interpretação dos resultados
12. Relação das conclusões com o problema investigado
13. Parecer:
14. Clareza da apresentação
15. Qualidade do material de apoio
16. Relevância das respostas dadas
17. Postura durante a apresentação

Mais uma vez, afirmo que o que me move neste pedido não é uma questão pessoal com nenhum dos elementos do júri, considerando-os pessoas de referência, cada um na sua àrea.
Contudo, é da minha mais profunda convicção que um parecer de um outro júri poderia ter outra classifcação e outra valorização e críticas diferentes, na medida em que as objecções colocadas a esta dissertação dizem respeito a preferências pessoais de alguns elementos do júri, o que, a meu ver, não estão enquadradas nos critérios de avaliação definidos.

Assim, sem mais delongas, aguardo uma resposta.

Com os melhores cumprimentos,

José Magalhães

Requerimento 9 de Março (DEFERIDO)

Exma. Directora da FCHS da Universidade Fernando Pessoa,

Chamo-me José Eduardo Fernandes Magalhães, sou aluno (no. 12402) finalista do Curso de Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde da Universidade Fernando Pessoa. Neste momento, para concluir a totalidade do plano de estudos resta apenas a defesa da dissertação de Mestrado, já entregue na Secretaria das Faculdades no dia 8 de Março de 2010, intitulada: Filhos do Dragão: Crenças e Expectativas Intersubjectivas de Pais relativamente à Prática de Futebol dos Filhos na Escola de Futebol Dragon Force do Futebol Clube do Porto.
Apesar desta dissertação ter sido entregue já fora do prazo previsto (dia 31 Outubro de 2009), efectuei no dia 26 de Janeiro um requerimento no sentido da prorrogação do prazo de entrega para o dia 28 de Fevereiro. Neste requerimento expus as circunstâncias que me levaram a não entregar a dissertação dentro deste prazo (...).
Contudo, no dia 28 de Fevereiro, não tinha ainda uma resposta ao pedido efectuado. Entreguei então no dia 8 de Março a Dissertação de Mestrado, e soube com consternação nesse dia que o pedido realizado tinha sido indeferido.
Neste momento estou desempregado, numa situação económica difícil, não tendo possibilidade de efectuar o pagamento da matrícula e respectivas propinas e as possibilidades de obter um novo emprego são bastante restritas enquanto não obtiver o diploma do Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. É neste sentido que apelo humildemente a toda a sua compreensão e solidariedade, pedindo que seja aceite a Dissertação de Mestrado entretanto entregue ontem, sem ser necessária a realização de uma nova matrícula e as propinas (ECTS) da Dissertação de Mestrado.
Segue em anexo um parecer do Orientador de Estágio e de Dissertação, Prof. Doutor Milton Madeira.
Aguardando uma resposta favorável, agradeço desde já toda a atenção disponibilizada.
Com os melhores cumprimentos,

José Eduardo Fernandes Magalhães

Requerimento 26 de Janeiro

Exma. Directora da FCHS da Universidade Fernando Pessoa,

Chamo-me José Eduardo Fernandes Magalhães, sou aluno (no. 12402) finalista do Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, tendo terminado o estágio curricular e faltando neste momento somente a entrega e a defesa da dissertação de Mestrado para concluir a totalidade do plano de estudos.
Acontece que na época do prazo limite de entrega da Dissertação, dia 31 Outubro de 2009, estava regularmente empregado no Gymboree, espaço de desenvolvimento infantil, a tempo integral com uma carga horária mínima de 40 horas e trabalhando aos fins-de-semana.
Tendo começado esta actividade profissional no dia 9 de Setembro de 2009, deixando de ter tempo para me dedicar aos afazeres académicos, havia decidido pagar a matrícula e a propina do próximo ano lectivo, para dedicar o tempo e disponibilidade que a dissertação de mestrado merece. Foi com esta expectativa que decidi não ser signatário da petição entretanto formulada por colegas que pretendiam a prorrogação do prazo para 31 de Janeiro de 2010.
Contudo, de forma inesperada, fui dispensado do emprego no dia 15 de Janeiro deste mês, deixando-me sem soluções para poder realizar o pagamento da matrícula e propinas do próximo ano lectivo.
Assim, venho deste modo apelar a toda a sua compreensão e atenção, pedindo o adiamento do prazo de entrega da dissertação de mestrado para o dia 28 de Fevereiro de 2010, sendo este  o tempo necessário para a a realização de um trabalho satisfatório em termos de qualidade e rigor mínimo que se exige para uma dissertação de mestrado, contando com toda a minha paixão e vontade em levar a bom porto a corrente investigação.
Resta-me acrescentar que certamente me faltarão palavras para expressar a minha satisfação e gratidão caso este meu pedido seja aceite.
 Segue em anexo, do Professor Milton Madeira, orientador da presente Dissertação de Mestrado, um parecer relativamente a esta situação. Também em anexo se incluem os últimos recibos de vencimento, prova da minha situação profissional anterior.

Aguardando uma resposta favorável, agradeço desde já toda a atenção disponibilizada.

Com os melhores cumprimentos,

Porto, UFP, 26 de Janeiro de 2010

José Eduardo Fernandes Magalhães

quinta-feira, 6 de maio de 2010

1872: Eça de Queirós fala da crise de Portugal e Grécia

"Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá... vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal". Eça de Queirós, 1872, in "As Farpas":

quarta-feira, 28 de abril de 2010

BACK IN BLACK


DJ ESTALINE - 1 de MAIO: DIA DO TRABALHADOR - BAR MALI, SANTO TIRSO

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Psicanálise da Pedofilia na Igreja Católica segundo Zizek

As notícias cada vez mais frequentes de casos de pedofilia ocorridos na Igreja Católica, levam-nos a pensar como é possível conjugar a imagem do bom padre pregador da virtude e da renúncia com a imagem do padre pedófilo, predador sexual de crianças.
Como sempre, a psicanálise explica. Partilho aqui alguns trechos do artigo de Slavoj Zizek "A sedução do catolicismo":

" (...) Em "A Noviça Rebelde", Maria foge da família Von Trapp e volta ao convento, por não saber como lidar com a atração sexual que sente pelo barão Von Trapp. Numa cena memorável, a madre superiora a convoca e a aconselha a voltar à família Von Trapp e tentar resolver sua relação com o barão. Ela dá essa mensagem a Maria numa canção bizarra, "Climb Every Mountain!" [Escale Todas as Montanhas], cujo recado surpreendente é "vá lá, faça! Corra o risco! Faça o que seu coração está pedindo; não deixe que considerações pequenas se interponham em seu caminho!". A força surpreendente dessa cena consiste na manifestação inesperada do desejo, que torna a cena literalmente constrangedora: justamente a pessoa de quem mais se poderia esperar que pregasse a renúncia e a abstenção se mostra agente da fidelidade para com o desejo.

Significativamente, quando "A Noviça Rebelde" foi exibido na Iugoslávia (ainda socialista) no final dos anos 1960, essa cena -os três minutos que dura a canção- foi o único trecho do filme a ter sido censurado. Com isso, o anônimo censor socialista demonstrou sua sensibilidade profunda em relação ao poder verdadeiramente perigoso da ideologia católica: longe de ser uma religião do sacrifício, da renúncia aos prazeres terrenos, o cristianismo oferece um estratagema tortuoso para que possamos realizar nossos desejos sem precisarmos pagar o preço por eles, para desfrutarmos a vida sem o medo da decadência e da dor debilitante que nos aguardam ao final do dia. Assim, existe um elemento de verdade em uma piada sobre a oração ideal que uma garota cristã faz à Virgem Maria: "Vós que concebeste sem pecar, permita que eu peque sem precisar conceber!". No funcionamento perverso do cristianismo, a religião é evocada como salvaguarda que nos permite gozar a vida com impunidade.

(...)

O que, então, nos permite concluir que esses crimes e obscenidades sexuais integram a própria identidade da igreja enquanto instituição? Não os atos em si, mas a maneira como a igreja reage quando eles vêm à tona: uma atitude defensiva, brigando por cada milímetro que é obrigada a conceder, reduzindo as acusações ao fomento de escândalos, a propaganda anticatólica, fazendo todo o possível para minimizar e isolá-los, oferecendo reconhecimentos condicionais ("se algum crime de fato foi cometido, então, é claro, a igreja o condena"). Fazendo a alegação absurda de que deve se permitir que a igreja cuide dos problemas à sua própria maneira, oferecendo soluções burocráticas "elegantes" que poupam a todos (os responsáveis pelos abusos recebem licença médica ou são afastados como parte de uma reorganização administrativa "normal"). Assim, quando representantes da igreja insistem que esses casos, por deploráveis sejam, são parte do problema interno da igreja, manifestando grande relutância em colaborar com as investigações policiais, eles têm razão, de certa forma: a pedofilia de padres católicos não é algo que diz respeito apenas às pessoas envolvidas, que, por razões acidentais de uma história pessoal que não guarda relação com a Igreja Católica como tal, optaram pela profissão de padre. É um fenômeno que concerne à Igreja Católica ela própria, que é inscrito no próprio funcionamento da igreja como instituição sociosimbólica. Não diz respeito ao inconsciente "particular" dos indivíduos, mas ao "inconsciente" da própria instituição. Não é algo que acontece porque a instituição, para sobreviver, seja obrigada a adaptar-se à realidade patológica da vida da libido, mas algo de que a própria instituição necessita para poder se reproduzir.Em outras palavras, o que acontece não é apenas que, por razões conformistas, a igreja tente abafar os escândalos pedofílicos embaraçosos: ao defender-se, a igreja defende seu segredo obsceno e mais interno. O que isso quer dizer é que identificar-se com esse lado oculto é um elemento-chave da própria identidade de um sacerdote cristão. Se o padre denunciar esses escândalos seriamente (não apenas da boca para fora), ele estará se excluindo da comunidade eclesiástica. Deixará de ser "um de nós", exatamente como um cidadão de uma cidade do sul dos Estados Unidos, na década de 1920, se denunciasse a Ku Klux Klan à polícia, se excluía de sua comunidade, ou seja, traía sua solidariedade fundamental. Essa é também a razão pela qual não se podem explicar esses escândalos sexuais como manipulação dos adversários do celibato, que querem comprovar que, se os desejos sexuais dos padres não encontrarem via de expressão autorizada, terão que explodir de maneira patológica. Autorizar os padres católicos a se casarem não resolveria nada: não teríamos padres que fazem seu trabalho sem molestar meninos, já que a pedofilia é gerada pela instituição católica do sacerdócio como sua "transgressão inerente", seu complemento secreto e obsceno.

Consequentemente, a resposta à relutância da igreja não deve ser apenas a de que estamos lidando com os casos criminosos e que, se a Igreja não participar plenamente da investigação, será vista como cúmplice no crime; e, ademais, que a igreja "em si", como instituição, deve ser investigada para a averiguação da maneira como ela sistematicamente cria condições para tais crimes. A alegação de que se deve deixar que a igreja cuide sozinha dos crimes de pedofilia cometidos por seus membros não é problemática apenas desde o ponto de vista puramente legal, já que reivindica para a igreja uma espécie de direito extraterritorial mesmo para os crimes comuns, que se enquadram no direito criminal público. Mais ainda, o que a igreja deve fazer, se ela quiser de fato combater seriamente a pedofilia em seu interior, é não apenas dar à polícia liberdade plena para interrogar seus membros e colaborar plenamente com as investigações mas também encarar seriamente a questão de sua própria responsabilidade, enquanto instituição, nesses crimes. É assim que a própria igreja precisa enfrentar o problema.

quinta-feira, 18 de março de 2010

DJ Estaline está de volta!

No próximo dia 3 de Abril, o meu alter-hegel DJ Estaline fará um golpe de estado no Bar Mali em Santo Tirso. Agradeço ao Ronaldo por ter feito neste cartaz uma obra de arte.

segunda-feira, 15 de março de 2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

História das Palavras - Almada Negreiros

As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cansado. Os que estavam maravilhados abriam a boca, os que se tinham cansado também abriam a boca. Ambos abriam a boca.

Houve um homem sozinho que se pôs a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cansadas.

Depois ainda espreitou melhor: Todas as pessoas estavam maravilhadas, depois não sabiam agüentar-se maravilhadas e ficavam cansadas.

As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres - menos luz, tristes.

O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença. Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Egípcio!

Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessoas, chamaram-se hieróglifos.

Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes sinais ainda mais fáceis. Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas as combinações que há ao Sol.

Este homem sozinho era da minha raça - era um Fenício.

Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra. Cada combinação de letras uma palavra.

Todos dias faz anos que foram inventadas as palavras.

É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

Almada Negreiros

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

o outono das revoluções




Tirado de: Instituto Superior do Vira

since feeling is first

since feeling is first
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;

wholly to be a fool
while Spring is in the world

my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Don't cry
- the best gesture of my brain is less than
your eyelids' flutter which says

we are for each other; then
laugh, leaning back in my arms
for life's not a paragraph

And death i think is no parenthesis

e. e. cummings

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Whisky you a new good Beer

Este blog fez dois anos há pouco tempo e tem sido muito mal tratado pelo dono. Hoje vamos descer um pouco mais fundo, mostrando-me em todo o meu amadorismo musical neste vídeo que dedico a todos, com votos de um bom ano.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Zizek sobre casamento, divórcio e união soviética

"Think about marriage and divorce: the most intelligent argument for the right to divorce (proposed, among others, by none other than the young Marx) does not refer to common vulgarities in the style of “like all things, love attachments are also not eternal, they change in the course of time,” etc.; it rather concedes that indissolvability is in the very notion of marriage. The conclusion is that divorce always has a retroactive scope: it does not only mean that marriage is now annulled, but something much more radical – a marriage should be annulled because it never was a true marriage. And the same holds for Soviet Communism: it is clearly insufficient to say that, in the years of Brezhnev “stagnation,” it “exhausted its potentials, no longer fitting new times”; what its miserable end demonstrates is that it was a historical deadlock from its very beginning."
Slavoj Zizek

Ver o resto em: Mariborchan

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

cadáver esquisito

as pessoas são como as
estações, e não são as reprodutivas,
apesar de não se fazer outra coisa senão
copular uivando, suando e arfando. Sabe
bem. Às vezes confundia-se com o mal,
mas era sempre bom. As magnólias.
chupar, trincar, comer, dormir,
lamber, amanhecer, chover. sujeito, verbo,
predicado, objecto, dejecto, reflexo, desejo,
ensejo. Ainda que não seja tão belo como um
percevejo, tenho algumas aspirações.
o ar que sobe e o ar que desce. As cidades
desorganizadas dão à luz mutantes,
brinquedos, segredos e doces medos.
Estão ainda por inventar as palavras
com que te despias e me despias.
Fotografar a alma a preto e branco.
A educação educa. A civilização civiliza.
O homem fode. E não dói

José Magalhães & Paulo Lima Santos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

histeria maquínico-somática:

dói-me o telemóvel

Mão Morta: Vocabulário

faca, sangue, flamejante, morte, sexo, arrastando, tu disseste, lua, cão, amesterdão, animais, televisão, jogo, destroços, escravos, alienação, vertigem, revolução, morgue, bófia, vénus, tetas, ódio, lisboa, vento, desejo.

enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Paulo Leminsky
retirado de: kamiquase

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

os poetas e os padres de william blake

The ancient Poets animated all sensible objects with Gods or Geniuses, calling them by the names and adorning them with the properties of woods, rivers, mountains, lakes, cities, nations, and whatever their enlarged & numerous senses could percieve. And particularly they studied the genius of each city & country, placing it under its mental deity.
Till a system was formed, which some took advantage of & enslav'd the vulgar by attempting to realize or abstract the mental deities from their objects; thus began Priesthood.
Choosing forms of worship from poetic tales. And a length they pronounc'd that the Gods had order'd such things. Thus men forgot that All deities reside in the human breast.

William Blake

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Adeus Camarada.

O Camarada Hugo Gouveia, de Santo Tirso, faleceu na noite de quarta-feira. Atirou-se da ponte da Arrábida. Deixou uma carta aos pais dizendo que não queria viver mais nesta sociedade. Apagou tudo o que tinha no computador. Vou ter saudades tuas, Hugo.














Nesta foto, o Hugo está com seu ar pensativo muito característico. Esta foto foi tirada num jantar da JCP aqui no Porto. Na altura fomos um pequeno grupo de camaradas no carro que o Partido nos emprestou para irmos de Santo Tirso até ao Porto. Um carro velhinho que o Hugo conduziu para lá e para cá, não sem o necessário empurrão dos camaradas para que este pegasse. No jantar, comemos e bebemos. E rimos. Éramos felizes.

Era amigo do Hugo há cerca de 7 anos, altura que entrei na JCP. Na altura, tinha eu 18 anos, conheci o Hugo que era um ano mais novo que eu na primeira reunião que tive. Na altura ele tinha o cabelo bastante comprido e uma t-shirt com uma foice e um martelo. Notava-se logo com as primeiras palavras trocadas com ele, que se tratava de alguém muito inteligente. E, de facto, ao longo destes anos tive com ele conversas muito profundas. E o conhecimento do Hugo não vinha dos livros. Apenas citava Marx e Lenine. Tudo o resto era dele. Falava como um filósofo sem ler qualquer livro de filosofia. O Hugo era um ser muito reflexivo. Como grande parte de mim também é assim, muitas vezes, com grupos maiores de amigos, começávamos a falar sobre problemas da vida e da existência e isolávamo-nos. O teor da nossa conversa não passa no crivo da tagarelice de circunstância. Discutíamos muito e discordávamos ardentemente. O Hugo era ateu materialista convicto. Sempre que lhe falava em monges e parábolas ele ficava intelectualmente irritado. O Hugo gostava de falar de utopias, da sociedade perfeita, do estado comunista perfeito. Era assim o Hugo. Nunca estive com ele muito regularmente, mas sempre nos vimos de tempos a tempos, normalmente no Partido. Trabalhámos na festa do Avante, a montar e a desmontar barracas e a lavar pratos. Fizemos reuniões, colámos cartazes. No fim, bebíamos uma cerveja e conversávamos. Falávamos de livros e do mundo. Numa dessas vezes eu tirei-te esta foto contigo junto dos cartazes mais bizarros que já alguma vez se colaram. Foi na Escola Secundária D.Dinis, à noite.
















Com a tua despedida precoce, com 24 anos, deixas em choque todos quanto reconheciam o que havia de especial na tua pessoa. Entre eles eu me incluo. Dói-me pensar que te deixámos ir sem que ninguém te deitasse a mão. Há algum tempo que não estava contigo. Meses. Mas, entretanto, há uma semana, pensei em ti. Pensei em ligar-te um dia destes para irmos beber um copo. Entretanto, não cheguei a ligar. Não sei como estavas. Eras um ser solitário. Não sei o que te levou a quereres ires embora desta vida, desta maneira. Mas não escapas desta vida impunemente. Deixas uma ferida em todos quantos deixaste a tua marca neste mundo e não me esquecerei de ti. Adeus Hugo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

sem título

noites descarnadas,
nuas.

as tuas mãos vencidas
e a minha testa cansada
conspiram.

separados,
congeminamos ausências.
fazemos tabula rasa dos sonhos
e penhoramos um pouco da nossa alma

tranquilamente.

sábado, 28 de novembro de 2009

O que faço aqui?

Não sei se o mundo mentiu
Eu menti.
Não sei se o mundo conspirou contra o amor
Eu conspirei contra o amor.
O ambiente de tortura não é confortável
Eu torturei.
Mesmo sem o cogumelo atómico, ainda assim, teria odiado.

Escutem — teria feito as mesmas coisas, mesmo que a morte não existisse.

Não me deterei como um bêbedo sobre a fria corrente dos factos..
Recuso o alibi universal.

Como uma cabine telefónica vazia na noite da memória,
como os espelhos de uma sala de cinema,
como uma só saída,
como uma ninfomaníaca que junta mil numa estranha fraternidade:

espero que cada um de vós confesse.

Leonard Cohen

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A economia do esquecimento segundo Roberto Juarroz

Poderia talvez esquecer algo que escrevi
e voltar a escrevê-lo da mesma maneira.

Poderia talvez esquecer a vida que vivi
e voltar a vivê-la da mesma maneira.

Poderia esquecer a morte que morrerei amanhã
e voltar a morrê-la da mesma maneira.

Mas há sempre um grão de pó de luz
que rompe a engrenagem das repetições:

poderia esquecer algo que amei
Mas não voltar a ama-lo da mesma maneira.

Roberto Juarroz

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

estado de espírito / estado de sítio

Minha vida está num regime de rotação de culturas. Ninguém escapa impune ao crime do amor. Minhas pulsões e vontades viajam pelos vales, serras planaltos e baldios da minha alma. Abriu-se uma barragem no meu coração e sangro de peito aberto sobre toda a geografia do meu ser. Mudo de trabalho, mudo de amores e humores, mudo de casa, mudo de poesia, mudo tudo. Este é o meu retiro solitário para o mundo. Esta é a minha música:



Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde

Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidao
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mao

Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só:
Quero quem quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem nao conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem nao conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfacao
Nao consigo compreender
Sempre esta sensacao
Que estou a perder

Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar

Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só:
Estou bem aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde nao estou
Estou bem aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde nao estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu nao vou
Porque eu só estou bem
Aonde nao estou

sábado, 5 de setembro de 2009

Alan Badiou - Filosofia como Biografia

Encontrei uma transcrição de uma conferência muito interessante do filósofo e psicanalista marxista Alain Badiou, onde ele faz filosofia a partir de algumas histórias pessoais. Tomei a liberdade de traduzir parte do texto original em inglês. Também podem ver os vídeos da conferência, clicando nas imagens abaixo.

Parte 1

"Nietzsche disse que uma filosofia é sempre a biografia do filósofo. Talvez uma biografia do filósofo feita pelo próprio filósofo seja um pouco de filosofia. Assim, vou contar-vos nove histórias da minha vida privada, com a sua moral filosófica. A primeira história é a história do pai e da mãe.

Meu pai era formado na École Normale Superieure e professor de matemática. Minha mãe era formada na École Normale Superieure e professora de literatura. Eu sou formado na École Normale Superieure e professor, professor de quê... filosofia. Quer isso dizer, provavelmente, a única coisa possível de assumir dupla filiação e de circular livremente entre a maternidade literária e a paternidade matemática. Isto é em si uma lição de filosofia: a linguagem da filosofia constrói sempre o seu próprio espaço entre o matema e o poema, no fim de contas entre a mãe e o pai.

Alguém viu isso muito claramente: o meu colega do Collège de France, o filósofo analítico francês Jacques Bouveresse. Num livro recente em que ele faz o horror de falar de mim, compara-me a um coelho de cinco patas e diz concretamente: "Este coelho de cinco patas que é o Alan Badiou, corre a toda a velocidade na direcção do formalismo matemático, e depois, de repente, numa mudança incompreensível, dá uns passos atrás e corre na mesma velocidade atirando-se para a literatura." Bem, sim, é isso que dá um pai e uma mãe tão bem distribuídos: transformamo-nos num coelho.

Agora a segunda história: sobre mãe e filosofia.

Minha mãe era muito velha e meu pai não estava em Paris. Levava-a a comer num restaurante. Ela dizia-me nessas ocasiões tudo o que nunca me havia dito. Era a expressão final de ternura, tão comovente, que se tem com pais muito idosos. Uma noite contou-me que, antes de conhecer meu pai, quando estava a dar aulas na Argélia, teve uma paixão, uma paixão gigantesca, uma paixão voraz, por um professor de filosofia. Esta história é absolutamente autêntica. Eu ouvi, obviamente, na posição que se pode imaginar, e disse para mim mesmo: bem, foi isso, não fiz mais nada senão cumprir o desejo da minha mãe que o professor argelino de filosofia havia negado. Ele havia ficado com outra pessoa e eu fiz o que pude para ser a consolação da dor terrível da minha mãe que havia subsistido no seu interior até aos 81 anos.

A consequência que daqui retiro para a filosofia é, contrariamente à afirmação habitual segundo a qual "o fim da metafísica" está a ser cumprido e tudo isso, precisamente a filosofia não pode ter um fim, porque está assombrada, no seu interior, pela necessidade de dar mais um passo dentro de um problema que já existe. E eu acredito que é essa a sua natureza. A natureza da filosofia é que algo lhe está sendo eternamente deixado. Ela é responsável por esse legado. Estamos sempre a tratar do legado em si, dando sempre mais um passo na determinação do que lhe foi assim deixado. Eu próprio, da forma mais inconsciente, nunca fiz outra coisa enquanto filósofo senão responder a um apelo de que nunca tive conhecimento.

(...)

A quarta história é sobre amor e religião.

Antes de vir para Paris, vivia numa província. Sou um provinciano que veio para Paris um pouco tarde. E um dos aspectos que caracterizava a minha juventude provinciana é que a maioria das raparigas eram ainda educadas pela religião. Estas raparigas ainda eram guardadas e reservadas para um destino interessante, o que proporcionava uma figura importante à parada masculina: as diferentes maneiras de brilhar face a estas raparigas ainda piedosas, sendo a principal a de refutar a existência de Deus. Este era um importante exercício de sedução, pois não só era uma transgressão, mas também era brilhante do ponto de vista retórico quando se tinha os meios para o fazer.

Antes de conquistar as suas virtudes, as almas tinham de ser resgatadas para fora da Igreja. Qual dos dois era pior, isso cabe aos padres decidir. Mas fora disto vem a ideia que eu tinha muito cedo, que a mais argumentativa e a mais abstracta filosofia também constitui uma sedução. Uma sedução cuja base é sexual, não haja dúvidas sobre isso. É claro que a filosofia sempre argumentou contra a sedução das imagens e permaneço platónico nesse ponto. Mas também argumenta de forma a seduzir. Podemos assim compreender a função socrática da corrupção da juventude. Corromper a juventude significa ser, de forma sedutora, hostil ao regime normal de sedução. Mantenho e repito que o destino da filosofia é corromper a juventude, ensinar que a as seduções imediatas têm pouco valor, mas também que existe uma sedução superior. No final de contas, o jovem que consegue refutar a existência de Deus é mais sedutor do que aquele que apenas se propõe à rapariga. É um jogo de ténis. É uma boa razão para se tornar filósofo.

Isto é aquilo em que se tornou o lugar da questão do amor, como questão chave da própria filosofia, exactamente no sentido que já tinha para Platão em Symposium. A questão do amor está necessariamente no coração da filosofia, porque governa a questão do seu poder, a questão de como é que esta se endereça ao seu público, a questão da sua força de sedução. Neste ponto, creio que segui uma direcção muito difícil de Sócrates: "aquele que segue o caminho da revelação total deve começar muito novo a deixar-se levar pela beleza dos corpos".

A quinta história é marxista.

Naturalmente, a tradição da minha família era de esquerda. Meu pai legou-me duas imagens: a imagem do resistente anti-nazi durante a guerra, e depois a imagem do militante socialista no poder, pois ele foi presidente da câmara de uma grande cidade francesa, Toulouse, durante treze anos. A minha história é a história de uma ruptura com esta espécie de esquerda oficial.

Há dois períodos na história da minha ruptura com a esqueda oficial. A última, bem conhecida é o Maio de 68 e a sua continuação. A outra, menos conhecida, mais secreta e então muito mais activa. Em 1960 havia uma greve geral na Bélgica. Não vou entrar em detalhes. Fui enviado para cobrir esta greve como jornalista - fui várias vezes jornalista, escrevi, parece-me, centenas de artigos, talvez milhares. Conheci mineiros em greve. Haviam reorganizado toda a vida social do país, através da construção de um novo tipo de legitimidade popular. Emitiram até uma moeda nova. Assisti às suas assembleias e falei com eles. E daí em diante fiquei convencido, até ao dia em que hoje vos falo, que a filosofia está desse lado. "Desse lado" não é uma determinação social. Signigica: do lado do que é aí falado ou pronunciado, do lado dessa obscura parte da humanidade comum. Do lado da igualdade.

A máxima abstracta da filosofia é, necessariamente, a absoluta igualdade. Depois da minha experiência da greve dos mineiros da Bélgica, dei uma ordem filosófica a mim mesmo: "transforma a noção de verdade de tal maneira, que obedeça à máxima equalitária". É por isso que dou á verdade três atributos:

1) Depende de uma irupção, e não de uma estrutura. Qualquer verdade é nova, esta será a doutrina do evento.

2) Toda a verdade é universal, num sentido radical. a igualdade anónima-para-todos, a pureza-para-todos, constitui-a no seu ser, e esta será sua generalidade.

3) A verdade constitui o seu sujeito, e não o contrário. Este será o seu lado militante.

Tudo isso, numa total obscuridade, estava em acção quando conheci em 1960, os mineiros belgas.

(...)

A oitava história é uma história formal, ou uma história acerca de formas

(...) Há uma ligação intíma entre filosofia e matemática (uma ligação fortemente focada por Platão). Se os conceitos filosóficos são afinal, as formas dos conceitos da verdade, então este devem suportar a prova da sua formalização. Qualquer que seja esta prova. Todos os grandes filósofos submeteram o conceito a uma esmagadora e especulativa formalização. Penso que é por isso que a matemática permaneceu uma paixão para mim. Eu escrutino precisamente isto - na matemática: O que é o pensamento capaz, quando ele se dedica à pura forma? à literalidade da forma? E a conclusão que progressivamente retiro é que, o que ele é capaz, quando se ordena como pura forma, é pensar o ser como tal, o ser como ser. Daí resulta minha fórmula provocante segundo a qual a ontologia efectiva nada mais é do que matemática constituída. O que, obviamente, aos olhos do psicanalista, significa meu desejo de aí apenas sublimar a imagem do meu pai matemático.

A última história, a história número nove, é sobre os meus mestres.

(...) Nos anos decisivos da minha educação, tive três mestres: Sartre, Lacan e Althusser. Não foram mestres da mesma coisa.

O que Sartre me ensinou foi, simplesmente, o existencialismo. Mas o que significa o existencialismo? Significa que deve haver uma ligação entre o conceito, por um lado, e por outro deve haver a agência existencial da escolha, a agência da decisão vital. A convicção de que o conceito filosófico não vale uma hora de trabalho se, seja por mediações de grande complexidade, não reverberar, clarificar e ordenar a agência da escolha, da decisão vital. E nesse sentido, o conceito deve ser, também e sempre, um assunto da existência. Isto foi o que Sartre me ensinou.

Lacan ensinou-me a conexão, a ligação necessária entre uma teoria dos sujeitos e uma teoria das formas. Ele ensinou-me como e porque é que o próprio pensamento dos sujeitos, que tão frequentemente foi contraposto à teoria das formas, era na realidade apenas intelegível no quadro desta teoria. Ensinou-me que o sujeito era uma questão que não é de todo de um carácter psicológico, mas sim uma questão axiomática e fomal. Mais do que qualquer outra!

Althusser ensinou-me duas coisas: que não há objecto próprio da filosofia - isto era uma das suas grandes teses - mas que há orientações do pensamento, linhas de separação e, como Kant já havia dito, uma espécie de luta perpétua, uma luta que é sempre recomeçada de novo, em novas condições. Ele ensinou-me, consequentemente, o sentido de delimitação, do que se pode chamar delimitação. Em particular a convicção de que a filosofia não é um vago discurso da totalidade ou interpretação geral daquilo que é. Que a filosofia deve ser delimitada, que deve ser separada daquilo que não é filosofia. (...) No final, consegui conservar todos os meus mestres. Mantive Sartre apesar do desrespeito de que foi alvo durante muito tempo. Mantive Lacan apesar do que realmente deve ser chamado como sendo o carácter terrível dos seus discípulos. E mantive Althusser apesar das substanciais divergências políticas que nos opuseram, começando no Maio de 68. (...)

Manteho hoje que em filosofia os mestres são necessários; mantenho uma constitutiva hostilidade contra a tendência para a profissionalização democrática da filosofia e ao imperativo dominante hoje em dia e que humilha a juventude: "Sejam pequenos e trabalhem como equipa". Diria também que os mestres devem ser combinados e ultrapassados mas, afinal, é sempre desastroso negá-los.

(...) "Habitarei o meu nome": isto é precisamente o que a filosofia tenta tornar possível a todos e a cada um. Ou antes, a filosofia procura as condições formais, a possibilidade de cada um e de todos, de habitar o seu nome, de estar simplesmente aí, reconhecido por todos como aquele que habita o seu nome. E quem, desta forma, ao habitar o seu nome, é igual a qualquer outro.

É por isto que mobilizamos tantos recursos. E é também para isso que a nossa monótona biografia pode ser usada: para constantemente procurar de novo as condições pelas quais o próprio nome de cada um pode ser habitado.

Parte 2

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Jerónimo vs. Louçã

Era bom realmente, para quem está indeciso entre estes dois, ver algumas diferenças entre bloco e PC. No entanto, isso seria dar lenha à opinião vulgar de que PC e bloco são inimigos fratricidas à procura da medalha de bronze. Isso só favorece o bloco central.

Assim, a postura dos dois foi a mais acertada. E uma coisa é certa: em comparação com o debate de ontem entre Portas e Sócrates, repleto de golpes teatrais, demagogia, marketing, barulho, pedras, confusão e peixeirada, vimos um debate claramente mais civilizado, onde se falou mais de política, de economia, dos problemas do país e das suas possíveis soluções. A esquerda fica a ganhar.

Quanto aos que gostam de violência verbal, show-off, insultos gratuitos e que acham que isto foi uma seca, eu aconselho-os a ir a um parque de diversões.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Para uma Psicologia Social do Voto e da Abstenção

Ferdinand Lindner, An Electoral Philistine – The Doubtful Voter (c. 1890)


Vivemos um momento muito particular da nossa curta vida democrática: se tomarmos em consideração aquilo que foram os resultados das eleições europeias e ainda (mas com desconto) as várias sondagens que por aí pululam, nenhum dos dois partidos que tem habitualmente governado o país (PS-PSD) mostra grandes chances de obter uma maioria absoluta. Aquilo que é opinião de toda a gente, e que se ouve da boca de todos é o seguinte: os políticos são corruptos, mentirosos e oportunistas que só querem um tacho. A abstenção sempre foi até hoje, o maior representante deste descontentamento. São estes, no entanto, que paradoxalmente têm legitimado os governos falsamente maioritários que temos tido. Digo falsamente maioritários pois, segundo as contas que já aqui fiz uma vez, se a abstenção fosse considerada quando são apresentados os resultados das eleições, facilmente se perceberia que nunca tivemos um governo da preferência da maioria dos cidadãos. Nas últimas legislativas por exemplo, o PS não teve o voto de 45% dos cidadãos, mas sim de 28,93% do total de eleitores. Assim, chegamos ao seguinte paradoxo: abster-se de votar apenas legitima os governos desprezados precisamente por aqueles que não votam.

Isto leva-me ao ponto seguinte: um dos grandes falhanços das democracias é o facto de o ódio e o descontentamento político ser politicamente irrepresentável. Um exemplo perfeito disto são as eleições no Reino Unido de 2005: Tony Blair era segundo todas as sondagens, o homem mais impopular do Reino Unido. No entanto, este ódio não se reflectiu nos votos, na medida em que Tony Blair acabou por ganhar as eleições.

Por muito que os portugueses queiram dizer mal e mostrar o seu repúdio,quer através de votos nulos, brancos ou abstenção, na forma como funcionam a democracia quem está descontente com os governos PS/PSD/CDS-PP não se pode dar ao luxo de não votar pois, como já vimos, está apenas a reforçar o actual estado de coisas e a ajudar a manter os partidos no governo que tanto detesta.

Assim, face a esta conjuntura, e na tentativa de canalizar todo este ódio e desprezo, muitos optam pelo chamado "voto de protesto" e o "voto útil", que levanta um outro tipo de problemas: Um ponto fulcral da análise do processo de eleição é: todos votam condicionados pela representação que fazem dos "outros". Não é estranho que toda a gente diga mal dos partidos do poder (PS e PSD), mas que não vote noutros por considerar que não podem chegar a ser poder (por causa dos outros). O voto útil nada mais é do que "se eles votam assim, então terei necessidade de votar de determinada maneira". Temos também o "eu voto no BE porque sei que não vai ganhar". Há também o "não vou votar no partido x, pois não precisa do meu voto para ganhar". E assim se vai, sondagem a opinião, desvirtuando o real querer de um povo. E é assim que, PS e PSD são os partidos mais detestados dos portugueses, apesar de serem estes os mais votados.

No entanto, não são só os eleitores que participam politicamente neste paradoxo. Também os partidos do poder, curiosamente, se alimentam do próprio ódio ao poder. Basta pensar no Sócrates que diz assim: "só pode haver um primeiro ministro: se não querem seja a Ferreira Leite votem em mim". Já a Ferreira Leite diz: "se não gostam do Sócrates votem em mim."

A democracia nestes termos, funciona de forma perversa: o cidadão vota de acordo com uma representação social de um povo que, por sua vez, é construída por cidadãos que votam consoante o que os outros votam; os partidos do poder fazem política adaptando-se a essa ilusória representação social, que na verdade não é ilusória na medida em que todos participam dela. Zizek sobre isto dá o exemplo do Natal: os pais alimentam o mito do Pai Natal para que as crianças não percam a fantasia. As crianças sabem que o Pai Natal não existe, que são os pais que compram as prendas mas participam nessa ilusão de forma a não desiludir os pais. Assim, ninguém acredita verdadeiramente no Natal, muito embora toda a gente participe da mesma ilusão.

Para se compreender melhor este paradoxo, faço aqui alusão a uma experiência paradigmática da Psicologia Social. Nesta experiência de Solomon Asch de 1951, 8 sujeitos foram colocados diante de um quadro com varias cartolinas. Cada cartolina continha do lado esquerdo um linha vertical (figura de base) e à direita três linhas verticais de comprimentos diferentes, numeradas de 1 a 3, uma das quais representava a linha de base.

No grupo experimental, apenas um dos sujeitos é o verdadeiro sujeito experimental, e por isso é o sujeito ingénuo, enquanto os restantes 7, são comparsas do experimentador. Cada um dos sujeitos dá a avaliação em voz alta, sendo que os comparsas dão doze respostas erradas em dezoito ensaios experimentais. Estes respondem antes do sujeito. Deste modo, o sujeito ingénuo encontra-se numa posição minoritária e, apesar de não existir qualquer tipo de pressão explícita por parte do grupo, este chega a cometer erros que atingem os 5 cm. 75% dos sujeitos conformaram-se à opinião errada da maioria, pelo menos uma vez.

É claro que nem todos os indivíduos são influenciados por este efeito de conformismo. Uma das explicações possíveis para indivíduos que não cedem à opinião da maioria é a de que estes indivíduos são mais seguros, não necessitando do apoio do grupo. Outro aspecto que também contribui para minorar o efeito do conformismo é o seguinte: basta a presença de um dissidente no grupo para baixar drasticamente o nível de conformidade de 32% para 6% das tentativas. Sobre este último aspecto, Moscovici fez importantes variações da experiência de Asch precisamente acerca da influência da minoria sobre a maioria. Assim, na experiência de Moscovici, em vez de um único sujeito no meio de um grupo de cúmplices, os investigadores decidiram colocar quatro sujeitos num grupo com mais dois cúmplices (que davam sempre respostas incorrectas. Assim, os participantes cúmplices estavam em minoria. Os resultados mostraram que a minoria era capaz de influenciar cerca de 32% dos sujeitos a darem pelo menos uma resposta incorrecta.

Há consequências deste estudo que podem ser aproveitados do ponto de vista político. Para já, o "voto útil", parece encaixar perfeitamente num efeito de conformismo, visto na experiência de Asch. Já a experiência de Moscovici demonstra, quanto a mim, o quão são importantes os movimentos políticos minoritários, na medida em que possibilitam aos sujeitos que não comungam da opinião da maioria, um cúmplice que facilita uma expressão dessa mesma opinião divergente. Assim, é extremamente saudável termos partidos pequenos que possibilitam a expressão de uma opinião divergente da maioria, possibilitando a inovação e progresso social, para lá dos blocos bipolares partidários, que estimulam o conformismo.

Assim, para concluir deixo a seguinte recomendação: há que votar, não por ódio, nem por "utilidade", mas sim votar-se no partido que, no conjunto das suas propostas, nos identificamos individualmente, sem fazer calculismos nem olhar a sondagens. Há que votar, não no partido que vai fazer melhor oposição (mesmo que provavelmente seja esse o caso), mas sim no partido que consideramos que faria o melhor governo (ou o menos mau). Em suma, há que votar honestamente e de forma positiva, e não em nome de um medo de instabilidade ou por oposição a outro partido qualquer.

(Já agora, se há indecisos quanto a esta matéria, e que não queiram ler os espessos programas dos partidos, aconselho a seguinte bússola eleitoral. Basta responder a algumas perguntas, e ser-lhe-á apresentado o partido que mais se ajusta às suas opiniões políticas nas várias áreas. Não é perfeito, devido a algumas ligeiras imprecisões na forma ambígua como são colocadas determinadas perguntas, mas é um questionário bastante interessante. Podem acontecer surpresas! No meu caso pessoal, o meu partido de sempre é o PCP, muito embora admita que o programa eleitoral do BE para estas legislativas me surpreendeu positivamente. No entanto, inesperadamente ou talvez não, o partido que segundo esta bússola eleitoral mais se ajusta às minhas respostas é o... PCTP-MRPP!)