quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Gonçalo Tavares e filosofia de criança

"Tinha de pagar a um oculista. Levava o cheque já preenchido. Cheguei ao sítio e disseram-me: Morreu ontem, num desastre de carro. Tinha o cheque em nome dele, e agora estava morto. O primeiro pensamento foi: se eu tenho um cheque para lhe pagar, ele não pode estar morto. O segundo pensamento, passado uns segundos foi: vou ficar com o dinheiro. O terceiro pensamento foi: como é que a tua cabeça foi capaz de ter aquele 2º pensamento? O quarto foi: toda a gente pensa todas as hipóteses numa situação, mesmo as hipóteses nojentas."

Gonçalo Tavares em Água, Cão, Cavalo, Cabeça.

Gonçalo Tavares escreve como uma criança que diz as coisas óbvias mas que não são de dizer. Ele é capaz de dizer coisas como "é preciso acreditar na verdade e não acreditar na mentira". Produz literatura como Wittgenstein faz filosofia. Pega em assumpções básicas e, à custa de as encarar tão a sério e de as dizer e escrever, fá-las tornarem-se estranhas e irreais. É semelhante ao efeito de dizermos 100 vezes a mesma palavra até ela começar a parecer um som estranho sem sentido, como se fosse de uma língua estrangeira.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Do Testamento Vital a uma Filosofia e Biopolítica da Morte

"A morte só é um estado de passagem. É um estado que nunca existiu porque, se é difícil viver, cada vez se faz mais impossível e sem eficácia morrer"
Antonin Artaud

Há algum tempo foi discutido na Assembleia da República um diploma sobre o denominado testamento vital, que possibilitaria a qualquer cidadão a realização de uma declaração antecipada de vontade acerca do tratamento médico a receber quando, em virtude de uma doença, já não seja possível exprimir livre e conscientemente a sua vontade.

Dentro do historial do debate da eutanásia, há a ideia de que o sujeito enfermo , impossibilitado de comunicar ou, em virtude da sua doença, o sujeito que não apresenta um estado normal de consciência e de lucidez, estaria impossibilitado de tomar em suas mãos a soberania sobre a sua própria vida. É então nestas condições que o testamento vital se aplica: num momento de razoabilidade e lucidez normais, o sujeito define as condições do seu tratamento médico posterior.

O que está logo aqui implícito é a conexão entre consciência e direito que a aqui se estabelece: só é soberano sobre a sua própria vida quem é dotado de racionalidade. Da mesma forma, noutras situações do plano jurídico, a consciência é condição necessária para a decisão da imputabilidade de qualquer sujeito enquanto suposto autor de um crime. Só pode ser punido quem é dotado de uma racionalidade consciente. No entanto, o que racionalidade significa é um alinhamento sobre um consenso social sobre o que é normal pensar e raciocinar. Wittgenstein exemplifica isto bem da seguinte forma:

Num tribunal perguntam-nos o motivo da nossa acção e supõe-se que o conhecemos. A menos que estejamos a mentir, devemos ser capazes de explicar o motivo da nossa acção. Não é suposto conhecermos as leis que governam o nosso corpo e o nosso espírito. (...) Existem casos em que damos a razão de ter feito uma coisa. "Porque é que escreveu 6249 debaixo do traço" Damos a multiplicação que fizemos. "Cheguei aqui através desta multiplicação" Isto é comparável ao dar de um mecanismo. Poderíamos chamar-lhe a alegação de um motivo para escrever os números. Significa que passei por um determinado processo de raciocínio. Aqui "Como é que fez" significa "Como é que chegou aí?" Damos uma razão, o caminho que seguimos. (Wittgenstein)

Assim, na impossibilidade de o sujeito comunicar racionalmente, ou seja, de acordo com os padrões socialmente aceites daquilo que é o normal funcionamento mental, o sujeito vê-se impossibilitado de decidir sobre a sua própria vida, estando dependente de outros a soberania dessa decisão vital. Daqui então se compreende melhor o que Roland Barthes quis dizer quando disse que a "língua é fascista". Na impossibilidade da comunicação, somos separados da vida política entre os homens. Perde-se aquilo que distingue o humano dos animais, o facto de estes viverem uma vida política. Perde-se assim a soberania sobre a vida própria, assemelhando-se então o doente em coma ao louco e ao animal. Esta afastamento da vida entre os homens, corresponde, se não uma morte, a uma perda de vida. Hannah Arendt refere-se aos romanos como o povo mais político que conhecemos e lembra que o idioma dos romanos (...) empregava como sinónimas as expressões de "viver" e "estar entre os homens", ou morrer e "deixar de estar entre os homens".

Assim, o estado de coma, tornado possível apenas pela medicina moderna, é num sentido romano do termo, uma morte política e uma morte cartesiana. Acaba o sujeito e fica apenas o objecto, os restos corporais ligados às máquinas. Tende a desaparecer o que hoje é cada vez mais um acontecimento estranho: a morte natural. Com o progresso das técnicas médicas, a morte deixa de poder ser trocada simbolicamente para ser encarada apenas na categoria de acidente e da anomalia. Deixa de existir a morte por velhice, na medida em que a morte sem causa, objectivamente, não existe. Assim, o doente só tem direito a existir enquanto objecto médico. Ninguém demonstrou melhor isto do que Jean Baudrillard em "Troca Simbólica e a Morte", naquela que considero a passagem mais interessante desta obra:

Já não temos a experiência da morte dos outros. A experiência espectacular e televisiva nada tem a ver com ela. A maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de ver morrer alguém. É algo de impensável em qualquer outro tipo de sociedade. Somos substituídos pelo hospital e pela medicina - a extrema unção técnica substituiu todos os outros sacramentos. O homem desaparece dos que lhe são próximos antes de morrer. Aliás, é disto que ele morre. (...) Nunca se morre em casa, morre-se no hospital. Por inúmeras e boas razões "materiais" (de saúde, urbanas, etc.), mas sobretudo porque o corpo biológico, o moribundo ou o doente, já só tem lugar num meio técnico. Sob o pretexto de cuidar dele, é deportado para um espaço-tempo funcional que se encarrega de neutralizar a doença e a morte na sua diferença simbólica. Justamente onde a finalidade é eliminar a morte, o hospital (e a medicina em geral) toma a seu cargo o doente como virtualmente morto. Cientificidade e eficiência terapêutica supõem a objectivação radical do corpo, a discriminação social do doente, portanto, um processo de mortificação. (Baudrillard)

A morte é, mais do que um acontecimento meramente biológico, um acontecimento simbólico. Se dantes a perda da comunicabilidade e a morte biológica quase que coincidiam, o que temos, hoje em dia, é um movimento pelo qual, através da extensão da vida biológica, se cria um hiato entre a morte simbólica e a morte biológica, ao que corresponde o estado de coma. Se, num primeiro momento, o paradigma científico deu mais importância à segunda morte, a biológica, o problema é que estas não são desligáveis. Entenda-se a morte como acontecimento simbólico no sentido em que é algo de conceptual, sujeito a consenso social sobre a sua definição.

Giorgio Agamben - em "O Poder Soberano e a Vida Nua - Homo Sacer" - recorda precisamente que, à medida que foram surgindo progressos nas técnicas de prolongamento da vida, o conceito de morte se torna cada vez mais difuso, e é só nestas condições em que surge, não só a problemática da eutanásia, mas sim a problemática da definição do que é a morte. Agamben recorda o estudo de 1959 de Mollaret e Goulon, dois neurofisiologistas franceses, que introduziram a noção de coma dépassé, isto é, o coma em que à abolição total das funções da vida de relação corresponde a uma abolição igualmente total das funções da vida vegetativa, sendo que o indivíduo em estado de coma ultrapassado deixava automaticamente de viver mal os tratamentos de reanimação eram interrompidos. Este além-coma tornou caducos os tradicionais critérios de confirmação da morte, o cessar das batidas de coração e a paragem da respiração, abrindo uma terra de ninguém entre o coma e a morte, obrigando a determinar novas definições do que se considera a morte. Foi então que, em 1968, o relatório de uma comissão especial da universidade de Harvard fixou os novos critérios de confirmação da morte, que haveria de se impor a partir daquele momento : a morte cerebral. No entanto, esta nova definição não resolve o problema, na medida em que introduz novos paradoxos. Agamben demonstra-o da seguinte forma:

"Não é possível evitar a impressão de que toda a discussão está envolvida em contradições lógicas inextricáveis e que o conceito de "morte", longe de se ter tornado mais exacto, oscila de um pólo ao outro na maior indeterminação, descrevendo um círculo vicioso verdadeiramente exemplar. De facto, por um lado, a morte cerebral substitui como único critério rigoroso a morte sistémica ou somática, considerada agora como insuficiente; por outro, porém, é esta última que (de modo mais ou menos consciente) continua a ser chamada a fornecer o critério decisivo. É por isso surpreendente que os partidários da morte cerebral possam escrever candidamente: «[A morte cerebral] conduz inevitavelmente à morte, em pouco tempo». (...) David Lamb, um defensor sem reservas da morte cerebral que, no entanto, notou estas contradições, escreve, por sua vez, depois de citar uma série de estudos (...): «Em muitos destes estudos existem variações nos exames clínicos, mas todos provam a inevitabilidade da morte somática a seguir à morte cerebral» Com uma flagrante inconsequência lógica, a paragem cardíaca - que tinha acabado de ser rejeitada como critério válido de morte - surge novamente a provar a exactidão do critério que a deveria ter substituído. (Agamben)

Agamben conclui que vida e morte não são conceitos propriamente científicos, mas conceitos políticos, inaugurando a era política actual como biopolítica.
Quanto à ideia da morte cerebral, surge talvez como forma de trazer de volta a ideia de que a perda de actividade cerebral, provando a inexistência de consciência, é o critério mais seguro de uma definição de morte. Voltamos assim à ideia de que a morte é, no sentido romano, sinónimo de "deixar de estar entre os homens" e que estar vivo significa ser dotado de uma consciência e da possibilidade de comunicar. Também os loucos, na medida em que estão mais ou menos impossibilitados de comunicar, e de participar de uma vida pública , "deixam de estar entre os homens", assemelhando-se aos mortos, comatosos e animais. A definição de saúde mental está também altamente imbricada portanto no direito de soberania sobre a própria vida. Agamben lembra como o primeiro grande programa de eutanásia surgiu na Alemanha Nazi visando o que então foi denominado de "morte por benevolência" de doentes mentais incuráveis.

A morte é portanto um conceito altamente flutuante, dependente de consenso político e social, e não um conceito objectivo. A medicina moderna acabou por deixar isto a nu, decorrendo a discussão da eutanásia deste hiato criado entre uma morte política, sujeita a critérios sociais e políticos, e uma morte biológica, dependente da primeira. É neste hiato que, como já se disse, se encontram os loucos, os comatosos e os animais. Agamben, Arendt e Foucault já se haviam socorrido da distinção de Aristóteles entre zôê, que exprime o simples facto de viver, comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses) e bios, que indicava a forma ou maneira de viver própria de cada indivíduo. Sobre isto, Agamben cita a seguinte passagem de Foucault:

"Durante milénios o homem foi sempre o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida de ser vivo. (...) Resulta daí uma espécie de animalização do homem realizada através das mais sofisticadas técnicas políticas. Dá-se então o aparecimento, na história, quer da multiplicação das possibilidades das ciências humanas e sociais, quer da possibilidade de proteger a vida e de autorizar que ela seja submetida ao holocausto" (Foucault)

Se existe um conflito político fracturante, uma luta de classes, ela faz-se nesta linha entre a vida e a morte, entes a classe dominante e os excluídos que são os loucos, comatosos, animais e fora-da-lei. Aliás, Baudrillard já referia o que foi por exemplo, a conquista social, no antigo Egipto, da imortalidade para todos:
No Egipto, lentamente, certos membros do grupo (os faraós, depois os sacerdotes, os chefes, os ricos, os iniciados da classe dominante), em função do seu poder, vão-se destacando como imortais; os outros têm direito apenas à morte e ao seu duplo. Por volta do ano 2000 a.c. cada qual acede à imortalidade: é uma espécie de conquista social, talvez arrancada À força; sem fazer história social/ficção, é fácil imaginar, no Egipto das Altas Dinastias, revoltas e movimentos sociais tendo como revindicação o direito à imortalidade para todos.

Chegamos então a uma noção de morte que se situa exactamente no meio de uma luta de poderes entre os homens, uma mortífera luta de classes marxista, e no meio uma linha difusa de demarcação social entre a classe privilegiada dos cidadãos vivos, participantes da vida pública, e os mortos (loucos, pobres, doentes e animais, na medida em que não participam da vida entre os homens), sempre em constante disputa. Aqui vale a pena fazer aqui um ponto de contacto com Freud, introduzindo o seu conceito de pulsão de morte de - Thanatos. Cito a carta fabulosa de Freud a Einstein, sobre o porquê de os homens andarem sempre em guerra desde os primórdios da humanidade:

No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta. (...) Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do facto de que à força superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos. (...) A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. (Freud)

Destas observações de Freud se compreende como existe um instinto de agressividade, pulsão de morte que funda e mantém a sociedade. Ou como disse Walter Benjamin, há a violência que funda o direito e a violência que o conserva.

Voltando ao início desta reflexão, retornamos à ligação entre direito e racionalidade, lei e consciência: o facto de termos uma consciência pensante é necessariamente fundada na lei da comunidade, que é na sua origem um acto de violência. Falando na linguagem de Foucault, somos introduzidos na vida quando nos dão um nome próprio, nos habituamos a ele, e aprendemos a responder quando as autoridades (pais, polícia, juiz) chamam por nós. É a isso que correntemente associamos o estarmos vivos: temos este corpo que come e respira e dizemos "este sou eu", o Joaquim, o António, etc. A morte é um estado que não se experimenta habitualmente senão por antecipação: é este medo de perder estes atributos e de "deixar de estar entre os homens". Já a morte dos outros que nos são próximos é vivida na forma de um abandono social, o deixar de poder conviver com aqueles com quem partilhamos nossas identificações e experiências.

Em contraponto temos Eros, a pulsão de vida do ser humano que impulsiona as identificações e ligações entre os homens. As duas pulsões, como explica Freud, não existem completamente separadas e o conflito entre Eros e Thanatos está presente nesta luta de classes entre a vida e a morte de uma forma paradoxal. Estar vivo significa viver dentro da sociedade sujeitos à violência da soberania da lei, que nos obriga a ter ter um nome, consciência pensante e regras de convivência. Estar morto é abandonar a violência da lei, mas viver uma outra violência que é o isolamento do resto da comunidade dos homens. Assim se entende que o luto é um sentimento semelhante ao de sermos abandonados. Como se diz em senso comum, nunca ninguém veio da morte para contar como é. Depois do que já foi aqui visto, facilmente se compreende que a morte é precisamente a impossibilidade de contar como é. Ou será isto mesmo assim? Vimos como os loucos são, segundo esta concepção, os mortos por excelência, aqueles que "não vivem entre os homens". E há aqueles que, como Artaud, viveram na ténue fronteira entre a vida pública em sociedade e o exílio da loucura no asilo, entre a vida e a morte. Artaud em Alienação e Magia Negra, fala-nos da experiência de ter estado internado e submetido a electro-choques:

Se não tivesse havido médicos
nunca teria havido doentes
nenhum esqueleto de morto,
nenhum doente para escortaçar e esfolar,
porque foi com os médicos e não com os doentes que a sociedade começou.

(...)

O Bardo é a morte, e a morte só é um estado de magia negra que ainda não há muito tempo não existia

Criar artificalmente a morte, como a actual medicina faz, é favorecer um refluxo do nada que nunca deu proveito a ninguém mas desde há muito tempo sacia certos oportunistas predestinados do homem.

Na realidade , desde há um certo tempo.

Qual?

Aquele onde tivemos de optar entre a renúncia de sermos homem ou um alienado evidente.

Mas quem garante aos alienados evidentes deste mundo que serão tratados por vivos autênticos?
Artaud

Quando Artaud nos fala em Bardo, trata-se de uma palavra tibetana que designa uma fenda ou transição entre a vida e a morte. De facto, como já falámos, só existe uma morte que é uma morte do eu e do ego, e só pode ser concebida uma separação clara entre vida e morte enquanto expressões de um eu e um ego individuais. E mesmo esta separação não é tão clara assim quando pensamos nas interligações entre Eros e Thanatos, e no conflito paradoxal entre a vida violenta da sociedade de leis, e da violência da morte que é viver isolado do mundo dos homens.
Aqui podemos seguir o trilho de Artaud, e verificar que a visão dos monges budistas tibetanos sobre a morte encaixa perfeitamente nesta visão que fomos desvendando até aqui. Podemos começar logo por lembrar que, para os tibetanos a reencarnação é uma realidade, e viver significa estar imbuído da ilusão de um eu individual separado de tudo o resto, sendo que a morte significa perder a ilusão desta separatividade. Ken Wilber no seu artigo Morte, Renascimento e Meditação, lembra-nos que na cultura tibetana,
"ao contrário da nossa cultura ocidental, vivem constantemente com a morte; as pessoas morrem nas suas casas, rodeadas pela família e pelos amigos. Daí que os verdadeiros estádios do processo de morrer já tenham sido observados milhares, até mesmo milhões, de vezes. E quando juntamos a tudo isto o facto de os tibetanos possuírem um entendimento bastante sofisticado da dimensão espiritual e do seu desenvolvimento, o resultado é um riquíssimo acervo de conhecimentos e sabedoria sobre o verdadeiro processo de morrer. (...) Seria claramente uma patetice da parte de um investigador sério ignorar a imensa quantidade de dados que a tradição tibetana acumulou. (Ken Wilber)

Uma das coisas que vale a pena salientar de imediato: a nossa ciência e técnica médica não foi assim tão original ao, através das técnicas de prolongamento da vida biológica, ter posto a nu a grande indeterminação daquilo que se pode considerar uma morte somática ou biológica, tanto que existem sistemas de meditação, particularmente os sikh (os santos Radhasoami) e o tântrico (hindu e budista), que contêm meditações muito precisas que acabam por imitar ou induzir as diversas fases do processo de morrer com grande precisão - incluindo a cessação da respiração, o corpo a ficar frio, o coração a abrandar e às vezes a parar, e por aí fora. (...) A pulsação pode mesmo ser parada durante um longo período, tal como a respiração. (Ken Wilber)

Assim, para os budistas, a morte não é um acontecimento do tipo binário, em que se está vivo e depois se está morto. A morte é um processo de vários estádios de dissolução do corpo e dos vários estádios de consciência. Na reencarnação, ao contrário do que se julga, os tibetanos consideram que nenhuma das nossas memórias, crenças e experiências sobrevivem ao processo de morte. O que sobrevive é um outro estádio de consciência mais básico e fundamental denominado rigpa. As memórias de vidas passadas só ocorrem com os Budas, sendo estes uma excepção à regra. (Mesmo esta reencarnação é, actualmente, fonte de uma disputa política interessante, pretendendo a China legalizar a reencarnação tibetana, para assim decidir quem será a próxima reencarnação do Buda, sendo este mais um exemplo da já anteriormente referida disputa política da mortalidade).
O caminho da libertação budista passa por adquirir uma compreensão dessa consciência mais fundamental e alcançar a iluminação. Isto significa ser capaz de perceber o nosso eu como ilusão da nossa separatividade, e escapar ao domínio do samsara (ciclo interminável da vida e da morte, da alegria e da dor, comparáveis talvez ao conflito freudiano entre Eros e Thanatos).

Assim, uma adequada compreensão e preparação para a morte significa o trabalho de toda uma vida. Como? Lembremo-nos da noção de Bardo, fenda ou transição entre a vida e a morte. Segundo o Livro Tibetano do Mortos, existem seis bardos, e a cada um deles corresponde um conjunto de ensinamentos: três bardos da vida e três bardos da morte. Os três Bardos da Vida são:
- a consciência ordinária a partir do momento em que nascemos até morrermos - esta vida
- o estado do sono e sonho
- o estado meditativo

Sobre este último vale a pena acrescentar o seguinte: a meditação é sempre, de certa maneira, uma morte do Ego, que começa por um frente a frente com a nossa torrente habitual do pensamento, aquilo que os budistas chamam vagabundagem da mente. O fim último da meditação passa por prescindir da ilusão da separação entre o Eu e a realidade. Não se veja isto como mero folclore new-age: estudos feitos com vários indíviduos de várias religiões em transe místico, mostram uma ausência de actividade numa zona do córtex parietal esquerdo, normalmente responsável por, entre outras coisas, pelo nosso mecanismo de propriocepção, ou seja, da percepção do nosso corpo e da sua independência em relação à realidade envolvente. Estes sujeitos em transe místico relatam uma sensação de fusão entre elas e o mundo.

Há então que fazer uma "vivência da morte", transcender o conflito entre Eros e Thanatos , operando então uma "morte da morte". Segundo os ensinamentos Zen, se se morre antes de morrer, então quando se morre não se morre.

"Não se morre porque é necessário morrer: morre-se porque é um hábito a que um dia se constrangiu a consciência, e ainda não há muito"
Raoul Vaneigem

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Inconsciente no Futebol, Freud, Deleuze e a Arte Zen do Tiro ao Arco

















No Sábado, no âmbito do meu estágio como Psicólogo no Futebol Clube do Porto, estive a observar o treino de uma turma de iniciação da escola Dragon Force, o que me suscitou algumas reflexões.
O treino começou com a treinadora a mostrar algumas habilidades com a bola que os alunos devem imitar. Numa delas, as crianças têm que, a meio do percurso com a bola, dar um toque súbito com a parte de fora do pé na bola, de forma a ficarem automaticamente virados para o lado contrário. Um dos alunos, o João, diz prontamente que “é fácil”, mas ele, como todos os outros, mostram imensa dificuldade neste exercício não tanto no gesto técnico em si, mas na sua sequência, na qual devem ficar orientados para o lado contrário do campo. A atenção delas, poder-se-ia dizer que está demasiado centrada na bola, e é difícil encarar uma outra perspectiva, de uma orientação geral no espaço do jogo. Para além de o sentido de orientação espacial não encontrar plenamente desenvolvido, a bola é, no momento em que jogam, o planeta delas, o centro do universo. O virar-se ao contrário, enquanto tocam na bola é uma operação prodigiosa, como virar o universo ao contrário. As crianças têm neste caso, de manter três perspectivas relacionais entre o corpo, a bola e o campo de jogo.
Conscientemente, é impossível manter estes três elementos presentes ao mesmo tempo. A solução passa por tornar inconsciente um dos termos da relação. À medida que começa a haver um domínio cada vez maior da bola, esta é como que introjectada, torna-se um elemento integrante da psique, sob a forma inconsciente. Só através do “esquecimento” da bola, é possível relacionarmo-nos com o campo de jogo de uma forma mais completa. Até lá, as crianças estão completa e conscientemente centradas na bola, ocupadas em estabelecer uma mecânica íntima com ela. Observando o jogo-treino destas crianças que não têm mais do que 5 anos, é possível verificar que nenhuma delas em algum momento retira o olhar sobre a bola para olhar para outros elementos do jogo, como a baliza e os outros jogadores. Aliás, o único momento em que o olhar se descentra da bola, é quando a criança está na sua posse, e a tem plenamente controlada, pois é o momento em que é necessário colocar a bola em relação com outros elementos do jogo. É através da integração e domínio da bola, que começa a táctica e os espaços, e as relações que a bola estabelece com estes.

É preciso inverter a fórmula freudiana segundo a qual onde era id, deve advir o ego. Para Freud, há demasiado inconsciente. É necessário pensar como Deleuze sugeriu, na medida em que é necessário “produzir inconsciente”. A única forma de “superar” a bola, é ter um domínio tal sobre ela que nos permita esquecermo-nos da mesma. Não é possível pensar a bola e jogá-la ao mesmo tempo. É preciso pensar o jogo e jogar a bola. A razão e a consciência operam sempre na separação entre sujeito e objecto. É preciso abolir esta separação e tornar a bola inseparável do sujeito. Como tal, é necessário uma habituação e uma aceitação plena da bola como extensão do próprio corpo. Inseguros do chão sobre o qual caminhamos, centramo-nos sobre o chão, não conseguindo olhar para o céu. Também se não se adquire esta “mecânica íntima” com a bola, não se consegue o desprendimento necessário para se poder olhar o jogo de forma completa.

Transcendendo as observações realizadas com estas crianças, poder-se-ia também fazer evoluir este raciocínio do futebol infantil para o futebol de alta competição da equipa-sénior do F.C. Porto. Senão, vejamos o que disse Jesualdo Ferreira a propósito do jogo da 1ª mão da eliminatória com o Manchester United: “Na altura, disse aos jogadores que tínhamos de ser tacticamente inconscientes. E fomos.” Para além da inconsciência da bola já referida, há um estádio mais avançado que é a própria inconsciência da táctica, que se adquire após muito treino e entrosamento de uma outra mecânica íntima do jogo. Quando os jogadores se habituam uns aos outros, em rotinas definidas e treinadas, o jogador deve ser capaz de se “esquecer” da táctica, de a tornar inconsciente. Superar a táctica é torná-la em acto sem mediação da razão consciente.

Estas obervações assemelham-se muito às realizadas por Suzuki, no prefácio do livro de Eugen Herrigel “Zen e a arte do tiro com arco”, acerca das lições de tiro ao arco com um mestre zen: “acima de tudo, pretende-se harmonizar o consciente com o inconsciente. (...) No que diz respeito ao tiro com arco, isto significa que atirador e alvo deixam de ser duas entidades opostas, para se unirem numa única realidade. (...) Este estado de não-consciência só é alcançado quando o arqueiro se desprende e liberta inteiramente do seu Ego, quando forma uma unidade com a perfeição da perícia técnica."

quarta-feira, 3 de junho de 2009

a crise já chegou a este blog

Venho por este meio anunciar que o "Born to be Wilde", caso não tenham reparado, está a ser fortemente afectado pela Crise, sendo que estamos actualmente em regime de layoff. Pede-se ajuda às entidades competentes para que sejam solidários neste momento de crise e, como tal, solicito que este blog seja nacionalizado, e que se injectem 34567 mil milhões de euros para tapar uns buracos. Este comunicado é feito em nome do patronato e dos trabalhadores, uma vez que se trata, neste caso, da mesma e única pessoa. Neste caso a luta de classes encontra-se terrivelmente individualizada, sendo que se assiste não propriamente a um confronto de massas entre burguesia e proletariado, mas sim entre consciente e inconsciente, o id e o ego. Poder-se-ia objectar que o id é uma instância meramente representativa, na medida em que há em mim, certamente, tantos milhões de pulsões e instintos quantos trabalhadores há no mundo, altamente revindicativos. Poder-se ia também dizer que meu ego, orgão superior executivo, está neste momento em forte negociações internas, a discutir soluções para a crise, pelo que não há espaço para investimentos económicos românticos de grande envergadura. Dada à manifesta impotência para lidar com a crise actual, recai grande pressão sobre o orgão legislativo, o Super-Ego, tendo este sido a instância responsável por abrir este regime de expepção e decretado este layoff. Assim, sem mais delongas, despeço-me com votos de tudo volte à normalidade o mais cedo possível, e que a produção possa ser retomada normalmente, assim que haja condições propícias.

sábado, 16 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Música para Escrever, ou Como Fazer um Poeta Segundo Chestov

Voltando após um período de ausência, venho responder ao comentário ao anterior post que lançou o desafio de "aconselhar música que catapulte a veia poética, ensaística ou estados de introspecção apropriados para a escrita". Ora, isso faz-me imensa confusão e lamento não saber dar uma resposta clara a esse respeito. Escolher música para futebolistas é mais simples, na medida em que é possível estabelecer uma associação de ritmos, tempos e movimento. O futebol vive de movimento corporal, físico, tal e qual uma dança. Jogar é dançar. Quanto à escrita, ela segue os tempos da imaginação e suas velocidades infinitas. São incontáveis possibilidades. Há milhões, infinitas possibilidades musicais que podem influenciar infinitos milhões de escritas possíveis. Não vale a pena estar a dizer que para escrever um poema moderno se deve ouvir Joy Division, que para escrever um haiku se deve ouvir jazz, que para escrever um poema místico se deve ouvir música indiana, que para escrever como o Nietzsche se deve ouvir Wagner, para escrever um guião de um filme sobre polícias e prostitutas se deve ouvir Tom Waits, ou que para escrever seja o que for não se deve ouvir coisa nenhuma, ou que para não escrever se deve jogar à bola, ou que para jogar xadrez se deve ouvir música de chuva. Descobrir uma música determinada que nos faça escrever alguma coisa é como apostar numa chave do euromilhões. É um tiro no escuro. Suponhamos que até temos sorte e esta semana achámos que era aquele número (música), ganhamos o prémio e ficamos ricos (escrevemos algo). O problema é que nada nos garante que aquela chave volte alguma vez a produzir novamente semelhante efeito. Ninguém sabe como é que se faz um escritor ou um poeta. Sobre isto, há uma passagem do Chestov que é esclarecedora:
(Tradução) Poetae nascuntur - Que maravilhoso é o homem. Não sabendo nada sobre isso, afirma a existência de uma impossibilidade objectiva. Mesmo há pouco tempo, antes da invenção do telefone e telégrafo, os homens teriam afirmado ser impossível na Europa conversar com a América. Agora é possível. Não podemos produzir poetas, por isso, dizemos que é de nascença. Certamente não podemos fazer de uma criança um poeta forçando-o a estudar modelos literários, do mais antigo ao mais moderno. Nem ninguém nos ouvirá na América não importa quão alto gritemos aqui. Para fazer um poeta de um homem, ele não pode ser desenvolvido por caminhos normais. Talvez se deva mantê-lo afastado de livros. Talvez seja seja necessário executar nele uma operação aparentemente perigosa. Fracturar-lhe o crânio ou atirá-lo da janela do quarto andar. Abstenho-me de recomendar estes métodos como um substituto da pedagogia. Não é esse o ponto. Olhemos os grandes homens e os poetas. Excepto John Stuart Mill e alguns outros pensadores positivistas, que tinham pais experientes e mães virtuosas, nenhum dos grandes homens pode orgulhar-se, ou melhor, queixar-se, de uma educação apropriada. Nas suas vidas, quase sempre um papel decisivo foi desempenhado pelo acaso, acidente que a razão tornaria sem sentido, caso a razão pudesse alguma vez desafiar e levantar a sua voz contra o êxito evidente. Algo como uma crânio partido ou uma queda do quarto andar — não de forma metafórica, mas muitas vezes de forma absolutamente literal, comprovou ser o começo, normalmente escondido mas ocasionalmente admitido, da actividade dos génios. Mas repetimos automaticamente: poetae nascuntur, e convencemo-nos profundamente que esta verdade extraordinária é tão alta ele precisa de nenhuma verificação.
Leon Chestov


De qualquer maneira, e para não fazer com que ninguém caia de uma varanda abaixo vou sugerir algo: "Trouble with imnpressionists" com Lou Reed e John Cale, numa homenagem a Andy Warhol:

terça-feira, 28 de abril de 2009

Rock e Futebol


No âmbito do meu estágio enquanto psicólogo do Futebol Clube do Porto, tive oportunidade de fazer parte da comitiva que levou uma equipa do escalão 97/98 da escola Dragon Force, ao torneio Rui Caçador em São Pedro do Sul, Viseu. Foi no sábado, dia 25 de Abril. Neste torneio todas as equipas realizaram dois jogos. Fomos bem recebidos, quer eu, quer jogadores e treinador. Relato isto na medida em que tive uma oportunidade de realizar uma intervenção a título experimental, que passou pela junção de rock e futebol. Antes do jogo, no balneário, e a seguir à palestra do treinador, propus aos jogadores que, ao som de Guerrilla Radio dos Rage Against the Machine, abanassem a cabeça, saltassem e dançassem à vontade. O objectivo passava por promover sentimentos de alegria, segurança, confiança e positividade no momento anterior à competição. Há estudos que demonstram que a música pode ter efeitos sobre os níveis de excitação (Lukas, n.d.; Nilsson, Unosson, & Rawal, 2005), motivação (Karageorghis & Terry, 1997) e ajudar a melhorar performances atléticas (Dorney & Goh, 1992; Karageorghis & Terry, 1997; Krumhansl, 2002).
Blood, Zatorre, Bermudez, and Evans (1999) dizem que nossas emoções estão ligadas à música por intermédio da memória e de processos de associação. A expressividade da música tem muito que ver com o seu poder de evocar experiências emocionais imaginativas.
Quanto ao tipo de música, Krumhansl (2002) refere que quando se ouve música dançável de tempos rápidos, a emoção básica mais comum é a alegria. No estudo de Sorenson, L., Czech, D.R., Gonzalez, Klein, S.J., Lachowetz, T. (2008), fizeram entrevistas a vários jogadores de futebol, ténis e futebol americano acerca da sua relação com o uso da música no desporto, tendo alguns dado alguns testemunhos:
“É a batida. É algo que me faz mexer mais rápido.” ; Segundo este estudo, os participantes usavam a música para aumentar a excitação antes do jogo, por o corpo a mexer e o sangue correr, assim como dar energia e agressividade em determinados instantes.

Assim, fechando as janelas do balneário, através de umas pequenas colunas ligadas ao leitor de MP3, pude participar em primeira mão de um balneário em polvorosa com jovens jogadores em ebulição, saltando, trepando às paredes, aos encontrões, berros e mosh uns em cima dos outros.

No fim pedi aos jogadores que entrassem em campo com aquele espírito. Que fizessem um jogo com rock. Saíram do balneário para o aquecimento e de seguida cilindraram o adversário por 9-0. Procedeu-se da mesma forma no segundo jogo, à tarde, tendo o mesmo sido mais equilibrado, ficando-se pelos 3-0 com um excelente golo de canto directo. Não sei se o rock melhorou o futebol da equipa, mas foi sem dúvida uma boa experiência. Quem quiser saber mais, aconselho a leitura deste artigo.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Democracia Representativa segundo Albert Cossery

"- Ora ouve! O caso passou-se há pouco tempo, numa aldeola do Baixo Egipto, durante as eleições para a junta de freguesia. Quando os funcionários do Governo abriram as urnas, notaram que na maioria dos boletins de voto estava escrito o nome Bargute. Ora os ditos funcionários do Governo não conheciam tal nome, que não figurava na lista de nenhum partido. Inquietos, logo se puseram à cata de informações; e acabaram por saber, pasmados de todo, que Bargute era o nome dum burro por quem toda a gente da aldeia nutria muita estima, por via da sabedoria do animal. Quase todos os moradores tinham votado nele. Que me dizes tu a esta história? Gohar respirou com júbilo; sentia.se extasiado. «São ignorantes e iletrados», disse para consigo, «e no entanto acabam de fazer a coisa mais inteligente conhecida no mundo desde que há eleições». O comportamento destes camponeses perdidos no cu de Judas constituía o reconfortante testemunho sem o qual a vida se tornaria impossível. Gohar sentia-se derretido de admiração. (...) - Admirável - exclamou Gohar. - E como acaba a história? - É claro, não foi eleito. Estás tu a ver, um burro de quatro patas! O que eles queriam, lá os do governo, era um burro só de duas patas."

Albert Cossery em Mendigos e Altivos

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sobre Darwin e a Evolução: Síntese - Simbiogénese, Teilhard Chardin e Chesterton

Vimos no post anterior como Darwin foi recebido de forma ambivalente por Marx e Engels. Se, por um lado, as descobertas de Darwin situam a evolução da espécie humana como o resultado de sucessivas e intermináveis mutações e transformações, que suporta a visão dialéctica marxista da história, por outro lado criticam a visão próxima de Malthus e Hobbes, que vê a evolução como resultado da selecção natural fundada numa luta pela sobrevivência através da competitividade egoísta.
Engels é aliás bastante preciso sobre esta última questão nas cartas a Pyotr: "Da doutrina Darwiniana aceito a teoria da evolução, mas o método de prova de Darwin (luta pela sobrevivência, selecção natural), considero-a apenas uma primeira expressão imperfeita e provisória de um facto recentemente descoberto. (...) A interacção de corpos na natureza - animados e inanimados - inclui tanto harmonia como colisão, disputa e cooperação.

As pertinentes observações de Engels encontraram eco nas descobertas posteriores do biólogo russo Constantin Merezhkovsky que introduziu à 100 anos, em 1909, o conceito de simbiogénese que é definido como a origem de organismos pela combinação ou associação
de dois ou vários seres através de processos simbióticos. A simbiogénese é um mecanismo evolutivo e simbiose o veículo através do qual esse mecanismo ocorre.

As nossas células, por exemplo, são um exemplo de simbiogénese: todas as células animais contém mitocôndrias, que são o que produz energia para os nossos organismos. A mitocôndria é abastecida pela célula que a hospeda por substâncias orgânicas como oxigénio e glicose, as quais processa e converte em energia sob a forma de ATP que devolve para a célula hospedeira. Acontece que, originariamente, as mitocôndrias existiam isoladas foram das células que nós conhecemos e de que somos feitos. Através deste casamento feliz, pôde-se desenvolver toda a vida animal como a conhecemos.

Se Merezhkovsky a princípio se opunha à selecção natural de Darwin, actualmente aquilo que se chama de Neo-Darwinismo faz a síntese entre estas duas perspectivas. Assim, o motor da evolução da história natural seriam estas duas "forças" que se complementam: uma competitiva e outra cooperativa. Serão estas duas forças correspondentes às pulsões de vida e de morte de Freud? Teriámos por um lado Thanatos, o instinto da vontade de domínio e poder sobre os restantes espécimes em complemento a Eros, a procura do prazer e da profusão da espécie. Aliás, uma das tópicas de Darwin menos conhecidas, é precisamente a noção de selecção sexual, que é um outro mecanismo à parte em conjunto com a selecção natural, que explicaria muitos da evolução humana. A selecção sexual, seria o momento menos conhecido de Darwin onde ele é mais "Freudiano".

Depois de vermos tambem a analogia que Deleuze fez entre a selecção natural de Darwin e o princípio da realidade de Freud, poderíamos também associar o princípio do prazer à simbiogénese, normalmente mais ligado a pequenas partículas, e assim estender os conceitos de amor e desejo à matéria ínfima. Poderíamos aplicar o princípio do prazer à associação entre células e respectivas mitocôndrias. Na verdade, na visão evolucionista, o homem perde seu lugar privilegiado no centro do da natureza e da cosmogonia. E isto é um choque para o narcisismo e megalomania do homem, como bem adverte Freud. Isto tem consequências para a visão teocêntrica do universo, segundo a qual o mundo seria feito por um Deus transcendente, figura paterna que teria no Homem o seu "filho preferido".

É claro que muitos indivíduos, povos e culturas não estão ainda, mais de um século depois, preparados para aceitar todas as consequências da teoria da evolução. Ela significa que deixamos de poder dispor de uma mitologia que nos garante uma ideia de Eu fixa e determinada, através de um passado e um futuro bem definidos.

Neste campo, a ideia dos criacionistas é tentar preservar a cosmogonia simpática segundo todos nós viemos de Deus e voltaremos um dia para Deus. O que aqui está em causa é uma visão do ser humano como algo de fixo e imutável. Relaciona-se com uma ideia estável de Eu, que se define por ideias eternas e determinadas. Isto é uma perspectiva perfeitamente racionalista. Aliás, o próprio nome da teoria que oferecem em contraponto com a teoria da evolução, é revelador: Intelligent Design. Design Inteligente. O universo é algo que foi feito de uma forma planeada, pensada, controlada. Assim sendo, não é justo acusar os criacionistas de fanatismo ou algo que se pareça. Pelo contrário, o criacionismo é uma ideologia do mais extremo racionalismo. Encaixa na análise que Zizek faz quando diz que Deus é uma excepção consitutiva, um milagre, que permite com que o resto do mundo seja completamente racional. A teoria da evolução é sim, uma teoria bastante mais poética e milagrosa, como Chestov nos mostra quando, baseando-se nela, uma pedra se pode transformar numa planta, e uma planta num animal e, assim sucessivamente, tudo é possível.

Teilhard Chardin viu na teoria da evolução todo este potencial poético, milagroso e divino. Tentou fazer uma síntese entre o Cristianismo e a teoria da evolução. Para Chardin, se o mundo era concebido como algo fixo, acabado, como um sistema de elementos estáveis
em equilíbrio fechado, o mundo deixa de ser visto como algo estático para ser descrito como uma massa em vias de transformação. O universo é um processo de evolução e vai convergindo, à medida que a evolução avança, para formas cada vez mais organizadas. Teilhard denomina esse fenómeno de Cosmogénese.

É esta teoria da evolução levada às últimas consequências que inaugura a ideia de progresso, e o endeusamento do futuro ou, como diz Deleuze, o tempo deixa de ser curvado por um Deus que o fazia depender do movimento. (...) Tudo aquilo que se move e se altera está no tempo, mas o próprio tempo não se altera, não se move, nem sequer é eterno.

Não será isto a ideia de Chesterton de que trocámos a adoração do passado pelo endeusamento do futuro? Só neste contexto é que se cria o lugar para o surgimento da chamada ficção científica: o romance do futuro. Em vez de as histórias se contarem num "Há muito tempo atrás...", passam a ser contadas na fórmulas "daqui a muitos milhares de anos" Há um artigo de Chesterton, do início do séc. XX, que resume as consequências da teoria da evolução na modernidade. Chama-se The Fear of the Past:

The last few decades have been marked by a special cultivation of the romance of the future. We seem to have made up our minds to misunderstand what has happened; and we turn, with a sort of relief, to stating what will happen- which is (apparently) much easier. The modern man no longer presents the memoirs of his great grandfather; but is engaged in writing a detailed and authoritative biography of his great-grandson. Instead of trembling before the specters of the dead, we shudder abjectly under the shadow of the babe unborn.

(Tradução: As últimas décadas foram marcadas por um especial cultivo do romance do futuro. Parece que nos convencemos a distorcer o que aconteceu; e viramo-nos, com uma espécie de alívio, para dizermos o que vai acontecer - o que é (aparentemente) bastante mais fácil. O homem moderno já não apresenta as memórias dos seus avós; mas está empenhado em escrever uma biografia detalhada e autoritária dos seus netos. Ao invés de tremer face aos espectros dos mortos, temos um medo abjecto da sombra dos bebés por nascer.)

Vale a pena ler aqui o texto completo deste fantástico ensaio de G. K. Chesterton. Termino (re)lembrando as palavras do sociólogo polaco Zygmunt Baumann:

"A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torna mais ambiciosa e aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. (...) Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro mas desvalorizar o presente. O presente está sempre "a querer", o que o torna feio, abominável e insuportável."

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre Darwin e a Evolução: Marx, Engels, Lenine, Freud, Deleuze e Chestov

"Darwin, que estou neste momento a ler, é absolutamente esplêndido. Havia um aspecto da teleologia que faltava ser demolida, e isso agora encontra-se realizado. Nunca anteriormente foi feita uma tentativa tão grandiosa de demonstrar a evolução histórica na natureza, ou pelo menos de forma tão feliz. Temos, claro, que aturar o cru método inglês. (...) "É notável como Darwin reconhece entre animais e plantas sua sociedade inglesa com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, 'invenções' e a 'luta pela existência' malthusiana. É o 'bellum omnium contra ommnes' (guerra de todos contra todos) de Hobbes, e lembra a Fenomenologia de Hegel onde a sociedade civil é descrita como um 'reino animal e espiritual', enquanto em Darwin o reino animal figura como sociedade civil".
Cartas de Marx a Engels entre 1859 e 1860

"Darwin não sonhou sequer em dizer que a origem da ideia da luta pela existência era a teoria de Malthus. O que ele diz é que a sua teoria da luta pela existência é a teoria de Malthus aplicada a todo mundo vegetal e animal. Por maior que fosse o deslize cometido por Darwin de aceitar, na sua ingenuidade, a teoria malthusiana, vê-se logo, a um primeiro exame, que, para se perceber a luta pela existência na natureza – que aparece na contradição entre a multidão inumerável de germes engendrados pela natureza, em sua prodigalidade, e o pequeno número desses germes que podem chegar à maturidade, contradição que, de fato, se resolve em grande parte numa luta, às vezes extremamente cruel, pela existência – não há necessidade das lunetas de Malthus. E, assim como a lei que rege o salário conservou o seu valor muito tempo depois de estarem caducos os argumentos malthusianos sobre os quais Ricardo a baseava, a luta pela existência pode igualmente ter lugar na natureza sem nenhuma interpretação malthusiana. De resto, os organismos da natureza têm, também eles, as suas leis de população, que estão pouco estudadas, mas cuja descoberta será de importância capital para a teoria do desenvolvimento das espécies. E quem, senão Darwin, deu o impulso decisivo nessa direção?"
Carta de Friedrich Engels a Pyotr Lavrov

“Tal como Darwin pôs um fim à visão das espécies animais e de plantas como sendo desconectadas, fortuitas, 'criadas por Deus' e imutáveis, e tendo sido o primeiro a colocar a bilogia numa base absolutamente científica através do estabelecimento da mutabilidade e da sucessão das espécies, assim Marx pôs fim à visão da sociedade como agregação de indivíduos sujeitos a todos os tipos de modificações sob a vontade das autoridades (ou, se quisermos, sob a vontade da sociedade ou governo) que emergem e mudam casualmente, tendo sido o primeiro a colocar a sociologia numa base científica, através do estabelecimento do conceito da formação económica da sociedade como soma total das relações de produção, estabelecendo o facto de esse desenvolvimento ser um processo da história da natureza."
Tradução de Lenin’s Collected Works, Vol. 1

"No decorrer dos séculos, o ingénuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época actual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem sequer em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente."

Sigmund Freud em "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, 1917"

A grande novidade de Darwin talvez tenha sido a de instaurar o pensamento da diferença individual. (...) O problema de Darwin apresenta-se em termos muito semelhantes àqueles de que Freud se servirá noutra ocasião: trata-se de saber em que condições pequenas diferenças, livres, flutuantes ou não ligadas, se tornam diferenças apreciáveis, ligadas e fixas. Ora, é a selecção natural, desempenhando verdadeiramente o papel de um princípio da realidade e mesmo de sucesso, que mostra como diferenças se ligam e se acumulam numa direcção, mas também como elas tendem cada vez mais a divergir em direcções diversas e mesmo opostas.

Gilles Deleuze em Diferença e Repetição

"A=A. Dizem que a lógica não precisa deste postulado e que poderia facilmente desenvolvê-lo por dedução. Penso que não. Pelo contrário, na minha opinião, a lógica não poderia existir sem esta premissa. Ao mesmo tempo, ela tem uma origem puramente empírica. No mundo dos factos, A é sempre mais ou menos igual a A. Mas poderia ser de outra forma. O Universo poderia ser constituído de forma a admitir as mais fantásticas metamorfoses. Aquilo que agora é igual a A, seria sucessivamente igual a B e a C, e por aí em diante. De momento uma pedra permanece durante bastante tempo como pedra, uma planta como uma planta e um animal como animal. Mas poderia acontecer a pedra transformar-se numa planta diante dos nossos olhos, e a planta num animal. Que não existe nada de impensável nesta suposição, é provado pela teoria da evolução. Esta teoria apenas coloca séculos no lugar de segundos.

Lev Chestov traduzido de "All things are possible"

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Bob Dylan e Deleuze



Como professor, gostaria de fazer um curso tal como Dylan compõe uma canção, assombroso produtor mais do que autor. E que comece como ele, num instante, com a sua máscara de clown, com uma arte que coloca cada detalhe no sítio exacto, e que, no entanto pareça improvisada. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma longúissima preparação, mas sem método nem regras ou receitas.
Gilles Deleuze

terça-feira, 24 de março de 2009

Tempo, Causalidade e Memória

"Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde elas estão. Se ainda o não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras nem pretéritas nem presentes. Pois, se também aí são futuras, ainda lá estão; e se nesse lugar são pretéritas, já lá não estão. Por conseguinte, em qualquer parte onde estiverem, quaisquer que elas sejam, não podem existir senão no presente. Ainda que se narrem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata, não os próprios acontecimentos que já decorreram, mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles factos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígios."
Santo Agostinho

Num dos livros pretos de Gonçalo Tavares, A máquina de Joseph Walser, a personagem principal (Joseph Walser) sofre de amores por uma perigosa máquina da fábrica onde trabalha. Um dia, ao manejar a máquina, perde o dedo indicador da mão direita. Joseph Walser, nas suas apostas com dados, começa a jogar com a mão amputada e a sua sorte no jogo melhora.

(...) Walser considerava a sua sorte recente como um mistério, e esse mistério significava uma abertura para um mundo diferente, um mundo que ainda não conhecia. Aquela ligação entre acontecimentos - um dedo a menos: mais sorte no jogo de dados - não era ainda, para Walser, catalogável e compreensível. Onde colocar esta ligação? Como classificar a ponte que existia entre estes dois factos? Que acontecimento deveria Walser designar como causa e como efeito? E se um não era efeito ou causa do outro, onde os colocar e a que outros factos se poderiam ligar estes?

Trata-se aqui de aquilo que se pode chamar de coincidência, cujo maravilhamento característico provém da inabilidade ou impossibilidade de atribuir um relação de nexo causal a dois acontecimentos simultâneos. Sobre coincidências já me referi aqui uma vez: são momentos que abalam as nossas atribuições de causalidade e, consequentemente, abrem um buraco na nossa noção de tempo. Nesses momentos, o tempo deixa de existir. Abre-se um buraco na sequenciação lógica e contínua dos acontecimentos vividos.
Isto está relacionado com o grau de simultaneidade dos acontecimentos. Se o acidente com a mão de Walser acontecesse, digamos, dois anos antes da maré de sorte nos dados, a Walser não ocorreria que estes acontecimentos estivessem de alguma forma ligados entre si. Mas no momento em que há uma simultaneidade entre a mão amputada e a maré de sorte, surge o mistério em todo o seu esplendor.

Para esclarecer isto, há uma experiência científica de Ernst Pöppel que nos elucida mais um pouco esta questão:

"Damos uns auscultadores ao sujeito da investigação e tocamos separadamente em cada ouvido um som de pouca duração. Os estímulos acústicos escolhidos só devem demorar um milésimo de segundo cada um. Quando os ouvidos esquerdo e direito são estimulados "simultaneamente", quer dizer, quando não se pode medir a diferença entre o som do lado esquerdo e o do lado direito, então o sujeito da investigação não ouve dois sons como poderíamos imaginar, mas apenas um.

O tempo médio necessário para se estabelecer a distinção entre dois acontecimentos e sair do que o autor chama de "janela da simultaneidade", foi de 4,5 milésimos de segundo.
Contudo, uma coisa é distinguir entre um ou dois estímulos. Já decidir qual é o primeiro e qual o segundo, demora mais algum tempo:

"Apesar de se poderem ouvir dois sons distintos, tem de decorrer, a partir de mais ou menos quatro milésimos de segundo, um lapso de tempo que corresponde ao décuplo, até se ter a certeza sobre qual foi o primeiro som e qual o segundo. Precisamos, portanto, de consideravelmente mais tempo para a identificação de um acontecimento acústico, do que para resolver o problema da distinção entre unidade e dualidade.

Estes tempos, no entanto, são cada vez mais maiores para os diferentes sentidos: visão, tacto, etc. Assim, uma das conclusões deste cientista é que o sentido da audição (o primeiro a senvolver-se, ainda no ventre materno), é o primeiro, mais eficaz e mais rápido a distinguir a ordenação temporal dos estímulos. Por outro lado, a descodificação de estímulos sonoros e a regulação temporal dos acontecimentos acontece no lado esquerdo do cérebro, num local também ligado às àreas da linguagem.

Ernst Popël diz-nos que em primeiro lugar, há uma distinção entre o que é simultâneo e o que não é simultâneo. Depois há uma identificação dos acontecimentos que cria as condições para que estes se ordenem em séries. Há depois um mecanismo de integração que condensa acontecimentos sucessivos em formas presentes. Finalmente, julgamos a duração segundo o que vivemos e o que nos ficou na memória. Só através de todos estes mecanismos chegamos à consciência comum, que organiza os acontecimentos em passado, presente e futuro.

A construção do tempo, é assim algo de complexo, composto por mecanismos fisiológicos e sensoriais básicos que se combinam com outro tipo de mecanismos mais especificamente humanos como é o caso da memória. Isto tem algo a ver com o que diz Deleuze em Diferença e Repetição, acerca do tempo. Deleuze fala-nos do tempo como síntese. E existem sínteses passivas e sínteses activas. Existem aliás, diversos níveis de sínteses passivas orgânicas, sensoriais, perceptivas, que poderíamos aqui fazer corresponder ao que Poppel se refere como identificação dos acontecimentos, ou casos, que criam as condições para que estes se ordenem em séries. Todas estas sínteses passivas, estes "ordenamentos" possibilitam a construção da memória que é já da ordem da sínteses activas, assim como a reflexão e o entendimento.

O tempo só se constitui na síntese originária que incide sobre a repetição dos instantes. Esta síntese contrai uns nos outros os instantes sucessivos independentes. Ela constitui, desse modo, o presente vivido, o presente vivo; e é neste presente que o tempo se desenrola. É a ele que pertence o passado e o futuro: o passado, na medida em que os instantes precedentes são retidos na contracção; o futuro, porque a expectativa é a antecipação dessa mesma contracção. O passado e o futuro não designam instantes, distintos de um instante supostamente presente, mas as dimensões do próprio presente, na medida em que ele contrai os instantes. O presente não tem de sair de si para ir do passado ao futuro. O presente vivo vai, pois, do passado ao futuro que ele constitui no tempo, isto é, também do particular ao geral, dos particulares que ele envolve na contracção, ao geral que ele desenvolve no campo da sua expectativa. (...) Sob todos os aspectos, esta síntese deve ser denominada síntese passiva. Apesar de constituinte, nem por isso ela é activa. Não é feita pelo espírito, mas faz-se no espírito que contempla, precedendo toda a memória e toda a reflexão.

Estas sínteses passivas combinam-se depois com as sínteses activas formando depois um conjunto da síntese global do tempo:

A partir da da impressão qualitativa da imaginação, a memória reconstitui os casos particulares como distintos, conservando-os no "espaço de tempo" que lhe é próprio. O passado, então, não é mais o passado imediato da retenção, mas o passado reflexivo da representação, a particularidade reflectida e reproduzida. Correlativamente, o futuro deixa também de ser o futuro imediato da antecipação para se tornar no futuro reflexivo da previsão, na generalidade reflectida no entendimento (o entendimento proporciona a expectativa da imaginação em relação ao número de casos semelhantes distintos observados e lembrados). Quer isto dizer que as sínteses activas da memória e do entendimento se sobrepõe à síntese passiva da imaginação e se apoiam nela. (Deleuze)

O passado e o futuro não existem. O que existem são movimentos que nos provocam retenções e previsões. Assim, as nossas sínteses passivas, que passam pelas necessidades do nosso rim e pelas expectativas das nossas enzimas, formam um presente vivo contemplativo que guarda retenções e projecta previsões segundo regras simples de ordenamento, repetição e associação. Porém, o que nos distingue de plantas e animais são nossas memórias, que têm a possibilidade de serem articuladas com o entendimento, fazendo de nós tanto bichos de grande liberdade e ao mesmo tempo de grande angústia. As nossas expectativas conduzem-nos a ver e a fazer determinadas coisas, a viver a vida de determinado ângulo... Mas aquilo que colocamos no futuro são sínteses activas de blocos de memória que temos agora ao nosso dispor. Sempre que evocamos alguma memória estamos a reconstruí-la. Todas as vezes. Só existe o agora, e tudo são velocidades. O ser humano tenta compor uma dança, uma música. Mexemo-nos toda a vida sem parar. Aprendemos movimentos, no fundo comunicamos para poder dançar a vida. Para ser um com o mundo precisamos de saber a nossa parte da dança, participando assim do milagre da existência. O bicho humano tem a tentanção em si de tentar saber de antemão a música inteira do universo. Essa tentação é a sua grandeza e a sua perdição, tal como a centopeia que cai ao chão quando tenta pensar como é que anda com todos os seus 100 pés.

"Esquecerei as coisas passadas. Preocupar-me-ei, sem distracção alguma, não com as coisas futuras e transitórias, mas com aquelas que existem no presente."
Santo Agostinho

(Isto há-de continuar: este texto é uma promessa de futuro, e um passado já consumado)

sexta-feira, 13 de março de 2009

O "frangos" de Helton e os Deuses do Futebol

Num estudo realizado com jogadores de futebol do clube brasileiro SC Internacional, questionaram-se os motivos que levaram à escolha do futebol como profissão. Para além da influencia da família e do desejo de enriquecer, a maioria (50%) dos jogadores tinha como principal motivação a crença num dom para o futebol. Como disse um dos jogadores, "Além da vontade, Deus me deu o dom".

Helton, o guarda-redes brasileiro do FC Porto após um recente jogo em que deu o que se costuma chamar de frango: "Concentração há sempre, infelizmente há quem torça contra, mas é tempo perdido. Deus está no comando. Eu sigo em frente, sempre dando o melhor"




O psicanalista português Jaime Milheiro, numa conferência sobre "O Homem e os Jogos" diz que "um jogador a sério tem sempre o telefone ligado para os deuses pois os deuses garantem que a próxima jogada é a boa. (...) O jogador não luta com os homens, como um invejoso. O invejoso luta continuamente com os homens, mesmo que não dê por isso. É uma mediocridade. (...) O jogador luta num sistema muito mais grandioso em que os seus opositores, ou os seus favorecedores, se quisermos, são os deuses (...)"

Isto faz lembrar o que disse uma Kierkegaard em Fear and Trembling:
"No! No one shall be forgotten who was great in this world; (...) They shall all be remembered, but everyone was great in proportion to the magnitude of what he strove with. For he who strove with the world became great by conquering the world, and he who strove with himself became great by conquering himself; but he who strove with God became great greater than all. Thus there was strife in the world, one against thousands, but he who strove with God was greater than all"

(Tradução: Não! Ninguém será esquecido entre os que foram grandes no mundo; (...) Todos serão lembrados, mas todos na proporção da magnitude daquilo com que lutaram. Pois aquele que lutou com o mundo tornou-se grande ao conquistar o mundo, e aquele lutou consigo mesmo tornou-se grande ao conquistar-se a si mesmo; mas aquele que lutou com Deus tornou-se o maior de todos. Assim, havia luta no mundo, um contra centenas, mas aquele que lutou com Deus tornou-se o maior de todos")

sexta-feira, 6 de março de 2009

Psicanálise do Casamento Homossexual

Houve no parlamento lugar a um debate acerca dos casamentos entre homossexuais. O nível do debate foi muito baixo ao nível da sensibilidade e profundidade que se pode dar ao tema. Os defensores dos ditos casamentos argumentam que se trata de uma questão de direitos civis e de igualdade. Considero que não seja esse o ponto fundamental a ser discutido. Aliás, do ponto de vista político e económico, é uma questão menor. Não quero dizer com isto que sou contra os ditos casamentos. O que acho é que a única vantagem que os homossexuais retiram desse diploma é que estes passam a contar com determinados benefícios fiscais. Não deixa de ser legítimo, mas a questão é outra. O que os homossexuais pretendem realmente é a legitimação da sua orientação sexual, o que é um aspecto decorrente de uma forma de neurose, já que há uma conflito decorrente da tentativa de moldar as nossas pulsões sexuais a um objecto fixo e definitivo. Já anteriormente me referi aqui à questão da homossexualidade do ponto de vista psicanalítico, mas deixo aqui mais alguns apontamentos. Para Freud somos todos bissexuais. Todos mantemos relações afectivas com homens e mulheres e todos temos a possibilidade de retirar prazer dessas relações. Para Jung, o homem tem um anima, uma parte mulher dentro de si, e todo a mulher tem um animus, uma parte homem. O problema surge quando existe a necessidade de moldarmos as nossas inconstantes pulsões sexuais segundo conceitos abstractos rígidos e castradores. A homossexualidade e a heterossexualidade, à partida não existem. São identidades que é necessário construir. Do ponto de vista do desenvolvimento infantil as coisas passam-se mais ou menos segundo este esquema:

Infância (0-5 anos)___________________Bissexualidade

Quando nasce, um bebé olha para o corpo da mãe como sendo o prolongamento do seu próprio corpo, sendo que essa separação é gradual, à medida que a criança se vai tornando fisicamente mais autónoma. Com esta autonomização motora gradual, surge uma necessidade de explorar o mundo externo, sendo que se vai apercebendo aos poucos da sua individualidade face à mãe e ao mundo externo. Até aos 5 anos, as crianças investem afectivamente todo a realidade e o campo familiar de forma indiferenciada e exploratória.

Latência (6-11 anos)___________________Homossexualidade estruturante

Este período é particularmente importante para as nossas reflexões sobre a homossexualidade. Entre os 4 e 5 anos dá-se o complexo de Édipo/Electra, sendo que este processo começa mais cedo, antes de mais pela percepção da diferença de sexos. Resolvido este conflito, a criança começa a ganhar a noção de pertença a um género. É aliás o primeiro sentimento de pertença a um grupo: o do sexo. O período de latência é aquele período em que os rapazes só andam com rapazes e as raparigas só andam com raparigas. Os rapazes têm "nojo" das raparigas e estas acham os rapazes "parvos e porcos". É o que Freud chama de homossexualidade estruturante, situação típica do período de latência que Freud caracteriza assim:
"é no período de latência total ou parcial que se constituem as forças psíquicas que mais tarde farão obstáculo às pulsões sexuais e, à semelhança de diques, vão limitar a sua evolução (desagrado, pudor, aspirações morais e estéticas). (...) No período de latência as tendências sexuais são desviadas do seu uso próprio e aplicadas a fins diferentes, processo a que se dá o nome de sublimação, um dos pilares em que assenta civilização"

Adolescência/idade adulta (>12 anos)________Neurose

Com a puberdade e a adolescência, as crianças desenvolvem seu corpos, tornam-se homens e mulheres com seus caracteres sexuais principais e secundários plenamente desenvolvidos. A reprodução é possível e os adolescentes só pensam em duas coisas: sexo e sexo. É também nesta idade que se consuma uma noçao de identidade, de eu, mais definida, com uma estrutura neurótica já bem desenvolvida. Há nesta idade um conflito entre a preservação de uma identidade recém adquirida, e uma necessidade de uma abertura para a alteridade, para capacidade de, após a homossexualidade estruturante do período de latência, voltar a haver interesse pelo mundo do sexo oposto. O sexo oposto surge como um grande mistério e diferença absoluta que atrai.

Erich Fromm diz que "o desvio homossexual é o fracasso em atingir essa união polarizada, e por isso o homossexual sofre a dor da separação,nunca solucionada, fracasso, entretanto, de que com ele compartilha o heterossexual comum que não consegue amar."
Fromm refere-se então ao homossexual como uma neurose partilhada com o heterossexual comum, relativamente à incapacidade de amar em pleno, fruto da dificuldade de relacionamento com a anima e animus, os caracteres do sexo oposto presentes em cada um de nós. O homem neurótico heterossexual responde muitas vezes a este conflito através da homofobia, evitando adoptar ou mostrar simpatia com características femininas. O homem homossexual responde às suas sensibilidades femininas também de uma forma desconfortável, gerando dúvidas que são fruto de dualismos mentais rígidos. Assim, homens e mulheres altamente racionalistas, são mais propensos a dúvidas típicas de homossexuais. Não é por acaso que muitas das características de um homem homossexual, tais como a parcimónia na limpeza, a organização, obsessões e rituais, são típicas de uma neurose obsessiva, que se caracteriza por uma excessiva racionalização da vida afectiva. Neste esquema, as dúvidas em relação a aspectos básicos da identidade sexual são difíceis de gerir. Ferenczi chegou a fazer uma distinção entre homossexuais da seguinte forma: o "homo-erótico, subjectal", que sente e se comporta como uma mulher, e o "homo-erótico, objectal", completamente masculino, e que apenas trocou um objecto feminino por um masculino. Os primeiros denominou de "intermediários" e os segundos denominou precisamente de "neuróticos obsessvivos". Contudo, esta distinção parece-me algo dicotómica, eliminando a vivência da ambivalência entre estes dois modos. Freud referiu-se a essa distinção da seguinte forma: "reconhecemos a existência destes dois tipos, acrescentamos que há muitas pessoas em quem se encontra uma certa quantidade de homo-erotismo subjectal combinada com certa proporção de homo-erotismo objectal"

O "sair do armário", a assumpção e identificação com o papel homossexual é um passo que tenta resolver a ambivalência, mas que não resolve o conflito. Há posteriormente, uma necessidade de reconstruir toda uma identidade nova. Frequentemente relatam que, olhando para a sua vida passada sempre se sentiram homossexuais, o que é uma falsa questão: aplica-se aqui o conceito de Freud de Nachträglichkeit, conceito que é difícil de traduzir mas que reflecte uma um efeito retroactivo da consciência presente sobre as memórias anteriores. No fundo, as memórias anteriores são sempre possíveis de actualização e modificação tendo em conta as circunstâncias presentes. Há uma passagem de Lautréamont que é um bom exemplo disto: "Assentemos em poucas linhas como Maldoror foi bom durante os seus primeiros anos, em que viveu feliz; está dito. Reparou depois que tinha nascido mau: fatalidade extraordinária"

Para terminar deixo aqui a nota de rodapé que Freud em 1915 acrescentou ao primeiro dos seus "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" de 1905:

"A pesquisa psicanalítica opõe-se firmemente a qualquer tentativa para a separação dos homossexuais do resto da humanidade considerando-a como um grupo de características especiais. Ao estudar outras excitações sexuais além das questões que são manifestamente apresentadas, a psicanálise descobriu que todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objecto homossexual e até a fizeram de facto no seu inconsciente. Na verdade, vinculações libidinais por pessoas do mesmo sexo desempenham um papel como factores na vida mental normal, não inferior ao desempenhado por vinculações similares pelo sexo oposto (...). A psicanálise considera que a escolha de um objecto independentemente do seu sexo - susceptível de se distribuir igualmente entre objectos masculinos ou femininos - como se encontra na infância, é a base original de onde, em resultado de restrições numa ou noutra direcção, se desenvolveram tanto o tipo normal como o invertido. Assim, do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo de um homem por uma mulher é também um problema que precisa de ser esclarecido e não um facto auto-evidente baseado num atracção que, em última instância, é de natureza química"

terça-feira, 3 de março de 2009

Novilho com Cogumelos, Vinho Tinto, Dylan Thomas e Miles Davis

Receita Born to be Wilde para os 5 sentidos

Ingredientes p/2 pessoas:

300 gramas de carne de novilho
1 garrafa de um bom vinho tinto
1 lata de cogumelos pequena
2 colheres de sopa de polpa de tomate
3 dentes de alho
2 folhas de louro
Pimenta a olho
Piri-piri a olho
Tomilho a olho
(para quem não tiver o olho treinado, não deitar mais do que duas colheres de chá de cada)
Uma xícara de arroz
1 álbum de Miles Davis: Relaxin' (Saquem aqui)
Sobremesa: um poema ou dois de Dylan Thomas

Primeiro: preparar o arroz branco que é o mais fácil e pode ficar cozinhar enquanto se faz o resto. Uma parte de arroz, duas de água. Um colher de Sal. Deixar ao lume. Tapar, mas não completamente. Simples.

Agora, partir a carne de novilho em bocados pequenos. Na frigideira um fundo de azeite e acende-se o lume. Picar os alhos e deitar lá dentro. Mal o alho comece a dourar, o que é uma questão de segundos, deitar a polpa de tomate. Mexer com colher de pau. Acrescentar um copo de vinho meio cheio (pode ser meio vazio, consoante as sensibilidades). Convém que o vinho seja bom e que seja o mesmo que se vai beber durante a refeição. Acrescentar as folhas de louro, o sal, a pimenta e o tomilho. Mexer. Agora segue-se a carne e os cogumelos. Mexer. Passados uns 10 minutos deve estar bom. Vejam pelo aspecto (é preciso treinar o olho). Não se esqueçam do arroz, que deve estar pronto antes disso!

Agora, é tempo de pôr a mesa bonita (o olho em acção, mais uma vez), e se quiserem podem por o arroz em forma de montinhos usando duas tigelas pequenas como forma. Ao servir, reguem o arroz com o molho da carne

Agora, ponham o álbum Relaxin' de Miles Davis a tocar. Vão ver como se trata do complemento perfeito para esta simples e bela refeição. O groove do contra-baixo e o saxofone cool de miles, conjuga na perfeição com uma boa carne e bom vinho.

No final, quando já só sobrar o vinho e a música, sugiro a leitura de This Bread I Break de Dylan Thomas, que aqui traduzo desta forma (ver original aqui):

Este pão que abro

Este pão que abro foi antes centeio,
Este vinho sobre uma ramada forasteira
Ficou submerso nos seus frutos
O homem de dia ou o vento à noite
Derrubaram as searas, arrancaram a alegria dos cachos

Outrora neste vinho, o sangue do verão
palpitou na carne que enfeitava a videira
Antes, neste pão
o centeio era feliz sob o vento;
mas o homem desfez o sol e o vento foi abatido.

Esta carne que desfazes, este sangue
que deixas desolar nas veias,
Eram cachos e centeio
Nascidos das raízes e seiva sensuais;
Deste meu vinho bebes, deste meu pão te alimentas

segunda-feira, 2 de março de 2009

Erich Fromm: Psicanálise e Religião

Li este livro de Erich Fromm, Psicanálise e Religião
Erich Fromm é um autor que aprecio, principalmente quando ele junta Freud, Marx e Buda nos seus raciocínios. Neste pequeno livro, Fromm começa por distinguir duas visões diferentes da psicanálise face à religião, encarnadas nas posições de Freud e Jung. Para Freud, a religião é uma regressão à infância, uma projecção da figura de um pai protector e fonte de segurança na ideia de um Deus. Já para Jung, a religião encontra-se no inconsciente. Jung situa a religião no inconsciente como algo de sagrado e transcendente, cheio de arquétipos e fonte de descoberta de um eu transpessoal.
Jung tem a sua obra muito associada à religião e várias das suas obras se centram à volta das questões psicológicas espirituais e religiosas. Contudo, é um autor que constantemente me desilude no contacto com a sua obra, na medida em que facilmente entra em campos esotéricos profundos mas depois não está à altura das coisas que fala, reduzindo todas estas questões a uma análise cientifizante e simplista, nunca saindo de uma posição racionalista banal. Fromm apresenta a visão de Jung da seguinte forma: "tendo definido a prática religiosa como a submissão a um poder que nos é estranho, Jung continua, interpretando o conceito do inconsciente como sendo religioso. Segundo o autor, o inconsciente não pode ser apenas uma parte da mente do indivíduo, mas sim um poder para além do nosso controlo que se intromente na nossa mente".
Jung, como que aliena o inconsciente humano, tornando-o algo de separado da nossa psique individual. Para Jung, o inconsciente são conteúdos sagrados que por aí pairam (como almas penadas) que entram na nossa mente e nos dominam. Perigoso! Jung acaba equiparar o inconsciente a um delírio paranóico, de algo que "anda algures lá fora" e que penetra a nossa mente dominando-a! Esquizofrénico!
Freud tinha uma visão muito menos esotérica, ligando a religião a uma estrutura social de obediência a uma autoridade paterna, garante da ordem e do sentido para a comunidade. Isto sim, parece-me algo bastante mais profundo do que todas as esquizofrenias e esoterismos de Jung. Quer isto dizer que a religião para Freud, embora ele não havia aprofundado este caminho, estaria ligado às estruturas comunitárias e políticas de uma sociedade.
Fromm depois segue bem este caminho, mostrando como o patriotismo e as neuroses modernas são da mesma família da àrvore genealógica da religiosidade:

Como forma colectiva e poderosa de idolatria moderna encontramos o culto do poder, do sucesso e da autoridade do mercado; mas, para além destas formas colectivas, encontramos algo mais. Se rasparmos a superfície do homem moderno encontramos um sem-núemro de formas primitivas e individualizadas de religião. Muitas destas formas são designadas por neuroses, mas também lhe poderíamos dar os respectivos nomes religiosos: culto dos antepassados, totemismo, fetichismo, ritualismo, culto da purificação e por aí adiante.

Assim, o culto dos antepassados pode ser encontrado na adoração em massas de uma estrela do rock falecida há muitos anos; o totemismo pode ser encontrado no culto do dragão, do leão e da águia (falo do futebol português como é óbvio), com suas estruturas grupais e tribais geradoras de culto de massas; o culto da purificação, para além de atingir muito doentes obsessivo-compulsivos, é um espírito que a ASAE encarna bem e encontramos uma mitologia da purificação muito bem elaborada nos anúncios do detergente da louça e da roupa (as bolinhas brancas que comem a sujidade à superfície e as bolinhas verdes que comem a sujidade profundas), o ritualismo é facilmente visível nas tomadas de posse e corte de fitas de muitas figuras políticas. Sobre esses políticos acrescentaria um outro aspecto religioso importante: as rezas (quando eles têm as orações/discursos já prontos e o seu único trabalho é encaixar a rezinha certa no momento certo).

Erich Fromm distingue depois as religiões em autoritárias/humanistas. Esta distinção não me convence, pois resumindo Fromm um pouco à minha maneira, isto seria qualquer coisa como: as religiões autoritárias subjugam o homem e nas humanistas é o homem individual que subjuga. Isto porque a defesa que Fromm faz de um tipo de religião humanista passa pela defesa de uma religião que eleva a razão, a liberdade e o amor como ideiais, descartando Deus como suporte ético. Para mim, há razão a mais em Fromm. A razão, como instrumento de domínio humano, não descarta o autoritarismo, pelo contrário. A razão traz consigo uma pulsão de morte, um instinto de dominação e de poder. Aliás, o próprio Fromm refere umas páginas antes que "a razão, benção do homem, é também a sua maldição, pois obriga-o a enfrentar constantemente a tarefa de resolver uma dicotomia insolúvel".