sábado, 16 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Música para Escrever, ou Como Fazer um Poeta Segundo Chestov

Voltando após um período de ausência, venho responder ao comentário ao anterior post que lançou o desafio de "aconselhar música que catapulte a veia poética, ensaística ou estados de introspecção apropriados para a escrita". Ora, isso faz-me imensa confusão e lamento não saber dar uma resposta clara a esse respeito. Escolher música para futebolistas é mais simples, na medida em que é possível estabelecer uma associação de ritmos, tempos e movimento. O futebol vive de movimento corporal, físico, tal e qual uma dança. Jogar é dançar. Quanto à escrita, ela segue os tempos da imaginação e suas velocidades infinitas. São incontáveis possibilidades. Há milhões, infinitas possibilidades musicais que podem influenciar infinitos milhões de escritas possíveis. Não vale a pena estar a dizer que para escrever um poema moderno se deve ouvir Joy Division, que para escrever um haiku se deve ouvir jazz, que para escrever um poema místico se deve ouvir música indiana, que para escrever como o Nietzsche se deve ouvir Wagner, para escrever um guião de um filme sobre polícias e prostitutas se deve ouvir Tom Waits, ou que para escrever seja o que for não se deve ouvir coisa nenhuma, ou que para não escrever se deve jogar à bola, ou que para jogar xadrez se deve ouvir música de chuva. Descobrir uma música determinada que nos faça escrever alguma coisa é como apostar numa chave do euromilhões. É um tiro no escuro. Suponhamos que até temos sorte e esta semana achámos que era aquele número (música), ganhamos o prémio e ficamos ricos (escrevemos algo). O problema é que nada nos garante que aquela chave volte alguma vez a produzir novamente semelhante efeito. Ninguém sabe como é que se faz um escritor ou um poeta. Sobre isto, há uma passagem do Chestov que é esclarecedora:
(Tradução) Poetae nascuntur - Que maravilhoso é o homem. Não sabendo nada sobre isso, afirma a existência de uma impossibilidade objectiva. Mesmo há pouco tempo, antes da invenção do telefone e telégrafo, os homens teriam afirmado ser impossível na Europa conversar com a América. Agora é possível. Não podemos produzir poetas, por isso, dizemos que é de nascença. Certamente não podemos fazer de uma criança um poeta forçando-o a estudar modelos literários, do mais antigo ao mais moderno. Nem ninguém nos ouvirá na América não importa quão alto gritemos aqui. Para fazer um poeta de um homem, ele não pode ser desenvolvido por caminhos normais. Talvez se deva mantê-lo afastado de livros. Talvez seja seja necessário executar nele uma operação aparentemente perigosa. Fracturar-lhe o crânio ou atirá-lo da janela do quarto andar. Abstenho-me de recomendar estes métodos como um substituto da pedagogia. Não é esse o ponto. Olhemos os grandes homens e os poetas. Excepto John Stuart Mill e alguns outros pensadores positivistas, que tinham pais experientes e mães virtuosas, nenhum dos grandes homens pode orgulhar-se, ou melhor, queixar-se, de uma educação apropriada. Nas suas vidas, quase sempre um papel decisivo foi desempenhado pelo acaso, acidente que a razão tornaria sem sentido, caso a razão pudesse alguma vez desafiar e levantar a sua voz contra o êxito evidente. Algo como uma crânio partido ou uma queda do quarto andar — não de forma metafórica, mas muitas vezes de forma absolutamente literal, comprovou ser o começo, normalmente escondido mas ocasionalmente admitido, da actividade dos génios. Mas repetimos automaticamente: poetae nascuntur, e convencemo-nos profundamente que esta verdade extraordinária é tão alta ele precisa de nenhuma verificação.
Leon Chestov


De qualquer maneira, e para não fazer com que ninguém caia de uma varanda abaixo vou sugerir algo: "Trouble with imnpressionists" com Lou Reed e John Cale, numa homenagem a Andy Warhol:

terça-feira, 28 de abril de 2009

Rock e Futebol


No âmbito do meu estágio enquanto psicólogo do Futebol Clube do Porto, tive oportunidade de fazer parte da comitiva que levou uma equipa do escalão 97/98 da escola Dragon Force, ao torneio Rui Caçador em São Pedro do Sul, Viseu. Foi no sábado, dia 25 de Abril. Neste torneio todas as equipas realizaram dois jogos. Fomos bem recebidos, quer eu, quer jogadores e treinador. Relato isto na medida em que tive uma oportunidade de realizar uma intervenção a título experimental, que passou pela junção de rock e futebol. Antes do jogo, no balneário, e a seguir à palestra do treinador, propus aos jogadores que, ao som de Guerrilla Radio dos Rage Against the Machine, abanassem a cabeça, saltassem e dançassem à vontade. O objectivo passava por promover sentimentos de alegria, segurança, confiança e positividade no momento anterior à competição. Há estudos que demonstram que a música pode ter efeitos sobre os níveis de excitação (Lukas, n.d.; Nilsson, Unosson, & Rawal, 2005), motivação (Karageorghis & Terry, 1997) e ajudar a melhorar performances atléticas (Dorney & Goh, 1992; Karageorghis & Terry, 1997; Krumhansl, 2002).
Blood, Zatorre, Bermudez, and Evans (1999) dizem que nossas emoções estão ligadas à música por intermédio da memória e de processos de associação. A expressividade da música tem muito que ver com o seu poder de evocar experiências emocionais imaginativas.
Quanto ao tipo de música, Krumhansl (2002) refere que quando se ouve música dançável de tempos rápidos, a emoção básica mais comum é a alegria. No estudo de Sorenson, L., Czech, D.R., Gonzalez, Klein, S.J., Lachowetz, T. (2008), fizeram entrevistas a vários jogadores de futebol, ténis e futebol americano acerca da sua relação com o uso da música no desporto, tendo alguns dado alguns testemunhos:
“É a batida. É algo que me faz mexer mais rápido.” ; Segundo este estudo, os participantes usavam a música para aumentar a excitação antes do jogo, por o corpo a mexer e o sangue correr, assim como dar energia e agressividade em determinados instantes.

Assim, fechando as janelas do balneário, através de umas pequenas colunas ligadas ao leitor de MP3, pude participar em primeira mão de um balneário em polvorosa com jovens jogadores em ebulição, saltando, trepando às paredes, aos encontrões, berros e mosh uns em cima dos outros.

No fim pedi aos jogadores que entrassem em campo com aquele espírito. Que fizessem um jogo com rock. Saíram do balneário para o aquecimento e de seguida cilindraram o adversário por 9-0. Procedeu-se da mesma forma no segundo jogo, à tarde, tendo o mesmo sido mais equilibrado, ficando-se pelos 3-0 com um excelente golo de canto directo. Não sei se o rock melhorou o futebol da equipa, mas foi sem dúvida uma boa experiência. Quem quiser saber mais, aconselho a leitura deste artigo.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Democracia Representativa segundo Albert Cossery

"- Ora ouve! O caso passou-se há pouco tempo, numa aldeola do Baixo Egipto, durante as eleições para a junta de freguesia. Quando os funcionários do Governo abriram as urnas, notaram que na maioria dos boletins de voto estava escrito o nome Bargute. Ora os ditos funcionários do Governo não conheciam tal nome, que não figurava na lista de nenhum partido. Inquietos, logo se puseram à cata de informações; e acabaram por saber, pasmados de todo, que Bargute era o nome dum burro por quem toda a gente da aldeia nutria muita estima, por via da sabedoria do animal. Quase todos os moradores tinham votado nele. Que me dizes tu a esta história? Gohar respirou com júbilo; sentia.se extasiado. «São ignorantes e iletrados», disse para consigo, «e no entanto acabam de fazer a coisa mais inteligente conhecida no mundo desde que há eleições». O comportamento destes camponeses perdidos no cu de Judas constituía o reconfortante testemunho sem o qual a vida se tornaria impossível. Gohar sentia-se derretido de admiração. (...) - Admirável - exclamou Gohar. - E como acaba a história? - É claro, não foi eleito. Estás tu a ver, um burro de quatro patas! O que eles queriam, lá os do governo, era um burro só de duas patas."

Albert Cossery em Mendigos e Altivos

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sobre Darwin e a Evolução: Síntese - Simbiogénese, Teilhard Chardin e Chesterton

Vimos no post anterior como Darwin foi recebido de forma ambivalente por Marx e Engels. Se, por um lado, as descobertas de Darwin situam a evolução da espécie humana como o resultado de sucessivas e intermináveis mutações e transformações, que suporta a visão dialéctica marxista da história, por outro lado criticam a visão próxima de Malthus e Hobbes, que vê a evolução como resultado da selecção natural fundada numa luta pela sobrevivência através da competitividade egoísta.
Engels é aliás bastante preciso sobre esta última questão nas cartas a Pyotr: "Da doutrina Darwiniana aceito a teoria da evolução, mas o método de prova de Darwin (luta pela sobrevivência, selecção natural), considero-a apenas uma primeira expressão imperfeita e provisória de um facto recentemente descoberto. (...) A interacção de corpos na natureza - animados e inanimados - inclui tanto harmonia como colisão, disputa e cooperação.

As pertinentes observações de Engels encontraram eco nas descobertas posteriores do biólogo russo Constantin Merezhkovsky que introduziu à 100 anos, em 1909, o conceito de simbiogénese que é definido como a origem de organismos pela combinação ou associação
de dois ou vários seres através de processos simbióticos. A simbiogénese é um mecanismo evolutivo e simbiose o veículo através do qual esse mecanismo ocorre.

As nossas células, por exemplo, são um exemplo de simbiogénese: todas as células animais contém mitocôndrias, que são o que produz energia para os nossos organismos. A mitocôndria é abastecida pela célula que a hospeda por substâncias orgânicas como oxigénio e glicose, as quais processa e converte em energia sob a forma de ATP que devolve para a célula hospedeira. Acontece que, originariamente, as mitocôndrias existiam isoladas foram das células que nós conhecemos e de que somos feitos. Através deste casamento feliz, pôde-se desenvolver toda a vida animal como a conhecemos.

Se Merezhkovsky a princípio se opunha à selecção natural de Darwin, actualmente aquilo que se chama de Neo-Darwinismo faz a síntese entre estas duas perspectivas. Assim, o motor da evolução da história natural seriam estas duas "forças" que se complementam: uma competitiva e outra cooperativa. Serão estas duas forças correspondentes às pulsões de vida e de morte de Freud? Teriámos por um lado Thanatos, o instinto da vontade de domínio e poder sobre os restantes espécimes em complemento a Eros, a procura do prazer e da profusão da espécie. Aliás, uma das tópicas de Darwin menos conhecidas, é precisamente a noção de selecção sexual, que é um outro mecanismo à parte em conjunto com a selecção natural, que explicaria muitos da evolução humana. A selecção sexual, seria o momento menos conhecido de Darwin onde ele é mais "Freudiano".

Depois de vermos tambem a analogia que Deleuze fez entre a selecção natural de Darwin e o princípio da realidade de Freud, poderíamos também associar o princípio do prazer à simbiogénese, normalmente mais ligado a pequenas partículas, e assim estender os conceitos de amor e desejo à matéria ínfima. Poderíamos aplicar o princípio do prazer à associação entre células e respectivas mitocôndrias. Na verdade, na visão evolucionista, o homem perde seu lugar privilegiado no centro do da natureza e da cosmogonia. E isto é um choque para o narcisismo e megalomania do homem, como bem adverte Freud. Isto tem consequências para a visão teocêntrica do universo, segundo a qual o mundo seria feito por um Deus transcendente, figura paterna que teria no Homem o seu "filho preferido".

É claro que muitos indivíduos, povos e culturas não estão ainda, mais de um século depois, preparados para aceitar todas as consequências da teoria da evolução. Ela significa que deixamos de poder dispor de uma mitologia que nos garante uma ideia de Eu fixa e determinada, através de um passado e um futuro bem definidos.

Neste campo, a ideia dos criacionistas é tentar preservar a cosmogonia simpática segundo todos nós viemos de Deus e voltaremos um dia para Deus. O que aqui está em causa é uma visão do ser humano como algo de fixo e imutável. Relaciona-se com uma ideia estável de Eu, que se define por ideias eternas e determinadas. Isto é uma perspectiva perfeitamente racionalista. Aliás, o próprio nome da teoria que oferecem em contraponto com a teoria da evolução, é revelador: Intelligent Design. Design Inteligente. O universo é algo que foi feito de uma forma planeada, pensada, controlada. Assim sendo, não é justo acusar os criacionistas de fanatismo ou algo que se pareça. Pelo contrário, o criacionismo é uma ideologia do mais extremo racionalismo. Encaixa na análise que Zizek faz quando diz que Deus é uma excepção consitutiva, um milagre, que permite com que o resto do mundo seja completamente racional. A teoria da evolução é sim, uma teoria bastante mais poética e milagrosa, como Chestov nos mostra quando, baseando-se nela, uma pedra se pode transformar numa planta, e uma planta num animal e, assim sucessivamente, tudo é possível.

Teilhard Chardin viu na teoria da evolução todo este potencial poético, milagroso e divino. Tentou fazer uma síntese entre o Cristianismo e a teoria da evolução. Para Chardin, se o mundo era concebido como algo fixo, acabado, como um sistema de elementos estáveis
em equilíbrio fechado, o mundo deixa de ser visto como algo estático para ser descrito como uma massa em vias de transformação. O universo é um processo de evolução e vai convergindo, à medida que a evolução avança, para formas cada vez mais organizadas. Teilhard denomina esse fenómeno de Cosmogénese.

É esta teoria da evolução levada às últimas consequências que inaugura a ideia de progresso, e o endeusamento do futuro ou, como diz Deleuze, o tempo deixa de ser curvado por um Deus que o fazia depender do movimento. (...) Tudo aquilo que se move e se altera está no tempo, mas o próprio tempo não se altera, não se move, nem sequer é eterno.

Não será isto a ideia de Chesterton de que trocámos a adoração do passado pelo endeusamento do futuro? Só neste contexto é que se cria o lugar para o surgimento da chamada ficção científica: o romance do futuro. Em vez de as histórias se contarem num "Há muito tempo atrás...", passam a ser contadas na fórmulas "daqui a muitos milhares de anos" Há um artigo de Chesterton, do início do séc. XX, que resume as consequências da teoria da evolução na modernidade. Chama-se The Fear of the Past:

The last few decades have been marked by a special cultivation of the romance of the future. We seem to have made up our minds to misunderstand what has happened; and we turn, with a sort of relief, to stating what will happen- which is (apparently) much easier. The modern man no longer presents the memoirs of his great grandfather; but is engaged in writing a detailed and authoritative biography of his great-grandson. Instead of trembling before the specters of the dead, we shudder abjectly under the shadow of the babe unborn.

(Tradução: As últimas décadas foram marcadas por um especial cultivo do romance do futuro. Parece que nos convencemos a distorcer o que aconteceu; e viramo-nos, com uma espécie de alívio, para dizermos o que vai acontecer - o que é (aparentemente) bastante mais fácil. O homem moderno já não apresenta as memórias dos seus avós; mas está empenhado em escrever uma biografia detalhada e autoritária dos seus netos. Ao invés de tremer face aos espectros dos mortos, temos um medo abjecto da sombra dos bebés por nascer.)

Vale a pena ler aqui o texto completo deste fantástico ensaio de G. K. Chesterton. Termino (re)lembrando as palavras do sociólogo polaco Zygmunt Baumann:

"A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torna mais ambiciosa e aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. (...) Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro mas desvalorizar o presente. O presente está sempre "a querer", o que o torna feio, abominável e insuportável."

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre Darwin e a Evolução: Marx, Engels, Lenine, Freud, Deleuze e Chestov

"Darwin, que estou neste momento a ler, é absolutamente esplêndido. Havia um aspecto da teleologia que faltava ser demolida, e isso agora encontra-se realizado. Nunca anteriormente foi feita uma tentativa tão grandiosa de demonstrar a evolução histórica na natureza, ou pelo menos de forma tão feliz. Temos, claro, que aturar o cru método inglês. (...) "É notável como Darwin reconhece entre animais e plantas sua sociedade inglesa com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, 'invenções' e a 'luta pela existência' malthusiana. É o 'bellum omnium contra ommnes' (guerra de todos contra todos) de Hobbes, e lembra a Fenomenologia de Hegel onde a sociedade civil é descrita como um 'reino animal e espiritual', enquanto em Darwin o reino animal figura como sociedade civil".
Cartas de Marx a Engels entre 1859 e 1860

"Darwin não sonhou sequer em dizer que a origem da ideia da luta pela existência era a teoria de Malthus. O que ele diz é que a sua teoria da luta pela existência é a teoria de Malthus aplicada a todo mundo vegetal e animal. Por maior que fosse o deslize cometido por Darwin de aceitar, na sua ingenuidade, a teoria malthusiana, vê-se logo, a um primeiro exame, que, para se perceber a luta pela existência na natureza – que aparece na contradição entre a multidão inumerável de germes engendrados pela natureza, em sua prodigalidade, e o pequeno número desses germes que podem chegar à maturidade, contradição que, de fato, se resolve em grande parte numa luta, às vezes extremamente cruel, pela existência – não há necessidade das lunetas de Malthus. E, assim como a lei que rege o salário conservou o seu valor muito tempo depois de estarem caducos os argumentos malthusianos sobre os quais Ricardo a baseava, a luta pela existência pode igualmente ter lugar na natureza sem nenhuma interpretação malthusiana. De resto, os organismos da natureza têm, também eles, as suas leis de população, que estão pouco estudadas, mas cuja descoberta será de importância capital para a teoria do desenvolvimento das espécies. E quem, senão Darwin, deu o impulso decisivo nessa direção?"
Carta de Friedrich Engels a Pyotr Lavrov

“Tal como Darwin pôs um fim à visão das espécies animais e de plantas como sendo desconectadas, fortuitas, 'criadas por Deus' e imutáveis, e tendo sido o primeiro a colocar a bilogia numa base absolutamente científica através do estabelecimento da mutabilidade e da sucessão das espécies, assim Marx pôs fim à visão da sociedade como agregação de indivíduos sujeitos a todos os tipos de modificações sob a vontade das autoridades (ou, se quisermos, sob a vontade da sociedade ou governo) que emergem e mudam casualmente, tendo sido o primeiro a colocar a sociologia numa base científica, através do estabelecimento do conceito da formação económica da sociedade como soma total das relações de produção, estabelecendo o facto de esse desenvolvimento ser um processo da história da natureza."
Tradução de Lenin’s Collected Works, Vol. 1

"No decorrer dos séculos, o ingénuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época actual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem sequer em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente."

Sigmund Freud em "Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, 1917"

A grande novidade de Darwin talvez tenha sido a de instaurar o pensamento da diferença individual. (...) O problema de Darwin apresenta-se em termos muito semelhantes àqueles de que Freud se servirá noutra ocasião: trata-se de saber em que condições pequenas diferenças, livres, flutuantes ou não ligadas, se tornam diferenças apreciáveis, ligadas e fixas. Ora, é a selecção natural, desempenhando verdadeiramente o papel de um princípio da realidade e mesmo de sucesso, que mostra como diferenças se ligam e se acumulam numa direcção, mas também como elas tendem cada vez mais a divergir em direcções diversas e mesmo opostas.

Gilles Deleuze em Diferença e Repetição

"A=A. Dizem que a lógica não precisa deste postulado e que poderia facilmente desenvolvê-lo por dedução. Penso que não. Pelo contrário, na minha opinião, a lógica não poderia existir sem esta premissa. Ao mesmo tempo, ela tem uma origem puramente empírica. No mundo dos factos, A é sempre mais ou menos igual a A. Mas poderia ser de outra forma. O Universo poderia ser constituído de forma a admitir as mais fantásticas metamorfoses. Aquilo que agora é igual a A, seria sucessivamente igual a B e a C, e por aí em diante. De momento uma pedra permanece durante bastante tempo como pedra, uma planta como uma planta e um animal como animal. Mas poderia acontecer a pedra transformar-se numa planta diante dos nossos olhos, e a planta num animal. Que não existe nada de impensável nesta suposição, é provado pela teoria da evolução. Esta teoria apenas coloca séculos no lugar de segundos.

Lev Chestov traduzido de "All things are possible"

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Bob Dylan e Deleuze



Como professor, gostaria de fazer um curso tal como Dylan compõe uma canção, assombroso produtor mais do que autor. E que comece como ele, num instante, com a sua máscara de clown, com uma arte que coloca cada detalhe no sítio exacto, e que, no entanto pareça improvisada. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma longúissima preparação, mas sem método nem regras ou receitas.
Gilles Deleuze

terça-feira, 24 de março de 2009

Tempo, Causalidade e Memória

"Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde elas estão. Se ainda o não posso compreender, sei todavia que em qualquer parte onde estiverem, aí não são futuras nem pretéritas nem presentes. Pois, se também aí são futuras, ainda lá estão; e se nesse lugar são pretéritas, já lá não estão. Por conseguinte, em qualquer parte onde estiverem, quaisquer que elas sejam, não podem existir senão no presente. Ainda que se narrem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata, não os próprios acontecimentos que já decorreram, mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles factos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito uma espécie de vestígios."
Santo Agostinho

Num dos livros pretos de Gonçalo Tavares, A máquina de Joseph Walser, a personagem principal (Joseph Walser) sofre de amores por uma perigosa máquina da fábrica onde trabalha. Um dia, ao manejar a máquina, perde o dedo indicador da mão direita. Joseph Walser, nas suas apostas com dados, começa a jogar com a mão amputada e a sua sorte no jogo melhora.

(...) Walser considerava a sua sorte recente como um mistério, e esse mistério significava uma abertura para um mundo diferente, um mundo que ainda não conhecia. Aquela ligação entre acontecimentos - um dedo a menos: mais sorte no jogo de dados - não era ainda, para Walser, catalogável e compreensível. Onde colocar esta ligação? Como classificar a ponte que existia entre estes dois factos? Que acontecimento deveria Walser designar como causa e como efeito? E se um não era efeito ou causa do outro, onde os colocar e a que outros factos se poderiam ligar estes?

Trata-se aqui de aquilo que se pode chamar de coincidência, cujo maravilhamento característico provém da inabilidade ou impossibilidade de atribuir um relação de nexo causal a dois acontecimentos simultâneos. Sobre coincidências já me referi aqui uma vez: são momentos que abalam as nossas atribuições de causalidade e, consequentemente, abrem um buraco na nossa noção de tempo. Nesses momentos, o tempo deixa de existir. Abre-se um buraco na sequenciação lógica e contínua dos acontecimentos vividos.
Isto está relacionado com o grau de simultaneidade dos acontecimentos. Se o acidente com a mão de Walser acontecesse, digamos, dois anos antes da maré de sorte nos dados, a Walser não ocorreria que estes acontecimentos estivessem de alguma forma ligados entre si. Mas no momento em que há uma simultaneidade entre a mão amputada e a maré de sorte, surge o mistério em todo o seu esplendor.

Para esclarecer isto, há uma experiência científica de Ernst Pöppel que nos elucida mais um pouco esta questão:

"Damos uns auscultadores ao sujeito da investigação e tocamos separadamente em cada ouvido um som de pouca duração. Os estímulos acústicos escolhidos só devem demorar um milésimo de segundo cada um. Quando os ouvidos esquerdo e direito são estimulados "simultaneamente", quer dizer, quando não se pode medir a diferença entre o som do lado esquerdo e o do lado direito, então o sujeito da investigação não ouve dois sons como poderíamos imaginar, mas apenas um.

O tempo médio necessário para se estabelecer a distinção entre dois acontecimentos e sair do que o autor chama de "janela da simultaneidade", foi de 4,5 milésimos de segundo.
Contudo, uma coisa é distinguir entre um ou dois estímulos. Já decidir qual é o primeiro e qual o segundo, demora mais algum tempo:

"Apesar de se poderem ouvir dois sons distintos, tem de decorrer, a partir de mais ou menos quatro milésimos de segundo, um lapso de tempo que corresponde ao décuplo, até se ter a certeza sobre qual foi o primeiro som e qual o segundo. Precisamos, portanto, de consideravelmente mais tempo para a identificação de um acontecimento acústico, do que para resolver o problema da distinção entre unidade e dualidade.

Estes tempos, no entanto, são cada vez mais maiores para os diferentes sentidos: visão, tacto, etc. Assim, uma das conclusões deste cientista é que o sentido da audição (o primeiro a senvolver-se, ainda no ventre materno), é o primeiro, mais eficaz e mais rápido a distinguir a ordenação temporal dos estímulos. Por outro lado, a descodificação de estímulos sonoros e a regulação temporal dos acontecimentos acontece no lado esquerdo do cérebro, num local também ligado às àreas da linguagem.

Ernst Popël diz-nos que em primeiro lugar, há uma distinção entre o que é simultâneo e o que não é simultâneo. Depois há uma identificação dos acontecimentos que cria as condições para que estes se ordenem em séries. Há depois um mecanismo de integração que condensa acontecimentos sucessivos em formas presentes. Finalmente, julgamos a duração segundo o que vivemos e o que nos ficou na memória. Só através de todos estes mecanismos chegamos à consciência comum, que organiza os acontecimentos em passado, presente e futuro.

A construção do tempo, é assim algo de complexo, composto por mecanismos fisiológicos e sensoriais básicos que se combinam com outro tipo de mecanismos mais especificamente humanos como é o caso da memória. Isto tem algo a ver com o que diz Deleuze em Diferença e Repetição, acerca do tempo. Deleuze fala-nos do tempo como síntese. E existem sínteses passivas e sínteses activas. Existem aliás, diversos níveis de sínteses passivas orgânicas, sensoriais, perceptivas, que poderíamos aqui fazer corresponder ao que Poppel se refere como identificação dos acontecimentos, ou casos, que criam as condições para que estes se ordenem em séries. Todas estas sínteses passivas, estes "ordenamentos" possibilitam a construção da memória que é já da ordem da sínteses activas, assim como a reflexão e o entendimento.

O tempo só se constitui na síntese originária que incide sobre a repetição dos instantes. Esta síntese contrai uns nos outros os instantes sucessivos independentes. Ela constitui, desse modo, o presente vivido, o presente vivo; e é neste presente que o tempo se desenrola. É a ele que pertence o passado e o futuro: o passado, na medida em que os instantes precedentes são retidos na contracção; o futuro, porque a expectativa é a antecipação dessa mesma contracção. O passado e o futuro não designam instantes, distintos de um instante supostamente presente, mas as dimensões do próprio presente, na medida em que ele contrai os instantes. O presente não tem de sair de si para ir do passado ao futuro. O presente vivo vai, pois, do passado ao futuro que ele constitui no tempo, isto é, também do particular ao geral, dos particulares que ele envolve na contracção, ao geral que ele desenvolve no campo da sua expectativa. (...) Sob todos os aspectos, esta síntese deve ser denominada síntese passiva. Apesar de constituinte, nem por isso ela é activa. Não é feita pelo espírito, mas faz-se no espírito que contempla, precedendo toda a memória e toda a reflexão.

Estas sínteses passivas combinam-se depois com as sínteses activas formando depois um conjunto da síntese global do tempo:

A partir da da impressão qualitativa da imaginação, a memória reconstitui os casos particulares como distintos, conservando-os no "espaço de tempo" que lhe é próprio. O passado, então, não é mais o passado imediato da retenção, mas o passado reflexivo da representação, a particularidade reflectida e reproduzida. Correlativamente, o futuro deixa também de ser o futuro imediato da antecipação para se tornar no futuro reflexivo da previsão, na generalidade reflectida no entendimento (o entendimento proporciona a expectativa da imaginação em relação ao número de casos semelhantes distintos observados e lembrados). Quer isto dizer que as sínteses activas da memória e do entendimento se sobrepõe à síntese passiva da imaginação e se apoiam nela. (Deleuze)

O passado e o futuro não existem. O que existem são movimentos que nos provocam retenções e previsões. Assim, as nossas sínteses passivas, que passam pelas necessidades do nosso rim e pelas expectativas das nossas enzimas, formam um presente vivo contemplativo que guarda retenções e projecta previsões segundo regras simples de ordenamento, repetição e associação. Porém, o que nos distingue de plantas e animais são nossas memórias, que têm a possibilidade de serem articuladas com o entendimento, fazendo de nós tanto bichos de grande liberdade e ao mesmo tempo de grande angústia. As nossas expectativas conduzem-nos a ver e a fazer determinadas coisas, a viver a vida de determinado ângulo... Mas aquilo que colocamos no futuro são sínteses activas de blocos de memória que temos agora ao nosso dispor. Sempre que evocamos alguma memória estamos a reconstruí-la. Todas as vezes. Só existe o agora, e tudo são velocidades. O ser humano tenta compor uma dança, uma música. Mexemo-nos toda a vida sem parar. Aprendemos movimentos, no fundo comunicamos para poder dançar a vida. Para ser um com o mundo precisamos de saber a nossa parte da dança, participando assim do milagre da existência. O bicho humano tem a tentanção em si de tentar saber de antemão a música inteira do universo. Essa tentação é a sua grandeza e a sua perdição, tal como a centopeia que cai ao chão quando tenta pensar como é que anda com todos os seus 100 pés.

"Esquecerei as coisas passadas. Preocupar-me-ei, sem distracção alguma, não com as coisas futuras e transitórias, mas com aquelas que existem no presente."
Santo Agostinho

(Isto há-de continuar: este texto é uma promessa de futuro, e um passado já consumado)

sexta-feira, 13 de março de 2009

O "frangos" de Helton e os Deuses do Futebol

Num estudo realizado com jogadores de futebol do clube brasileiro SC Internacional, questionaram-se os motivos que levaram à escolha do futebol como profissão. Para além da influencia da família e do desejo de enriquecer, a maioria (50%) dos jogadores tinha como principal motivação a crença num dom para o futebol. Como disse um dos jogadores, "Além da vontade, Deus me deu o dom".

Helton, o guarda-redes brasileiro do FC Porto após um recente jogo em que deu o que se costuma chamar de frango: "Concentração há sempre, infelizmente há quem torça contra, mas é tempo perdido. Deus está no comando. Eu sigo em frente, sempre dando o melhor"




O psicanalista português Jaime Milheiro, numa conferência sobre "O Homem e os Jogos" diz que "um jogador a sério tem sempre o telefone ligado para os deuses pois os deuses garantem que a próxima jogada é a boa. (...) O jogador não luta com os homens, como um invejoso. O invejoso luta continuamente com os homens, mesmo que não dê por isso. É uma mediocridade. (...) O jogador luta num sistema muito mais grandioso em que os seus opositores, ou os seus favorecedores, se quisermos, são os deuses (...)"

Isto faz lembrar o que disse uma Kierkegaard em Fear and Trembling:
"No! No one shall be forgotten who was great in this world; (...) They shall all be remembered, but everyone was great in proportion to the magnitude of what he strove with. For he who strove with the world became great by conquering the world, and he who strove with himself became great by conquering himself; but he who strove with God became great greater than all. Thus there was strife in the world, one against thousands, but he who strove with God was greater than all"

(Tradução: Não! Ninguém será esquecido entre os que foram grandes no mundo; (...) Todos serão lembrados, mas todos na proporção da magnitude daquilo com que lutaram. Pois aquele que lutou com o mundo tornou-se grande ao conquistar o mundo, e aquele lutou consigo mesmo tornou-se grande ao conquistar-se a si mesmo; mas aquele que lutou com Deus tornou-se o maior de todos. Assim, havia luta no mundo, um contra centenas, mas aquele que lutou com Deus tornou-se o maior de todos")

sexta-feira, 6 de março de 2009

Psicanálise do Casamento Homossexual

Houve no parlamento lugar a um debate acerca dos casamentos entre homossexuais. O nível do debate foi muito baixo ao nível da sensibilidade e profundidade que se pode dar ao tema. Os defensores dos ditos casamentos argumentam que se trata de uma questão de direitos civis e de igualdade. Considero que não seja esse o ponto fundamental a ser discutido. Aliás, do ponto de vista político e económico, é uma questão menor. Não quero dizer com isto que sou contra os ditos casamentos. O que acho é que a única vantagem que os homossexuais retiram desse diploma é que estes passam a contar com determinados benefícios fiscais. Não deixa de ser legítimo, mas a questão é outra. O que os homossexuais pretendem realmente é a legitimação da sua orientação sexual, o que é um aspecto decorrente de uma forma de neurose, já que há uma conflito decorrente da tentativa de moldar as nossas pulsões sexuais a um objecto fixo e definitivo. Já anteriormente me referi aqui à questão da homossexualidade do ponto de vista psicanalítico, mas deixo aqui mais alguns apontamentos. Para Freud somos todos bissexuais. Todos mantemos relações afectivas com homens e mulheres e todos temos a possibilidade de retirar prazer dessas relações. Para Jung, o homem tem um anima, uma parte mulher dentro de si, e todo a mulher tem um animus, uma parte homem. O problema surge quando existe a necessidade de moldarmos as nossas inconstantes pulsões sexuais segundo conceitos abstractos rígidos e castradores. A homossexualidade e a heterossexualidade, à partida não existem. São identidades que é necessário construir. Do ponto de vista do desenvolvimento infantil as coisas passam-se mais ou menos segundo este esquema:

Infância (0-5 anos)___________________Bissexualidade

Quando nasce, um bebé olha para o corpo da mãe como sendo o prolongamento do seu próprio corpo, sendo que essa separação é gradual, à medida que a criança se vai tornando fisicamente mais autónoma. Com esta autonomização motora gradual, surge uma necessidade de explorar o mundo externo, sendo que se vai apercebendo aos poucos da sua individualidade face à mãe e ao mundo externo. Até aos 5 anos, as crianças investem afectivamente todo a realidade e o campo familiar de forma indiferenciada e exploratória.

Latência (6-11 anos)___________________Homossexualidade estruturante

Este período é particularmente importante para as nossas reflexões sobre a homossexualidade. Entre os 4 e 5 anos dá-se o complexo de Édipo/Electra, sendo que este processo começa mais cedo, antes de mais pela percepção da diferença de sexos. Resolvido este conflito, a criança começa a ganhar a noção de pertença a um género. É aliás o primeiro sentimento de pertença a um grupo: o do sexo. O período de latência é aquele período em que os rapazes só andam com rapazes e as raparigas só andam com raparigas. Os rapazes têm "nojo" das raparigas e estas acham os rapazes "parvos e porcos". É o que Freud chama de homossexualidade estruturante, situação típica do período de latência que Freud caracteriza assim:
"é no período de latência total ou parcial que se constituem as forças psíquicas que mais tarde farão obstáculo às pulsões sexuais e, à semelhança de diques, vão limitar a sua evolução (desagrado, pudor, aspirações morais e estéticas). (...) No período de latência as tendências sexuais são desviadas do seu uso próprio e aplicadas a fins diferentes, processo a que se dá o nome de sublimação, um dos pilares em que assenta civilização"

Adolescência/idade adulta (>12 anos)________Neurose

Com a puberdade e a adolescência, as crianças desenvolvem seu corpos, tornam-se homens e mulheres com seus caracteres sexuais principais e secundários plenamente desenvolvidos. A reprodução é possível e os adolescentes só pensam em duas coisas: sexo e sexo. É também nesta idade que se consuma uma noçao de identidade, de eu, mais definida, com uma estrutura neurótica já bem desenvolvida. Há nesta idade um conflito entre a preservação de uma identidade recém adquirida, e uma necessidade de uma abertura para a alteridade, para capacidade de, após a homossexualidade estruturante do período de latência, voltar a haver interesse pelo mundo do sexo oposto. O sexo oposto surge como um grande mistério e diferença absoluta que atrai.

Erich Fromm diz que "o desvio homossexual é o fracasso em atingir essa união polarizada, e por isso o homossexual sofre a dor da separação,nunca solucionada, fracasso, entretanto, de que com ele compartilha o heterossexual comum que não consegue amar."
Fromm refere-se então ao homossexual como uma neurose partilhada com o heterossexual comum, relativamente à incapacidade de amar em pleno, fruto da dificuldade de relacionamento com a anima e animus, os caracteres do sexo oposto presentes em cada um de nós. O homem neurótico heterossexual responde muitas vezes a este conflito através da homofobia, evitando adoptar ou mostrar simpatia com características femininas. O homem homossexual responde às suas sensibilidades femininas também de uma forma desconfortável, gerando dúvidas que são fruto de dualismos mentais rígidos. Assim, homens e mulheres altamente racionalistas, são mais propensos a dúvidas típicas de homossexuais. Não é por acaso que muitas das características de um homem homossexual, tais como a parcimónia na limpeza, a organização, obsessões e rituais, são típicas de uma neurose obsessiva, que se caracteriza por uma excessiva racionalização da vida afectiva. Neste esquema, as dúvidas em relação a aspectos básicos da identidade sexual são difíceis de gerir. Ferenczi chegou a fazer uma distinção entre homossexuais da seguinte forma: o "homo-erótico, subjectal", que sente e se comporta como uma mulher, e o "homo-erótico, objectal", completamente masculino, e que apenas trocou um objecto feminino por um masculino. Os primeiros denominou de "intermediários" e os segundos denominou precisamente de "neuróticos obsessvivos". Contudo, esta distinção parece-me algo dicotómica, eliminando a vivência da ambivalência entre estes dois modos. Freud referiu-se a essa distinção da seguinte forma: "reconhecemos a existência destes dois tipos, acrescentamos que há muitas pessoas em quem se encontra uma certa quantidade de homo-erotismo subjectal combinada com certa proporção de homo-erotismo objectal"

O "sair do armário", a assumpção e identificação com o papel homossexual é um passo que tenta resolver a ambivalência, mas que não resolve o conflito. Há posteriormente, uma necessidade de reconstruir toda uma identidade nova. Frequentemente relatam que, olhando para a sua vida passada sempre se sentiram homossexuais, o que é uma falsa questão: aplica-se aqui o conceito de Freud de Nachträglichkeit, conceito que é difícil de traduzir mas que reflecte uma um efeito retroactivo da consciência presente sobre as memórias anteriores. No fundo, as memórias anteriores são sempre possíveis de actualização e modificação tendo em conta as circunstâncias presentes. Há uma passagem de Lautréamont que é um bom exemplo disto: "Assentemos em poucas linhas como Maldoror foi bom durante os seus primeiros anos, em que viveu feliz; está dito. Reparou depois que tinha nascido mau: fatalidade extraordinária"

Para terminar deixo aqui a nota de rodapé que Freud em 1915 acrescentou ao primeiro dos seus "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" de 1905:

"A pesquisa psicanalítica opõe-se firmemente a qualquer tentativa para a separação dos homossexuais do resto da humanidade considerando-a como um grupo de características especiais. Ao estudar outras excitações sexuais além das questões que são manifestamente apresentadas, a psicanálise descobriu que todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objecto homossexual e até a fizeram de facto no seu inconsciente. Na verdade, vinculações libidinais por pessoas do mesmo sexo desempenham um papel como factores na vida mental normal, não inferior ao desempenhado por vinculações similares pelo sexo oposto (...). A psicanálise considera que a escolha de um objecto independentemente do seu sexo - susceptível de se distribuir igualmente entre objectos masculinos ou femininos - como se encontra na infância, é a base original de onde, em resultado de restrições numa ou noutra direcção, se desenvolveram tanto o tipo normal como o invertido. Assim, do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo de um homem por uma mulher é também um problema que precisa de ser esclarecido e não um facto auto-evidente baseado num atracção que, em última instância, é de natureza química"

terça-feira, 3 de março de 2009

Novilho com Cogumelos, Vinho Tinto, Dylan Thomas e Miles Davis

Receita Born to be Wilde para os 5 sentidos

Ingredientes p/2 pessoas:

300 gramas de carne de novilho
1 garrafa de um bom vinho tinto
1 lata de cogumelos pequena
2 colheres de sopa de polpa de tomate
3 dentes de alho
2 folhas de louro
Pimenta a olho
Piri-piri a olho
Tomilho a olho
(para quem não tiver o olho treinado, não deitar mais do que duas colheres de chá de cada)
Uma xícara de arroz
1 álbum de Miles Davis: Relaxin' (Saquem aqui)
Sobremesa: um poema ou dois de Dylan Thomas

Primeiro: preparar o arroz branco que é o mais fácil e pode ficar cozinhar enquanto se faz o resto. Uma parte de arroz, duas de água. Um colher de Sal. Deixar ao lume. Tapar, mas não completamente. Simples.

Agora, partir a carne de novilho em bocados pequenos. Na frigideira um fundo de azeite e acende-se o lume. Picar os alhos e deitar lá dentro. Mal o alho comece a dourar, o que é uma questão de segundos, deitar a polpa de tomate. Mexer com colher de pau. Acrescentar um copo de vinho meio cheio (pode ser meio vazio, consoante as sensibilidades). Convém que o vinho seja bom e que seja o mesmo que se vai beber durante a refeição. Acrescentar as folhas de louro, o sal, a pimenta e o tomilho. Mexer. Agora segue-se a carne e os cogumelos. Mexer. Passados uns 10 minutos deve estar bom. Vejam pelo aspecto (é preciso treinar o olho). Não se esqueçam do arroz, que deve estar pronto antes disso!

Agora, é tempo de pôr a mesa bonita (o olho em acção, mais uma vez), e se quiserem podem por o arroz em forma de montinhos usando duas tigelas pequenas como forma. Ao servir, reguem o arroz com o molho da carne

Agora, ponham o álbum Relaxin' de Miles Davis a tocar. Vão ver como se trata do complemento perfeito para esta simples e bela refeição. O groove do contra-baixo e o saxofone cool de miles, conjuga na perfeição com uma boa carne e bom vinho.

No final, quando já só sobrar o vinho e a música, sugiro a leitura de This Bread I Break de Dylan Thomas, que aqui traduzo desta forma (ver original aqui):

Este pão que abro

Este pão que abro foi antes centeio,
Este vinho sobre uma ramada forasteira
Ficou submerso nos seus frutos
O homem de dia ou o vento à noite
Derrubaram as searas, arrancaram a alegria dos cachos

Outrora neste vinho, o sangue do verão
palpitou na carne que enfeitava a videira
Antes, neste pão
o centeio era feliz sob o vento;
mas o homem desfez o sol e o vento foi abatido.

Esta carne que desfazes, este sangue
que deixas desolar nas veias,
Eram cachos e centeio
Nascidos das raízes e seiva sensuais;
Deste meu vinho bebes, deste meu pão te alimentas

segunda-feira, 2 de março de 2009

Erich Fromm: Psicanálise e Religião

Li este livro de Erich Fromm, Psicanálise e Religião
Erich Fromm é um autor que aprecio, principalmente quando ele junta Freud, Marx e Buda nos seus raciocínios. Neste pequeno livro, Fromm começa por distinguir duas visões diferentes da psicanálise face à religião, encarnadas nas posições de Freud e Jung. Para Freud, a religião é uma regressão à infância, uma projecção da figura de um pai protector e fonte de segurança na ideia de um Deus. Já para Jung, a religião encontra-se no inconsciente. Jung situa a religião no inconsciente como algo de sagrado e transcendente, cheio de arquétipos e fonte de descoberta de um eu transpessoal.
Jung tem a sua obra muito associada à religião e várias das suas obras se centram à volta das questões psicológicas espirituais e religiosas. Contudo, é um autor que constantemente me desilude no contacto com a sua obra, na medida em que facilmente entra em campos esotéricos profundos mas depois não está à altura das coisas que fala, reduzindo todas estas questões a uma análise cientifizante e simplista, nunca saindo de uma posição racionalista banal. Fromm apresenta a visão de Jung da seguinte forma: "tendo definido a prática religiosa como a submissão a um poder que nos é estranho, Jung continua, interpretando o conceito do inconsciente como sendo religioso. Segundo o autor, o inconsciente não pode ser apenas uma parte da mente do indivíduo, mas sim um poder para além do nosso controlo que se intromente na nossa mente".
Jung, como que aliena o inconsciente humano, tornando-o algo de separado da nossa psique individual. Para Jung, o inconsciente são conteúdos sagrados que por aí pairam (como almas penadas) que entram na nossa mente e nos dominam. Perigoso! Jung acaba equiparar o inconsciente a um delírio paranóico, de algo que "anda algures lá fora" e que penetra a nossa mente dominando-a! Esquizofrénico!
Freud tinha uma visão muito menos esotérica, ligando a religião a uma estrutura social de obediência a uma autoridade paterna, garante da ordem e do sentido para a comunidade. Isto sim, parece-me algo bastante mais profundo do que todas as esquizofrenias e esoterismos de Jung. Quer isto dizer que a religião para Freud, embora ele não havia aprofundado este caminho, estaria ligado às estruturas comunitárias e políticas de uma sociedade.
Fromm depois segue bem este caminho, mostrando como o patriotismo e as neuroses modernas são da mesma família da àrvore genealógica da religiosidade:

Como forma colectiva e poderosa de idolatria moderna encontramos o culto do poder, do sucesso e da autoridade do mercado; mas, para além destas formas colectivas, encontramos algo mais. Se rasparmos a superfície do homem moderno encontramos um sem-núemro de formas primitivas e individualizadas de religião. Muitas destas formas são designadas por neuroses, mas também lhe poderíamos dar os respectivos nomes religiosos: culto dos antepassados, totemismo, fetichismo, ritualismo, culto da purificação e por aí adiante.

Assim, o culto dos antepassados pode ser encontrado na adoração em massas de uma estrela do rock falecida há muitos anos; o totemismo pode ser encontrado no culto do dragão, do leão e da águia (falo do futebol português como é óbvio), com suas estruturas grupais e tribais geradoras de culto de massas; o culto da purificação, para além de atingir muito doentes obsessivo-compulsivos, é um espírito que a ASAE encarna bem e encontramos uma mitologia da purificação muito bem elaborada nos anúncios do detergente da louça e da roupa (as bolinhas brancas que comem a sujidade à superfície e as bolinhas verdes que comem a sujidade profundas), o ritualismo é facilmente visível nas tomadas de posse e corte de fitas de muitas figuras políticas. Sobre esses políticos acrescentaria um outro aspecto religioso importante: as rezas (quando eles têm as orações/discursos já prontos e o seu único trabalho é encaixar a rezinha certa no momento certo).

Erich Fromm distingue depois as religiões em autoritárias/humanistas. Esta distinção não me convence, pois resumindo Fromm um pouco à minha maneira, isto seria qualquer coisa como: as religiões autoritárias subjugam o homem e nas humanistas é o homem individual que subjuga. Isto porque a defesa que Fromm faz de um tipo de religião humanista passa pela defesa de uma religião que eleva a razão, a liberdade e o amor como ideiais, descartando Deus como suporte ético. Para mim, há razão a mais em Fromm. A razão, como instrumento de domínio humano, não descarta o autoritarismo, pelo contrário. A razão traz consigo uma pulsão de morte, um instinto de dominação e de poder. Aliás, o próprio Fromm refere umas páginas antes que "a razão, benção do homem, é também a sua maldição, pois obriga-o a enfrentar constantemente a tarefa de resolver uma dicotomia insolúvel".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

DJ Estaline prepara golpe de estado

Hoje à noite o meu alter-ego DJ Estaline sobe à cabine de som do bar Carpe Diem em Santo Tirso para, em conjunto com o camarada Rabino (baterista dos Godot), dar ao povo rock antigo, rock moderno, pós-moderno, clássico, romântico e greco-romano. Serviço público! Música para o proletariado! Hasta la Revolución! Siempre!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Chestov: Apoteose do Desenraizamento

D.H. Lawrence diz que a cultura europeia penetrou nos russos como um vírus e que Chestov recebe-a como uma doença. Depois de ler All Things Are Possible de Chestov, aqui ficam algumas impressões (sim, fiquei realmente impressionado). All Things Are Possible no original chama-se Apotheosis of Groundlessness: An Attempt at Non-Dogmatic Thinking, que se pode traduzir por qualquer coisa como "A Apoteose do Desenraizamento: uma tentativa de pensamento não-dogmático". Chestov manda às urtigas todos os sistemas filosóficos e pensamento metodológico científico como limites à procura da verdade. A ideia é a de que, a partir do momento em os filósofos e epistemólogos tentam determinar à partida aquilo que é possível conhecer, estão na verdade a construir uma prisão para o pensamento. A ideia de sequência, fundamento da temporalidade, e tão cara à nossa razão, castra a imaginação e a possibilidade de aceder ao possível e ao impossível. Para Chestov, a razão é aquilo que nos faz prever o futuro, ou melhor, aquilo que engendra o futuro. É a razão, portanto, que nos traz decepções, na medida em que a vida decorre de forma a furtar-se sempre às nossas previsões. Assim, entre a vida e a razão, escolhendo a primeira não temos necessidade de prever e explicar e aceitamos o inalterável e inevitável como parte do jogo.
Chestov é perturbante. É semelhante à experiência de ser deitado fora de casa e viver ao relento. Zygmunt Bauman em "Modernidade e Ambivalência" referiu-se a Chestov desta forma:

"Chestov reagiu com um assalto frontal ao que era (como se dispôs a provar) um incurável paroquialismo da própria procura do absoluto em geral, e dos valores absolutamente superiores em particular. A procura pelos filósofos do sistema último, da ordem completa, da extirpação de todo o desconhecido e ingovernável deriva - declarou ele - da adoração de um terreno firme, de um lugar seguro e resulta na redução do infinito potencial humano." (Baumann)


O homem confortavelmente estabelecido diz: Como pode alguém viver sem a certeza do amanhã; como pode alguém dormir sem um tecto sobre a cabeça? Mas um acidente lança-o fora de sua casa e do seu lar. Tem forçosamente de dormir debaixo de uma sebe. Não consegue descansar, está cheio de medos. Pode haver feras selvagens, colegas vagabundos. Mas a longo prazo ele habitua-se. Confia a sua vida à contingência, vive a vida de vagabundo e dorme profundamente.
Lev Chestov

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Chestov: Todas as coisas são possíveis

Em Portugal, do existencialista russo Chestov (em inglês Shestov), apenas há uma edição em português: traduzida em 1960 pelo poeta Jorge de Sena, As Revelações da Morte, da editora Morais (que já não existe), é um livro que já desisti de procurar. Aproveitando a baixa da libra face ao dólar, adquiri na Amazon esta bela edição em inglês de All Things are Possible, com prefácio de D.H. Lawrence. Logo a primeira página do livro deixou-me de rastos:
Dei-me ao trabalho de fazer uma tradução para os que têm dificuldades com o Inglês:

As ruas obscuras da vida não oferecem as conveniências das vias públicas centrais: Nenhuma luz eléctrica, nem gás, nem sequer um lâmpada de querosene. Não há nenhum pavimento: O viajante tem que palmilhar o seu caminho na escuridão. Se precisa de uma luz, deve esperar por um trovão, ou então, por sabedoria primitiva, solta uma faísca de uma pedra. Num vislumbre verá contornos pouco familiares; e então, deve tentar lembrar-se daquilo que conseguiu ver, independentemente de a impressão ser verdadeira ou falsa. Pois ele não obterá outra luz facilmente, excepto se bater com a sua cabeça contra um muro, vendo faíscas dessa maneira. O que pode um miserável pedestre reunir em tais circunstâncias? Como podemos esperar dele um claro testemunho, ele cuja curiosidade (suponhamos a sua curiosidade assim tão forte) o levou a apalpar o seu caminho por entre as fronteiras da vida? Por que deveríamos tentar comparar os seus registos com aqueles dos viajantes de ruas brilhantes?

Lev Chestov

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Guitarristas de Esquerda


Albert King + Dick Dale

Doyle Bramhall II

O que têm em comum estes três senhores de guitarra na mão? Reparem nas imagens: são todos esquerdinos. Mas atenção! Não fizeram como Jimmy Hendrix, Kurt Cobain e a maioria dos guitarristas esquerdinos, trocando as cordas de sítio para as adaptar à sua esquerdice. Tocam a mesma guitarra com as cordas iguais às de uma guitarra normal de um dextro.

O primeiro, Albert King, foi uma lenda do Blues. Nasceu numa plantação de algodão em Indiana, Mississipi e tornou-se um dos grandes mestres do Blues de sempre. (Saquem aqui o álbum King of the Blues Guitar)

O segundo, Dick Dale, é considerado o pai do chamado "Surf Music", estilo de música que pretendeu exprimir o prazer do surf, que descende do rock'and'roll anos 50,mas com inovações introduzidas por Dick tais como a sua "guitarra molhada" e da introdução de sonoridades do Médio Oriente. É por demais conhecida a sua música "Misirlou" popularizada pelo filme Pulp Fiction de Tartantino (Saquem aqui a colectânea "King of the Surf Music" de Dick Dale)

Por último, o Terceiro, Doyle Bramhall II, é um talento recente na história do Blues e do Rock, descoberto por Eric Clapton. Tendo o acima referido Albert King como uma das suas maiores referências, fez colaborações com Clapton, B.B. King., entre outros. A sua carreira a solo começou recentemente, mas auguro-lhe um bom futuro. Para além de excelente guitarrista, tem uma voz portentosa. (Saquem aqui o álbum Welcome)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Psicanálise Chinesa, Zen e Lacan



Encontrei uma interessante entrevista com Michel Guibal, psicanalista francês que trabalha na china. Foi ele que analisou Huo Datong, o primeiro psicanalista lacaniano chinês, que é conhecido na China como o "Freud" chinês. Guibal mantém aliás uma página muito interessante sobre "Lacan e a China", de seu nome "Lacan et le monde Chinois". Nesta página encontram muita informação acerca das influências da psicanálise na cultura chinesa, influências chinesas na psicanálise ocidental, referências à China na obra de Freud e Lacan, referências a Lacan e Freud em autores Chineses e textos e informação sobre os índices de saúde mental na China. Ainda não vi tudo, até porque está em francês, que não é das minhas línguas fortes. Mas fiquei a saber, por exemplo, que os suicídios na China são um quarto de todos suicídios do mundo inteiro, que é o único país onde as mulheres se suicidam mais que os homens, sendo também a principal causa de morte dos chineses entre os 15 e os 34 anos.

Quanto á psicanálise na China, é curioso verificar o seu crescente sucesso nesta cultura milenar. Contudo, um dos entraves que se tem encontrado neste processo, tem a ver com a dificuldade em traduzir os textos de Freud e Lacan para a língua chinesa, dado que as estruturas da língua diferem extraordinariamente. Já o divulgador inglês do Zen, Alan Watts, referia que nas línguas ocidentais normalmente "as diferenças entre coisas e acções são claramente, se bem que nem sempre logicamente, distintas, mas um grande número de palavras chinesas são indistintamente utilizadas para substantivos e verbos - razão pela qual quem pensa em chinês terá pouca dificuldade em ver que os objectos são também acontecimentos, que o nosso mundo é mais um conjunto de processos do que de entidades."
Os próprios caracteres chineses, variam grandemente seu significado consoante o contexto em que estão inseridos. Aliás, Freud usou esta característica dos caracteres chineses para fazer uma analogia com a linguagem dos sonhos, precisamente no seu livro "A interpretação dos sonhos", no sentido de explicar que os elementos do sonho não podiam ser interpretados de forma isolada, mas sim no contexto e na sequência do resto do sonho. Assim sendo, as palavras de Lacan quando este diz "O inconsciente estrutura-se como linguagem", não se aplicam na perfeição à linguagem chinesa? Talvez então a dificuldade de traduzir as obras clássicas da psicanálise para o mandarim seja as potencialidades novas que esta oferece para traduzir o pensamento psicanalítico mais fielmentente até que as línguas de origem.

Referindo ainda Lacan, é importante lembrar que o primeiro seminário deste, acerca dos escritos técnicos de Freud, começa precisamente com a analogia entre o Psicanalista e o Mestre Zen, na medida em que o mestre Zen interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé. É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen . Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.

Há aliás vários outors pontos de contacto entre a Psicanálise e o Budismo Zen, tais como a concepção do Eu, dos mecanismos de defesa, entre vários outros aspectos que são abordados neste artigo que vale a pena ler: "Lacan e a Arte Zen do Psicanalista" de André Camargo Costa

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Música Moderna: entre Eros e o Capital

Do the thing you wanna do, but from here, from the heart, the soul. Let me tell you something, i'm a blues player. I've never been a millionaire, but let me tell you something: I think I am! (...) If ya do the thing you love, you're rich, man!
Hubert Slim

My advice would be... to aspiring musicians: find a way to do what you love to do, because if you do, then it doesn't really matter if you get paid to do it or not. then you can have your life wrapped around it and work in a coffee shop. And then if you're lucky, maybe you can make a living with it. And if you're lucky and you work hard, maybe you can get a lot of money doing it, but if that's your goal, then you really shouldn't do it.
Dave Matthews

Vi este documentário excepcional sobre a indústria da música na américa: Before the Music Dies. Este documentário mostra-nos o culminar do processo de degradação da música americana por intermédio dos monopólios económicos das editoras e das rádios. Isto originou uma ditadura das playlists nas rádios e a imposição de fórmulas normativas empresarias na produção da música. Esta situação é visível no facto de a MTV nos últimos anos nos ter habituado ao mesmo tipo de música estereotipada, onde raparigas com caras de plástico e peitos grandes foram paulatinamente ocupando o lugar dos verdadeiros artistas.

A música americana esteve sempre ao longo da sua história ligada a movimentos de libertação social e política, desde os field hollers e as working songs dos escravos negros dos campos de algodão, passando pelo blues e o jazz do princípio do século XX, até ao rock da revolução sexual dos anos 60. Porém, a partir dos fins dos anos 70, tendo em conta que a música se havia tornado um negócio que movimenta milhões, começou a surgir a velha história que Marx conta, ou seja, uma classe burguesa a tomar conta das mais-valias desta produção, surgindo grandes editoras que progressivamente foram arrecadando os lucros da exploração dos artistas da música.

Há medida que o negócio da música se foi tornando uma verdadeira indústria que movimenta muito capital, a figura do agente musical, que inicialmente era alguém que promovia e geria as bandas numa perspectiva de servir a banda, passa ao longo dos anos a mudar para a figura de um empresário que tanto investe em petróleo, bananas, computadores ou discos de música consoante o que dita o mercado. As editoras passam então a funcionar numa lógica mercantilista, o que acaba por influenciar claramente a produção da música. A música passa a ser vista meramente como produto de consumo, passando esta a ser objecto de avaliação por parte de estudos de mercado para atingir determinadas fórmulas. Os talentos musicais que não se regem por tais fórmulas vão tendo cada vez mais dificuldades em ter apoios por parte das editoras.

Por fim chegam-se às famosas playlists, as listas das músicas que são dadas às rádios para estas passarem a troco de dinheiro. Aqui em Portugal vivemos há alguns anos segundo esta fórmula das playlists, que são nada mais nada menos do que uma ditadura do capital. Aqui está o segredo para a música das rádios ser tão má e repetitiva relativamente ao universo musical possível.

No entanto já se começam a ver sinais de uma revolução: começam a surgir pequenas editoras, feitas por gente do mundo musical, que dispensam perfeitamente as grandes editoras, pois gravar um disco nunca foi tão fácil como nos dias de hoje. E depois de gravada, o acesso à música nunca foi tão fácil como com a Internet. De facto as grandes editoras têm os seus dias contados, pois é insustentável pensar-se em fazer dinheiro com a venda de discos como se fez até hoje, na medida em que a Internet vem destruir o formato possível pela qual a música podia ser considerada propriedade privada (o disco).
Os artistas musicais para fazer dinheiro terão que fazê-lo a partir dos espectáculos ao vivo que dão.

No entanto, o verdadeiro músico, aquele que adora tocar ou cantar bela música, que toca com alma e coração e que ama aquilo que faz, não precisa de fazer dinheiro pois já é rico.
Vejam aqui o documentário Before The Music Dies:

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Futebol, Édipo, Arbitragem e Revolução


Se há coisa que me repele como adepto de futebol são as inúmeras e inesgotáveis conversas e discussões sobre arbitragens. Todas a beleza e interesse das complexidades tácticas, técnicas, físicas e estéticas de um jogo de futebol são afuniladas para questões ordinárias de ordem jurídica tais como: estava ou não fora-de-jogo, foi penalti /não foi penalti, foi falta/não foi falta. Dá-se muito mais atenção às prestações dos árbitros nos jogos, do que aos jogadores, quer nas conversas de café quer nos debates televisivos. Pior: os próprios jogadores "jogam" com o árbitro, atirando-se para o chão, fazendo birras e queixinhas.

Os árbitros, tal como qualquer figura jurídica, são como uma autoridade paterna que regula os conflitos entre duas equipas por recurso a leis. Tal como já foi aqui referido anteriormente, o advento do desporto moderno não se pode dissociar do advento do estado de direito moderno, que trocou o conflito físico e violento entre os homens, por um confronto regido por leis, o que se pode chamar jogo, e que está na base de qualquer processo civilizacional.

O problema nesta cultura de arbitragem está relacionada com um complexo de édipo vivido de uma forma geral por todos os agentes do futebol (jogadores, adeptos, treinadores) que se fixa no árbitro como o pai que interdita o gozo dos filhos, impedindo-os de verem os seus desejos fálicos de triunfo triunfarem sem restrições, qual princípio do prazer sem limites. Esta situação origina uma dependência eterna em relação à figura da autoridade paterna, neste caso o árbitro, sendo que os jogadores e adeptos nunca chegam a ser moralmente autónomos. Pelo contrário, nesta situação, sua dependência mantém-se, e pior, os jogadores infatilizam-se, como podemos ver pelas suas quedas no relvado, birras, queixinhas e choradinhos.

Só há uma maneira de resolver esta situação: Matem o árbitro, façam uma revolução: tirem os árbitros do futebol. Joguem sozinhos e os jogadores e clubes que decidam entre si como hão-de resolver os problemas. Acontecerá o que aconteceu nos primórdios da humanidade e do complexo de Édipo, que Freud explicou bem e Marcuse resumiu com um toque Marxista:

Segundo a hipótese de Freud, o pai [árbitro] é assassinado pelos filhos [jogadores e adeptos] e devorado colectivamente numa refeição fúnebre. A primeira tentativa de libertar as pulsões e generalizar a sua satisfação, de eliminar a distribuição despótica, hierárquica e privilegiada da felicidade e do trabalho, consiste em se libertar da dominação. Esta acaba, segundo Freud, quando os filhos rebeldes ou irmãos vêem ou crêem ver que é impossível não haver dominação e que na verdade o pai não era inútil, por mais despoticamente que tivesse governado. O pai é reposto pelos irmãos, agora voluntariamente e, por assim dizer, de maneira generalizada, como moralidade, isto é, eles impõe a si mesmos, livremente, as renúncias e restrições às pulsões a que antes haviam sido coagidos pelo pai primitivo. Com essa interiorização da dominação paterna - origem da moralidade e da consciência moral - começam a cultura e a civilização.
Herbert Marcuse

Assim sendo, bastava acabar com os árbitros no futebol para podermos começar a ver verdadeiro fair-play e futebol a sério. Seria bonito vermos todos os que se queixavam de roubalheiras e injustiças ficarem sem ninguém que arcasse com as culpas e queixas e, ao contrário, ficarem todos a suspirar pela falta do árbitro.

sábado, 24 de janeiro de 2009

"O Presidente Vai Nu": Obama, Moda e Perversão


A visão do espectáculo Obama produzido pela TV deve ser lido como uma cebola: São várias as camadas de sentido que se devem separar até se chegar a um núcleo duro traumático que faz chorar. Aparentemente é um acontecimento político. Sim, trata-se da tomada de posse de um presidente, evidentemente. Mas vendo de mais perto e prestando bem atenção, vemos que talvez isto não seja bem política: fala-se do vestido da mulher do presidente, das roupas das filhas do presidente e do casaco do presidente, e tudo parece um espectáculo de Moda. Depois, mais de perto, vemos os estilistas a falar das roupas ouve-se coisas como: "Vestido amarelo de Michelle reflete o tema da esperança: com cor que foge da tradição, é vista como símbolo da esperança da campanha e da presidência de Obama".

Isto faz lembrar a história Zen de Ch'ing-yuan, que conta que antes antes de começar a instrução olhava para as águas e as montanhas e elas eram apenas águas e montanhas. Depois de começar o caminho da libertação, reparou que as águas não são águas, e que as montanhas não são montanhas. Depois, quando teve o seu satori, momento de iluminação, pode ver finalmente as montanhas como montanhas e as águas como águas.

A estrutura deste conto Zen passa por um caminho que começa pela ausência de sentido inicial, passando por um processo de atribuição de um outro sentido às águas e montanhas, com o retorno ao sem sentido original no final.

O espectáculo Obama, porém, tem um caminho que passa pelo evento inicial carregado de sentido, havendo depois uma fase de liquidação de sentido em que se fala de tudo o que está aparentemente esvaziado de significação política (como roupas e vestidos), para no fim se voltar a atribuir sentido político a elementos que haviam sido usados para mascarar um sentido inicial. Trata-se de um processo de recalcamento de um elemento traumático, tapado com roupas, sendo que o recalcamento falha e as roupas surgem de novo com a carga traumática inicial. A carga política que o fato de Obama assume no fim, é o que se pode então chamar de perversão.

Assim sendo, a política moderna é rigorosamente aquilo que o Presidente veste, ou seja uma perversão. Mas não nos admiremos com isto, uma vez que todos usamos roupas, e a componente social e sexual das roupas que todos compartilhamos, pode ser tratada como uma perversão generalizada e civilizada.

Klossowski em A Moeda Viva pega na lógica de Sade ao explicar que a perversão é "a primeira reacção contra a animalidade pura e logo uma primeira manifestação interpretativa das impulsões elas mesmas (...) O termo perversão refere-se pois à fixação da emoção voluptuosa num estádio prévio ao acto de procriar, enquanto os termos sadianos "paixões simples", combinando-se em "paixões complicadas", designam as diversas artimanhas pelas quais a emoção voluptuosa inicial, na sua capacidade interpretativa, acaba por escolher entre diversas funções orgânicas novos objectos de sensação para os substituir à ùnica função procriativa e assim manter indefinidamente em suspenso esta última."

Não serão estes "novos objectos de sensação" aquilo que se aplica na perfeição ao que se chama de "roupa": algo que é usado para manter em suspenso a função procriativa, substituindo-a por um processo anterior que se fixa no fantasma da satisfação do desejo? Não serão as roupas o símbolo máximo da possibilidade de trocar a emoção voluptuosa por significações e símbolos que valem pelas mesmas? A importância da farda de Obama e do vestido de Michelle na vida pulsional dos povos ganha assim uma luz nova.

Sobre fardas, vale a pena ler também este pequeno excerto dos sonâmbulos de Herman Broch (que acaba de ganhar o prémio de romance mais citado neste blog):
"A verdadeira função do uniforme não é seguramente outra qualquer senão essa mesma: manifestar e estatuir a ordem do mundo, suprimir o vaporoso e movente da vida, da mesma maneira que esconde o vaporoso e a moleza do corpo humano, encobre a roupa de baixo e a própria pele, é por isso que a sentinela no seu posto deve usar luvas brancas. Assim, ao homem que pela manhã se aperta na sua farda até ao último botão é dada como que uma segunda pele mais espessa, e se lhe afigura então reencontrar a sua vida verdadeira e a sua solidez originária.

Obama vem então dar um novo sentido ao belo conto do Rei que vai nu. Obama e Michele, pensando estarem a usar vestidos muito originais e elegantes, convencidos por dois estilistas larápios, exibem-se face aos jornalistas que os cobrem de elogios. Eu porém, sinto-me como a criança que diz "O Presidente vai Nu", na medida em que Obama mostra não uma roupinha bonita, mas sim de forma bastante nua e crua a forma como a política moderna e racional é essencialmente uma perversão e negação da realidade inegável da vida pulsional ambivalente e móvel de nossos corpos.

Lembro ainda um conto Zen acerca de um monge que perguntou a um mestre Zen qual a verdadeira natureza de Buda. Eis que o mestre se levantou e tirou o seu hábito ficando completamente nu. O monge fugiu assustado e o mestre correu atrás dele rindo às gargalhadas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cristiano Ronaldo e a Sociedade do Espectáculo de Débord; Pasolini e o futebol como poesia


Eleito Cristiano Ronaldo o melhor jogador de futebol do mundo, seguem-se as "reacções" produzidas pelos jornalistas, para fazer render mais-valias da produção deste espectáculo. Questionam-se figuras celebridades e políticos que dizem muito bem, que é merecido e desejam tudo de bom. Que mais hão-de dizer? Cristiano Ronaldo, face ao seu apagamento futebolístico que dura há uns bons meses, tem vindo a suplicar aos deuses este prémio, tal compensação fálica de uma insatisfação narcísica. O pior para Ronaldo é que agora é mais difícil jogar com o peso de um tal falo e o receber do prémio não vale mais do que um orgasmo fugidio, perpetuando-se a insatisfação.

O que me ressalta de toda estes cerimoniais e rituais à volta deste prémio, é a profunda incompatibilidade do Ronaldo figura pública com o Ronaldo futebolista. Ronaldo é retirado do seu habitat natural, o relvado e a bola, suada e sangrenta, sendo obrigado a vestir fato e gravata, e a produzir discurso, coisa para a qual não é manifestamente talentoso. Ronaldo é obrigado sob a ditadura da celebridade, a dizer as coisas certas nos momentos certos, e a vestir-se sob determinado código, tal o preço da fama. Assistir a Ronaldo alinhar-se em determinados códigos da fala, que dizem que não podemos dizer abertamente que somos os melhores e os maiores (precisamente quando o somos), obrigando-nos a fazer o neurótico movimento de negação pública da sua superioridade fálica privada para se sacrificar ao princípio da realidade, é assisitir ao ritual da sua própria castração.

Ronaldo, o teu prémio já o ganhaste há muito nos relvados, e quem o deu foram os berros dos ingleses de sábado à tarde que gritam "Rohnaaaldoh" todos os fins de semana a cada golo teu. Não tentes dominar um código que não é o teu, por muito que te estimulem a isso.
Guy Debord já avisava que o mundo moderno haveria de expulsar toda a vivência humana para o mundo da representação. Assim também o futebol vive esse perigo de ver a sua espontaneidade e imediatez serem transmutadas em título e notícia vendível. E as belas capacidades e potências corporais atléticas e estéticas de Ronaldo, vão sendo vilipendeadas e atraiçoadas pelos discursos daqueles que Deleuze chamaria de "agentes de sobrecodificação": jornalistas, burocratas e políticos que se associam e transformam Ronaldo numa marca e numa outra coisa qualquer que não aquilo que é. Ronaldo, através deste prémio, passa a ser a figura que simboliza o espírito de sucesso de uma determinada ideologia de competição competitiva capitalista, ou a figura do sucesso Darwinista do melhor sobre os mais fracos, ou até a figura do elemento destacado do resto da equipa, qual burguesia que se aproveita do trabalho colectivo e das mais-valias de toda uma equipa de mais de 10 jogadores.

Agamben reportando-se Débord diz-nos que "é na figura deste mundo separado e organizado através dos media, em que as formas do Estado e da economia se penetram mutuamente, que a economia mercantil acede a um estatuto de soberania absoluta e irresponsável sobre toda a vida social. Depois de a ter falsificado a totalidade da produção, ela pode agora manipular a percepção colectiva e apoderar-se da memória e da comunicação social para transformá-las numa única mercadoria espectacular, em que tudo pode ser posto em questão, excepto o próprio espectáculo, que, em si, nada mais diz do que isto: "o que aparece é bom, o que é bom aparece"

O futebol e os jogadores de futebol como Cristiano Ronaldo devem resistir a estas tentativas de subverter o código do futebol por um outro código que é o código do marketing capitalista.
O futebol deve sim ser respeitado no seu próprio código. Sim, o futebol tem o seu próprio código que é o de uma comunicação não-verbal, sendo que o futebol de Cristiano Ronaldo é mais bem expresso numa linguagem poética, mais próxima da imediatez e espontaneidade dos ritmos do corpo e das emoções do futebol. Mas nisto não sou muito original: o cineasta Pasolini já em tempos definiu o futebol como linguagem própria, sendo que o jornalismo uma sub-código da língua que estaria muito aquém de conseguir traduzir o fenómeno futebolístico. Após a final do Campeonato do Mundo de 1970, em que o Brasil ganhou à Itália, Pasolini dizia que o futebol poético brasileiro havia ganho à prosa estilizante italiana:

"Justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos do golo. Cada golo é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada golo é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [jogador do Bolonha, do Nápoles e da selecção italiana] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais golos é o mais poético. [Tal como Ronaldo]

O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a acção do golo). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [1922-92, um dos principais nomes do cinema cômico italiano] nos "Mágicos da Bola", o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser perfeitamente onírico).

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia -e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo colectivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e golo; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o golo é confiado à conclusão, possivelmente por um "poeta realista" como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo colectivo, fundado por uma série de passagens "geométricas", executadas segundo as regras do código (...)

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é snobada em nome da "prosa coletiva"): nele, o golo pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o golo são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. (...)

Destas reflexões de Pasolini acrescentar-se-ia que o nível literário do futebol português subiu bastante desde os anos 70 até hoje, e que a maneira com que Pasolini fala do futebol brasileiro aplica-se também ao futebol português, muito embora Portugal também é uma espécie de síntese hegeliana entre o futebol europeu e o sul-americano, na medida em que é mais táctico do que sul-americano, mas mais latino e criativo que o restante futebol europeu. Assim, o futebol de Portugal seria uma espécie de poesia clássica, de estrutura e canônes rígidos, sendo que o brasil seria um tipo de poesia neo-romântica, mais liberta de regras e estruturas, menos "racional". Só assim então, por uma questão linguística, Ronaldo se pôde afirmar no meio do pragmatismo e utilitarismo inglês.