segunda-feira, 2 de março de 2009

Erich Fromm: Psicanálise e Religião

Li este livro de Erich Fromm, Psicanálise e Religião
Erich Fromm é um autor que aprecio, principalmente quando ele junta Freud, Marx e Buda nos seus raciocínios. Neste pequeno livro, Fromm começa por distinguir duas visões diferentes da psicanálise face à religião, encarnadas nas posições de Freud e Jung. Para Freud, a religião é uma regressão à infância, uma projecção da figura de um pai protector e fonte de segurança na ideia de um Deus. Já para Jung, a religião encontra-se no inconsciente. Jung situa a religião no inconsciente como algo de sagrado e transcendente, cheio de arquétipos e fonte de descoberta de um eu transpessoal.
Jung tem a sua obra muito associada à religião e várias das suas obras se centram à volta das questões psicológicas espirituais e religiosas. Contudo, é um autor que constantemente me desilude no contacto com a sua obra, na medida em que facilmente entra em campos esotéricos profundos mas depois não está à altura das coisas que fala, reduzindo todas estas questões a uma análise cientifizante e simplista, nunca saindo de uma posição racionalista banal. Fromm apresenta a visão de Jung da seguinte forma: "tendo definido a prática religiosa como a submissão a um poder que nos é estranho, Jung continua, interpretando o conceito do inconsciente como sendo religioso. Segundo o autor, o inconsciente não pode ser apenas uma parte da mente do indivíduo, mas sim um poder para além do nosso controlo que se intromente na nossa mente".
Jung, como que aliena o inconsciente humano, tornando-o algo de separado da nossa psique individual. Para Jung, o inconsciente são conteúdos sagrados que por aí pairam (como almas penadas) que entram na nossa mente e nos dominam. Perigoso! Jung acaba equiparar o inconsciente a um delírio paranóico, de algo que "anda algures lá fora" e que penetra a nossa mente dominando-a! Esquizofrénico!
Freud tinha uma visão muito menos esotérica, ligando a religião a uma estrutura social de obediência a uma autoridade paterna, garante da ordem e do sentido para a comunidade. Isto sim, parece-me algo bastante mais profundo do que todas as esquizofrenias e esoterismos de Jung. Quer isto dizer que a religião para Freud, embora ele não havia aprofundado este caminho, estaria ligado às estruturas comunitárias e políticas de uma sociedade.
Fromm depois segue bem este caminho, mostrando como o patriotismo e as neuroses modernas são da mesma família da àrvore genealógica da religiosidade:

Como forma colectiva e poderosa de idolatria moderna encontramos o culto do poder, do sucesso e da autoridade do mercado; mas, para além destas formas colectivas, encontramos algo mais. Se rasparmos a superfície do homem moderno encontramos um sem-núemro de formas primitivas e individualizadas de religião. Muitas destas formas são designadas por neuroses, mas também lhe poderíamos dar os respectivos nomes religiosos: culto dos antepassados, totemismo, fetichismo, ritualismo, culto da purificação e por aí adiante.

Assim, o culto dos antepassados pode ser encontrado na adoração em massas de uma estrela do rock falecida há muitos anos; o totemismo pode ser encontrado no culto do dragão, do leão e da águia (falo do futebol português como é óbvio), com suas estruturas grupais e tribais geradoras de culto de massas; o culto da purificação, para além de atingir muito doentes obsessivo-compulsivos, é um espírito que a ASAE encarna bem e encontramos uma mitologia da purificação muito bem elaborada nos anúncios do detergente da louça e da roupa (as bolinhas brancas que comem a sujidade à superfície e as bolinhas verdes que comem a sujidade profundas), o ritualismo é facilmente visível nas tomadas de posse e corte de fitas de muitas figuras políticas. Sobre esses políticos acrescentaria um outro aspecto religioso importante: as rezas (quando eles têm as orações/discursos já prontos e o seu único trabalho é encaixar a rezinha certa no momento certo).

Erich Fromm distingue depois as religiões em autoritárias/humanistas. Esta distinção não me convence, pois resumindo Fromm um pouco à minha maneira, isto seria qualquer coisa como: as religiões autoritárias subjugam o homem e nas humanistas é o homem individual que subjuga. Isto porque a defesa que Fromm faz de um tipo de religião humanista passa pela defesa de uma religião que eleva a razão, a liberdade e o amor como ideiais, descartando Deus como suporte ético. Para mim, há razão a mais em Fromm. A razão, como instrumento de domínio humano, não descarta o autoritarismo, pelo contrário. A razão traz consigo uma pulsão de morte, um instinto de dominação e de poder. Aliás, o próprio Fromm refere umas páginas antes que "a razão, benção do homem, é também a sua maldição, pois obriga-o a enfrentar constantemente a tarefa de resolver uma dicotomia insolúvel".

sábado, 21 de fevereiro de 2009

DJ Estaline prepara golpe de estado

Hoje à noite o meu alter-ego DJ Estaline sobe à cabine de som do bar Carpe Diem em Santo Tirso para, em conjunto com o camarada Rabino (baterista dos Godot), dar ao povo rock antigo, rock moderno, pós-moderno, clássico, romântico e greco-romano. Serviço público! Música para o proletariado! Hasta la Revolución! Siempre!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Chestov: Apoteose do Desenraizamento

D.H. Lawrence diz que a cultura europeia penetrou nos russos como um vírus e que Chestov recebe-a como uma doença. Depois de ler All Things Are Possible de Chestov, aqui ficam algumas impressões (sim, fiquei realmente impressionado). All Things Are Possible no original chama-se Apotheosis of Groundlessness: An Attempt at Non-Dogmatic Thinking, que se pode traduzir por qualquer coisa como "A Apoteose do Desenraizamento: uma tentativa de pensamento não-dogmático". Chestov manda às urtigas todos os sistemas filosóficos e pensamento metodológico científico como limites à procura da verdade. A ideia é a de que, a partir do momento em os filósofos e epistemólogos tentam determinar à partida aquilo que é possível conhecer, estão na verdade a construir uma prisão para o pensamento. A ideia de sequência, fundamento da temporalidade, e tão cara à nossa razão, castra a imaginação e a possibilidade de aceder ao possível e ao impossível. Para Chestov, a razão é aquilo que nos faz prever o futuro, ou melhor, aquilo que engendra o futuro. É a razão, portanto, que nos traz decepções, na medida em que a vida decorre de forma a furtar-se sempre às nossas previsões. Assim, entre a vida e a razão, escolhendo a primeira não temos necessidade de prever e explicar e aceitamos o inalterável e inevitável como parte do jogo.
Chestov é perturbante. É semelhante à experiência de ser deitado fora de casa e viver ao relento. Zygmunt Bauman em "Modernidade e Ambivalência" referiu-se a Chestov desta forma:

"Chestov reagiu com um assalto frontal ao que era (como se dispôs a provar) um incurável paroquialismo da própria procura do absoluto em geral, e dos valores absolutamente superiores em particular. A procura pelos filósofos do sistema último, da ordem completa, da extirpação de todo o desconhecido e ingovernável deriva - declarou ele - da adoração de um terreno firme, de um lugar seguro e resulta na redução do infinito potencial humano." (Baumann)


O homem confortavelmente estabelecido diz: Como pode alguém viver sem a certeza do amanhã; como pode alguém dormir sem um tecto sobre a cabeça? Mas um acidente lança-o fora de sua casa e do seu lar. Tem forçosamente de dormir debaixo de uma sebe. Não consegue descansar, está cheio de medos. Pode haver feras selvagens, colegas vagabundos. Mas a longo prazo ele habitua-se. Confia a sua vida à contingência, vive a vida de vagabundo e dorme profundamente.
Lev Chestov

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Chestov: Todas as coisas são possíveis

Em Portugal, do existencialista russo Chestov (em inglês Shestov), apenas há uma edição em português: traduzida em 1960 pelo poeta Jorge de Sena, As Revelações da Morte, da editora Morais (que já não existe), é um livro que já desisti de procurar. Aproveitando a baixa da libra face ao dólar, adquiri na Amazon esta bela edição em inglês de All Things are Possible, com prefácio de D.H. Lawrence. Logo a primeira página do livro deixou-me de rastos:
Dei-me ao trabalho de fazer uma tradução para os que têm dificuldades com o Inglês:

As ruas obscuras da vida não oferecem as conveniências das vias públicas centrais: Nenhuma luz eléctrica, nem gás, nem sequer um lâmpada de querosene. Não há nenhum pavimento: O viajante tem que palmilhar o seu caminho na escuridão. Se precisa de uma luz, deve esperar por um trovão, ou então, por sabedoria primitiva, solta uma faísca de uma pedra. Num vislumbre verá contornos pouco familiares; e então, deve tentar lembrar-se daquilo que conseguiu ver, independentemente de a impressão ser verdadeira ou falsa. Pois ele não obterá outra luz facilmente, excepto se bater com a sua cabeça contra um muro, vendo faíscas dessa maneira. O que pode um miserável pedestre reunir em tais circunstâncias? Como podemos esperar dele um claro testemunho, ele cuja curiosidade (suponhamos a sua curiosidade assim tão forte) o levou a apalpar o seu caminho por entre as fronteiras da vida? Por que deveríamos tentar comparar os seus registos com aqueles dos viajantes de ruas brilhantes?

Lev Chestov

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Guitarristas de Esquerda


Albert King + Dick Dale

Doyle Bramhall II

O que têm em comum estes três senhores de guitarra na mão? Reparem nas imagens: são todos esquerdinos. Mas atenção! Não fizeram como Jimmy Hendrix, Kurt Cobain e a maioria dos guitarristas esquerdinos, trocando as cordas de sítio para as adaptar à sua esquerdice. Tocam a mesma guitarra com as cordas iguais às de uma guitarra normal de um dextro.

O primeiro, Albert King, foi uma lenda do Blues. Nasceu numa plantação de algodão em Indiana, Mississipi e tornou-se um dos grandes mestres do Blues de sempre. (Saquem aqui o álbum King of the Blues Guitar)

O segundo, Dick Dale, é considerado o pai do chamado "Surf Music", estilo de música que pretendeu exprimir o prazer do surf, que descende do rock'and'roll anos 50,mas com inovações introduzidas por Dick tais como a sua "guitarra molhada" e da introdução de sonoridades do Médio Oriente. É por demais conhecida a sua música "Misirlou" popularizada pelo filme Pulp Fiction de Tartantino (Saquem aqui a colectânea "King of the Surf Music" de Dick Dale)

Por último, o Terceiro, Doyle Bramhall II, é um talento recente na história do Blues e do Rock, descoberto por Eric Clapton. Tendo o acima referido Albert King como uma das suas maiores referências, fez colaborações com Clapton, B.B. King., entre outros. A sua carreira a solo começou recentemente, mas auguro-lhe um bom futuro. Para além de excelente guitarrista, tem uma voz portentosa. (Saquem aqui o álbum Welcome)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Psicanálise Chinesa, Zen e Lacan



Encontrei uma interessante entrevista com Michel Guibal, psicanalista francês que trabalha na china. Foi ele que analisou Huo Datong, o primeiro psicanalista lacaniano chinês, que é conhecido na China como o "Freud" chinês. Guibal mantém aliás uma página muito interessante sobre "Lacan e a China", de seu nome "Lacan et le monde Chinois". Nesta página encontram muita informação acerca das influências da psicanálise na cultura chinesa, influências chinesas na psicanálise ocidental, referências à China na obra de Freud e Lacan, referências a Lacan e Freud em autores Chineses e textos e informação sobre os índices de saúde mental na China. Ainda não vi tudo, até porque está em francês, que não é das minhas línguas fortes. Mas fiquei a saber, por exemplo, que os suicídios na China são um quarto de todos suicídios do mundo inteiro, que é o único país onde as mulheres se suicidam mais que os homens, sendo também a principal causa de morte dos chineses entre os 15 e os 34 anos.

Quanto á psicanálise na China, é curioso verificar o seu crescente sucesso nesta cultura milenar. Contudo, um dos entraves que se tem encontrado neste processo, tem a ver com a dificuldade em traduzir os textos de Freud e Lacan para a língua chinesa, dado que as estruturas da língua diferem extraordinariamente. Já o divulgador inglês do Zen, Alan Watts, referia que nas línguas ocidentais normalmente "as diferenças entre coisas e acções são claramente, se bem que nem sempre logicamente, distintas, mas um grande número de palavras chinesas são indistintamente utilizadas para substantivos e verbos - razão pela qual quem pensa em chinês terá pouca dificuldade em ver que os objectos são também acontecimentos, que o nosso mundo é mais um conjunto de processos do que de entidades."
Os próprios caracteres chineses, variam grandemente seu significado consoante o contexto em que estão inseridos. Aliás, Freud usou esta característica dos caracteres chineses para fazer uma analogia com a linguagem dos sonhos, precisamente no seu livro "A interpretação dos sonhos", no sentido de explicar que os elementos do sonho não podiam ser interpretados de forma isolada, mas sim no contexto e na sequência do resto do sonho. Assim sendo, as palavras de Lacan quando este diz "O inconsciente estrutura-se como linguagem", não se aplicam na perfeição à linguagem chinesa? Talvez então a dificuldade de traduzir as obras clássicas da psicanálise para o mandarim seja as potencialidades novas que esta oferece para traduzir o pensamento psicanalítico mais fielmentente até que as línguas de origem.

Referindo ainda Lacan, é importante lembrar que o primeiro seminário deste, acerca dos escritos técnicos de Freud, começa precisamente com a analogia entre o Psicanalista e o Mestre Zen, na medida em que o mestre Zen interrompe o silêncio com qualquer coisa, um sarcasmo, um pontapé. É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen . Cabe aos alunos, eles mesmos, procurar a resposta às suas próprias questões. O mestre não ensina ex-cathedra uma ciência já pronta, dá a resposta quando os alunos estão a ponto de encontrá-la.

Há aliás vários outors pontos de contacto entre a Psicanálise e o Budismo Zen, tais como a concepção do Eu, dos mecanismos de defesa, entre vários outros aspectos que são abordados neste artigo que vale a pena ler: "Lacan e a Arte Zen do Psicanalista" de André Camargo Costa

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Música Moderna: entre Eros e o Capital

Do the thing you wanna do, but from here, from the heart, the soul. Let me tell you something, i'm a blues player. I've never been a millionaire, but let me tell you something: I think I am! (...) If ya do the thing you love, you're rich, man!
Hubert Slim

My advice would be... to aspiring musicians: find a way to do what you love to do, because if you do, then it doesn't really matter if you get paid to do it or not. then you can have your life wrapped around it and work in a coffee shop. And then if you're lucky, maybe you can make a living with it. And if you're lucky and you work hard, maybe you can get a lot of money doing it, but if that's your goal, then you really shouldn't do it.
Dave Matthews

Vi este documentário excepcional sobre a indústria da música na américa: Before the Music Dies. Este documentário mostra-nos o culminar do processo de degradação da música americana por intermédio dos monopólios económicos das editoras e das rádios. Isto originou uma ditadura das playlists nas rádios e a imposição de fórmulas normativas empresarias na produção da música. Esta situação é visível no facto de a MTV nos últimos anos nos ter habituado ao mesmo tipo de música estereotipada, onde raparigas com caras de plástico e peitos grandes foram paulatinamente ocupando o lugar dos verdadeiros artistas.

A música americana esteve sempre ao longo da sua história ligada a movimentos de libertação social e política, desde os field hollers e as working songs dos escravos negros dos campos de algodão, passando pelo blues e o jazz do princípio do século XX, até ao rock da revolução sexual dos anos 60. Porém, a partir dos fins dos anos 70, tendo em conta que a música se havia tornado um negócio que movimenta milhões, começou a surgir a velha história que Marx conta, ou seja, uma classe burguesa a tomar conta das mais-valias desta produção, surgindo grandes editoras que progressivamente foram arrecadando os lucros da exploração dos artistas da música.

Há medida que o negócio da música se foi tornando uma verdadeira indústria que movimenta muito capital, a figura do agente musical, que inicialmente era alguém que promovia e geria as bandas numa perspectiva de servir a banda, passa ao longo dos anos a mudar para a figura de um empresário que tanto investe em petróleo, bananas, computadores ou discos de música consoante o que dita o mercado. As editoras passam então a funcionar numa lógica mercantilista, o que acaba por influenciar claramente a produção da música. A música passa a ser vista meramente como produto de consumo, passando esta a ser objecto de avaliação por parte de estudos de mercado para atingir determinadas fórmulas. Os talentos musicais que não se regem por tais fórmulas vão tendo cada vez mais dificuldades em ter apoios por parte das editoras.

Por fim chegam-se às famosas playlists, as listas das músicas que são dadas às rádios para estas passarem a troco de dinheiro. Aqui em Portugal vivemos há alguns anos segundo esta fórmula das playlists, que são nada mais nada menos do que uma ditadura do capital. Aqui está o segredo para a música das rádios ser tão má e repetitiva relativamente ao universo musical possível.

No entanto já se começam a ver sinais de uma revolução: começam a surgir pequenas editoras, feitas por gente do mundo musical, que dispensam perfeitamente as grandes editoras, pois gravar um disco nunca foi tão fácil como nos dias de hoje. E depois de gravada, o acesso à música nunca foi tão fácil como com a Internet. De facto as grandes editoras têm os seus dias contados, pois é insustentável pensar-se em fazer dinheiro com a venda de discos como se fez até hoje, na medida em que a Internet vem destruir o formato possível pela qual a música podia ser considerada propriedade privada (o disco).
Os artistas musicais para fazer dinheiro terão que fazê-lo a partir dos espectáculos ao vivo que dão.

No entanto, o verdadeiro músico, aquele que adora tocar ou cantar bela música, que toca com alma e coração e que ama aquilo que faz, não precisa de fazer dinheiro pois já é rico.
Vejam aqui o documentário Before The Music Dies:

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Futebol, Édipo, Arbitragem e Revolução


Se há coisa que me repele como adepto de futebol são as inúmeras e inesgotáveis conversas e discussões sobre arbitragens. Todas a beleza e interesse das complexidades tácticas, técnicas, físicas e estéticas de um jogo de futebol são afuniladas para questões ordinárias de ordem jurídica tais como: estava ou não fora-de-jogo, foi penalti /não foi penalti, foi falta/não foi falta. Dá-se muito mais atenção às prestações dos árbitros nos jogos, do que aos jogadores, quer nas conversas de café quer nos debates televisivos. Pior: os próprios jogadores "jogam" com o árbitro, atirando-se para o chão, fazendo birras e queixinhas.

Os árbitros, tal como qualquer figura jurídica, são como uma autoridade paterna que regula os conflitos entre duas equipas por recurso a leis. Tal como já foi aqui referido anteriormente, o advento do desporto moderno não se pode dissociar do advento do estado de direito moderno, que trocou o conflito físico e violento entre os homens, por um confronto regido por leis, o que se pode chamar jogo, e que está na base de qualquer processo civilizacional.

O problema nesta cultura de arbitragem está relacionada com um complexo de édipo vivido de uma forma geral por todos os agentes do futebol (jogadores, adeptos, treinadores) que se fixa no árbitro como o pai que interdita o gozo dos filhos, impedindo-os de verem os seus desejos fálicos de triunfo triunfarem sem restrições, qual princípio do prazer sem limites. Esta situação origina uma dependência eterna em relação à figura da autoridade paterna, neste caso o árbitro, sendo que os jogadores e adeptos nunca chegam a ser moralmente autónomos. Pelo contrário, nesta situação, sua dependência mantém-se, e pior, os jogadores infatilizam-se, como podemos ver pelas suas quedas no relvado, birras, queixinhas e choradinhos.

Só há uma maneira de resolver esta situação: Matem o árbitro, façam uma revolução: tirem os árbitros do futebol. Joguem sozinhos e os jogadores e clubes que decidam entre si como hão-de resolver os problemas. Acontecerá o que aconteceu nos primórdios da humanidade e do complexo de Édipo, que Freud explicou bem e Marcuse resumiu com um toque Marxista:

Segundo a hipótese de Freud, o pai [árbitro] é assassinado pelos filhos [jogadores e adeptos] e devorado colectivamente numa refeição fúnebre. A primeira tentativa de libertar as pulsões e generalizar a sua satisfação, de eliminar a distribuição despótica, hierárquica e privilegiada da felicidade e do trabalho, consiste em se libertar da dominação. Esta acaba, segundo Freud, quando os filhos rebeldes ou irmãos vêem ou crêem ver que é impossível não haver dominação e que na verdade o pai não era inútil, por mais despoticamente que tivesse governado. O pai é reposto pelos irmãos, agora voluntariamente e, por assim dizer, de maneira generalizada, como moralidade, isto é, eles impõe a si mesmos, livremente, as renúncias e restrições às pulsões a que antes haviam sido coagidos pelo pai primitivo. Com essa interiorização da dominação paterna - origem da moralidade e da consciência moral - começam a cultura e a civilização.
Herbert Marcuse

Assim sendo, bastava acabar com os árbitros no futebol para podermos começar a ver verdadeiro fair-play e futebol a sério. Seria bonito vermos todos os que se queixavam de roubalheiras e injustiças ficarem sem ninguém que arcasse com as culpas e queixas e, ao contrário, ficarem todos a suspirar pela falta do árbitro.

sábado, 24 de janeiro de 2009

"O Presidente Vai Nu": Obama, Moda e Perversão


A visão do espectáculo Obama produzido pela TV deve ser lido como uma cebola: São várias as camadas de sentido que se devem separar até se chegar a um núcleo duro traumático que faz chorar. Aparentemente é um acontecimento político. Sim, trata-se da tomada de posse de um presidente, evidentemente. Mas vendo de mais perto e prestando bem atenção, vemos que talvez isto não seja bem política: fala-se do vestido da mulher do presidente, das roupas das filhas do presidente e do casaco do presidente, e tudo parece um espectáculo de Moda. Depois, mais de perto, vemos os estilistas a falar das roupas ouve-se coisas como: "Vestido amarelo de Michelle reflete o tema da esperança: com cor que foge da tradição, é vista como símbolo da esperança da campanha e da presidência de Obama".

Isto faz lembrar a história Zen de Ch'ing-yuan, que conta que antes antes de começar a instrução olhava para as águas e as montanhas e elas eram apenas águas e montanhas. Depois de começar o caminho da libertação, reparou que as águas não são águas, e que as montanhas não são montanhas. Depois, quando teve o seu satori, momento de iluminação, pode ver finalmente as montanhas como montanhas e as águas como águas.

A estrutura deste conto Zen passa por um caminho que começa pela ausência de sentido inicial, passando por um processo de atribuição de um outro sentido às águas e montanhas, com o retorno ao sem sentido original no final.

O espectáculo Obama, porém, tem um caminho que passa pelo evento inicial carregado de sentido, havendo depois uma fase de liquidação de sentido em que se fala de tudo o que está aparentemente esvaziado de significação política (como roupas e vestidos), para no fim se voltar a atribuir sentido político a elementos que haviam sido usados para mascarar um sentido inicial. Trata-se de um processo de recalcamento de um elemento traumático, tapado com roupas, sendo que o recalcamento falha e as roupas surgem de novo com a carga traumática inicial. A carga política que o fato de Obama assume no fim, é o que se pode então chamar de perversão.

Assim sendo, a política moderna é rigorosamente aquilo que o Presidente veste, ou seja uma perversão. Mas não nos admiremos com isto, uma vez que todos usamos roupas, e a componente social e sexual das roupas que todos compartilhamos, pode ser tratada como uma perversão generalizada e civilizada.

Klossowski em A Moeda Viva pega na lógica de Sade ao explicar que a perversão é "a primeira reacção contra a animalidade pura e logo uma primeira manifestação interpretativa das impulsões elas mesmas (...) O termo perversão refere-se pois à fixação da emoção voluptuosa num estádio prévio ao acto de procriar, enquanto os termos sadianos "paixões simples", combinando-se em "paixões complicadas", designam as diversas artimanhas pelas quais a emoção voluptuosa inicial, na sua capacidade interpretativa, acaba por escolher entre diversas funções orgânicas novos objectos de sensação para os substituir à ùnica função procriativa e assim manter indefinidamente em suspenso esta última."

Não serão estes "novos objectos de sensação" aquilo que se aplica na perfeição ao que se chama de "roupa": algo que é usado para manter em suspenso a função procriativa, substituindo-a por um processo anterior que se fixa no fantasma da satisfação do desejo? Não serão as roupas o símbolo máximo da possibilidade de trocar a emoção voluptuosa por significações e símbolos que valem pelas mesmas? A importância da farda de Obama e do vestido de Michelle na vida pulsional dos povos ganha assim uma luz nova.

Sobre fardas, vale a pena ler também este pequeno excerto dos sonâmbulos de Herman Broch (que acaba de ganhar o prémio de romance mais citado neste blog):
"A verdadeira função do uniforme não é seguramente outra qualquer senão essa mesma: manifestar e estatuir a ordem do mundo, suprimir o vaporoso e movente da vida, da mesma maneira que esconde o vaporoso e a moleza do corpo humano, encobre a roupa de baixo e a própria pele, é por isso que a sentinela no seu posto deve usar luvas brancas. Assim, ao homem que pela manhã se aperta na sua farda até ao último botão é dada como que uma segunda pele mais espessa, e se lhe afigura então reencontrar a sua vida verdadeira e a sua solidez originária.

Obama vem então dar um novo sentido ao belo conto do Rei que vai nu. Obama e Michele, pensando estarem a usar vestidos muito originais e elegantes, convencidos por dois estilistas larápios, exibem-se face aos jornalistas que os cobrem de elogios. Eu porém, sinto-me como a criança que diz "O Presidente vai Nu", na medida em que Obama mostra não uma roupinha bonita, mas sim de forma bastante nua e crua a forma como a política moderna e racional é essencialmente uma perversão e negação da realidade inegável da vida pulsional ambivalente e móvel de nossos corpos.

Lembro ainda um conto Zen acerca de um monge que perguntou a um mestre Zen qual a verdadeira natureza de Buda. Eis que o mestre se levantou e tirou o seu hábito ficando completamente nu. O monge fugiu assustado e o mestre correu atrás dele rindo às gargalhadas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cristiano Ronaldo e a Sociedade do Espectáculo de Débord; Pasolini e o futebol como poesia


Eleito Cristiano Ronaldo o melhor jogador de futebol do mundo, seguem-se as "reacções" produzidas pelos jornalistas, para fazer render mais-valias da produção deste espectáculo. Questionam-se figuras celebridades e políticos que dizem muito bem, que é merecido e desejam tudo de bom. Que mais hão-de dizer? Cristiano Ronaldo, face ao seu apagamento futebolístico que dura há uns bons meses, tem vindo a suplicar aos deuses este prémio, tal compensação fálica de uma insatisfação narcísica. O pior para Ronaldo é que agora é mais difícil jogar com o peso de um tal falo e o receber do prémio não vale mais do que um orgasmo fugidio, perpetuando-se a insatisfação.

O que me ressalta de toda estes cerimoniais e rituais à volta deste prémio, é a profunda incompatibilidade do Ronaldo figura pública com o Ronaldo futebolista. Ronaldo é retirado do seu habitat natural, o relvado e a bola, suada e sangrenta, sendo obrigado a vestir fato e gravata, e a produzir discurso, coisa para a qual não é manifestamente talentoso. Ronaldo é obrigado sob a ditadura da celebridade, a dizer as coisas certas nos momentos certos, e a vestir-se sob determinado código, tal o preço da fama. Assistir a Ronaldo alinhar-se em determinados códigos da fala, que dizem que não podemos dizer abertamente que somos os melhores e os maiores (precisamente quando o somos), obrigando-nos a fazer o neurótico movimento de negação pública da sua superioridade fálica privada para se sacrificar ao princípio da realidade, é assisitir ao ritual da sua própria castração.

Ronaldo, o teu prémio já o ganhaste há muito nos relvados, e quem o deu foram os berros dos ingleses de sábado à tarde que gritam "Rohnaaaldoh" todos os fins de semana a cada golo teu. Não tentes dominar um código que não é o teu, por muito que te estimulem a isso.
Guy Debord já avisava que o mundo moderno haveria de expulsar toda a vivência humana para o mundo da representação. Assim também o futebol vive esse perigo de ver a sua espontaneidade e imediatez serem transmutadas em título e notícia vendível. E as belas capacidades e potências corporais atléticas e estéticas de Ronaldo, vão sendo vilipendeadas e atraiçoadas pelos discursos daqueles que Deleuze chamaria de "agentes de sobrecodificação": jornalistas, burocratas e políticos que se associam e transformam Ronaldo numa marca e numa outra coisa qualquer que não aquilo que é. Ronaldo, através deste prémio, passa a ser a figura que simboliza o espírito de sucesso de uma determinada ideologia de competição competitiva capitalista, ou a figura do sucesso Darwinista do melhor sobre os mais fracos, ou até a figura do elemento destacado do resto da equipa, qual burguesia que se aproveita do trabalho colectivo e das mais-valias de toda uma equipa de mais de 10 jogadores.

Agamben reportando-se Débord diz-nos que "é na figura deste mundo separado e organizado através dos media, em que as formas do Estado e da economia se penetram mutuamente, que a economia mercantil acede a um estatuto de soberania absoluta e irresponsável sobre toda a vida social. Depois de a ter falsificado a totalidade da produção, ela pode agora manipular a percepção colectiva e apoderar-se da memória e da comunicação social para transformá-las numa única mercadoria espectacular, em que tudo pode ser posto em questão, excepto o próprio espectáculo, que, em si, nada mais diz do que isto: "o que aparece é bom, o que é bom aparece"

O futebol e os jogadores de futebol como Cristiano Ronaldo devem resistir a estas tentativas de subverter o código do futebol por um outro código que é o código do marketing capitalista.
O futebol deve sim ser respeitado no seu próprio código. Sim, o futebol tem o seu próprio código que é o de uma comunicação não-verbal, sendo que o futebol de Cristiano Ronaldo é mais bem expresso numa linguagem poética, mais próxima da imediatez e espontaneidade dos ritmos do corpo e das emoções do futebol. Mas nisto não sou muito original: o cineasta Pasolini já em tempos definiu o futebol como linguagem própria, sendo que o jornalismo uma sub-código da língua que estaria muito aquém de conseguir traduzir o fenómeno futebolístico. Após a final do Campeonato do Mundo de 1970, em que o Brasil ganhou à Itália, Pasolini dizia que o futebol poético brasileiro havia ganho à prosa estilizante italiana:

"Justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos do golo. Cada golo é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada golo é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [jogador do Bolonha, do Nápoles e da selecção italiana] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais golos é o mais poético. [Tal como Ronaldo]

O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a acção do golo). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [1922-92, um dos principais nomes do cinema cômico italiano] nos "Mágicos da Bola", o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser perfeitamente onírico).

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia -e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo colectivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e golo; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o golo é confiado à conclusão, possivelmente por um "poeta realista" como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo colectivo, fundado por uma série de passagens "geométricas", executadas segundo as regras do código (...)

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é snobada em nome da "prosa coletiva"): nele, o golo pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o golo são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. (...)

Destas reflexões de Pasolini acrescentar-se-ia que o nível literário do futebol português subiu bastante desde os anos 70 até hoje, e que a maneira com que Pasolini fala do futebol brasileiro aplica-se também ao futebol português, muito embora Portugal também é uma espécie de síntese hegeliana entre o futebol europeu e o sul-americano, na medida em que é mais táctico do que sul-americano, mas mais latino e criativo que o restante futebol europeu. Assim, o futebol de Portugal seria uma espécie de poesia clássica, de estrutura e canônes rígidos, sendo que o brasil seria um tipo de poesia neo-romântica, mais liberta de regras e estruturas, menos "racional". Só assim então, por uma questão linguística, Ronaldo se pôde afirmar no meio do pragmatismo e utilitarismo inglês.

sábado, 27 de dezembro de 2008

1 ano de Born to be Wilde

Não podia deixar de fazer um pequeno post para assinalar este dia 27 de Dezembro como o dia em que o "Born to be Wilde" completou um ano de existência. Passado um ano, depois de 9.887 visitas e 108 posts (contando com este), a primeira tentação seria dizer que se trata de um sucesso. Contudo, não é esse o caso, pois não havia qualquer critério de sucesso definido e nem sequer o número de visitas serve pois este tornou-se grande o suficiente para se tornar fenómeno de estatística, fenómenos aos quais sou averso. O trocadilho de Born to be Wilde tanto significa nascer para ser como o Oscar Wilde, como nascer para ser um selvagem do rock como a música. Falhei nos dois. Para ser como o Oscar Wilde falta-me ser mais espirituoso e gay. Para ser um selvagem do Rock, falta-me andar de mota ou tocar guitarra como o guitarrista dos Steppenwolf:


O que posso dizer é que este tem sido essencialmente um espaço freudiano de sublimação de pulsões; um espaço marxista onde formulo e produzo ideias para a colectividade sem qualquer noção de propriedade privada; um espaço kierkegaardiano feito de pseudonimias, ironias, humor e angústias existenciais; um não-espaço deleuziano de desterritorialiações e ligações rizomáticas anti-edipianas; e um espaço estético à Oscar Wilde que se consagra também à beleza das artes.
Enfim, há espaço para tudo. Tem havido também espaço para maravilhosos encontros entre cibernautas que partilham de suas opiniões, pensamentos, paixões, e interessess de classe comuns e que aqui encalham e naufragam bastante oportunamente. Tenho conhecido (no mundo das ideias) pessoas muito interessantes e valiosas vindas de lugares mais distantes, mas de espíritos próximos.

Mas enfim, um ano é um ano, uma volta ao sol, medida padrão de relógio castrador. O que valem são os pretextos para celebrar. Ou como disse Carlos Drummond de Andrade:

"São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora."

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Tudo o que sempre quiseste perguntar sobre a crise mas o menino Jesus não sabia e Marx não estava lá para te responder

Hoje venho falar da crise. Sim, a crise. Toda a gente fala nela, e nunca ninguém a viu, pelo menos em carne e osso. É uma coisa abstracta, de números grandes e diz-se que os portugueses nunca se deram bem com matemáticas. Vemos na televisão reportagens idiotas de jornalistas a tentarem saber o que é a crise e basicamente reportam-nos como as pessoas compram o bolo rei mais pequenino do que o costume por causa da crise. Vemos pessoas que, não tendo sido em nada afectadas pela crise, não obstante compram menos, sentem-se culpadas e refream o consumo. A crise é um novo Deus, que ninguém conhece ao vivo mas que todos devemos temer. As vozes que vemos na televisão papagueando sobre a crise diz que ela tem a ver com ganância e com falta de regulação, tal como os padres diziam que a gula é pecado e que devemos regular os nossos impulsos sexuais.

Sobre a crise actual, depois de muito (mal) se ver e ouvir, trago-vos duas vozes lúcidas: o economista marxista americano Rick Wolff e o filósofo francês Alain Badiou. O primeiro, Rick Wolff, escreveu um artigo na Monthly Review chamado Capitalism's Crisis through a Marxian Lens. No site Resistir.Info encontram uma tradução minha para português deste mesmo artigo. Aconselho também a verem o seguinte vídeo de uma palestra de Rick Wolff sobre o mesmo tema. Rick Wolff explica-nos como os salários médios reais dos trabalhadores americanos parou de crescer a partir de meados dos anos 70, sendo que estes, para além de já sofreram a exploração clássica capitalista de verem ser transferidas as mais-valias do seu próprio trabalho para os patrões e administradores, começaram nesta altura e verem congelados o crescimento dos seus salários reais. Para manter o padrão de consumo americano, que é a medida de sucesso pessoal americana, os trabalhadores começaram a contrair empréstimos atrás de empréstimos.


A segunda voz lúcida sobre a crise que vos trago é Alain Badiou, que escreveu este artigo genial: "De Quel Réel Cette Crise Est-Elle le Spectacle". Deste artigo há uma tradução em inglês (Of Which Real is this Crisis the Spectacle?), mas eu próprio realizei uma tradução deste artigo para português que aqui transcrevo:

A que Real pertence o Espectáculo desta Crise

Alain Badiou

Tal como nos é apresentada, a crise financeira planetária assemelha-se a um desses maus filmes preparados por aquela fábrica da produção de blockbusters a que hoje chamamos o “cinema”. Não falta nada: o espectáculo do desastre crescente, a sensação de se ser suspenso de enormes cadeias de marionetas, o exotismo do idêntico – a Bolsa de Valores de Jacarta colocada dentro da mesma forma espectacular que Nova York, a diagonal de Moscovo a São Paulo, em todo lugar o mesmo fogo que assola nos mesmos bancos – para não mencionar lances de enredo horripilantes: é impossível evitar a Sexta-feira Negra, tudo está a cair, tudo cairá...

Mas a esperança sobrevive. No primeiro plano, de olho aberto e focados, como num filme catástrofe, vemos o pequeno bando dos poderosos – Sarkozy, Paulson, Merkel, Marrom, Trichet e outros – tentando extinguir as chamas monetárias, enchendo dezenas de biliões no Buraco central. Teremos depois tempo para nos admirarmos (a saga continuará seguramente) de onde vêm esses biliões, dado que há alguns anos, à menor exigência do pobre, as mesmas personagens responderam virando os seus bolsos de dentro para fora, dizendo que não tinham um cêntimo. Neste momento isso não interessa. "Salvem os bancos!" Este grito nobre, humanista e democrático sai das bocas de cada jornalista e político. Salvem-nos a qualquer preço! Vale a pena indicar isto, dado que o preço não é insignificante.

Tenho de confessar: considerando os números que estão sendo difundidos, cujo sentido, como qualquer outro, sou incapaz da representar para mim mesmo (o que são exactamente mil e quatrocentos biliões de euros?), também estou confiante. Ponho toda a confiança nos nossos bombeiros. Todos juntos, estou seguro, sinto-o, vão conseguir.
Os bancos serão ainda maiores do que antes, enquanto alguns mais pequenos ou de tamanho médio, tendo sido só capaz de sobreviver pela benevolência de estados, serão vendidos aos maiores por uma bagatela. O colapso do capitalismo? Devem estar a brincar. No fim de contas, quem é que o quer? Quem saberia sequer o que isso significaria? Salvemos os bancos, dizem-nos, e o resto se seguirá. Para os protagonistas imediatos do filme – o rico, os seus empregados, os seus parasitas, aqueles que os invejam e aqueles que os aclamam – é inevitável um final feliz, mas ligeiramente melancólico, tendo em conta o actual estado do mundo, e o tipo de política que nele tem lugar.

Voltemo-nos antes para os espectadores deste show, a multidão embrutecida que – vagamente instável, que pouco entende, totalmente desligada de qualquer compromisso activo na situação - ouve, como um barulho distante, o canto de cisne dos bancos à deriva. Esta multidão pode apenas tentar imaginar os fins-de-semana extenuantes da nossa pequena equipa heróica de cabeças do governo. Vêem passar à sua frente números tão enormes como obscuros, comparando-os automaticamente aos seus próprios recursos, ou até, ao puro e simples não-recurso que é a corajosa e amarga base das suas vidas. Aí é que está o Real, e apenas conseguiremos aceder a ele se nos afastarmos do ecrã do espectáculo para considerar as massas invisíveis daqueles para quem este filme catástrofe, com seu final feliz incluído (Sarkozy beija Merkel e todo o mundo chora de alegria) não foi mais do que um teatro de sombras.

Nas últimas semanas ouvimos muitas vezes falar da “economia real” (a produção e circulação de mercadorias) e da - como devemos chamá-la? irreal? – economia que é a fonte de toda a maldade, em que os seus agentes tinham-se tornado "irresponsáveis", "irracionais" e "predadores" – abastecendo, primeiro com espírito de rapina, e posteriormente em pânico, a agora massa informe de acções, títulos e moeda. Esta distinção é absurda, e é geralmente imediatamente contradita, quando, por meio de uma metáfora oposta, a circulação financeira e a especulação são apresentadas como 'o sistema circulatório' do capitalismo. O coração e o sangue podem ser subtraídos da realidade viva de um corpo? Um golpe financeiro é indiferente à saúde da economia no conjunto? Como sabemos, o capitalismo financeiro tem sido sempre – o que equivale a dizer nos últimos cinco séculos – um componente principal, central do capitalismo em geral. Quanto aos proprietários e os gerentes deste sistema, por definição eles são só "responsáveis" por lucros, a sua “racionalidade” é medida pelos ganhos e não se trata de eles serem ou não predadores: eles têm que o ser.

Assim sendo, não encontramos nada mais “Real” na sala de máquinas da produção capitalista do que nos seus balcões comerciais ou nas suas cabines especulativas. Os dois últimos corrompem o primeiro: na sua maioria esmagadora, os objetos produzidos por este tipo de maquinaria – apontando apenas para o lucro e para especulações derivadas que são a parte mais rápida e mais considerável deste lucro – são feios, embaraçosos, inconvenientes, inúteis, e é necessário gastar biliões para persuadir as pessoas do contrário. Isto pressupõe transformar as pessoas em crianças mimadas e eternos adolescentes cuja existência consiste simplesmente em arranjar novos brinquedos.

O regresso ao Real não pode ser um movimento que conduz a má especulação "irracional" de volta à produção saudável. É o retorno à vida imediata e reflexiva de todos os que habitam este mundo. É apenas através desse ponto de vantagem que se pode observar o capitalismo sem estremecimento, incluindo o filme catástrofe que ele está infligindo actualmente sobre nós. O Real não é este filme, mas o seu público.

Então o que vemos, se virarmos deste modo tudo ao contrário deste modo? Vemos, e isto é o que significa ver, coisas simples que sabíamos há muito tempo: o capitalismo é nada mais do que roubo, irracional na sua essência e devastador no seu desenvolvimento. As suas poucas décadas de prosperidade selvaticamente desigual sempre se fizeram à custa de crises nas quais quantidades astronómicas de valor desaparecem, expedições punitivas e sangrentas a cada zona que o capitalismo julga ser estrategicamente importante ou uma ameaça, e guerras mundiais que o devolveram à sua saúde.

Aqui reside a força didáctica do visionamento deste filme da crise. Face à vida da gente que o olha, ainda nos atreveremos a orgulharmo-nos de um sistema que delega a organização da vida colectiva ao mais básico dos impulsos – ganância, rivalidade, egoísmo irreflectido? Podemos cantar os louvores de uma “democracia” cujos líderes fazem a licitação da apropriação financeira privada com tal impunidade que chocariam o próprio Marx, que no entanto já havia definido os governos, há cento e sessenta anos, como "os agentes do capital"? O cidadão comum deve “perceber” que é impossível compor o buraco da dívida da segurança social, mas que é imperativo encher de biliões o buraco financeiro dos bancos? Temos que aceitar sombriamente que já não é possível nacionalizar uma fábrica ameaçada pela competição, uma fábrica que emprega milhares de funcionários, mas que já é óbvio fazê-lo com um banco que ficou sem dinheiro por causa da especulação?

Neste negócio, o Real deve ser encontrado do lado mais perto da crise. Pois de onde vem então toda esta fantasmagoria financeira? Simplesmente do facto de, por créditos miraculosos pendentes diantes dos seus olhos, as pessoas destituídas dos meios de as comprar, foram encorajadas na compra de casas vistosas. Os títulos de dívida dessas pessoas foram então vendido e misturados, como se faz com drogas sofisticadas, com produtos financeiros cuja composição se mostrou tão científica como opaca por batalhões de matemáticos.

Tudo isso então circulou, aumentando o seu valor de venda em venda, em bancos cada vez mais distantes. Sim, a medida material desta circulação deve ser encontrada nas casas. Mas foi o suficiente para o mercado imobiliário abrir falência e, como esta medida desvalorizou e os credores exigiram mais, os compradores tornaram-se cada vez menos capazes de pagar as suas dívidas. E quando finalmente eles não puderam de todo pagá-las, a droga injectada nos produtos financeiros envenenou-os a todos: estes deixaram de valer o que quer que fosse. Mas isto parece ser um jogo de soma nula: o especulador perde a sua aposta e os compradores as suas casas, das quais são polidamente desalojados. Mas o Real deste jogo de soma nula fica como sempre no lado da colectividade, da vida comum: no fim de contas, tudo tem origem no facto de existirem milhões de pessoas cujos salários, ou a ausência deles, as tornam absolutamente incapazes de se alojarem. A verdadeira essência da crise financeira é uma crise de alojamento. E aqueles que não encontram casa não são os banqueiros, seguramente. É sempre necessário regressar à existência comum.

A única coisa que podemos esperar deste assunto é que este poder didáctico pode ser encontrado nas lições deste drama severo vivido pelo povo, e não pelos banqueiros, os governos que os servem, e os jornais que servem esses mesmos governos. Este regresso ao Real tem dois aspectos relacionados. O primeiro é claramente político. Como o filme mostrou, o fetiche "democrático" é simplesmente o empregado zeloso dos bancos. O seu verdadeiro nome, o seu nome técnico, como defendi há algum tempo, é o parlamentarismo-capitalista. É aconselhável, como várias experiências políticas que começaram ser feitas nos últimos vinte anos, organizar uma política de uma natureza diferente.

Tal política está, e estará sem dúvida durante muito tempo, a uma grande distância do poder estatal, mas não importa. Ela começa ao nível do real, pela aliança prática entre aqueles que são o mais imediatamente disponíveis para inventar tal política: os proletários recentemente chegados de África e outros lugares, e os intelectuais que herdaram as batalhas políticas das últimas décadas. Esta aliança crescerá com base no que será, ponto por ponto, a sua capacidade de realização. Não entreterá nenhuma espécie de relação orgânica com os partidos existentes nem com o sistema eleitoral e institucional que os sustém. Ela irá inventar a nova disciplina daqueles que não têm nada, a sua capacidade política, a ideia nova daquilo que se parecerá com a sua vitória.

O segundo aspecto é ideológico. Devemos derrubar o velho veredicto segundo o qual este seria o tempo do “fim de ideologias”. Hoje podemos ver claramente que a única realidade deste suposto fim se encontra no slogan “salvem os bancos”. Nada é mais importante do que recuperar a paixão das ideias e contrapôr o mundo tal como ele é com uma hipótese geral, a certeza anticipada de um estado de coisas inteiramente diferente. Ao espetáculo nefasto do capitalismo, opomos o Real dos povos, da existência de todos no movimento próprio das ideias. O tema de uma emancipação da humanidade não perdeu nenhum do seu poder. Sem dúvida que a palavra "comunismo", que durante muito tempo serviu para denominar este poder, foi desvirtuada e prostituída.

Mas hoje, o seu desaparecimento só beneficia os advogados da ordem, os actores fervorosos do filme catástrofe. Mas ressuscitaremos o comunismo na sua claridade novamente descoberta. Esta claridade é também a sua virtude mais velha, como quando Marx disse do comunismo que ele "quebra da forma mais radical com ideias tradicionais" e que ele trará consigo "uma associação na qual o desenvolvimento gratuito de cada um é a condição prévia do desenvolvimento gratuito de todos".

O corte total com o o parlamentarismo-capitalista, a invenção de uma política nivelada com o popular Real, a soberania da ideia: está tudo lá, tudo o que precisamos para nos elevarmos e virarmo-nos para longe do filme da crise.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O Natal e a Monstruosidade de Jesus

Este ano recebi uma prenda de Natal especial. Nesta data infestada de pais natais trepadores e consumismo atroz, é interessante lembrar a interessante coincidência de um sujeito que faz anos precisamente no Dia de Natal. Chama-se Jesus Cristo. E nesta "monstruosidade de Cristo", Zizek defende uma perspectiva marxista, lacaniana e hegeliana de Jesus. Zizek defende rigorosa e ardentemente o ateísmo como a única maneira de se ser verdadeiramente cristão, defendendo ao mesmo tempo os termos de uma ética materialista.
«Quando as pessoas imaginam toda a espécie de sentidos profundos porque as "assustam as palavras que dizem: Ele fez-se Homem", aquilo que na realidade receiam é perderem o Deus transcendente que garante o sentido do universo, Deus como o senhor oculto que move os cordelinhos - em seu lugar encontramos um deus que abandona a sua posição transcendente e se precipita na sua própria criação, comprometendo-se com ela até à morte, o que faz com que nós, seres humanos, fiquemos sem qualquer Poder superior que olhe por nós, sem outra coisa que não seja o terrível fardo da liberdade e da responsabilidade pelo destino da criação divina e, portanto, do próprio deus. Não continuarão hoje a recear demasiado assumir todas as consequênciaqs dessas palavras? Não preferirão aqueles que se dizem "cristãos" guardar a imagem confortável de um Deus sentado lá em cima, que observa benevolentemente as nossas vidas, nos envia o seu filho como símbolo do seu amor, ou, ainda mais confortavelmente, com a simples imagem de uma força Superior impessoal?"
Slavoj Zizek

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Gonçalo Tavares - Jerusalém

Li há pouco tempo este magnífico romance de Gonçalo Tavares, Jerusalém. Apelidado em França de Kafka português, com uma escrita lúcida, concreta e dura, Gonçalo Tavares transporta-nos para um mundo de personagens sui generis, entre eles o doutor Theodor Busbeck que quer fazer um estudo sobre a distribuição do horror na história humana e que entende necessária a busca de Deus como critério de saúde mental:

"Theodor era absolutamente saudável, em qualquer parâmetro que fosse considerado. Fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Estas três categorias eram, aliás, para Theodor uma espécie de pontos cardeais indispensáveis à existência com saúde. Era, a este nível, bem mais flexível do que a maior parte dos seus colegas de clínica mental que reduziam a saúde ao estado em que os músculos fazem o que nós queremos e nós queremos algo de sensato. Para Theodor, a este indivíduo, faltaria ainda a normalidade espiritual. E o que era esta? Eis a fórmula: falta algo ao homem normal, ao homem dito saudável, e ele - como qualquer criança - procura encontrar o que lhe falta, principalmente porque esta sensação de roubo: alguém ou algo que me levou uma parte - parte, continuemos a chamar-lhe assim, espiritual -, então, o homem normal, o homem saudável, vai à procura do ladrão e do objecto roubado, mas neste caso, ele não percebe aquilo que lhe foi roubado, não conhece a forma e o conteúdo da substância que agora lhe faz falta. Descobrir o que fora roubado a nível espiritual, era, para Theodor, um objectivo indispensável. O homem saudável quer encontrar Deus, dizia Busbeck de modo mais directo."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Mercantilização do Saber e a Universidade como Estrutura de Certificação de Título Nobiliárquicos

"A cultura superior ainda existe. E mais acessível do que nunca. É lida, vista e ouvida por mais pessoas do que jamais o fora; porém a sociedade bloqueou há muito tempo os domínios espirituais dentro dos quais essa cultura poderia ser entendida em seu conteúdo cognitivo e em sua verdade determinada. O operacionalismo no pensamento e no comportamento remete estas verdades à dimensão pessoal, subjectiva e emocional; nessa forma podem ser facilmente ajustadas ao existente - a transcendência crítica e qualitativa da cultura é eliminada e o negativo integrado no positivo. Os elementos oposicionais da cultura são assim enfraquecidos: a civilização assume organiza, compra e vende a cultura; ideias que em sua essência são não-operacionais, não orientadas para o comportamento, são traduzidas em operacionais e referidas ao comportamento; e essa tradução não é uma simples metodologia, mas sim um processo social e até político"
Herbert Marcuse

Da 12ª Assembleia da Organização do Ensino Superior do Porto da Juventude Comunista Portuguesa saiu uma resolução política fruto da reflexão dos camaradas ao longo dos últimos meses em que se sublinhou o processo de mercantilização do ensino, posta em prática pelos nossos (des)governos, em linha com as orientações globais do processo capitalista. Sob este processo faço aqui algumas observações e reflexões.

O novo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, prevê a mudança das nossas Universidades Públicas para o estatuto de Fundações Privadas. Isto é o princípio do fim da distinção entre Ensino público e Privado, na medida em que todo o ensino será privatizado. Será privatizado na medida em que as Universidades começam a ter de funcionar sob uma lógica do lucro, tendo o estado cortado substancialmente nos fundos para o Ensino Superior, obrigando as Universidades a subir as propinas e a fazer parcerias com poderes económicos para poderem simplesmente sobreviver.

Quanto ao aumento brutal das propinas no ensino público universitário, que começam a estar em muitos casos equiparadas ao custo de uma qualquer Universidade privada, convém salientar que isto é uma situação criminosa e anti-constitucional. Basta dar uma olhada na nossa constituição:

Artigo 74º:
(...) 2. Na realização da política de ensino incumbe ao Estado:
(...) d) Garantir a todos os cidadãos, segundo as suas capacidades, o acesso aos graus mais elevados do ensino, da investigação científica e da criação artística;
e) Estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino;

Face a isto, faria todo o sentido que o nosso protector máximo da Constituição, o Presidente da República, vetasse tais leis e obrigasse o governo a parar de atacar direitos dos cidadãos consignados na constiuição. Ao invés disso, temos um presidente corta-fitas, que faz discursos totalmente inócuos e ridículos sobre a "necessidade de união dos portugueses" e de que é preciso, face à crise, "não baixar os braços" entre outras banalidades.
O pior é que nos habituámos a ver o cargo de presidente da república ser reduzido a esta figura de mera representatividade simbólica, que nada faz e que nada diz de sério para além de maus discursos de circunstância e gestos vazios. Chega-se até a acreditar que é um cargo que não serve para nada, quando este tem o poder de vetar leis e derrubar governos.

Mas o que há de trágico em tudo isto é mesmo a privatização e gestão pelo lucro a que está sujeito o conhecimento académico. De repente os cursos tornaram-se também mercadoria e as Universidades tornaram-se centros de recrutamento de mão-de-obra barata, de onde saem todos os anos estagiários frescos e inocentes que não precisam de ser pagos, substituídos a cada ano.

Hoje em dia estudar numa universidade já não é um processo de auto e hetero-conhecimento, uma elevação de padrões culturais e sociais e a construção de uma voz crítica e portadora de novos ideais para a sociedade. A Universidade já não é onde vamos buscar o saber e o conhecimento elevado. A Universidade tornou-se um instrumento burocrático de certificação do saber e legitimador de discursos. O conhecimento já não se ensina de uma forma pessoal e edificante, mas sim em pacotes indiferenciados onde os mesmos programas e matérias são dados por professores diferentes e diferentes alunos recebem informação despersonalizada e empacotada para fácil consumo.

Já não é de agora que muitos alunos apenas vão à universidade para verem reconhecidos um título, fazendo todas as artimanhas disponíveis para o fazer. Mas agora, com o advento da Internet, o saber que a universidade propõe torna-se mais supérfluo. Na internet as novidades científicas e culturais circulam mais rapidamente do que nas universidades. Na internet podemos até tirar cursos de engenharia, mecânica, biologia, filosofia, sociologia, astronomia, etc etc. Está lá tudo, se soubermos procurar. É verdade que não tem os livros todos, mas estão lá as referências e as bibliografias que devemos consultar.
O Professor já não é dono do saber, mas apenas um avaliador que certifica o bem papaguear de rezas estabelecidas.

De tudo isto resulta que a Universidade é reformulada num espírito interesseiro: Tira-se um curso não para aprender mais, mas para aceder aos privilégios de uma determinada classe.
A fusão da universidade com o mercado de trabalho que nossos políticos apregoam é, ao contrário do que se pensa, a desqualificação da universidade na sua capacidade de formular conhecimento e ideais de progresso para um mundo novo, e a legitimação e criação de um neo-nobreza cortejadora dos poderes dominantes e da práxis do mercado.

É preciso tornar as Universidades gratuitas e inúteis, de forma a fazer com que entrem lá apenas as pessoas que querem aprender de uma forma desinteressada. Não é só preciso mudar a universidade. É preciso tornar acessíveis ao povo os bens necessários à sua subsistência, para que a universidade possa acolher, não pessoas desesperadas por sobreviver, e que vêm na universidade um intrumento de garantia de privilégios, mas sim todo um povo interessado em aprender a desenvolver-se cultural e socialmente.

É preciso apontar para o crescimento cultural de um povo e não um crescimento económico. Por algum motivo têm-se a ideia generalizada entre os políticos de que o crescimento económico é sempre bom e deve correr para o infinito. Contudo os recursos naturais da Terra não são infinitos. O que é infinito é a possibilidade de crescimento humano.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Wittgenstein sobre Freud

"Uma vez quando Wittgenstein estava a contar uma coisa que Freud tinha dito e o conselho que tinha dado a alguém, um de nós disse que o conselho não lhe parecia muito sábio. Claro que não, disse Wittgenstein. Mas a sabedoria é uma coisa que nunca esperaria de Freud. Esperteza, sem dúvida; mas não sabedoria"

Rush Rhees em Aulas e Conversas - Ludwig Wittgenstein

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Elbow - Seldom Seen Kid


Um dos melhores álbuns deste ano. Saquem o álbum aqui, e vejam também este vídeo de "Grounds for Divorce":

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Budismo e Avaliação de Professores


O famigerado processo de avaliação de professores instituído por este nosso (des)governo, tem feito correr muito sangue. Bem... sangue não. Tem feito correr muita... tinta vermelha. Os professores queixam-se da excessiva burocratização da profissão e de estarem a ser usados por exemplo, como vendedores de computadores magalhães, desvirtuando as suas nobres funções de elevar o nível de cultura e sabedoria de um povo.

Há um paralelismo que se pode encontrar entre esta situação e um momento particular da história do Japão no período Edo (1615-1867) na forma como eram tratados na altura os monges budistas. No início do período Edo, o Japão foi reorganizado inteiramente por um poder ditatorial, assistido por uma burocracia eficaz e minunciosa. O Budismo perdera sua influência política, tendo passado a ser regida pelo estado, graças aos sistemas dos danka (paroquianos). Os pobres monges para além de terem de mostrar ao povo o caminho da iluminação e libertação, tinham por exemplo que atender os japoneses que estavam obrigados a registarem-se num templo, próximo do qual cada família teria seu jazigo, num processo semelhante ao de um recenseamento.

Assim, tal como os professores portugueses, fizeram dos monges budistas meros serventuários de paróquias, com um estatuto de funcionários e rendimentos derivados de funerais e de outras cerimónias e serviços. Com isso fizeram com que muitos monges budistas Zen, das escolas Rinzai e Soto se recusassem a submeterem-se a um poder que não se limitava a nomear abades e dignatários, mas chegava ao ponto de regulamentar a vida quotidiana dos monges. Também aqui em Portugal, em 2008, vemos muitos professores a reformarem-se mais cedo e a oporem-se a um governo que teima em sobre-regulamentar burocraticamente a profissão.

Pequena nota - Partilho da opinião mais radical e ao mesmo tempo mais sensata que já ouvi sobre isto. Deixem os professores serem avaliados, não pelo ministério, nem os professores uns pelos outros, mas sim pelo elemento da comunidade escolar a quem mais interessa tudo isto: os alunos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Elogio da Vida Simples - Lanza del Vasto

Esta sexta-feira às 22h, dia 5 de Dezembro, não percam esta apresentação do livro "Elogio da Vida Simples" de Lanza del Vasto, no Clube Literário do Porto. A tradução desta obra foi realizada pelo Psicólogo Paulo Lima Santos, e é ele mesmo que irá fazer esta apresentação. Lanza Del Vasto foi um padre católico que viajou a pé de Itália até à Índia e que, entre outras coisas. foi discípulo de Gandhi.

Pretendia eu transcrever aqui uma ou outra passagem mas perdi-me a olhar para o livro tal o poder e choque causado por muitas das duras e belas afirmações de que é composta esta obra formidável.

"Para não odiar ninguém, hás-de odiar muitas coisas"

" Aquele que não morre por alguma coisa morre por nada. Eis porque eu sustento que é mais sábio ousar"

"A morte é um absurdo: Aquilo que é não pode cessar de ser. Mas nós morremos: porque esta vida não é o nosso ser, mas falta dele."

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Crise? Qual Crise?

Hoje apresento aqui um álbum dos Supertramp para ouvir em tempos de crise. A capa é inspiradora para os tempos que correm:


Supertamp - Crisis, What Crisis? pode ser sacado aqui.

domingo, 23 de novembro de 2008

Futebol, Nacão, Einstein e Freud



Hoje, venho aqui falar de futebol, reagindo tardia, mas não menos oportunamente, à estrondosa derrota de Portugal com o Brasil. Tamanha derrota suscitou as mais variadas reacções nos portugueses, pelo que pude observar.

Por um lado, perder por 6-2 é mau. Mas perder com o Brasil é pior. Isto porque o que está em jogo é o chamado orgulho nacionalista. Descontruindo este sentimento de nacionalidade em perigo, no fundo, os brasileiros são tão parecidos connosco que ameaçam a nossa identidade. Quando vemos jogadores como Deco e Pepe a serem tão portugueses como os outros, a cantarem igualmente o hino, a portugalidade está em perigo.

O mesmo raciocínio que Bauman fez em relação aos judeus na Alemanha, pode ser aplicado aqui: os brasileiros naturalizados portugueses não podem ser brasileiros, nem podem ser efectivamente portugueses, por muito que se esforcem. O esforço só denuncia, aliás, o carácter artifical da nação, tornando-os indesejáveis. Vivem em situação de ambivalência. Não podemos chamar-lhes nem amigos, nem inimigos. São os estranhos. Resistem à categorização, minando então as nossas próprias categorias e identidade.

A partir daí, os jogos com o Brasil têm mais importância. No fundo, tudo é uma questão de superioridade e de inferioridade. Trata-se do poder de definir os outros como amigos e inimigos, de se ultrapassar os outros como estranhos, para se poder estabelecer uma troca simbólica. As nações não têm outro sentido que não esse.

Por estas alturas, há também intelectuais que esperam que, no fundo, os portugueses deixem de ligar tanto à bola, argumentando que esse é um tipo de patrotismo menor. Dizem que os portugueses deviam orgulhar-se de outros feitos mais científicos, culturais e artísticos.

Contudo, um tipo de identificação patriótica desse tipo, por muito louvável que seja, não poderá, talvez, ser comparável ao lado mais corporal, competitivo, catártico e selvagem (porque não) que o futebol coloca em jogo. O futebol tem um elemento de tragédia e glória que não é possível menosprezar.

Tal como os desportos em geral, o futebol contém em si o que se poderia chamar lei da vitória, em que é posta em jogo uma luta pela supremacia de uns povos sobre outros. Os nacionalismos, na sua essência mais histórica, podem traduzir-se como uma luta de poderes. Ao constituir-se como grupo homogéneo, é-o na defesa de uma identidade perante outros grupos.

O nacionalismo surgido como necessidade de união perante um mundo hostil é mais forte quando uma nação se sente ameaçada. Tal como um ego é tanto mais egoísta quanto mais se sente ameaçado no seu orgulho e auto-estima.

Se dantes a guerra era o momento em que se poderia ver uma nação realmente unida por uma rede de identificações comuns, que depois experimenta vitórias ou derrotas,
o desporto é dos poucos fenómenos em que se conserva intacta esta lei da vitória. Há uma troca simbólica profunda entre os povos, quando se trata de ver países jogar uns contra os outros.

O advento do desporto moderno não se pode dissociar do advento do estado de direito moderno, que trocou o conflito físico e violento entre os homens, por um confronto regido por leis, o que se pode chamar jogo, e que está na base de qualquer processo civilizacional. O estado de direito não elimina a violência, pois é a violência que suporta esse mesmo estado de direito gerido por leis, em que a violência é neste caso aplicada a quem não respeita as mesmas leis.

O futebol é, em síntese, o retrato perfeito daquilo que é o estado moderno, com o interesse extra de ser ainda possível ver em cena um confronto físico vivo, levando isto à catarse colectiva que todos conhecemos.

Trata-se aqui no fundo de sublimar uma pulsão de morte do ser humano, que se tem demonstrado ao longo da história por intermédio de uma luta de poderes intensa.
Será que podemos, como seres humanos, algum dia ultrapassar este "instinto de competição", necessidade de domínio e poder a que Freud chamou de pulsão de morte?

Sobre isto recomendo a leitura de uma carta fabulosa que Einstein escreveu a Freud, perguntando o seguinte:

"Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de o solucionar terminaram em lamentável fracasso.
"

A restante carta de Einstein, reveladora de um humanismo ímpar por parte do cientista, complexifica já a questão de uma forma bastante interessante. Freud, por sua vez, respondeu à letra num documento fantástico, adiantando a certa altura o seguinte:

"permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. (...) É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. (...) A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade."

Assim sendo, a violência torna-se lei, e o processo de civilização não tem outro sentido que o aprofundar da constrição, controlo e educação do nosso corpo sob determinadas formas de gerir o corpo definidas pela sociedade. Comer com as mãos por exemplo não é "civilizado", comer com o auxílio de um instrumento, pelas leis que a comunidade instituíram, já é civilizado. Somos tão mais civilizados quanto mais refinado e obsessivo for o controlo social que exercemos sobre os nossos corpos. Em termos de violência, tudo continua igual, há somente, no máximo, um deslocamento desta violência fundadora da civilização do confronto físico, para o confronto de opinião, de interesse, de lei.

O futebol é paradigma da civilização ocidental moderna na forma como educa, constringe e controla os corpos de uma forma planeada, científica e controlada, preparando-os para a competição entre equipas/comunidades, sendo o jogo de futebol um sistema de confrontos violentos regidos por leis. No futebol, a violência não deixa de existir, mas somente ela pode aí assumir uma forma adequada. O futebol jogado pelo respeito máximo pelas leis pode chegar então a ser um acto moral. Como disse Deleuze em referência a Kant, "a lei define-se (...) como pura forma de universalidade. Ela não nos diz qual o objecto da que a vontade deve perseguir para ser boa, mas qual a forma que deve tomar para ser moral."

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Foreign Movies: Milhares de bons filmes de todo o mundo (à borla)

O Título diz tudo: neste blog encontrarão incontáveis bons filmes prontos para sacar. Tem categorias por realizador e por país. Podem encontrar filmes albaneses, vietnamitas, arménios, italianos, coreanos, franceses, checos, dinamarqueses, canadianos, finlandeses, alemães, indianos, romenos, russos, eslovacos, espanhóis e realizadores como Hitchcock, Tarkovsky, Bertolucci, David Cronenberg, David Lynch, Kusturica, Fellini, Francis Ford Coppola, Truffaut, Gus Van Sant, Ingmar Bergman, Godard, Ki-duk Kim, Lars von Trier, Scorsese, Almodóvar, Tarantino, Kubrick, Tim Burton, Wim Wenders, Wong Kar Wai, Woody Allen e muitos muitos mais. Tudo para download. À Borla.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Roberto Matta: Listen to Living






















Roberto Matta: «Listen to Living» 1941, oil on canvas

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Royale Rendezvous: Guitarradas, Rock e Coboiada

Hoje venho aqui fazer o papel de divulgador de música portuguesa. Já há tempos tinha falado dos Godot. Este último sábado eles voltaram ao Pinguim no Porto, mas desta vez deram um concerto mais curto pois a seguir a eles vieram os Royale Rendezvous. Estes três rapazes vieram de Leiria para nos mostrar a sua música que eu diria que está algures (assim de repente) entre os Dead Combo, Dr Frankenstein e uma banda sonora de filmes do Tarantino, formando uma espécie de rock de cóbois. Tive a oportunidade de estar com dois deles no fim, o Telmo e o António, com quem mantive conversas filosóficas de alto nível com o patrocínio da Super-Bock. É tudo gente boa, que gosta de rock, filosofia de taberna, coboiada e guitarradas, sendo que ainda fomos acabar a noite a ouvir Iggy Pop, Joy Division e Doors. Ide ao Myspace ouvir as músicas, ou façam melhor e vejam ao vivo. Recomendo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama, Pós-Modernidade e Walt Whitman

Os Estados Unidos da América têm um novo presidente, eleito com uma participação nunca antes vista desde 1908, ou seja há cem anos, que os americanos não votavam tanto. 66%, ou seja dois terços dos americanos, foram votar.

Quem é este homem, Barack Obama, que um dia se emocionou ao compreender as suas raízes africanas no Quénia, terra do pai que nunca conheceu verdadeiramente? Quem é este homem que que diz ter como referências literárias e filosóficas, entre outros, Shakespeare, Hemingway, Mark Twain, John Steinbeck e Nietzsche?

Obama nasceu no Hawai, filho de negro queniano e mulher branca do Kansas, viveu com padrasto muçulmano na Indonésia, voltou para os EUA e mais tarde foi para a urbe de Chicago. Nos tempos de liceu, diz Obama que "tinha amigos brancos e amigos negros. Ia às festas de uns e dos outros. Falava "à branco" ou "à preto", integrava-se em ambas as realidades" mas angustiva-se por não pertencer verdadeiramente a nenhuma delas. Tentou misturá-las, mas não conseguiu.

Kurt Lewin diz-nos que "é característico dos indivíduos que cruzam o limite entre grupos sociais não estarem seguros de pertencer ao grupo no qual estão a entrar nem também àquele de que estão a sair... a causa da dificuldade não é pertencer a muitos grupos, mas a incerteza quanto a pertencer a qualquer um deles.

Esta ambivalência é a condição nata do ser-humano actual pós-moderno. Kurt Lewin é citado por Zygmunt Bauman em "Modernidade e Ambivalência" que nos fala daquilo que é e ficou conhecido como Modernidade, um projecto de nova ordem social herdeiro das tradições filosóficas do iluminismo, que apelavam á ascenção da razão à categoria de verdade, na tentativa de renegar as paixões, supertições e crendices humanas, uma tentativa de combater a ambivalência presente no espírito humano.

O que está subjecente a este projecto de ordem social, é esta visão do jardineiro em que, ao definir muito bem como deve ser o jardim, faz surgir as ervas daninhas. As ervas daninhas só existem na medida em que não encaixam no plano do jardineiro. Assim, de certa forma, é o jardineiro que dá origem á erva daninha, e que origina uma luta sem fim para a combater, por causa da divisão que criou.

A pós-modernidade surge como falhanço deste projecto e o ressurgir da ambivalência. Bauman usa o exemplo dos judeus na alemanha como exemplo do primeiro povo que pode experimentar o que mais tarde se tornou universal: somos todos estranhos, por definição deslocados: já não existe uma identidade colectiva nativa natural, as nossas identidades são algo que é preciso construir. E os deslocados deste mundo experimentam portanto, a condição de estranho universal de cada um de nós neste mundo.

Bauman fala-nos dos judeus na Alemanha como o povo nómada que, nos anos anteriores à segunda grande guerra, foram convidados a aderir ao projecto de assimilação alemão, ou seja a tornarem-se alemães, a abdicar dos privilégios que tinham anteriormente em que vivam em comunidades auto-geridas e com leis próprias dentro do território alemão. Uma geração de judeus como Marx, Freud, Kafka, etc, viveram neste espaço intermédio de não poder voltar para atrás para aquilo que eram os seus antepassados judeus, nem ter a possibilidade de poderem ser verdadeiramente alemães por muito que se esforçassem. Aliás, quanto mais os judeus se esforçavam por serem alemães, mais óbvio era o seu fracasso pois, os alemães tinham medo desta noção de "germanidade" artificial, que pode ser adquirida por esforço. Os alemães posteriormente enfatizavam o "ser alemão" como algo racial, natural, fruto dos genes, nativo. Esta defesa, produto ainda da visão jardineira racional moderna, fracassou com Hitler no expoente desta derrota. Depois, finalmente quando os judeus se estabeleceram, já se encontraram num mundo em que não havia jardineiro para os admitir como plantas autorizadas, num mundo multiculturalista e globalizadao em que os projectos nacionalistas europeus falharam e já não há verdades impostas e absolutas (que era o que antes legitimava as identidades individuais)

Onde é que isto nos leva a Obama? Dizem os especialistas que Obama subiu ao poder através de 98% do voto dos afro-americanos, 68% por cento do voto hispânico e 63% dos votos dos asiáticos. Foi aliás, assim, que esta eleição se torna histórica, pois finalmente os americanos puderam ver em Obama alguém que carrega o fardo de ser estrangeiro num país onde todos são estrangeiros

E de facto, o que os Estados Unidos da América têm de único o facto de serem o fruto novo advindo do falhanço dos nacionalismos europeus. Os Estados Unidos são o país pós-moderno por excelência, onde não há uma identidade nativa natural propriamente dita mas sim uma mescla de culturas, não há uma identidade natural, mas sim, e sempre, uma identidade a ser construída socialmente por diferenciação individual. Os mais deslocados deste mundo, os emigrantes, os que são filhos de estangeiros em terra estrangeira, são, portanto, os que vivem mais agudamente a ambivalência universal do ser humano.

Reparem num pequeno bocado (exemplificativo) do discurso da vitória de Barack Obama:
"(Esta noite) Foi a resposta dada por jovens e velhos, ricos e pobres, Democratas e Republicanos, negros, brancos, latinos, asiáticos, homossexuais, heterossexuais, deficientes, americanos que enviaram a mensagem ao mundo de que não somos somente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos ou azuis. Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América."

Deleuze dizia que os europeus têm um sentido inato da totalidade orgânica, ou da composição, mas eles precisam adquirir o sentido do fragmento, e apenas o podem fazer através de uma reflexão trágica ou de uma experiência do desastre. Os americanos, pelo contrário, têm um sentido natural do fragmento, e que aquilo que precisam de conquistar é o sentimento da totalidade, da bela composição. (...) Neste ponto de vista, o mim dos anglo-saxónicos, sempre rebentado, fragmentário, relativo, opõe-se ao Eu substancial, total e solipsista dos europeus.

Deleuze diz-nos isto num ensaio sobre Walt Whitman. Este poeta foi o primeiro americano talvez, a sonhar o sonho que Obama tenta agora concretizar, dos Estados Unidos como uma totalidade de fragmentos. Deleuze diz que Whitman introduz previamente a ideia de Todo, invocando um cosmos que nos convida à fusão; numa meditação particularmente convulsiva, diz-se hegeliano, afirma que apenas a América "realiza" Hegel, e institui os direitos primeiros de uma totalidade orgânica.

Termino com um poema de Whitman,
poeta das ervas, das pradarias, das uniões indomáveis da natureza, antítese da metáfora do estado nacionalista jardineiro de Bauman, e símbolo de uma universalidade e companheirismo selvagem e fraterno:

























Separando a Erva dos Prados


Separando a erva dos prados, aspirando o seu raro aroma,
Dela reclamo a espiritualidade,
Exijo o mais íntimo e abundante companheirismo entre os homens,
Peço que ergam as suas folhas as palavras, actos, seres,
Esses de límpidos ares, rudes, solares, frescos, férteis,
Esses que traçam o seu próprio caminho, erectos e livres
avançando, conduzinho e não conduzidos,
Esses de indomável audácia, de doce e veemente carne sem mácula,
Esses que olham de frente, imperturbáveis, o rosto dos presidentes
e governadores como se dissessem Quem és tu?
Esses de natural paixão, simples, nunca constrangidos, insubmissos,
Esses da América interior