quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Wittgenstein sobre Freud

"Uma vez quando Wittgenstein estava a contar uma coisa que Freud tinha dito e o conselho que tinha dado a alguém, um de nós disse que o conselho não lhe parecia muito sábio. Claro que não, disse Wittgenstein. Mas a sabedoria é uma coisa que nunca esperaria de Freud. Esperteza, sem dúvida; mas não sabedoria"

Rush Rhees em Aulas e Conversas - Ludwig Wittgenstein

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Elbow - Seldom Seen Kid


Um dos melhores álbuns deste ano. Saquem o álbum aqui, e vejam também este vídeo de "Grounds for Divorce":

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Budismo e Avaliação de Professores


O famigerado processo de avaliação de professores instituído por este nosso (des)governo, tem feito correr muito sangue. Bem... sangue não. Tem feito correr muita... tinta vermelha. Os professores queixam-se da excessiva burocratização da profissão e de estarem a ser usados por exemplo, como vendedores de computadores magalhães, desvirtuando as suas nobres funções de elevar o nível de cultura e sabedoria de um povo.

Há um paralelismo que se pode encontrar entre esta situação e um momento particular da história do Japão no período Edo (1615-1867) na forma como eram tratados na altura os monges budistas. No início do período Edo, o Japão foi reorganizado inteiramente por um poder ditatorial, assistido por uma burocracia eficaz e minunciosa. O Budismo perdera sua influência política, tendo passado a ser regida pelo estado, graças aos sistemas dos danka (paroquianos). Os pobres monges para além de terem de mostrar ao povo o caminho da iluminação e libertação, tinham por exemplo que atender os japoneses que estavam obrigados a registarem-se num templo, próximo do qual cada família teria seu jazigo, num processo semelhante ao de um recenseamento.

Assim, tal como os professores portugueses, fizeram dos monges budistas meros serventuários de paróquias, com um estatuto de funcionários e rendimentos derivados de funerais e de outras cerimónias e serviços. Com isso fizeram com que muitos monges budistas Zen, das escolas Rinzai e Soto se recusassem a submeterem-se a um poder que não se limitava a nomear abades e dignatários, mas chegava ao ponto de regulamentar a vida quotidiana dos monges. Também aqui em Portugal, em 2008, vemos muitos professores a reformarem-se mais cedo e a oporem-se a um governo que teima em sobre-regulamentar burocraticamente a profissão.

Pequena nota - Partilho da opinião mais radical e ao mesmo tempo mais sensata que já ouvi sobre isto. Deixem os professores serem avaliados, não pelo ministério, nem os professores uns pelos outros, mas sim pelo elemento da comunidade escolar a quem mais interessa tudo isto: os alunos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Elogio da Vida Simples - Lanza del Vasto

Esta sexta-feira às 22h, dia 5 de Dezembro, não percam esta apresentação do livro "Elogio da Vida Simples" de Lanza del Vasto, no Clube Literário do Porto. A tradução desta obra foi realizada pelo Psicólogo Paulo Lima Santos, e é ele mesmo que irá fazer esta apresentação. Lanza Del Vasto foi um padre católico que viajou a pé de Itália até à Índia e que, entre outras coisas. foi discípulo de Gandhi.

Pretendia eu transcrever aqui uma ou outra passagem mas perdi-me a olhar para o livro tal o poder e choque causado por muitas das duras e belas afirmações de que é composta esta obra formidável.

"Para não odiar ninguém, hás-de odiar muitas coisas"

" Aquele que não morre por alguma coisa morre por nada. Eis porque eu sustento que é mais sábio ousar"

"A morte é um absurdo: Aquilo que é não pode cessar de ser. Mas nós morremos: porque esta vida não é o nosso ser, mas falta dele."

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Crise? Qual Crise?

Hoje apresento aqui um álbum dos Supertramp para ouvir em tempos de crise. A capa é inspiradora para os tempos que correm:


Supertamp - Crisis, What Crisis? pode ser sacado aqui.

domingo, 23 de novembro de 2008

Futebol, Nacão, Einstein e Freud



Hoje, venho aqui falar de futebol, reagindo tardia, mas não menos oportunamente, à estrondosa derrota de Portugal com o Brasil. Tamanha derrota suscitou as mais variadas reacções nos portugueses, pelo que pude observar.

Por um lado, perder por 6-2 é mau. Mas perder com o Brasil é pior. Isto porque o que está em jogo é o chamado orgulho nacionalista. Descontruindo este sentimento de nacionalidade em perigo, no fundo, os brasileiros são tão parecidos connosco que ameaçam a nossa identidade. Quando vemos jogadores como Deco e Pepe a serem tão portugueses como os outros, a cantarem igualmente o hino, a portugalidade está em perigo.

O mesmo raciocínio que Bauman fez em relação aos judeus na Alemanha, pode ser aplicado aqui: os brasileiros naturalizados portugueses não podem ser brasileiros, nem podem ser efectivamente portugueses, por muito que se esforcem. O esforço só denuncia, aliás, o carácter artifical da nação, tornando-os indesejáveis. Vivem em situação de ambivalência. Não podemos chamar-lhes nem amigos, nem inimigos. São os estranhos. Resistem à categorização, minando então as nossas próprias categorias e identidade.

A partir daí, os jogos com o Brasil têm mais importância. No fundo, tudo é uma questão de superioridade e de inferioridade. Trata-se do poder de definir os outros como amigos e inimigos, de se ultrapassar os outros como estranhos, para se poder estabelecer uma troca simbólica. As nações não têm outro sentido que não esse.

Por estas alturas, há também intelectuais que esperam que, no fundo, os portugueses deixem de ligar tanto à bola, argumentando que esse é um tipo de patrotismo menor. Dizem que os portugueses deviam orgulhar-se de outros feitos mais científicos, culturais e artísticos.

Contudo, um tipo de identificação patriótica desse tipo, por muito louvável que seja, não poderá, talvez, ser comparável ao lado mais corporal, competitivo, catártico e selvagem (porque não) que o futebol coloca em jogo. O futebol tem um elemento de tragédia e glória que não é possível menosprezar.

Tal como os desportos em geral, o futebol contém em si o que se poderia chamar lei da vitória, em que é posta em jogo uma luta pela supremacia de uns povos sobre outros. Os nacionalismos, na sua essência mais histórica, podem traduzir-se como uma luta de poderes. Ao constituir-se como grupo homogéneo, é-o na defesa de uma identidade perante outros grupos.

O nacionalismo surgido como necessidade de união perante um mundo hostil é mais forte quando uma nação se sente ameaçada. Tal como um ego é tanto mais egoísta quanto mais se sente ameaçado no seu orgulho e auto-estima.

Se dantes a guerra era o momento em que se poderia ver uma nação realmente unida por uma rede de identificações comuns, que depois experimenta vitórias ou derrotas,
o desporto é dos poucos fenómenos em que se conserva intacta esta lei da vitória. Há uma troca simbólica profunda entre os povos, quando se trata de ver países jogar uns contra os outros.

O advento do desporto moderno não se pode dissociar do advento do estado de direito moderno, que trocou o conflito físico e violento entre os homens, por um confronto regido por leis, o que se pode chamar jogo, e que está na base de qualquer processo civilizacional. O estado de direito não elimina a violência, pois é a violência que suporta esse mesmo estado de direito gerido por leis, em que a violência é neste caso aplicada a quem não respeita as mesmas leis.

O futebol é, em síntese, o retrato perfeito daquilo que é o estado moderno, com o interesse extra de ser ainda possível ver em cena um confronto físico vivo, levando isto à catarse colectiva que todos conhecemos.

Trata-se aqui no fundo de sublimar uma pulsão de morte do ser humano, que se tem demonstrado ao longo da história por intermédio de uma luta de poderes intensa.
Será que podemos, como seres humanos, algum dia ultrapassar este "instinto de competição", necessidade de domínio e poder a que Freud chamou de pulsão de morte?

Sobre isto recomendo a leitura de uma carta fabulosa que Einstein escreveu a Freud, perguntando o seguinte:

"Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de o solucionar terminaram em lamentável fracasso.
"

A restante carta de Einstein, reveladora de um humanismo ímpar por parte do cientista, complexifica já a questão de uma forma bastante interessante. Freud, por sua vez, respondeu à letra num documento fantástico, adiantando a certa altura o seguinte:

"permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. (...) É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. (...) A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade."

Assim sendo, a violência torna-se lei, e o processo de civilização não tem outro sentido que o aprofundar da constrição, controlo e educação do nosso corpo sob determinadas formas de gerir o corpo definidas pela sociedade. Comer com as mãos por exemplo não é "civilizado", comer com o auxílio de um instrumento, pelas leis que a comunidade instituíram, já é civilizado. Somos tão mais civilizados quanto mais refinado e obsessivo for o controlo social que exercemos sobre os nossos corpos. Em termos de violência, tudo continua igual, há somente, no máximo, um deslocamento desta violência fundadora da civilização do confronto físico, para o confronto de opinião, de interesse, de lei.

O futebol é paradigma da civilização ocidental moderna na forma como educa, constringe e controla os corpos de uma forma planeada, científica e controlada, preparando-os para a competição entre equipas/comunidades, sendo o jogo de futebol um sistema de confrontos violentos regidos por leis. No futebol, a violência não deixa de existir, mas somente ela pode aí assumir uma forma adequada. O futebol jogado pelo respeito máximo pelas leis pode chegar então a ser um acto moral. Como disse Deleuze em referência a Kant, "a lei define-se (...) como pura forma de universalidade. Ela não nos diz qual o objecto da que a vontade deve perseguir para ser boa, mas qual a forma que deve tomar para ser moral."

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Foreign Movies: Milhares de bons filmes de todo o mundo (à borla)

O Título diz tudo: neste blog encontrarão incontáveis bons filmes prontos para sacar. Tem categorias por realizador e por país. Podem encontrar filmes albaneses, vietnamitas, arménios, italianos, coreanos, franceses, checos, dinamarqueses, canadianos, finlandeses, alemães, indianos, romenos, russos, eslovacos, espanhóis e realizadores como Hitchcock, Tarkovsky, Bertolucci, David Cronenberg, David Lynch, Kusturica, Fellini, Francis Ford Coppola, Truffaut, Gus Van Sant, Ingmar Bergman, Godard, Ki-duk Kim, Lars von Trier, Scorsese, Almodóvar, Tarantino, Kubrick, Tim Burton, Wim Wenders, Wong Kar Wai, Woody Allen e muitos muitos mais. Tudo para download. À Borla.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Roberto Matta: Listen to Living






















Roberto Matta: «Listen to Living» 1941, oil on canvas

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Royale Rendezvous: Guitarradas, Rock e Coboiada

Hoje venho aqui fazer o papel de divulgador de música portuguesa. Já há tempos tinha falado dos Godot. Este último sábado eles voltaram ao Pinguim no Porto, mas desta vez deram um concerto mais curto pois a seguir a eles vieram os Royale Rendezvous. Estes três rapazes vieram de Leiria para nos mostrar a sua música que eu diria que está algures (assim de repente) entre os Dead Combo, Dr Frankenstein e uma banda sonora de filmes do Tarantino, formando uma espécie de rock de cóbois. Tive a oportunidade de estar com dois deles no fim, o Telmo e o António, com quem mantive conversas filosóficas de alto nível com o patrocínio da Super-Bock. É tudo gente boa, que gosta de rock, filosofia de taberna, coboiada e guitarradas, sendo que ainda fomos acabar a noite a ouvir Iggy Pop, Joy Division e Doors. Ide ao Myspace ouvir as músicas, ou façam melhor e vejam ao vivo. Recomendo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama, Pós-Modernidade e Walt Whitman

Os Estados Unidos da América têm um novo presidente, eleito com uma participação nunca antes vista desde 1908, ou seja há cem anos, que os americanos não votavam tanto. 66%, ou seja dois terços dos americanos, foram votar.

Quem é este homem, Barack Obama, que um dia se emocionou ao compreender as suas raízes africanas no Quénia, terra do pai que nunca conheceu verdadeiramente? Quem é este homem que que diz ter como referências literárias e filosóficas, entre outros, Shakespeare, Hemingway, Mark Twain, John Steinbeck e Nietzsche?

Obama nasceu no Hawai, filho de negro queniano e mulher branca do Kansas, viveu com padrasto muçulmano na Indonésia, voltou para os EUA e mais tarde foi para a urbe de Chicago. Nos tempos de liceu, diz Obama que "tinha amigos brancos e amigos negros. Ia às festas de uns e dos outros. Falava "à branco" ou "à preto", integrava-se em ambas as realidades" mas angustiva-se por não pertencer verdadeiramente a nenhuma delas. Tentou misturá-las, mas não conseguiu.

Kurt Lewin diz-nos que "é característico dos indivíduos que cruzam o limite entre grupos sociais não estarem seguros de pertencer ao grupo no qual estão a entrar nem também àquele de que estão a sair... a causa da dificuldade não é pertencer a muitos grupos, mas a incerteza quanto a pertencer a qualquer um deles.

Esta ambivalência é a condição nata do ser-humano actual pós-moderno. Kurt Lewin é citado por Zygmunt Bauman em "Modernidade e Ambivalência" que nos fala daquilo que é e ficou conhecido como Modernidade, um projecto de nova ordem social herdeiro das tradições filosóficas do iluminismo, que apelavam á ascenção da razão à categoria de verdade, na tentativa de renegar as paixões, supertições e crendices humanas, uma tentativa de combater a ambivalência presente no espírito humano.

O que está subjecente a este projecto de ordem social, é esta visão do jardineiro em que, ao definir muito bem como deve ser o jardim, faz surgir as ervas daninhas. As ervas daninhas só existem na medida em que não encaixam no plano do jardineiro. Assim, de certa forma, é o jardineiro que dá origem á erva daninha, e que origina uma luta sem fim para a combater, por causa da divisão que criou.

A pós-modernidade surge como falhanço deste projecto e o ressurgir da ambivalência. Bauman usa o exemplo dos judeus na alemanha como exemplo do primeiro povo que pode experimentar o que mais tarde se tornou universal: somos todos estranhos, por definição deslocados: já não existe uma identidade colectiva nativa natural, as nossas identidades são algo que é preciso construir. E os deslocados deste mundo experimentam portanto, a condição de estranho universal de cada um de nós neste mundo.

Bauman fala-nos dos judeus na Alemanha como o povo nómada que, nos anos anteriores à segunda grande guerra, foram convidados a aderir ao projecto de assimilação alemão, ou seja a tornarem-se alemães, a abdicar dos privilégios que tinham anteriormente em que vivam em comunidades auto-geridas e com leis próprias dentro do território alemão. Uma geração de judeus como Marx, Freud, Kafka, etc, viveram neste espaço intermédio de não poder voltar para atrás para aquilo que eram os seus antepassados judeus, nem ter a possibilidade de poderem ser verdadeiramente alemães por muito que se esforçassem. Aliás, quanto mais os judeus se esforçavam por serem alemães, mais óbvio era o seu fracasso pois, os alemães tinham medo desta noção de "germanidade" artificial, que pode ser adquirida por esforço. Os alemães posteriormente enfatizavam o "ser alemão" como algo racial, natural, fruto dos genes, nativo. Esta defesa, produto ainda da visão jardineira racional moderna, fracassou com Hitler no expoente desta derrota. Depois, finalmente quando os judeus se estabeleceram, já se encontraram num mundo em que não havia jardineiro para os admitir como plantas autorizadas, num mundo multiculturalista e globalizadao em que os projectos nacionalistas europeus falharam e já não há verdades impostas e absolutas (que era o que antes legitimava as identidades individuais)

Onde é que isto nos leva a Obama? Dizem os especialistas que Obama subiu ao poder através de 98% do voto dos afro-americanos, 68% por cento do voto hispânico e 63% dos votos dos asiáticos. Foi aliás, assim, que esta eleição se torna histórica, pois finalmente os americanos puderam ver em Obama alguém que carrega o fardo de ser estrangeiro num país onde todos são estrangeiros

E de facto, o que os Estados Unidos da América têm de único o facto de serem o fruto novo advindo do falhanço dos nacionalismos europeus. Os Estados Unidos são o país pós-moderno por excelência, onde não há uma identidade nativa natural propriamente dita mas sim uma mescla de culturas, não há uma identidade natural, mas sim, e sempre, uma identidade a ser construída socialmente por diferenciação individual. Os mais deslocados deste mundo, os emigrantes, os que são filhos de estangeiros em terra estrangeira, são, portanto, os que vivem mais agudamente a ambivalência universal do ser humano.

Reparem num pequeno bocado (exemplificativo) do discurso da vitória de Barack Obama:
"(Esta noite) Foi a resposta dada por jovens e velhos, ricos e pobres, Democratas e Republicanos, negros, brancos, latinos, asiáticos, homossexuais, heterossexuais, deficientes, americanos que enviaram a mensagem ao mundo de que não somos somente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos ou azuis. Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América."

Deleuze dizia que os europeus têm um sentido inato da totalidade orgânica, ou da composição, mas eles precisam adquirir o sentido do fragmento, e apenas o podem fazer através de uma reflexão trágica ou de uma experiência do desastre. Os americanos, pelo contrário, têm um sentido natural do fragmento, e que aquilo que precisam de conquistar é o sentimento da totalidade, da bela composição. (...) Neste ponto de vista, o mim dos anglo-saxónicos, sempre rebentado, fragmentário, relativo, opõe-se ao Eu substancial, total e solipsista dos europeus.

Deleuze diz-nos isto num ensaio sobre Walt Whitman. Este poeta foi o primeiro americano talvez, a sonhar o sonho que Obama tenta agora concretizar, dos Estados Unidos como uma totalidade de fragmentos. Deleuze diz que Whitman introduz previamente a ideia de Todo, invocando um cosmos que nos convida à fusão; numa meditação particularmente convulsiva, diz-se hegeliano, afirma que apenas a América "realiza" Hegel, e institui os direitos primeiros de uma totalidade orgânica.

Termino com um poema de Whitman,
poeta das ervas, das pradarias, das uniões indomáveis da natureza, antítese da metáfora do estado nacionalista jardineiro de Bauman, e símbolo de uma universalidade e companheirismo selvagem e fraterno:

























Separando a Erva dos Prados


Separando a erva dos prados, aspirando o seu raro aroma,
Dela reclamo a espiritualidade,
Exijo o mais íntimo e abundante companheirismo entre os homens,
Peço que ergam as suas folhas as palavras, actos, seres,
Esses de límpidos ares, rudes, solares, frescos, férteis,
Esses que traçam o seu próprio caminho, erectos e livres
avançando, conduzinho e não conduzidos,
Esses de indomável audácia, de doce e veemente carne sem mácula,
Esses que olham de frente, imperturbáveis, o rosto dos presidentes
e governadores como se dissessem Quem és tu?
Esses de natural paixão, simples, nunca constrangidos, insubmissos,
Esses da América interior

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Rock dos 70's: Tim Buckley - Greetings from LA
























Ando a ouvir este excelente álbum de Tim Buckley: Greetings from LA. Tim Buckley morreu estupidamente de overdose com 28 anos deixando um legado musical fabuloso e um filho igualmente fabuloso, Jeff Buckley, que haveria igualmente de morrer estupidamente jovem, e com um legado musical igualmente fabuloso.
Façam download deste excelente álbum de 1972 aqui.

domingo, 26 de outubro de 2008

A Crise da Economia Parasitária

Toda a gente fala da crise, se chegou ou não o fim do capitalismo, entre outras coisas que tais. Entretanto temos visto coisas formidáveis. O Presidente da Reserva Federal Americana veio dizer qualquer coisas como "ups, afinal o mercado livre não funciona tão bem como eu pensava".

Na Alemanha, costumava-se vender cerca de 500 exemplares por ano de "O Capital" de Karl Marx. Este ano já se venderam mais de 1500. No mesmo artigo onde vi isto, dá-se conta de uma sondagem feita a alemães de leste que diz que 52% perderam a confiança no mercado livre, e que 43% gostava de voltar a uma economia socialista. Vejam o resto do artigo aqui.

Ah, hoje vi na capa da Visão o seguinte título "Fukuyama diz o que vai mudar no capitalismo". Incrível vindo do homem que dizia que a História tinha acabado. Bastou-me ler o título.

Neste estado de coisas, é sempre bom voltar ao situacionismo de Raoul Vaneigem, com o seu livro "A Economia Parasitária", de 1996. Selecciono aqui algumas passagens:

"A acumulação de dinheiro improdutivo e o estado de uma terra esgotada por ter produzido rendibilidade em vez de alimentar os povos, são coisas que hoje em dia só nos mostram o impasse a que foi conduzida uma economia cujos êxitos se alicerçavam na exploração conjugada da natureza e do homem pelo homem. (...)

As sociedades só mudaram em função das mudanças exigidas por uma economia tributária dos progressos da mercadoria e do trabalho que corrigia a sua execução. A preponderância da agricultura cede terrreno à indústria sob a pressão do comércio e da livre circulação dos bens.

O novo modo de produção, por sua vez, cai em desuso em proveito de um vasto circuito de consumo em que a mercadoria ganha mais em distribuir-se do que em manufacturar-se. Mais rendível, em suma, que a produção e o consumo, a gestão do capital leva a melhor, deixando o planeta entregue ao estado de património fundiário apto para a rendibilidade e inapto para o investimento. (...) uma economia extenuada dedica-se zelosamente a sacar os seus derradeiros benefícios e a concentrá-los no círculo duma especulação internacional onde a sua inutilidade tem cotação na bolsa. (...)

A proliferação da inutilidade e a rarefacção do primordial não podiam encontrar uma forma mais adequada de expressão do que a burocracia financeira internacional, cujo absolutismo estabelece com a sociedade viva uma relação de extraterrestre (...)

A nossa época situa-se no ponto de confluência e de divergência de duas sociedades que rejeitamos, uma porque produz a morte, a outra porque prefere à vida a sua mentira lucrativa.

A cibernetização dos lucros prepara-se para reduzir ao mínimo um trabalho condenado em virtude da sua rendibilidade decrescente. O desemprego, as reduções de salários e a supressão das regalias sociais expõe nas tabelas mundiais das cotações bolsistas os mandamentos do Deus caprichoso que reina nos mercados e nos lares. Cada qual se vê obrigado a sacrificar-se-lhe como ao velho Jeová, que, oprimindo os seus fiéis com desgraças, os ameaçava com outras ainda maiores se deixassem de os adorar. Ora, ao contrário da sobrevivência, a vida não é competitiva. (...)

Rejeitamos uma relação de forças em que a vontade de poder volte a ter rigor espiritual, ou uma relação de torca onde o vivo se degrada em coisa morta. A nossa época precisa de uma grande lufada de ar fresco, que volte a vivificá-la. Há-de vir o tempo em que cada indivíduo, rejeitando a apatia de que o poder letárgico extrai a força necessária a oprimi-lo, se há-de tornar guerreiro sem armadura e sem outra arma que não seja uma invencível força de viver. Que sem tréguas ele combata em prol daquilo que tem de único e de mais encarecido no mundo, a sua própria existência, verdadeiro campo de batalha onde nervos, músculos , sensações e pensamentos respondem à solidão de desejos ofuscados pela paixão de fruir, vendo-se contrariados, recalcados, mutilados e negados pelos mecanismo deuma economia que explora o corpo exactamente como explora a terra."

sábado, 25 de outubro de 2008

Paulo Coelho e Música de Supermercado: cultura "light" sem riscos nem danos colaterais.

Num blog aqui ao lado, comentava-se uma entrevista de Eduardo Lourenço em que este por sua vez comentava Paulo Coelho. Este dizia que aquilo não era bem literatura. Era uma literatura "light"

Eu confesso ter lido dois livros de Paulo Coelho. Acho que é um crime dos intelectuais suponho. Entre gente que leia coisas a sério como Flaubert ou Dostoievsky, ler Paulo Coelho é muito mau, é tabu. Eu estive lá. O que eu acho? É uma literatura tão fácil, tão fácil que eu li aquilo quase por acidente. Li uma página, duas, mas aquilo é tão "light" que, como que se escorrega nas mãos e de repente leste um livro do paulo coelho. Ler um parágrafo ou dois de Deleuze demora tanto tempo como 2 ou 3 livros de Paulo Coelho.

É uma literatura segura, sem riscos. Se Nietzsche é um soco no estômago, Paulo Coelho é uma brisa que faz cócegas, no máximo. A literatura no seu expoente máximo é uma agressão brutal da nossa identidade, uma violação das coordenadas do nosso ego. Num mundo em que todos andam inseguros com seus pequenos eus que tanto querem preservar, e de gente que não se quer incomodar muito com leituras que exijam muito, paulo coelho é ideal para quem apenas quer ver confirmados os seus preconceitos, sua pequena visão do mundo, seu cantinho abrigado do caos. Paulo Coelho é como aquela música de supermercado ou da rádio que, não sendo nunca obras-primas, nunca chega a ser mau. Essencialmente, preenche um vazio sem agredir muito.

Uma vez um amigo quis mostrar à colega de trabalho Jeff Buckley, para ver se elevava sua cultura musical acima dos hip-hops MTV e do pop-rock romântico RFM. Não gostou. Disse que era música triste. Aí está o paradigma: não uma música que nos emocione, mas sim uma música que simplesmente encha e preencha um vazio. Uma música segura e uma literatura segura, testada e controlada.

A cultura no seu pleno é emocionalmente violenta. É uma cultura que incomoda, que nos aproxima das angústias essenciais da vida ao invés de nos manter indefinidamente e neuroticamente alienados. Em suma uma cultura que nos remeta para a angústia primordial de termos nascido. Que nos faça regredir para poder crescer, ao invés de nos mantermos em repetições compulsivas de velhos hábitos e rituais do nosso euzinho.

A cultura não é para qualquer um. Não é uma receita de farmácia, remédio dos coitadinhos. A cultura é para os corajosos, crentes e curiosos. É para deixar quem somos em casa, e aventurar-se na descoberta do que ainda nos falta ser. É para quem não lhe basta não querer morrer, é para quem tem sede de viver.

Expose yourself to your deepest fear; after that, fear has no power, and the fear of freedom shrinks and vanishes. You are free.
Jim Morrison

Got a lust for life, Yeah, a lust for life. I got a lust for life
Iggy Pop


Zizek - Entrevista de Respostas Curtas

Encontrei uma entrevista deliciosa com Slavoj Zizek, de perguntas e respostas curtas (para variar), na edição on-line do Guardian. Deixo aqui alguns pontos altos:

When were you happiest?
A few times when I looked forward to a happy moment or remembered it - never when it was happening.
(...)
What makes you depressed?
Seeing stupid people happy.

What do you most dislike about your appearance?
That it makes me appear the way I really am.
(...)
What would be your fancy dress costume of choice?
A mask of myself on my face, so people would think I am not myself but someone pretending to be me.
(...)
What or who is the love of your life?
Philosophy. I secretly think reality exists so we can speculate about it.

(...)
What is the most important lesson life has taught you?
That life is a stupid, meaningless thing that has nothing to teach you.

Tell us a secret.
Communism will win


Vejam o resto aqui: http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2008/aug/09/slavoj.zizek

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Novas Ligações Rizomáticas

Acrescentei 2 novas ligações.

A primeira é o blog Trans-ferir: Tem referências como Lacan, Agamben e Bob Dylan, é da autoria do Vítor Oliveira Jorge, arqueólogo, poeta, ensaísta, professor da FLUP.

Outro blog é o Flutuante. A autora andou por aqui a espalhar comentários polvilhados de referências. Segui o rasto e acho que é um sítio que vale a pena espreitar: filosofia, literatura, cinema e coisas assim.

O Medo, Marca Registada do Capital

"A obdediência que outrora justificava o temor dos deuses, exigem-na hoje dos povos, com a mesma firmeza, as leis de mercado que substituiram esses deuses."
Raoul Vaneigen

O mundo mercantil capitalista em que vivemos, tem como sustento maior, o sentimento do medo. Sim, o medo. Compra bifidus activus senão ficas a preto e branco sem côr, como no anúncio. Compra este pacote de seguros para todos os riscos pois não se sabe o dia de amanhã, podes ter um acidente, ser apanhado num terramoto, ataque terrorista, morrer de ataque cardíaco. Compra iogurte magro pois podes engordar, ficar desagradável e ninguém gostar de ti. Compra esta roupa da moda pois uma mulher desactualizada não atrai, está desfasada, é de mau gosto. Compra outro par de sapatos pois os que tu tens podem-se estragar.

Em suma, o maior argumento para vender mercadoria, e nisto podem consultar os manuais do marketing, é o de que os produtos satisfazem necessidades. Então como é que a nossa psique reconhece uma necessidade? Através do sentimento do medo. O medo é o sentimento que nos sinaliza os potenciais perigos e potenciais ameaças. O medo nunca é a coisa mesma, mas sim algo que o antecede. O medo vem sempre por antecipação senão não tinha utilidade evolutiva. O medo vem sempre antes do real perigo, e daí o poder incrível que o medo tem, pois não tem fim a nossa imaginação daquilo que é possível acontecer de mal.

Há quem diga que o maior medo de todos é o medo da morte. Sendo assim, vivemos numa sociedade da morte, onde toda a nossa imaginação e ilusão está subordinada ao sentimento do medo de morrer. A verdade é que não é possível vender nada a um homem que não tenha medo da morte. Nem mesmo comida. Para o homem que não teme a morte, toda uma sociedade parece um castelo de cartas ridículo. Não é por acaso que nós modernos temos tanto celeuma com o suicídio e a eutanásia. Lembremo-nos que o que alimenta o comércio é o medo da morte, não a morte em si. O medo é sempre algo que antecede a coisa mesmo. A coisa mesmo, a morte, não serve de muito se queremos prolongar o medo. É sempre preciso deixar com que a morte nunca chegue a vir, mas que ela esteja sempre presente.

"A obsessão da morte, a vontade de abolir a morte através da acumulação, torna-se o motor fundamental da racionalidade da economia política"
Jean Baudrillard

Por isso temos a medicina que em casos determinados nos prolonga a vida até aos 100 anos com a condição de andarmos entubados, comatosos, inúteis, não vivos, mas também não mortos ainda. Assim damos emprego a vendedores de soro, camas, enfermeiros, médicos, farmacêuticos.
O mesmo raciocínio é válido para tudo: o crime dá emprego a polícias, advogados, magistrados e juízes; a pressa dá emprego aos construtores de automóveis, a doença mental dá emprego a psicólogos, psiquiatras, videntes e bruxos; e os desempregados dão emprego a muita gente: todos vivemos bem sobre o mal dos outros.

Os outros, sempre os outros. O maior medo de todos não é a morte. O maior medo de todos é o de ficar sozinho. Quem não tem medo de morrer tem para si assegurado uma companhia no além, ou então sabe para si que ele mesmo não existe separado de nada. As boas companhias não se compram. A vida não se compra, mas pode-se vender pois somos todos necessariamente uns vendidos (o que fazes da vida? sou isto, aquilo, camionista, corretor). O que não se compra é a boa companhia. Só o medo se compra e se vende desmesuradamente.

Fiquem com um "Poema Pouco Original do Medo" de Alexandre O'Neill. (Os Godot têm uma música feita a partir desta bela poesia)

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

The Band

Uma das coisas boas da vida é descobrir uma boa banda de rock dos anos 70. Mas desta vez descobri não uma banda, mas sim A Banda, ou melhor The Band.

















Os The Band eram uma banda de canadianos tida em muito boa conta pela generalidade dos músicos folk e rock da altura, como Bob Dylan que os chegou a levar consigo numa tornée.
A formação original durou apenas entre 1967 e 1976.

No dia 25 de Novembro de 1976 deram um magnífico concerto de despedida com uma dúzia de convidados ilustres como por exemplo Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, e Neil Young. Um passarinho disse-me que dava para sacar o álbum desse concerto aqui.

Édipo e Anti-Édipo, A lei moral de Kant como legislação da castração

Transcrevo aqui comentário a um post do Dioniso no seu blog. Vale a pena para todos os amantes da filosofia (e particularmente de Nietzsche e Deleuze) irem visitar o seu "Declínio da Escola".

Freud dizia, se não me engano quanto às suas palavras exactas: "Que necessidade haveria de proibir o que não seria de antemão desejado?". Mas Deleuze e Guattari no Anti-Édipo insurge-se contra esta ligação directa entre a proibição e o desejo, no sentido em que toda a produção de desejo seria eminentemente social na sua génese, que o desejo tem de ser produzido e investido num campo social.

Penso que é possível conciliar o Édipo de Freud com o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari (síntese hegeliana?), através da leitura dessa obra formidável de Freud, Totem e Tabu, que mostra como as regras elementares sociais de tribos primitivas, o totem (que designa o clã e a linhagem) e o tabu (as proibições implícitas) tinham a consequência de impedir a consanguinidade. Assim, o filho não podia ter relações sexuais com a mãe, a filha com o pai, nem entre irmãos e irmãs, o que efectivamente corresponde a uma primeira organização social humana, que permitia distinguir as linhagens e ordenar-se socialmente. Aqui é que faz sentido então falar na castração como algo de fundamental para a civilização humana, no sentido em que o desejo tinha de se manifestar na sua estrutura social adequada.

A moral kantiana pode ser considerada então, de certa forma, como uma rigorosa legislação da castração, do que nos torna humanos civilizados.
Só através da castração acedemos à ideia de objecto ideal de amor, onde cabe a ideia de pureza e de impureza. Só quando um objecto de amor tem a possiblidade de ser considerado "impuro" (a mãe e os irmãos) é que se pode chegar à noção de objecto de amor "puro", ideal (a mulher do tipo mãe que será minha, nunca realmente a mãe mesmo) E só aí é possível sermos seres linguísticos, pois a linguagem tem funções, como sugere Baumann, de inclusão e de exclusão, ou da criação de simulacros de Baudrillard, tentando combater a ambivalência do desejo.
A linguagem verbal é neste sentido uma permanente legitimação da pureza da sensualidade da experiência de nossas vidas (sim, neste sentido tudo é sexual e sensual na linguagem).

A lei moral kantiana como concepção do desejo no seu estado puro implica uma concepção do desejo como o inalcançável precisamente por ser puro. A noção de pureza implica um objecto ideal de amor que naturalmente nunca poderá ser satisfeito. Isto implica uma clara cisão (e aí entra a lei) em que todo e qualquer desejo tem necessariamente de ser produzido socialmente. Mas isto é precisamente onde Deleuze e Guattari insistiam tanto, que não devemos voltar a pegar na mãe e no pai para compreender o desejo, mas sim no investimento que é feito em todo um campo social alargado. O esquizofrénico persegue então, não um objecto social "puro", mas sim os objecto parciais de Melanie Klein que Deleuze tanto gostava. O esquizofrénico rasgaria assim esse corte entre a pureza e a impureza, o ideal e o real, num modo de ser terrivelmente ambivalente.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Tempo e o Progresso em Kant, Deleuze, Baumann e Hermann Broch

"Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso"

José Mário Branco em "FMI"

"A verdade é que, faça o homem o que fizer, tudo o que ele faz tem por fim anular o tempo, suprimi-lo e a esta supressão se chama espaço. A própria música, que existe unicamente no tempo e que enche o espaço, transmuda o tempo em espaço."

Hermann Broch em "Os Sonâmbulos"

Comecei a ler "Modernidade e Ambivalência" de Zygmunt Bauman. Começa por nos falar da modernidade como fragmentação do mundo. Fragmentação como esp
artilhamento e legitimação do ordem. Fala-nos de um mundo de especialistas, de otorrinos e urologistas para sempre separados. Há uma necessidade de cada um de nós ter uma tarefa bem delimitada, particular privada e impossível, que nunca acabe. O discurso moderno passa por dizer que o que interessa é a viagem, o processo e não a chegada. Os pontos de chegada são apenas estações temporárias. Num mundo sem deuses, já não há uma causa e fins comuns e universais. Há passados relativos, privatizados que desembocam numa viagem sem fim de repetições eternas desses mesmos passados.

"A modernidade é o que é - uma obsessiva marcha adiante -, não porque queira sempre mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torna mais ambiciosa e aventureira, mas porque as suas aventuras são mais amargas e as suas ambições frustradas. (...) Estabelecer uma tarefa impossível não significa amar o futuro mas desvalorizar o presente. O presente está sempre "a querer", o que o torna feio, abominável e insuportável."

Vivemos num tempo subjugado pelo tempo e pelo progresso. Entenda-se o tempo como sucessão de momentos, como noção ordenadora de acontecimentos uns atrás dos outros. É neste plano que se pode conceber a causalidade e a lógica a que estamos todos obrigados a viv
er. Entenda-se o tempo como plano de racionalidade extrema. Vivemos os nossos dias contados hora a hora, segundo a segundo. Vivemos as nossas vidas como acontecimentos que têm uma causa, causa que tem uma outra causa e assim por diante. Há uma crise financeira que acontece de um momento para o outro e tenta-se entendê-la dando-se possíveis causas, que por sua vez têm outras causas. Há consequências que por sua vez originam consequências tal como os minutos se sucedem aos minutos. Não há forma de sair de fora do tempo. É este o plano de uma racionalidade extrema, que vive por si só, isolada do eterno. Entenda-se o eterno como um agora que se estende aquém e além do tempo. Perdeu-se uma noção de eternidade que vive de um presente total e não fragmentado em bocados, a capacidade de apreender o todo ao invés de apreender apenas "uma coisa de cada vez". A única forma actual de termos uma noção aproximada do eterno é através de coincidências que nos remetem para uma circularidade e totalidade perdidas. Se antes toda a noção de tempo era circular e centrada na eternidade de Deus, de onde todos vimos e todos regressamos, o que se abre é uma linha para o infinito de repetições.

Sobre isto Deleuze tem um texto "Acerca de Quatro Fórmulas Poéticas que Poderiam Resumir a Filosofia Kantiana". Nele Deleuze aborda a mudança operada por Ka
nt ao nível da noção de tempo:

"O tempo já não se refere ao movimento que ele mede, pelo contrário, o movimento refere-se ao tempo que o condiciona. Do mesmo modo, o tempo já não é uma determinação do objecto, mas a descrição de um espaço, espaço que devemos abstrair para descobrir o tempo como condição do acto. O tempo torna-se unlinear e rectilíneo, já não no sentido em que ele media um movimento derivado, mas nele mesmo e por ele mesmo, na medida em que ele impõe a todo o movimento possível a sucessão das suas determinações. (...) O tempo deixa de ser curvado por um Deus que o fazia depender do movimento. (...) Tudo aquilo que se move e se altera está no tempo, mas o próprio tempo não se altera, não se move, nem sequer é eterno. Ele é a forma de tudo aquilo que se altera e que se move, mas é uma forma imutável e que não se altera.

De que forma é que daqui, desta noção de tempo reificada, rectilínea, lineariz
ada, a apontar para o infinito, chamada de progresso, se pode entendender a excessiva especialização do mundo de que fala Baumann? Nada como voltar aos romance "Sonâmbulos" de Hermann Broch, como já fiz por duas vezes neste blog (aqui e aqui) e por motivos bem distintos:

"A razão primeira foi transportada da infinidade "finita" de um Deus, em todos os casos ainda antropomórfico, para o verdadeiro infinito abstracto. As cadeias de questões não desembocam mais nessa ideia de Deus, dirigem-se, efectivamente, para o infinito (não convergem mais, por assim dizer, tornam-se paralelas), a cosmogonia já não repousa em Deus, mas na (...) consciência de que não existe em parte alguma um ponto de chegada, (...), de que não podemos isolar nem uma matéria original nem uma razão primeira (...)"

E assim chegamos finalmente à ideia de especialização, progresso e de modernidade, expressa maravilhosamente desta forma:

"Faz parte da lógica do Soldado atirar uma granada às pernas do inimigo.
Pertence, da maneira geral, à lógica do militar tirar partido dos agentes de potência militar com as mais extremas consequências e o mais radicalmente possível, caso haja necessidade disso, inclusivamente exterminando os povos, fazendo ruir as catedrais e bombardeando os hospitais e as salas de operação.

Faz parte da lógica do potencial da economia explorar os agentes económicos com as consequências mais extremas e o mais integralmente possível, e, anulada toda e qualquer concorrência, auxiliar o seu próprio instrumento económico a ascender à dominação exclusiva, quer se trate de uma empresa comercial, de uma fábrica, de um trust ou de qualquer outro organismo económico.

Faz parte da lógica do pintor levar os princípios da pintura à sua realização, com a consequência mais extrema e mais radicalmente possível, correndo o perigo de fazer nascer uma criação completamente esotérica, só acessível à compreensão do produtor.

Pertence à lógica do revolucionário levar avante o impulso revolucionário com a consequência mais extrema e o mais radicalmente possível até que hajam decretado que se trata de uma revolução em sia, da mesma forma que em geral pertence à lógica do homem político levar o seu objectivo político até à ditadura absoluta.

Faz parte da lógica do intrujão, oriundo da burguesia, pôr em prática, com a consequência mais extrema e o mais radicalmente possível, a directriz: enriquece-te! (...)

A guerra é a guerra, arte é a arte, em política nada de escrúpulos, negócios são negócios;- tudo isto repete a mesma coisa, tudo isto está possuído desse mesmo espírito agressivo de soluções radicais, está possuído dessa inquietadora brutalidade que eu me sinto tentado a qualificar de metafísica, está possuído desse espírito lógico dirigido ao seu objecto e só ao seu objecto, sem olhar para a direita nem para a esquerda - oh! tudo isto é o estilo do pensamento desta época"

Herman Broch em "Os sonâmbulos"

Este post já vai longo e assim, resta-me acabar sob protesto contra o progresso e assim, termino sem conclusões e não me demorarei mais com este post, pois quanto a isto não tenho mais mais nada a dizer, nem progressos a fazer. Se comecei com José Mário Branco e Herman Broch, termino não de uma forma rectilínea, mas sim de uma forma circular, com Hermann Broch e... José Mário Branco:

"Estamos no caminho para estarmos aqui de vez"

José Mário Branco em "FMI"

domingo, 12 de outubro de 2008

Introdução ao Surrealismo Clandestino, História e Epistemologia do Medo

O título deste post foi, rigorosamente, o sumário da lição 40 do Pinguim no Porto tendo eu recebido humildemente a honra de o escrever na pedra de ardósia para o efeito.

Assim, ontem, Sábado à noite, houve lugar a uma actuação entusiástica dos Godot, com sua "música rock glamourosa". São quatro rapazes e uma rapariga que constituem um conjunto harmonioso de música, teatro, vídeo e poesia.















Dois deles, Miguel, o guitarrista que mais uma vez fez uma actuação fabulosa cheia de alma e Rabino, baterista que espancou a bateria impiedosamente como é hábito, já contracenaram comigo noutros palcos, por exemplo com a peça de teatro Minimal Show. O vocalista Mário Costa, assumiu (e assume) nesse outro palco, o papel de encenador. Aqui é vocalista e intérprete da poesia de Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, entre outros, sob a capa de estrela do rock. O Mário teve uma actuação turbulenta e enérgica e os restantes elementos, a Sara no orgão e Luís com seus vídeos de fundo, estiveram em alto nível como é costume neles.

Este sábado também houve lugar a uma homenagem ao recentemente falecido Joaquim Castro Caldas, por intermédio de uma música dos Godot com a participação do público e também do Rui Spranger.

Joaquim Castro Caldas, poeta não alinhado, poeta das tabernas, o poeta que dizia que a poesia "é para comer todos os dias", tal qual uma receita de nutricionista preocupado com a alimentação poética do povo, merece toda a saudade e reverência que se vê espalhada por essa blogosfera fora aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo.

sábado, 4 de outubro de 2008

Jerónimo de Sousa: "Zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, Sausurre contra Sausurre, Freud contra Freud"

Vi a notícia espampanante de que o Jerónimo de Sousa tinha pedido o Bloco de Esquerda em namoro. Fui ver mais de perto as notícias divulgadas por "Jornal de Notícias" e "TSF" e outros contadores de histórias onde já diziam que a "aliança de forças progressivas de esquerda" não se referia explicitamente ao Bloco de Esquerda. Entretanto, Jerónimo de Sousa desmentiu tudo.

Já que a classe jornalística dominante em Portugal está altamente enviesada ideologicamente pois não sabem ouvir e ler português convenientemente, eu aqui posso dar em primeira mão de que necessária aliança das forças progressivas de esquerda é que o Jerónimo estava a falar. Não é nada de novo, é aliás muito parecido com que um sociólogo francês e
um cantor português cantaram e escreverem há muito tempo, o primeiro em 1976 e o segundo em 1979

"Há que atirar Mauss contra Mauss, Sausurre contra Sausurre, Freud contra Freud"

Jean Baudrillard em "Troca Simbólica e a Morte", 1976


"E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro"

José Mário Branco em "FMI", 1979

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Inteligência Paradoxal de Soren Kierkegaard

Tenho andado a ler "Migalhas Filosóficas" de Soren Kierkegaard, onde, por intermédio do seu pseudónimo Johannes Clímacus, assume o papel de um pensador secular que faz uma interpretação de questões como a existência, Deus, o amor e o desconhecido. No seu estilo ao mesmo tempo sério e humorado, ligeiro e profundo, Kierkegaard tem no capítulo "O Paradoxo Absoluto - Um Capricho Metafísico", passagens fabulosas como estas:

"Não é necessário pensar mal do paradoxo, pois o paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um paradoxo é como o amante sem paixão, um tipo medíocre. Mas a potência mais alta de qualquer paixão é sempre querer a sua própria ruína e assim também a mais alta paixão da inteligência consiste em querer o choque, não obstante o choque, de uma ou de outra maneira, tenha de tornar-se a sua ruína. Assim, o maior paradoxo do pensamento é querer descobrir algo que ele próprio não possa pensar. (...)

Mas o que é este desconhecido contra o qual a inteligência em sua paixão paradoxal se choca, e que perturba o homem em seu autoconhecimento? É o desconhecido. No entanto, ele não é, certamente, um ser humano, na medida em que o homem sabe o que o homem é, nem qualquer outra coisa que o homem conheça. Chamemos então este desconhecido: o deus. É apenas um nome que lhe damos. Dificilmente ocorreria à inteligência querer provar que esse desconhecido (o deus) existe de facto. (...)

Em geral, provar que qualquer coisa existe é sempre uma questão difícil: sim, o que é ainda pior para os corajosos que a tanto se atrevem, a dificuldade é tal que a celebridade raramente aguarda aqueles a que a isso se dedicam. A demonstração toda se transforma em algo completamente diferente, em um desenvolvimento exterior da conclusão que tiro ao ter admitido que o objecto em questão existe. (...)

Assim, eu não provo que uma pedra existe, mas sim que algo, que de facto existe, é uma pedra; o tribunal não prova que um criminoso existe, mas prova que o acusado, que evidentemente existe, é um criminoso. (...) Caso alguém quisesse, a partir dos feitos de Napoleão, provar a existência de Napoleão, não seria este um procedimento sumamente estranho? (...)

A paixão paradoxal da inteligência choca-se portanto constantemente contra este desconhecido, que decerto existe, mas que também é desconhecido, e nesta medida inexistente. A inteligência não pode vir mais longe: mas o seu sentido do paradoxo leva-a a aproximar-se do obstáculo e a ocupar-se dele; porque, pretender exprimir a sua relação com ele negando a existência daquele desconhecido, não dá certo, visto que o enunciado desta negação envolve precisamente uma relação."

Por esta altura vai-se tornando cada vez mais difícil continuar a seleccionar e copiar para aqui o melhor deste capítulo, pois tudo me parece demasiadamente importante para deixar de lado e sem o qual não se percebe a totalidade. Resta-me apenas com estas trancrições deixar crescer um pouco de apetite nas inteligências mais vorazes e paradoxais que nos acompanham, e fazer uma modesta propaganda deste meu velho mestre.

“Kierkegaard é de longe o mais profundo pensador do século XIX.”, dizia Ludwig Wittgenstein. Considerado o pai do existencialismo, Kierkegaard tem uma obra que é filha fiel da sua existência. Agustina Bessa Luís fez-lhe em tempos uma homenagem na forma de um texto dramático denominado "Os Estados Eróticos Imediatos de Soren Kierkegaard", onde põe em cena partes ficcionadas da vida atribulada deste pensador.

Ironia, coincidência ou não, ao mesmo tempo que vou lendo estas migalhas filosóficas, soube que este texto dramático foi trazido à vida pela companhia Seiva Trupe, e estreou dia 25 no Teatro Campo Alegre onde vai estar até dia 31 de Outubro. Ainda não fui ver mas tenho tempo. Teatro, Kierkegaard e Agustina, são nutrientes fugazes da humanidade que demoram uma vida a digerir. Já dizia Agustina, "O tempo apaga devagar o que a terra leva depressa."

sábado, 27 de setembro de 2008

Psicanálise e Economia Política do Super-Homem

Ainda na senda do post anterior, na relação entre a tecnologia, o mercado de trabalho e a psicologia da máquina, encontrei um vídeo bastante interessante denominado "The Political Economy of Superman":

sábado, 20 de setembro de 2008

O Socialismo Cristão de Oscar Wilde e uma curta Psicanálise do Robocop

Ainda na senda da conciliação de Cristianismo e Marxismo faço aqui um comentário desse ensaio formidável de Oscar Wilde “The Soul of Man under Socialism”, servindo de introdução a uma curta psicanálise do Robocop.

Oscar Wilde normalmente é associado a um idealismo estético carregado de ironia, charme e hedonismo, mas neste ensaio, ele desenvolve com todas essas qualidades um pensamento político onde tenta conciliar o que ele considera positivo das teorias do socialismo emergentes com com uma visão muito particular dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Começa por afirmar que o socialismo teria como principal benefício o deixarmos de ter de viver compulsivamente para os outros, naquilo que ele considera o nascimento de um novo Individualismo. Diz-nos Wilde que a propriedade privada criou um tipo de invidualismo falso que é uma ameaça a um verdadeiro Individualismo. Oscar Wilde é contra a propriedade privada. É-o no sentido em que defende um Individualismo em que não se medie as pessoas pelo que as pessoas têm, mas sim pelo que as pessoas são: “The true perfection of man lies not in what man has, but in what man is.”

Aqui Wilde toma o exemplo de Jesus Cristo e considera que a principal mensagem cristã foi a de que a perfeição não reside no acumular e posse de coisas externas. Que a perfeição reside dentro de cada um de nós. As riquezas comuns podem ser roubadas de um homem mas as verdadeiras riquezas não. No tesouro da alma residem tesouros que não podem nunca ser roubados.

Oscar Wilde fala-nos também da arte como expressão máxima de individualidade do ser humano. Assim a arte não deve ser popular, mas sim pessoal. A maior tragédia de uma Arte é quando esta se torna popular, pois quando assim acontece, a arte já mercantilizada obedece ao sentido crítico artístico das massas, faltando precisamente às massas esse sentido crítico artístico. Um exemplo disto é os “morangos com açucar” feito à medida do mercado e não como forma de arte, acabando por ser apelativo a massas de juventude sem sentido artístico. Assim, nas próprias palavras de Wilde: “Art should never try to be popular. The public should try to make itself artistic.”

Oscar Wilde fala-nos também da problemática da máquina com grande actualidade, apesar de viver no séc. XIX. Diz-nos que a máquina tira empregos que deixam na miséria milhares de pessoas.

Já Marx falava nisto, na medida em que o controlo dos meios de produção, as máquinas, é o que legitima o poder da classe dominante. Dando um exemplo prático, um homem pobre hoje em dia que queira viver da venda de cerveja, não tem capacidade de o fazer pois não tem as máquinas necessárias para a produção em larga escala que torna o produto concorrente em preço para que o possam comprar. Ademais com ASAEs e regras de segurança e higiene vigentes, a produção de cerveja só está acessível a quem tem capital para adquirir os meios de produção onde só aí as regras de segurança e higiene são possíveis de colocar em prática, pois foi para a produção em massa que elas foram feitas.

Oscar Wilde dizia que as máquinas deviam servir o homem ao invés de servirmos as máquinas, que é particularmente irónico e trágico que a ascensão da máquina tenha levado a fome a muita gente. Adianta então que as máquinas deviam servir para fazer todo o trabalho sujo, repetitivo e mecânico usualmente reservado aos homens pobres.

Sobre isto, Wilde apenas anteviu o desafio mais premente da nossa época: a tecnologia.
E sobre isto queria referir o seguinte:

Sempre desgostei a psicologia cognitiva, modelo muito americano de Psicologia, por um motivo que é o de usar o computador como modelo da psique humana. Ou seja, para um psicólogo cognitivista, a natureza humana deve ser inferida a partir da forma como funciona o computador.

Considero esta visão altamente neurótica. Não que seja irrealista, pelo contrário é extremamente realista, e o problema passa por aí. Seria tão ou mais acertado dizer tudo ao contrário, ou seja, que o computador foi feito tendo como modelo a psique do homem ocidental moderno e neurótico. Analisemos isto da mesma forma como podemos por exemplo dizer igualmente que fizemos Deus à nossa imagem e da mesma forma que fomos feitos à imagem de Deus.

O Computador vive de rituais, é obsessivo e sofre de omnipotência de pensamentos. Tudo isto são coisas que, presentes num homem, são critérios de diagnóstico de uma neurose obsessiva. E toda a neurose obsessiva parte de um conflito da fase anal, fase essencial para a aquisição da noção de propriedade privada.

Uma das consequências normais de um conflito não resolvido na fase anal é uma racionalidade extrema. A máquina é extremamente racionalista, fria, não tem emoções, faz o que lhe mandam, como uma compulsão ou imperativo categórico kantiano. A máquina é então a forma perfeita para perceber como somos neuróticos na forma como glorificamos a razão e a inteligência per si, destacando-a da base emocional que a sustenta. A glorificação actual da tecnologia diz o quão somos actualmente neuróticos. Assim, entendamos as palavras de Wilde quando diz que a máquina devia servir o homem e não sermos escravos da máquina neste sentido: a razão deve servir as emoções e não o contrário que é usarmos a razão para escravizar as emoções.

Oscar Wilde era um psicanalista antes do tempo. Foi um grande prenúncio neste seu ensaio político, daquilo que viria a ser a obra por exemplo do psicanalista Erich Fromm, que repete a mesma oposição e impasse essencial referente à neurose moderna e sociedade que esta fundou: o Ter e o Ser. Já mais acima citei Wilde e repito quando este diz “The true perfection of man lies not in what man has, but in what man is.”

Erich Fromm fez então anos mais tarde esta mesma análise, baseando-se curiosamente em fontes muito parecidas com as de Wilde, nomeadamente Marx e Jesus. Então Erich Fromm, tal como Wilde, opõe-se à noção de propriedade privada, sendo ela decorrente de um conflito na fase anal, prenúncio de um individualismo falso tal como, acrescento eu, a inteligência artificial é o que o próprio nome diz: uma psique falsa. O medo paranóico presente em muitos malucos do nosso mundo (cada vez mais) e expressa em muitos filmes populares (Exterminador Implacável ou Matrix, por exemplo) em que há o medo de que a máquina acabe por dominar o ser humano, é não mais do que uma projecção fiel das angústias inconscientes de que a razão possa vir a dominar por completo a psique humana, expulsando as emoções do mapa. Assim, o Robocop, por exemplo é o modelo perfeito para compreender o que é a neurose obsessiva.

O Robocop é um cyborg, meio homem máquina, que sofre um trauma em que quase morre no início do filme. De ser humano passa a um ser mecânico, automático, sem espontaneidade, fixado e obcecado com apenas dois ou três traumas de infância que por vezes lhe vêem à consciência, e que a sua transformação em adulto robot robótica não consegue “recalcar”chamemos-lhe assim. Sua programação passa unicamente por cumprir três directrizes que lhe são impostas pela lei, tal como um empregado tem cumprir as suas três funções impostas por um patrão que não quer saber do que ele acha ou pensa autonomamente. Assim, o robocop vive ao mesmo tempo o dilema do neurótico e o dilema da luta de classes, na medida em que não lhe é possível abandonar seu emprego de polícia (a lei da polícia, da justiça, a lei paterna) para se dedicar ao seu trabalho de análise de suas memórias de infância.
Vemos o Robocop no fim do primeiro filme da série, confrontado com o seu patrão numa mesa de negócios. Vemos claramente aqui uma representação de complexo de Èdipo: ele quer matá-lo por toda a castração que lhe foi imposta, mas ao mesmo tempo não o consegue por já se haver identificado, aquando da sua passagem para adulto (robot), com a lei paterna.

Assim, a psicologia cognitiva tem razão quando diz que somos como robôs. O único problema deste modelo é, como me disseram há tempos e concordo perfeitamente: é que ela é regressiva mas não o consegue ser tanto quanto a psicanálise.

Muitos poderão perguntar? E qual é a cura do Robocop? Não tenhamos ilusões: a transformação do Robocop de humano (criança) para robot (adulto), é irreversível. A única coisa que podemos fazer é tirar-lhe o capacete, tal como acontece no filme, para que ele mostre uma face mais humana, e assim, podemos esperar que ele tome consciência da sua castração, que perca suas ilusões de omnipotência e que esteja mais sincronizado com seu lado humano (a criança dentro de nós).

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Teologia da Polítca, Seinfeld, Gilletes Descartáveis e o Castelo de Kafka

Face ao comentário inteligente e pertinente do Dioniso feito ao post anterior, o que seria um comentário meu de resposta tornou-se um cascata de ideias tal que achei conveniente fazer desaguar num post.

Dioniso, penso que não existe uma verdadeira oposição entre nós, na medida em que concordo absolutamente com última parte do teu comentário, quando referes que a política deve governar o ser humano imperfeito que somos, que precisa de comer e de alguns objectos e instrumentos que o insiram socialmente (totems).

O que eu pretendo com estas pontes e políticas comparadas, não é conquistar o mundo das ideias, mas pelo contrário, mostrar suas circularidades viciosas em torno de questões primárias.

Uma testemunha de Jeová sente as desigualdades sociais da mesma forma que eu e muita gente, somente usamos linguagens diferentes para o expressar.
Nisto sou muito existencial e acredito que nenhum ensinamento entre os homens pode ser passado se não houver uma experiência partilhada comum.

Meu ponto é talvez esse, o de que o verdadeiro confronto, o da luta de classes, é existencial, pessoal, empírico. E o desacordo nas ideias reflecte uma diferença de experiências humanas diversa. Quando duas pessoas passam pela mesma experiência, uma falando chinês e outra inglês, elas vão acabar por se entender. Mas quando duas pessoas, um rico e um pobre, passando naturalmente por experiências diferentes de vida, mesmo que falem os dois português nunca se entenderão.

Na resolução desta dicotomia, a psicanálise para mim é um complemento importantíssimo por uma razão: é dialéctico na medida em que tem a sexualidade como aspecto central, e é a sexualidade o ponto onde se vive de uma forma mais evidente o confronto entre idealismo e materialismo, onde vivemos angústias verdadeiramente universais e universalizáveis.

Freud ao sexualizar as ideias, e ao idealizar o corpo, permitiu o nascimento de uma linguagem que permite abordar as angústias primárias do ser humano, transcendendo a barreira da luta de classes e colocando questões fracturantes.

Vivemos um tempo em que há cada vez mais filhos de pais divorciados. A escolha do parceiro para toda a vida, determinante para a nossa identidade, torna-se uma escolha mercantilizada, em que mudamos de homem ou mulher para satisfazer caprichos de moda abstractos. Basta ver um episódio de Seinfeld e vemos, de uma forma caricaturada, uma Elaine que rejeita homem atrás de homem, um porque usa sempre a mesma camisa, outro porque tem um corte de cabelo esquisito, e outro porque se ri de forma estranha. E as nossas relações com nossos totems dizem a forma como nos organizamos em sociedade. Temos mulheres e homens descartáveis tal como temos lâminas de barbear e máquinas fotográficas descartáveis.

Tudo isto são reflexos do mercado, esse conceito que se tornou místico, máquina inatingível, inumana, inacessível. Já não o encontramos o mercado facilmente, como Jesus o encontrou no templo. Como dizia Foucault, aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência.

A política actual, subjugada ao mercado, enquanto elemento de poder separado da experiência humana, torna-se campo de projecção das nossas angústias primárias.

Como abordar a questão da autoridade no mundo burocrático kafkiano? A democracia, paradoxalmente e tragicamente, não é mais do que a legimitação burocrática do poder abstracto e puramente ideal. Tal como no romance de Kafka, nunca chegaremos ao castelo, ficaremos sempre pelo corredor das finanças a lutar com o funcionário.

A política está tão lá longe, no castelo, que só aí paradoxalmente, é que começamos a falar dela em termos religiosos, como o deus inacessível que é antropomorfizado.

É neste sentido que a teologização da política é inevitável.
Não nos admiremos de ver Chavéz a inspirar-se em Jesus nos seus perigosos experimentos políticos, tal como não nos admiremos de ver Deus todo-poderoso ser invocado por Bush, graças a mil e um estudo de mercados e pareceres, traduzidos numa política de extrema "segurança".

Nosso either/or kierkegaardiano vive neste limbo: entre a compulsão para a repetição infinita de um, e a experiência criativa e perigosa de outro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Testemunhas de Jeová, Comunismo e Jesus

No fim de uma noite animada do último Sábado à noite, à hora de ir embora, comecei a produzir estranhos discursos políticos e religiosos de uma forma emocionada, quase cantada. Acaba por ser normal, nestas alturas. Há quem chore, há quem rie, há quem comece aos murros e pontapés, a mim dá-me para isto.

Desta vez, quem estava comigo não estava a achar muita piada. Andava eu a dizer entre outras coisas, que havia uma passagem do novo testamento que mostrava o lado mais marxista de Jesus, que é quando, ao contrário da imagem normal do homem sempre calmo e misericordioso, Jesus enraivecido expulsa os mercadores do templo. Ninguém me ligou nenhuma e isto ficou por ali.

Hoje, vieram a minha casa umas senhoras, testemunhas de Jeová e estive então a conversar com elas. Sempre gostei muito de falar com testemunhas de Jeová. Se, quando era adolescente o fazia por motivos muito basicamente anti-clericais, hoje em dia gosto de falar com eles pelo que eles têm de parecido comigo.

Começaram a falar do estado actual do mundo, onde todos são interesseiros, egoístas, manipuladores, mentirosos, mesquinhos e gananciosos, onde tudo se compra e vende desmesuradamente. Diziam que isto correspondia ao que na bíblia se chama de "últimos dias", fase que antecede o "reino de cristo".

Na minha visão marxista das coisas, isto soa-me bem: substituímos apenas "últimos dias" por "capitalismo" e "reino de cristo" por "comunismo".
Disse-lhes que me revia no que me estavam a dizer, que tinha uma religião que até era parecida, e que se chamava "comunismo".

Fiquei surpreendido por ver as senhoras concordarem comigo, e até acrescentarem que Jesus era "comunista". Tentaram fazer outras pontes. Diziam que a Igreja Católica era um negócio ostensivo e falaram nas cestinhas que passam na missa. Com eles, o dinheiro é recolhido de uma forma mais discreta, por intermédio de uma caixa de donativos, dando as pessoas dinheiro por vontade e não por ostentação.

Eu disse que no meu partido, as pessoas não recebem dinheiro por colar cartazes, ao contrário de outros partidos. Concluímos então, eu e as senhoras, que o verdadeiro conhecimento, aquilo em que acreditamos, não devia nunca ser vendido, mas sim dado e partilhado. Então lembrei-me e falei-lhes dessa passagem da bíblia em que Jesus fica zangado, e nem me deixaram acabar exclamando as duas em uníssono: "a parábola dos mercadores do templo!". Rapidamente elas citaram a bíblia direitinho:

"Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes." (Jo 2:15 a 16) (...) Minha casa é uma casa de oração , mas vós fizestes dela um covil de ladrões! (Mt 21:13)

Sim, também o planeta Terra é um lugar maravilhoso para morar, mas o capitalismo fez dela um covil de ladrões. Que venha o "Julgamento Final" ou "Revolução", chamem-lhe o que quiserem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Rock'n'Roll, Punk e The Cramps: Tese, Antítese e Síntese

O Hegel dizia que a história se movia por um processo dialéctico em que primeiro havia a tese, depois em resposta a antítese, e esta oposição seria resolvida por uma síntese dos dois anteriores. Esta síntese tornar-se-ia a tese seguinte à qual se seguiria uma antítese, e etc.. até ao infinito.

Também na história da música é perfeitamente viável vê-la de um ponto vista dialéctico hegeliano.
Aparentemente o punk do pessoal porco, de cabedal e crista na cabeça, surgiu como algo que não seria assimilável pelo antigo rock'and'roll das bandas vestidas de fatinho branco e gravata (atenção que me refiro a rock'n'roll e não rock no seu sentido mais vasto).
Perante a tese do rock'n'roll o punk seria uma oposição, uma antítese.

Se se pode falar numa síntese entre o rock'n'roll e o punk, temos que falar dos The Cramps. Com os seus acordes e sonaridades blues e rockabilly levados à distorção e a uma rudeza mais própria do Punk, usando de um imaginário Halloween que se revela totalmente adequado em termos filosóficos digamos assim, os Cramps são essa síntese perfeita entre punk e rock'n'roll.

Vejam aqui os rapazes em acção em com a música Goo Goo Muck:

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Objectividade e Obscenidade: Baudrillard e Zizek

"Quando as coisas se tornam mais reais, e dadas e realizadas de forma imediata, é nesse curto-circuito que se faz com que essas coisas se aproximem cada vez mais, e estamos assim no domínio da obscenidade. (...)

Num mundo destes não existe uma comunicação, mas antes uma contaminação de tipo viral, porque tudo se passa de um para outro e de forma imediata. A palavra promiscuidade afirma a mesma coisa: existe imediatamente, sem distanciamento e sem encanto. E até sem verdadeiro prazer. (...)

Existem alguns excessos na obscenidade: apresentar o corpo nu pode ser já brutalmente obsceno, apresentá-lo descarnado, magro ou esquelético é-o ainda mais. De facto podemos observar hoje que toda a problemática crítica dos media se desenrola em redor desse limiar de tolerância para o excesso de obscenidade. Claro, tudo deve ser dito, tudo vai ser dito...
Mas a verdade objectiva é obscena. E mesmo quando nos descrevem todos os pormenores das actividades sexuais de Bill Clinton, a obscenidade é inteiramente irrisória e até nos perguntamos se não existe aí uma dimensão irónica. (...) A obscenidade , ou seja, a visibilidade total das coisas, é a tal ponto insuportável que se torna necessário aplicar uma estratégia da ironia para sobreviver"

Jean Baudrillard em "Palavras de Ordem"



"A sexualidade é a única pulsão travada em si própria, prevertida: ao mesmo tempo, insuficiente e excessiva, com o excesso como forma de aparecimento da falta. Por um lado, a sexualidade é caracterizada pela capacidade universal de proporcionar o sentido metafórico ou subentendido de qualquer actividade e objecto: qualquer elemento, incluindo a reflexão mais abstracta, pode ser experimentado como se «aludisse a isso». (...)

Este excedente universal - esta capacidade por parte da sexualidade de invadir qualquer domínio da experiência humana, de tal maneira que tudo, do alimento à excreção, da agressão ao nosso semelhante (ou agressão do nosso semelhante) ao exercício do poder, pode assumir uma conotação sexual - não é sinal da sua preponderância. É antes sinal de uma certa deficiência em termos estruturais: a sexualidade impele para fora de si própria e invade os sectores adjacentes, precisamente pelo motivo de não poder encontrar satisfação em si própria, pois nunca alcança o seu objectivo"

Slavoj Zizek em "David Lynch, ou a Depressão Feminina"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Segundo o Piso

Este Sábado vai abrir um novo espaço para exposições em Santo Tirso denominado "Segundo o Piso", junto ao Parque D. Maria II. A inaguração é já este sábado e contará com a presença dos trabalhos dos seguintes artistas: Daniel Da Costa, Hélder Almeida, Hélder Castro, Joana da Conceição e Micaela Amaral.



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Música, Kierkegaard e os Estádios Eróticos Imediatos de Siddhartha Gautama e Nick Drake

O sentido da audição é o primeiro a desenvolver-se no ser humano, e é o mais fino no desenvolvimento das noções de sequência e de tempo. Sem estas noções está comprometida a capacidade de entender significados, comunicação, mensagem etc. Depois, toda a linguagem e comunicação não pode existir sem afectos, amor e relações de empatia. E a música é o melhor meio de exprimir o espírito da sensualidade.

Kierkegaard tem sobre esta questão uma reflexão interessante em "Estádios Eróticos Imediatos" que desenvolve na forma de comentário à ópera Don Giovanni de Mozart:

"The most abstract ideia conceivable is the spirit of sensuality. But in what medium can it be represented? Only in music.
It cannot be represented in sculpturem for in itself it is a kind of quality of inwardness. It cannot be painted, for it cannot be grasped in fixed contours, it is a energy, a storm, impatience, passion, and so on, in all their lyrical quality, existing not in a single moment but in a succession of moments, (...) it is not an epic, for it has not reached the level of words; it moves constantly in an immediacy. Nor can it be represented, therefore, in poetry. The only medium that can represent it is music. For music has an element of time in it yet it does not lapse in time"

Também Siddartha Gautama obteve a sua iluminação quando ouviu o som do rio a correr e nunca mais deixou de estar sintonizado com aquele rio. As pessoas iam ter com ele, aquele que mais tarde seria conhecido como Buda, e ele levava-os de uma margem para a outra, muitas das vezes sem saberem que estavam perante quem procuravam.

Nick Drake, esse cantor que morreu jovem tem uma música deliciosa chamada "The River Man":

Gonna see the river man
Gonna tell him all I can
'bout the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don't suppose
It's meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go


Este texto é parte de um comentário meu a uma bela reflexão no Blog "O Homem que Sabia Demasiado" que questiona se a música precisa de significado. Vale a pena espreitar.