domingo, 12 de outubro de 2008

Introdução ao Surrealismo Clandestino, História e Epistemologia do Medo

O título deste post foi, rigorosamente, o sumário da lição 40 do Pinguim no Porto tendo eu recebido humildemente a honra de o escrever na pedra de ardósia para o efeito.

Assim, ontem, Sábado à noite, houve lugar a uma actuação entusiástica dos Godot, com sua "música rock glamourosa". São quatro rapazes e uma rapariga que constituem um conjunto harmonioso de música, teatro, vídeo e poesia.















Dois deles, Miguel, o guitarrista que mais uma vez fez uma actuação fabulosa cheia de alma e Rabino, baterista que espancou a bateria impiedosamente como é hábito, já contracenaram comigo noutros palcos, por exemplo com a peça de teatro Minimal Show. O vocalista Mário Costa, assumiu (e assume) nesse outro palco, o papel de encenador. Aqui é vocalista e intérprete da poesia de Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, entre outros, sob a capa de estrela do rock. O Mário teve uma actuação turbulenta e enérgica e os restantes elementos, a Sara no orgão e Luís com seus vídeos de fundo, estiveram em alto nível como é costume neles.

Este sábado também houve lugar a uma homenagem ao recentemente falecido Joaquim Castro Caldas, por intermédio de uma música dos Godot com a participação do público e também do Rui Spranger.

Joaquim Castro Caldas, poeta não alinhado, poeta das tabernas, o poeta que dizia que a poesia "é para comer todos os dias", tal qual uma receita de nutricionista preocupado com a alimentação poética do povo, merece toda a saudade e reverência que se vê espalhada por essa blogosfera fora aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo.

sábado, 4 de outubro de 2008

Jerónimo de Sousa: "Zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, Sausurre contra Sausurre, Freud contra Freud"

Vi a notícia espampanante de que o Jerónimo de Sousa tinha pedido o Bloco de Esquerda em namoro. Fui ver mais de perto as notícias divulgadas por "Jornal de Notícias" e "TSF" e outros contadores de histórias onde já diziam que a "aliança de forças progressivas de esquerda" não se referia explicitamente ao Bloco de Esquerda. Entretanto, Jerónimo de Sousa desmentiu tudo.

Já que a classe jornalística dominante em Portugal está altamente enviesada ideologicamente pois não sabem ouvir e ler português convenientemente, eu aqui posso dar em primeira mão de que necessária aliança das forças progressivas de esquerda é que o Jerónimo estava a falar. Não é nada de novo, é aliás muito parecido com que um sociólogo francês e
um cantor português cantaram e escreverem há muito tempo, o primeiro em 1976 e o segundo em 1979

"Há que atirar Mauss contra Mauss, Sausurre contra Sausurre, Freud contra Freud"

Jean Baudrillard em "Troca Simbólica e a Morte", 1976


"E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro"

José Mário Branco em "FMI", 1979

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Inteligência Paradoxal de Soren Kierkegaard

Tenho andado a ler "Migalhas Filosóficas" de Soren Kierkegaard, onde, por intermédio do seu pseudónimo Johannes Clímacus, assume o papel de um pensador secular que faz uma interpretação de questões como a existência, Deus, o amor e o desconhecido. No seu estilo ao mesmo tempo sério e humorado, ligeiro e profundo, Kierkegaard tem no capítulo "O Paradoxo Absoluto - Um Capricho Metafísico", passagens fabulosas como estas:

"Não é necessário pensar mal do paradoxo, pois o paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um paradoxo é como o amante sem paixão, um tipo medíocre. Mas a potência mais alta de qualquer paixão é sempre querer a sua própria ruína e assim também a mais alta paixão da inteligência consiste em querer o choque, não obstante o choque, de uma ou de outra maneira, tenha de tornar-se a sua ruína. Assim, o maior paradoxo do pensamento é querer descobrir algo que ele próprio não possa pensar. (...)

Mas o que é este desconhecido contra o qual a inteligência em sua paixão paradoxal se choca, e que perturba o homem em seu autoconhecimento? É o desconhecido. No entanto, ele não é, certamente, um ser humano, na medida em que o homem sabe o que o homem é, nem qualquer outra coisa que o homem conheça. Chamemos então este desconhecido: o deus. É apenas um nome que lhe damos. Dificilmente ocorreria à inteligência querer provar que esse desconhecido (o deus) existe de facto. (...)

Em geral, provar que qualquer coisa existe é sempre uma questão difícil: sim, o que é ainda pior para os corajosos que a tanto se atrevem, a dificuldade é tal que a celebridade raramente aguarda aqueles a que a isso se dedicam. A demonstração toda se transforma em algo completamente diferente, em um desenvolvimento exterior da conclusão que tiro ao ter admitido que o objecto em questão existe. (...)

Assim, eu não provo que uma pedra existe, mas sim que algo, que de facto existe, é uma pedra; o tribunal não prova que um criminoso existe, mas prova que o acusado, que evidentemente existe, é um criminoso. (...) Caso alguém quisesse, a partir dos feitos de Napoleão, provar a existência de Napoleão, não seria este um procedimento sumamente estranho? (...)

A paixão paradoxal da inteligência choca-se portanto constantemente contra este desconhecido, que decerto existe, mas que também é desconhecido, e nesta medida inexistente. A inteligência não pode vir mais longe: mas o seu sentido do paradoxo leva-a a aproximar-se do obstáculo e a ocupar-se dele; porque, pretender exprimir a sua relação com ele negando a existência daquele desconhecido, não dá certo, visto que o enunciado desta negação envolve precisamente uma relação."

Por esta altura vai-se tornando cada vez mais difícil continuar a seleccionar e copiar para aqui o melhor deste capítulo, pois tudo me parece demasiadamente importante para deixar de lado e sem o qual não se percebe a totalidade. Resta-me apenas com estas trancrições deixar crescer um pouco de apetite nas inteligências mais vorazes e paradoxais que nos acompanham, e fazer uma modesta propaganda deste meu velho mestre.

“Kierkegaard é de longe o mais profundo pensador do século XIX.”, dizia Ludwig Wittgenstein. Considerado o pai do existencialismo, Kierkegaard tem uma obra que é filha fiel da sua existência. Agustina Bessa Luís fez-lhe em tempos uma homenagem na forma de um texto dramático denominado "Os Estados Eróticos Imediatos de Soren Kierkegaard", onde põe em cena partes ficcionadas da vida atribulada deste pensador.

Ironia, coincidência ou não, ao mesmo tempo que vou lendo estas migalhas filosóficas, soube que este texto dramático foi trazido à vida pela companhia Seiva Trupe, e estreou dia 25 no Teatro Campo Alegre onde vai estar até dia 31 de Outubro. Ainda não fui ver mas tenho tempo. Teatro, Kierkegaard e Agustina, são nutrientes fugazes da humanidade que demoram uma vida a digerir. Já dizia Agustina, "O tempo apaga devagar o que a terra leva depressa."

sábado, 27 de setembro de 2008

Psicanálise e Economia Política do Super-Homem

Ainda na senda do post anterior, na relação entre a tecnologia, o mercado de trabalho e a psicologia da máquina, encontrei um vídeo bastante interessante denominado "The Political Economy of Superman":

sábado, 20 de setembro de 2008

O Socialismo Cristão de Oscar Wilde e uma curta Psicanálise do Robocop

Ainda na senda da conciliação de Cristianismo e Marxismo faço aqui um comentário desse ensaio formidável de Oscar Wilde “The Soul of Man under Socialism”, servindo de introdução a uma curta psicanálise do Robocop.

Oscar Wilde normalmente é associado a um idealismo estético carregado de ironia, charme e hedonismo, mas neste ensaio, ele desenvolve com todas essas qualidades um pensamento político onde tenta conciliar o que ele considera positivo das teorias do socialismo emergentes com com uma visão muito particular dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Começa por afirmar que o socialismo teria como principal benefício o deixarmos de ter de viver compulsivamente para os outros, naquilo que ele considera o nascimento de um novo Individualismo. Diz-nos Wilde que a propriedade privada criou um tipo de invidualismo falso que é uma ameaça a um verdadeiro Individualismo. Oscar Wilde é contra a propriedade privada. É-o no sentido em que defende um Individualismo em que não se medie as pessoas pelo que as pessoas têm, mas sim pelo que as pessoas são: “The true perfection of man lies not in what man has, but in what man is.”

Aqui Wilde toma o exemplo de Jesus Cristo e considera que a principal mensagem cristã foi a de que a perfeição não reside no acumular e posse de coisas externas. Que a perfeição reside dentro de cada um de nós. As riquezas comuns podem ser roubadas de um homem mas as verdadeiras riquezas não. No tesouro da alma residem tesouros que não podem nunca ser roubados.

Oscar Wilde fala-nos também da arte como expressão máxima de individualidade do ser humano. Assim a arte não deve ser popular, mas sim pessoal. A maior tragédia de uma Arte é quando esta se torna popular, pois quando assim acontece, a arte já mercantilizada obedece ao sentido crítico artístico das massas, faltando precisamente às massas esse sentido crítico artístico. Um exemplo disto é os “morangos com açucar” feito à medida do mercado e não como forma de arte, acabando por ser apelativo a massas de juventude sem sentido artístico. Assim, nas próprias palavras de Wilde: “Art should never try to be popular. The public should try to make itself artistic.”

Oscar Wilde fala-nos também da problemática da máquina com grande actualidade, apesar de viver no séc. XIX. Diz-nos que a máquina tira empregos que deixam na miséria milhares de pessoas.

Já Marx falava nisto, na medida em que o controlo dos meios de produção, as máquinas, é o que legitima o poder da classe dominante. Dando um exemplo prático, um homem pobre hoje em dia que queira viver da venda de cerveja, não tem capacidade de o fazer pois não tem as máquinas necessárias para a produção em larga escala que torna o produto concorrente em preço para que o possam comprar. Ademais com ASAEs e regras de segurança e higiene vigentes, a produção de cerveja só está acessível a quem tem capital para adquirir os meios de produção onde só aí as regras de segurança e higiene são possíveis de colocar em prática, pois foi para a produção em massa que elas foram feitas.

Oscar Wilde dizia que as máquinas deviam servir o homem ao invés de servirmos as máquinas, que é particularmente irónico e trágico que a ascensão da máquina tenha levado a fome a muita gente. Adianta então que as máquinas deviam servir para fazer todo o trabalho sujo, repetitivo e mecânico usualmente reservado aos homens pobres.

Sobre isto, Wilde apenas anteviu o desafio mais premente da nossa época: a tecnologia.
E sobre isto queria referir o seguinte:

Sempre desgostei a psicologia cognitiva, modelo muito americano de Psicologia, por um motivo que é o de usar o computador como modelo da psique humana. Ou seja, para um psicólogo cognitivista, a natureza humana deve ser inferida a partir da forma como funciona o computador.

Considero esta visão altamente neurótica. Não que seja irrealista, pelo contrário é extremamente realista, e o problema passa por aí. Seria tão ou mais acertado dizer tudo ao contrário, ou seja, que o computador foi feito tendo como modelo a psique do homem ocidental moderno e neurótico. Analisemos isto da mesma forma como podemos por exemplo dizer igualmente que fizemos Deus à nossa imagem e da mesma forma que fomos feitos à imagem de Deus.

O Computador vive de rituais, é obsessivo e sofre de omnipotência de pensamentos. Tudo isto são coisas que, presentes num homem, são critérios de diagnóstico de uma neurose obsessiva. E toda a neurose obsessiva parte de um conflito da fase anal, fase essencial para a aquisição da noção de propriedade privada.

Uma das consequências normais de um conflito não resolvido na fase anal é uma racionalidade extrema. A máquina é extremamente racionalista, fria, não tem emoções, faz o que lhe mandam, como uma compulsão ou imperativo categórico kantiano. A máquina é então a forma perfeita para perceber como somos neuróticos na forma como glorificamos a razão e a inteligência per si, destacando-a da base emocional que a sustenta. A glorificação actual da tecnologia diz o quão somos actualmente neuróticos. Assim, entendamos as palavras de Wilde quando diz que a máquina devia servir o homem e não sermos escravos da máquina neste sentido: a razão deve servir as emoções e não o contrário que é usarmos a razão para escravizar as emoções.

Oscar Wilde era um psicanalista antes do tempo. Foi um grande prenúncio neste seu ensaio político, daquilo que viria a ser a obra por exemplo do psicanalista Erich Fromm, que repete a mesma oposição e impasse essencial referente à neurose moderna e sociedade que esta fundou: o Ter e o Ser. Já mais acima citei Wilde e repito quando este diz “The true perfection of man lies not in what man has, but in what man is.”

Erich Fromm fez então anos mais tarde esta mesma análise, baseando-se curiosamente em fontes muito parecidas com as de Wilde, nomeadamente Marx e Jesus. Então Erich Fromm, tal como Wilde, opõe-se à noção de propriedade privada, sendo ela decorrente de um conflito na fase anal, prenúncio de um individualismo falso tal como, acrescento eu, a inteligência artificial é o que o próprio nome diz: uma psique falsa. O medo paranóico presente em muitos malucos do nosso mundo (cada vez mais) e expressa em muitos filmes populares (Exterminador Implacável ou Matrix, por exemplo) em que há o medo de que a máquina acabe por dominar o ser humano, é não mais do que uma projecção fiel das angústias inconscientes de que a razão possa vir a dominar por completo a psique humana, expulsando as emoções do mapa. Assim, o Robocop, por exemplo é o modelo perfeito para compreender o que é a neurose obsessiva.

O Robocop é um cyborg, meio homem máquina, que sofre um trauma em que quase morre no início do filme. De ser humano passa a um ser mecânico, automático, sem espontaneidade, fixado e obcecado com apenas dois ou três traumas de infância que por vezes lhe vêem à consciência, e que a sua transformação em adulto robot robótica não consegue “recalcar”chamemos-lhe assim. Sua programação passa unicamente por cumprir três directrizes que lhe são impostas pela lei, tal como um empregado tem cumprir as suas três funções impostas por um patrão que não quer saber do que ele acha ou pensa autonomamente. Assim, o robocop vive ao mesmo tempo o dilema do neurótico e o dilema da luta de classes, na medida em que não lhe é possível abandonar seu emprego de polícia (a lei da polícia, da justiça, a lei paterna) para se dedicar ao seu trabalho de análise de suas memórias de infância.
Vemos o Robocop no fim do primeiro filme da série, confrontado com o seu patrão numa mesa de negócios. Vemos claramente aqui uma representação de complexo de Èdipo: ele quer matá-lo por toda a castração que lhe foi imposta, mas ao mesmo tempo não o consegue por já se haver identificado, aquando da sua passagem para adulto (robot), com a lei paterna.

Assim, a psicologia cognitiva tem razão quando diz que somos como robôs. O único problema deste modelo é, como me disseram há tempos e concordo perfeitamente: é que ela é regressiva mas não o consegue ser tanto quanto a psicanálise.

Muitos poderão perguntar? E qual é a cura do Robocop? Não tenhamos ilusões: a transformação do Robocop de humano (criança) para robot (adulto), é irreversível. A única coisa que podemos fazer é tirar-lhe o capacete, tal como acontece no filme, para que ele mostre uma face mais humana, e assim, podemos esperar que ele tome consciência da sua castração, que perca suas ilusões de omnipotência e que esteja mais sincronizado com seu lado humano (a criança dentro de nós).

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Teologia da Polítca, Seinfeld, Gilletes Descartáveis e o Castelo de Kafka

Face ao comentário inteligente e pertinente do Dioniso feito ao post anterior, o que seria um comentário meu de resposta tornou-se um cascata de ideias tal que achei conveniente fazer desaguar num post.

Dioniso, penso que não existe uma verdadeira oposição entre nós, na medida em que concordo absolutamente com última parte do teu comentário, quando referes que a política deve governar o ser humano imperfeito que somos, que precisa de comer e de alguns objectos e instrumentos que o insiram socialmente (totems).

O que eu pretendo com estas pontes e políticas comparadas, não é conquistar o mundo das ideias, mas pelo contrário, mostrar suas circularidades viciosas em torno de questões primárias.

Uma testemunha de Jeová sente as desigualdades sociais da mesma forma que eu e muita gente, somente usamos linguagens diferentes para o expressar.
Nisto sou muito existencial e acredito que nenhum ensinamento entre os homens pode ser passado se não houver uma experiência partilhada comum.

Meu ponto é talvez esse, o de que o verdadeiro confronto, o da luta de classes, é existencial, pessoal, empírico. E o desacordo nas ideias reflecte uma diferença de experiências humanas diversa. Quando duas pessoas passam pela mesma experiência, uma falando chinês e outra inglês, elas vão acabar por se entender. Mas quando duas pessoas, um rico e um pobre, passando naturalmente por experiências diferentes de vida, mesmo que falem os dois português nunca se entenderão.

Na resolução desta dicotomia, a psicanálise para mim é um complemento importantíssimo por uma razão: é dialéctico na medida em que tem a sexualidade como aspecto central, e é a sexualidade o ponto onde se vive de uma forma mais evidente o confronto entre idealismo e materialismo, onde vivemos angústias verdadeiramente universais e universalizáveis.

Freud ao sexualizar as ideias, e ao idealizar o corpo, permitiu o nascimento de uma linguagem que permite abordar as angústias primárias do ser humano, transcendendo a barreira da luta de classes e colocando questões fracturantes.

Vivemos um tempo em que há cada vez mais filhos de pais divorciados. A escolha do parceiro para toda a vida, determinante para a nossa identidade, torna-se uma escolha mercantilizada, em que mudamos de homem ou mulher para satisfazer caprichos de moda abstractos. Basta ver um episódio de Seinfeld e vemos, de uma forma caricaturada, uma Elaine que rejeita homem atrás de homem, um porque usa sempre a mesma camisa, outro porque tem um corte de cabelo esquisito, e outro porque se ri de forma estranha. E as nossas relações com nossos totems dizem a forma como nos organizamos em sociedade. Temos mulheres e homens descartáveis tal como temos lâminas de barbear e máquinas fotográficas descartáveis.

Tudo isto são reflexos do mercado, esse conceito que se tornou místico, máquina inatingível, inumana, inacessível. Já não o encontramos o mercado facilmente, como Jesus o encontrou no templo. Como dizia Foucault, aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência.

A política actual, subjugada ao mercado, enquanto elemento de poder separado da experiência humana, torna-se campo de projecção das nossas angústias primárias.

Como abordar a questão da autoridade no mundo burocrático kafkiano? A democracia, paradoxalmente e tragicamente, não é mais do que a legimitação burocrática do poder abstracto e puramente ideal. Tal como no romance de Kafka, nunca chegaremos ao castelo, ficaremos sempre pelo corredor das finanças a lutar com o funcionário.

A política está tão lá longe, no castelo, que só aí paradoxalmente, é que começamos a falar dela em termos religiosos, como o deus inacessível que é antropomorfizado.

É neste sentido que a teologização da política é inevitável.
Não nos admiremos de ver Chavéz a inspirar-se em Jesus nos seus perigosos experimentos políticos, tal como não nos admiremos de ver Deus todo-poderoso ser invocado por Bush, graças a mil e um estudo de mercados e pareceres, traduzidos numa política de extrema "segurança".

Nosso either/or kierkegaardiano vive neste limbo: entre a compulsão para a repetição infinita de um, e a experiência criativa e perigosa de outro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Testemunhas de Jeová, Comunismo e Jesus

No fim de uma noite animada do último Sábado à noite, à hora de ir embora, comecei a produzir estranhos discursos políticos e religiosos de uma forma emocionada, quase cantada. Acaba por ser normal, nestas alturas. Há quem chore, há quem rie, há quem comece aos murros e pontapés, a mim dá-me para isto.

Desta vez, quem estava comigo não estava a achar muita piada. Andava eu a dizer entre outras coisas, que havia uma passagem do novo testamento que mostrava o lado mais marxista de Jesus, que é quando, ao contrário da imagem normal do homem sempre calmo e misericordioso, Jesus enraivecido expulsa os mercadores do templo. Ninguém me ligou nenhuma e isto ficou por ali.

Hoje, vieram a minha casa umas senhoras, testemunhas de Jeová e estive então a conversar com elas. Sempre gostei muito de falar com testemunhas de Jeová. Se, quando era adolescente o fazia por motivos muito basicamente anti-clericais, hoje em dia gosto de falar com eles pelo que eles têm de parecido comigo.

Começaram a falar do estado actual do mundo, onde todos são interesseiros, egoístas, manipuladores, mentirosos, mesquinhos e gananciosos, onde tudo se compra e vende desmesuradamente. Diziam que isto correspondia ao que na bíblia se chama de "últimos dias", fase que antecede o "reino de cristo".

Na minha visão marxista das coisas, isto soa-me bem: substituímos apenas "últimos dias" por "capitalismo" e "reino de cristo" por "comunismo".
Disse-lhes que me revia no que me estavam a dizer, que tinha uma religião que até era parecida, e que se chamava "comunismo".

Fiquei surpreendido por ver as senhoras concordarem comigo, e até acrescentarem que Jesus era "comunista". Tentaram fazer outras pontes. Diziam que a Igreja Católica era um negócio ostensivo e falaram nas cestinhas que passam na missa. Com eles, o dinheiro é recolhido de uma forma mais discreta, por intermédio de uma caixa de donativos, dando as pessoas dinheiro por vontade e não por ostentação.

Eu disse que no meu partido, as pessoas não recebem dinheiro por colar cartazes, ao contrário de outros partidos. Concluímos então, eu e as senhoras, que o verdadeiro conhecimento, aquilo em que acreditamos, não devia nunca ser vendido, mas sim dado e partilhado. Então lembrei-me e falei-lhes dessa passagem da bíblia em que Jesus fica zangado, e nem me deixaram acabar exclamando as duas em uníssono: "a parábola dos mercadores do templo!". Rapidamente elas citaram a bíblia direitinho:

"Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes." (Jo 2:15 a 16) (...) Minha casa é uma casa de oração , mas vós fizestes dela um covil de ladrões! (Mt 21:13)

Sim, também o planeta Terra é um lugar maravilhoso para morar, mas o capitalismo fez dela um covil de ladrões. Que venha o "Julgamento Final" ou "Revolução", chamem-lhe o que quiserem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Rock'n'Roll, Punk e The Cramps: Tese, Antítese e Síntese

O Hegel dizia que a história se movia por um processo dialéctico em que primeiro havia a tese, depois em resposta a antítese, e esta oposição seria resolvida por uma síntese dos dois anteriores. Esta síntese tornar-se-ia a tese seguinte à qual se seguiria uma antítese, e etc.. até ao infinito.

Também na história da música é perfeitamente viável vê-la de um ponto vista dialéctico hegeliano.
Aparentemente o punk do pessoal porco, de cabedal e crista na cabeça, surgiu como algo que não seria assimilável pelo antigo rock'and'roll das bandas vestidas de fatinho branco e gravata (atenção que me refiro a rock'n'roll e não rock no seu sentido mais vasto).
Perante a tese do rock'n'roll o punk seria uma oposição, uma antítese.

Se se pode falar numa síntese entre o rock'n'roll e o punk, temos que falar dos The Cramps. Com os seus acordes e sonaridades blues e rockabilly levados à distorção e a uma rudeza mais própria do Punk, usando de um imaginário Halloween que se revela totalmente adequado em termos filosóficos digamos assim, os Cramps são essa síntese perfeita entre punk e rock'n'roll.

Vejam aqui os rapazes em acção em com a música Goo Goo Muck:

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Objectividade e Obscenidade: Baudrillard e Zizek

"Quando as coisas se tornam mais reais, e dadas e realizadas de forma imediata, é nesse curto-circuito que se faz com que essas coisas se aproximem cada vez mais, e estamos assim no domínio da obscenidade. (...)

Num mundo destes não existe uma comunicação, mas antes uma contaminação de tipo viral, porque tudo se passa de um para outro e de forma imediata. A palavra promiscuidade afirma a mesma coisa: existe imediatamente, sem distanciamento e sem encanto. E até sem verdadeiro prazer. (...)

Existem alguns excessos na obscenidade: apresentar o corpo nu pode ser já brutalmente obsceno, apresentá-lo descarnado, magro ou esquelético é-o ainda mais. De facto podemos observar hoje que toda a problemática crítica dos media se desenrola em redor desse limiar de tolerância para o excesso de obscenidade. Claro, tudo deve ser dito, tudo vai ser dito...
Mas a verdade objectiva é obscena. E mesmo quando nos descrevem todos os pormenores das actividades sexuais de Bill Clinton, a obscenidade é inteiramente irrisória e até nos perguntamos se não existe aí uma dimensão irónica. (...) A obscenidade , ou seja, a visibilidade total das coisas, é a tal ponto insuportável que se torna necessário aplicar uma estratégia da ironia para sobreviver"

Jean Baudrillard em "Palavras de Ordem"



"A sexualidade é a única pulsão travada em si própria, prevertida: ao mesmo tempo, insuficiente e excessiva, com o excesso como forma de aparecimento da falta. Por um lado, a sexualidade é caracterizada pela capacidade universal de proporcionar o sentido metafórico ou subentendido de qualquer actividade e objecto: qualquer elemento, incluindo a reflexão mais abstracta, pode ser experimentado como se «aludisse a isso». (...)

Este excedente universal - esta capacidade por parte da sexualidade de invadir qualquer domínio da experiência humana, de tal maneira que tudo, do alimento à excreção, da agressão ao nosso semelhante (ou agressão do nosso semelhante) ao exercício do poder, pode assumir uma conotação sexual - não é sinal da sua preponderância. É antes sinal de uma certa deficiência em termos estruturais: a sexualidade impele para fora de si própria e invade os sectores adjacentes, precisamente pelo motivo de não poder encontrar satisfação em si própria, pois nunca alcança o seu objectivo"

Slavoj Zizek em "David Lynch, ou a Depressão Feminina"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Segundo o Piso

Este Sábado vai abrir um novo espaço para exposições em Santo Tirso denominado "Segundo o Piso", junto ao Parque D. Maria II. A inaguração é já este sábado e contará com a presença dos trabalhos dos seguintes artistas: Daniel Da Costa, Hélder Almeida, Hélder Castro, Joana da Conceição e Micaela Amaral.



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Música, Kierkegaard e os Estádios Eróticos Imediatos de Siddhartha Gautama e Nick Drake

O sentido da audição é o primeiro a desenvolver-se no ser humano, e é o mais fino no desenvolvimento das noções de sequência e de tempo. Sem estas noções está comprometida a capacidade de entender significados, comunicação, mensagem etc. Depois, toda a linguagem e comunicação não pode existir sem afectos, amor e relações de empatia. E a música é o melhor meio de exprimir o espírito da sensualidade.

Kierkegaard tem sobre esta questão uma reflexão interessante em "Estádios Eróticos Imediatos" que desenvolve na forma de comentário à ópera Don Giovanni de Mozart:

"The most abstract ideia conceivable is the spirit of sensuality. But in what medium can it be represented? Only in music.
It cannot be represented in sculpturem for in itself it is a kind of quality of inwardness. It cannot be painted, for it cannot be grasped in fixed contours, it is a energy, a storm, impatience, passion, and so on, in all their lyrical quality, existing not in a single moment but in a succession of moments, (...) it is not an epic, for it has not reached the level of words; it moves constantly in an immediacy. Nor can it be represented, therefore, in poetry. The only medium that can represent it is music. For music has an element of time in it yet it does not lapse in time"

Também Siddartha Gautama obteve a sua iluminação quando ouviu o som do rio a correr e nunca mais deixou de estar sintonizado com aquele rio. As pessoas iam ter com ele, aquele que mais tarde seria conhecido como Buda, e ele levava-os de uma margem para a outra, muitas das vezes sem saberem que estavam perante quem procuravam.

Nick Drake, esse cantor que morreu jovem tem uma música deliciosa chamada "The River Man":

Gonna see the river man
Gonna tell him all I can
'bout the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don't suppose
It's meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go


Este texto é parte de um comentário meu a uma bela reflexão no Blog "O Homem que Sabia Demasiado" que questiona se a música precisa de significado. Vale a pena espreitar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O cão e as dobras de Deleuze

Em jeito de "comentário ao comentário" feito no post anterior, que refere uma tendência em muitos dos posts que por aí pululam neste blog "em derrubar barreiras, encurtar distancias e estabelecer a comunicação entre elementos aparentemente díspares":

Diria que o que se trata aqui são de linhas de fuga, fluxos do desejo com seus cortes e recortes, um contínuo processo de desterritorialização e de reterritorialização. Em termos territoriais, a minha inspiração é Gilles Deleuze que, junto com Félix Guattari, penetraram em mim como um vírus sendo essa característica viajante do pensamento de que o comentador anónimo fala, um dos síntomas precisamente desse vírus.

Gilles Deleuze é o filósofo dos movimentos, das formas, dos terrítórios, não gosta de sítios fechados, poder-se-á até dizer que sofria de uma claustrofobia filosófica. Dizia que queria sair da Filosofia através da Filosofia.

Um documento valiosíssimo disponível a todos os mortais que Deleuze nos deixou foi o "Abecedário de Deleuze" que consiste numa entrevista com Claire Parnet gravada em vídeo, documento que, segundo a claúsula da entrevista, apenas podia ser revelado depois da sua morte

Começa com a palavra Animal, onde ele diz que (ao contrário do Iggy Pop ou do Padre António Vieira), nunca se identificou muito com o cão por ser um animal doméstico que ladra. O latido, para Deleuze é um momento de mau gosto na ordem estética da natureza. Deleuze nunca conheceu o famoso Mambo, canino com quem coabito e que tem a notável e louvável caracterísitca de nunca ladrar.

Vejam aqui um excerto da entrevista que mostra um pouco o alcance da filosofia de Deleuze que consegue ser uma inspiração para pintores, médicos, mecânicos, dobradores de papéis, surfistas, exército israelita, mosquitos, carrapatos, prostitutas, homens de negócios e os mais diversos modos de ser.



Gilles Deleuze: Quero sair da filosofia pela filosofia. É isso o que me interessa.

Claire Parnet: O que isso quer dizer?

Gilles Deleuze: Dou um exemplo, como isso é para depois de minha morte, posso deixar de ser modesto. Acabo de escrever um livro sobre um grande filósofo chamado Leibniz e insistindo em uma noção que me parece importante nele, mas que é muito importante para mim: a noção de dobra. Considero que fiz um livro de filosofia sobre essa noção, um pouco estranha, de dobra. O que me acontece depois? Recebo cartas, como sempre, há cartas insignificantes, mesmo se são encantadoras e calorosas, e me toquem muito. São cartas que me dizem, muito bem... são cartas de intelectuais que gostaram ou não do livro. E então recebo duas cartas, dois tipos de cartas, em que esfrego os olhos... Há cartas de pessoas que dizem: "Mas sua história de dobra, somos nós". E percebo que são pessoas que fazem parte de uma associação que agrupa 400 pessoas na França, hoje, e deve crescer. É a associação de dobradores de papéis, eles têm uma revista, me enviam a revista e dizem: "Concordamos totalmente, o que você faz é o que fazemos". Digo para mim: isso eu ganhei. Recebo outra carta, e falam da mesma maneira e dizem: "A dobra somos nós". É uma maravilha.

Primeiro isso lembra Platão, porque em Platão... os filósofos, para mim, não são pessoas abstratas, são grandes escritores, grandes autores bem concretos. Em Platão há uma história que me enche de alegria, e está ligada ao início da filosofia, voltaremos a isso depois. O tema de Platão é: ele dá uma definição, por exemplo, o que é o político? O político é o pastor dos homens, e sobre isso há muita gente que diz: o político somos nós, por exemplo, o pastor chega e diz: visto os homens, logo sou o verdadeiro pastor dos homens. O açougueiro diz: alimento os homens, sou o pastor dos homens. Os rivais chegam... Tive esta experiência, os dobradores de papéis chegam e dizem: a dobra somos nós. Os outros, que me enviaram o mesmo tipo de carta, é incrível, foram os surfistas. À primeira vista não há relação alguma com os dobradores de papéis. Os surfistas dizem: "concordamos totalmente, pois, o que fazemos? Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza. Para nós, a natureza é um conjunto de dobras móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, habitar a dobra da onda é a nossa tarefa". Habitar a dobra da onda e, com efeito, eles falam disso de modo admirável. Eles pensam, não se contentam em surfar, eles pensam o que fazem. Voltaremos a falar disto se chegarmos ao esporte [sport], ao S...

Claire Parnet: Está longe. Partimos do encontro, são encontros, os dobradores de papéis?

Gilles Deleuze: São encontros. Quando digo sair da filosofia pela filosofia... Sempre me aconteceu isso, são encontros, encontrei os dobradores de papéis, não preciso vê-los, aliás, ficaríamos decepcionados, provavelmente, eu ficaria, e eles ainda mais. Não preciso vê-los, mas tive um encontro com o surfe, com os dobradores de papéis, literalmente, saí da filosofia pela filosofia, é isso um encontro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os Cães de Iggy Pop e Padre António Vieira

No ensaio Dois Cães, Alcir Pécora diz sobre o cão que:
"na hora da identidade em perigo, o animal latiu no sermão de Vieira e também na voz de Iggy Pop" (...)

"O primeiro (Iggy Pop) berrava que queria ser o meu cachorro, a qualquer preço; o segundo protestava reiteradamente ao Superior dos Jesuítas na Província de Portugal, quando se encontrava na iminência de ser expulso da ordem por conta das várias intrigas políticas em que se envolvera, que preferia ser um cão à porta da Companhia de Jesus do que receber a máxima investidura eclesiástica em Portugal. De fato, El-Rei lhe oferecera qualquer posto, como compensação do afastamento da ordem." (...)

"Ambos, em algum momento de sua vida, julgaram que um cão era a melhor figura de sua identidade em perigo, e então acharam que deveriam repeti-lo para mim, sincronizando tempos, lugares e línguas distantes. Fizeram isso uma vez, outra vez, e depois por dias e anos a fio."

Vejam também o rockeiro de 61 anos aqui a berrar I Wanna be Your Dog, numa excelente actuação em Bruxelas perante um público extasiado e animado como se estivesse a ouvir um sermão do Padre António Vieira:


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Zen, Alan Watts e Sérgio Godinho

"O nosso problema está em que o poder do pensamento nos dá a capacidade de construir símbolos de coisas, estranhos às próprias coisas, incluindo a de criar um símbolo, uma ideia de nós próprios, estranha a nós próprios. Porque a ideia é muito mais apreensível do que a realidade, e o símbolo muito mais estável que o facto, aprendemos a identificar-nos com a ideia que fizemos de nós próprios. (...)

Daí a intuição subjectiva de um "ego" que "tem" uma mente, de um sujeito interiormente isolado a quem sucedem experiências não desejadas. Com a característica enfâse que pôe no concreto, o Zen indica que o nosso precioso "ego" é apenas uma ideia, bastante útil e legítima se for tomada pelo que é, mas desastrosa se identificada com a nossa verdadeira natureza. Dir-se-ia, pois, que o libertar-se da distinção subjectiva entre "eu" e "minha experiência", é descobrir a verdadeira relação entre mim e o mundo "exterior" (...)

Alan Watts em "O Budismo Zen"

"Pode alguém ser quem não é,
Pode alguém ser quem não é
Pode alguém ser quem não é?"

Ségio Godinho

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Globalização do Orgasmo Obsessivo, Amor Cortês e Sado-Masoquismo

Outro dia encontrei este site do movimento Global Orgasm. A ideia é combinar um dia do ano para toda a gente no mundo ter um orgasmo simultâneo. Com isso esperam libertar "energias positivas" no mundo para que haja menos guerra e menos armas de destruição em massa.

Dizem que podemos fazê-lo sozinhos através da masturbação ou acompanhados. É possível ver um vídeo onde o homem do casal mentor do movimento alerta para a necessidade de, no momento do orgasmo, visualizarmos na nossa mente imagens de paz no mundo. Como tal, o homem nota que é preciso praticar muito para que isto seja feito da maneira certa, deixando ainda o alerta para que não se façam mais bebés no dia do orgasmo por causa dos problemas de excesso de população mundial.

Há ainda o apelo a saberes "científicos" onde mostram um aparelho que nota alterações em cálculos randómicos electrónicos para o dia do orgasmo. O aparelho produz um gráfico que vai para cima e para baixo, o que hoje serve muito bem para dar ares de prova e credibilidade.

Este mundo está doido. Antes de mais nada convém salientar o utilitarismo e ritualismo que aqui é imputado à relação sexual. O mentor do projecto ao alertar para a necessidade de praticar o orgasmo para sair bem no momento certo, diz muito de como a relação sexual para este casal se tornou uma operação altamente programada e mecanizada.

A relação sexual, efectuada desta maneira, é um sintoma de que esta se processa a um nível muito mental, egóica e pouco espontânea. O que há é um encontro previamente estabelecido onde cada um já sabe previamente o que o outro irá fazer, anulando-se assim qualquer perigo de uma interacção espontânea, real, e imediata entre o casal. Toda a emocionalidade é aqui posta de lado.

Ou melhor, toda não. Quando a relação sexual atinge estes trâmites, há uma emoção particular que lhe assiste que é a de um grande sentimento de culpa. Para neuróticos obsessivos como é o caso, basta uma imagem mental menos bonita lhes vir à cabeça que imediatamente se sentem culpados e sujos. Ou essa imagem da cabeça corresponde aos seus ideais, ou se não corresponde, há uma sensação de sujidade que é preciso limpar, uma sensação de culpa que é preciso expiar.

Um neurótico obsessivo por exemplo, se se depara com uma imagem mental de homossexualidade, fica extremamente preocupado por pensar que pode ser honossexual, como se as imagens e pensamentos fossem já um acto.

Daí a pretensão de acharem que podem mudar o mundo com imagens mentais de paz no momento do orgasmo, como se a imagem ou o pensamento fossem um acto.

As imagens, pensamentos e restantes eventos mentais do fluxo da consciência humana não devem ser confundidas com o acto, a acção.

A mente não é acção, mas sim "pura potência", no sentido de Giorgio Agamben: Toda a potência de fazer é também potência de não fazer. Sendo o acto imutável e irreparável, no acto não cabe a categoria de possibilidade que corresponde ao pensamento.
O neurótico obsessivo portanto, ao tomar o pensamento como acto, nega ao pensamento toda o seu carácter de possibilidade, sendo que é o mundo do possível e do impossível que constitui a mente como pura potência. Assim, a omnipotência dos pensamentos de um neurótico obsessivo traduz-se numa impotência efectiva do pensamento, na medida em que lhe retira toda a imaginação, ou seja, a possibilidade de pensar o possível e o impossível.

Ainda sobre o casal do orgasmo globalizado, acrescentaria ainda que seu relacionamento sexual rege-se pelas normas do sadismo e do masoquismo. Aliás, a mulher quando fala no vídeo do site, realça precisamente essa posição superior da mulher na concepção que apresentam da humanidade. Trata-se aqui do esquema típico do amor cortês em que a mulher é quem manda (sádica) no homem que corteja a mulher de formas várias (masoquista que encena a sua própria servidão).

É a isto a que Zizek se refere quando diz que o sadismo e masoquismo que surgem no séc. XIX, tão em voga nos dias de hoje, é um sucedâneo do antigo amor cortês da época medieval, na medida em que neste se encontra subentendida a antiga relação feudal entre o senhor e o vassalo, onde os dois elementos da relação nunca estão numa relação de igualdade, daí a importância do contrato, que se mantém até aos dias de hoje, como fixação das regras que definem o relacionamento entre duas pessoas.

Neste casal "moderno", há também este contrato social, na medida em que, se virmos no site, há a possibilidade de dar donativos, comprar t-shirts e tapetes de rato do orgasmo global, etc. A união que vemos neste casal assume um caractér económico inegável, o que mais uma vez se insere nessa excessiva regulamentação e ritualização da relação.

Este elemento económico define e complementa toda a natureza da relação sadomasoquista obsessiva entre os dois. Este casal nunca produzirá bebés, mas sim dinheiro e mais dinheiro. Aliás, a possibilidade de um bebé é assustadora para este casal (poria o contrato em perigo), basta ver por observações como esta feitas no site:
"Every cute baby is another consumer. Let’s make children even more valued by making fewer of them, before the pressures of overpopulation drive our children to kill each other. "

sábado, 26 de julho de 2008

The Format - Dog Problems

Vejam este videoclip delicioso dos The Format:

sábado, 19 de julho de 2008

DJs Estaline + KGB: A Ditadura do Rock'n'Roll




















Há já algum tempo (um ano?) que o meu alter-ego DJ Estaline se encontra fora de actividade.
Mas é já este Sábado o regresso do socialismo ao Bar Carpe Diem, em Santo Tirso, onde irei fazer minha propaganda musical com jazz, blues, rock dos anos 50', 60, 70'. 80', 90', 2000... rock moderno, rock antigo, música mexicana, Zeca Afonso, Tchaikovsky e Pauliteiros de Miranda.

Mas desta vez, Estaline não estará sozinho. Um agente secreto do KGB cuja identidade não vou revelar, também estará presente para dar o seu contributo musical para esta reunião da classe operária do rock. Apareçam.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Estado do Mundo: Civilização do Trauma, Museus-Cemitério e a Igreja do Índio

"E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, «cadáveres adiados que procriam». Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora nós precisamos do futuro como do ar que respiramos."

Manuel Gusmão na revista ACTO #8, O Futuro

No post anterior destaquei dois artigos do livro "o estado do mundo", o de Sloterdijk e o do João Barrento. Falta dar o devido destaque a outros dois ensaios. Um é o do Santiago Kovadloff "A Construção do Presente, Feições Filosóficas do Conceito de Trauma". Com uma linguagem muita clara, límpida e ao mesmo tempo, profunda, Kovadloff tem passagens como estas:






"Bem poderia acontecer, e de facto acontece, que o homem aspire a congelar numa interpretação definitiva, de intenção exaustiva e inamovível, o fluxo do tempo, a dinâmica da actualidade
. Quando isto acontece, o homem não provém já do porvir, e sim do passado. Sempre, é claro, que o passado for entendido nos termos que aqui proponho: o fixo, o calcário, (...) e nós todos sabemos que o outro nome eminente para designar o imodificável é o de dogma. Dogmatizar o presente é o mesmo que habitá-lo com vocação de passado. A razão dogmática pode ser entendida com expressão da lógica traumática. Nela o tempo aparece cristalizado e, nessa medida, o discurso subjectivo não opera"

Museus-Cemitério:


A construção de um museu corresponde precisamente a esta lógica de habitar o presente com vocação de passado. Há uma ligação entre o coleccionar e o guardar com uma pulsão de morte, estando conservação e a posse no ocupar desse buraco negro do desejo que nunca poderá ser satisfeito.

Há um outro artigo neste "O Estado do Mundo" muito interessante de Moira Simpson: "Um mundo de Museus: Novos Conceitos, Novos Modelos". Simpson fala da evolução do conceito de museu desde os tempos que eram obra de coleccionadores privados, até ao tempo em que se tornaram instituições sob a ègide da ciência e da arte, retirando no processo, bens culturais dos índios que usavam no dia-a-dia, na vivência das suas culturas. Alguns índios conseguiram recuperar bens que haviam perdido para os museus, dando-lhes um uso vivo que segundo Moira Simpson, alerta para a necessidade de um novo modelo de museu que faça reviver culturas ao invés de as enterrar definitivamente.

Isto fez-me lembar o que Gianni Vatimo diz no livro "Aventuras da Diferença" que li recentemente, sobre as relações entre a ciência e arte na perspectiva de Nietzsche e Heidegger, quando qualifica a ciência desta maneira:

"O "contar" e calcular da ciência não é um numerador, para ela, contar significa "contar com", isto é, poder estar segura de alguma coisa, de um número cada vez maior de coisas. A ciência responde ao apelo do princípio com um (...) perseguir e capturar. (...) Ela é animada pelo "espírito de vingança de que Zaratustra quer libertar o homem."

Acompanhando ainda Moira Simpson, esta fala-nos do testemunho de um índio aquando da inauguração de um museu: "Não devemos chamar-lhe museu, porque não somos um povo morto; chamemos-lhe a Casa do Tesouro Skeena".

Simpson diz que "Para alguns povos, essa "morte" pode ser metafórica e referir-se aos objectos que foram retirados da sua cultura de origem e colocados nos expositores ou nos amramzéns de um museu, onde se vêem desprovidos da vida social activa que lhes confere significado."

O povo indío americano era uma cultura nómada, eles não tinham casas fixas. Mudavam consoante os ditames dos ciclos da natureza, com os quais mantinham relação íntima. Se para os índios a ideia de uma casa fixa é estranha, a de um museu tanto mais estranho é.

Termino ainda com as palavras de Charles Eastman autor nativo-americano, que no livro "A Alma do Índio" caracteriza assim a estranheza dos indíos, povo nómada, perante a noção de igreja ou casa de culto

"Não havia quaisquer templos ou santuários entre nós, excepto os da natureza. Sendo um homem natural, o ìndio era intensamente poético. Ele julgaria sacrílego construir uma casa para Aquele que pode ser encontrado cara a cara nas misteriosas, sombrias naves da floresta primeva, ou no seio ensolarado das pradarias virgens, sobre vertiginosas agulhas e pináculos de rocha nua, e situado além da na abóbada adornada do céu nocturno. Aquele que se a Si mesmo de leves mantos de nuvens, aí na orla do mundo visível onde o nosso Bisavô Sol atiça a fogueira do seu acampamento nocturno, aquele que cavalga sobre o rigoroso vento do norte, ou exala para diante o Seu espírito sobre os ares aronáticos do Sul, cuja canoa-de-guerra se lança sobre majestosos rios e mares interiores - Ele não precisa de uma catedral mais pequena!"

Rosto e Paisagem II: Sloterdijk, eu a fazer de Stezaker e "O Estado do Mundo"

Andei a ler este livro que me emprestaram, a segunda edição de "O Estado do Mundo" publicada pela Gulbenkian. Tem 10 ensaístas, um poema e um portfolio de uma artista. Dos ensaios que se me revelaram com mais "Potência", destaco João Barrento com o texto "O Jardim Devastado e o Perfil da Esperança", um texto muito bem escrito, rico em referências bem escolhidas de autores como Agamben, Kafka, Wittgenstein e termina com Manuel Gusmão e Llansol.

Há também Peter Sloterdijk, autor que anda na moda de quem nunca tinho lido nada, apenas folheado, tendo já sentido o impacto dos títulos dos livros e capítulos que escolhe. Este texto chama-se "Os novos frutos da Ira: Pós-Comunismo, Neoliberalismo, Islamismo."













Primeiro diz que o comunismo está velho arcaico, reumático, coitadinho. Diz que a Igreja teve se adaptar ao capitalismo ficando "bonzinha", e como que relegou seu autoritarismo para o sector político. A herança católica do juízo final, segundo Sloterdijk, terá sido aproveitada no campo político pelo comunismo:

"Quando no ano de 1848, foi possível afirmar, em tom de certa auto complacência, que um espectro andava à solta pela Europa, intimidando e assustando todos os governos, de Paris a Moscovo, esta mudança era um testemunho da situação depois da "morte de Deus" com a qual também a função do Juízo Final - juntamente com vários outros departamentos da jurisdição divina - teve de ser transferida para o bem e para o mal, para instâncias terrenas."

"Aquilo que desde início tornou verdadeiramente espectral o comunismo ascendente e lhe conferiu a a força de atrair a si os reflexos paranóicos dos seus adversários, foi a sua capacidade, cedo reconhecida, de ameaçar de destruição o status quo vigente. (...) O negócio da vingança do Juízo Final, ou dito de forma mais comedida, do equilíbrio unversal do sofrimento, acabaria por escapar de novo das instâncias terrenas"


O que Sloterdijk diz é que o comunismo só funciona enquanto espectro de ameaça do Juízo Final. Mas depois diz também que o Islamismo está em forte expansão e é candidato a ao monopólio do negócio da vingança do juízo final, ao receber de herança do comunismo essa imagem do grande inimigo do eixo do bem mundial, de que a política ocidental tanto precisa.

No entanto o raciocínio inverso é mais interessante. Quais são os motivos que levam os jovens a aderir a organizaçõe terroristas islâmicas? Sloterdijk dá três motivos: os dois primeiros são uma visão simples radical do mundo dividido em bem e mal e uma visão do mundo baseada numa grande luta de grandeza teatral.

Isto são balelas como se sabe, e Sloterdijk também o sabe. O terceiro motivo e mais importante que ele dá é o de "um excesso ddesesperado de vitalidade de um gigantesco grupo de jovens desempregados, sem família própria e sem perspectivas sociais, entre os quinze o os vinte e nove anos (e um pouco mais).

O que Sloterdijk acaba de certo modo por deixar implícito é uma visão marxista da luta de classes que se ajusta perfeitamente àquilo que é o Islão. Por um lado, o Islão é a imagem do inimigo externo que a política e economia ocidental paranóicas tanto precisam. No capitalismo neo-liberal há sempre necessidade de exploradores e explorados. Por outro lado, o Islão é para os islâmicos a certeza de uma justiça divina perante o mal estar social e económico que vivem.

O que existe são dois Islãos devido a uma diferença de classes que é mais importante do que são as diferenças religiosos em termos políticos. E isto é a prova de que felizmente, é verdade o que Sloterdijk deixa entender mas não assume, de que o comunismo ainda existe como espectro efectivamente destruidor do status Quo tradicional: já não se trata de cristãos contra católicos, porque a diferença de classes está implantada nas religiões, havendo ricos capitalistas islâmicos e católicos, e pobres e explorados islâmicos e católicos.

domingo, 6 de julho de 2008

Teste Político

Encontrei um teste político bastante bom, o Political Compass, que combina a diferença esquerda/direita com a variante autoritarismo/libertanismo. Fiz o teste e não me surpreendeu muito. Os testes bons e fiáveis são os que dizem o óbvio.
Também é possível ver os resultados de alguns líderes mundiais. Gosto de me ver longe daquela corja do canto superior direito. Quem quiser que faça também o teste aqui.

sábado, 5 de julho de 2008

José Mário Branco - FMI

A filosofia portuguesa não existe. Os nossos filósofos são poetas, as nossas canções são a nossa metafísica. Um desses filósofos dá pelo nome de José Mário Branco. Soube entretanto, e não ne espanta, que aos 65 anos o cantor voltou à Universidade e teve uma média de 19,1 valores no 1º ano, no ano lectivo de 2005/06 no curso de Linguística da Universidade de Lisboa. No ano passado, o cantor foi o melhor aluno desta universidade.

Na sua música mais emblemática, FMI, de 25 minutos, editada em 1981, José Mário Branco encarna um Artaud que encena um complexo de Édipo português centrado na mãe (sim, os portugueses são matriarcais), fazendo desta música uma The End da Música Portuguesa. Ao mesmo tempo faz um retrato teatral, antropológico, sociológico, filosófico, biológico, escatológico, lógico e ilógico de Portugal e dos Portugueses, fazendo uso de palavrões com um rigor poético notável.

Lembro aqui uns trechos da letra da FMI que mantém totalmente sua relevância nos dias de hoje. Saquem a música e ouçam-na neste link. Recomendo também o download destes dois albums aqui: Ser Solidário e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades.

"Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? (...)

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho?

Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! (...)

A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?!

(...)

Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!

(...)

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta!
(...)

E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...)

Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois. Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.

Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto."

sábado, 28 de junho de 2008

Rosto e Paisagem: John Stezaker e Hermann Broch


John Stezaker: Pairs series «VIII» 2007

"Fechou um pouco os olhos e olhou através da fenda das pálpebras a paisagem do rosto escancarado. E eis que ele se confundia com o rosto da própria paisagem, a orla dos cabelos continuando-se pela ramaria amarelada da floresta (...). Fenómeno tranquilizador e apavorante ao mesmo tempo, quando o olhar anulava assim o divórcio dos objectos, fundia o distinto numa matéria bizarramente homogénea, onde as espécies eram indiscerníveis, sentíamo-nos como que alerta, impressionados por uma recordação, reenviados a determinada coisa, que, fora de toda a convenção, residia no mais recôndito da infância e esse problema sem resposta parecia-se fosso com o que fosse que se ergue da memória como uma advertência. (...)


John Stezaker: Pairs series «III» 2007

E no fluxo das formas, fluxo tão suave como o escoamento da água e do nevoeiro de um pluvioso crepúsculo de Primavera, afigurou-se-lhe que o desmoronar-se tão temido do rosto humano num nada de bossas e depressões devia ser o primeiro estádio a caminho de uma nova e mais luminosa unidade na consonância de uma brumosa beatitude, não já cópia do rosto terreno, mas promessa da similitude divina, gota de cristal que cai, cantando, da nuvem.
E se aquele sublime rosto se despojava de toda a beleza e de toda a familiaridade terrena e parecia, talvez, de princípio, estranho e medonho, mais medonho ainda do que o apagamento do rosto na paisagem, isso só queria dizer que haviam dado o primeiro passo; nada mais era, sem dúvida, que um pressentimento anunciador do pavor divino, mas também a certeza da vida divina em que o terreno se transforma (...).

Hermann Broch em "
Os Sonâmbulos" (1ª Parte: 1888 Pasenow ou o Romantismo)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Pornografia Gay, Trabalho e Alienação

Outro dia vi um documentário sobre o mundo da pornografia feito por um jornalista do Daily Show, não me lembro agora do nome dele. A determinada altura entrevista um actor que fazia todo o tipo de cenas, sexo com mulheres, homens, anal, oral, tudo e mais alguma coisa. Então perguntam-lhe se ele é Gay ao que ele responde firmemente que não! Insistindo, perguntam-lhe se não acha que o facto de fazer sexo com outros homens faz dele gay, ao que ele insiste dizendo que não: "Ah isto é só meu trabalho, na verdade eu não sou gay!"

Isto é o exemplo clássico e perfeito para demonstrar o carácter de alienação do trabalho no mundo moderno. O trabalho, o que a pessoa faz, é visto como algo de separado do sujeito. As pessoas não são engenheiros, pedreiros ou jornalistas. As pessoas têm empregos de engenheiros, pedreiros, jornalistas. Através da divisão entre vida pessoal e familiar, opera-se esta cisão, fazendo com que não haja plena identificação com aquilo que se faz.

Zizek lembra e bem, que na época medieval, quando a sociedade estava dividida por ordens sociais rígidas, nobreza, clero, povo, etc, se perguntássemos a um cavaleiro qual era a sua profissão, essa pergunta pareceria extremamente estúpida. Ele não responderia que tinha a profissão de cavaleiro mas sim "Eu sou um cavaleiro", todo orgulhoso e inchado, com a mão no peito.

Hoje em dia, os Sócrates deste mundo elogiam a "flexisegurança", que consiste em mudar de emprego como quem muda de cuecas, que é consistente com a ideia consumista de mudar sempre de televisão, de carro (ou de mulher), sempre que se encontra uma versão melhor. É neste sentido que Baudelaire inventou o termo "moderno" como a idade da "moda".

"Isto é só o meu trabalho" é a desculpa que as pessoas dão quando não querem admitir para si mesmas aquilo que realmente fazem. O trágico é haver imensos trabalhos imorais (convencer pessoas a comprar coisas que não precisam ou fazer sexo em frente da câmara para vender) que as pessoas fazem para ganhar dinheiro e tentam defender-se dessa imoralidade, operando uma cisão entre aquilo que fazem e aquilo que são.

Minha sugestão é implantar aqui um either/or kierkegaardiano: ou assumir o que se faz, (eu sou pior que todos os gays, sou gay apenas para ganhar dinheiro) ou então rejeitar fazê-lo como um Bartleby, com um "I would prefer not to!"

quinta-feira, 26 de junho de 2008

engenharia dos valores

deixei
os meus ideais
caírem ao chão.

partiram-se,
estão todos estragados.

levei os meus ideais
para ver se tinham arranjo e

O marxismo, por exemplo,
precisa de dois parafusos
e de uma hermenêutica nova

Mais,
o meu humanismo partiu-se em dois
e hoje em dia, esta peça
já não se fabrica

Ver-me-ei obrigado a produzir
novos ideais com as peças velhas,
a usar a lógica para juntar tudo

Ao contrário dos frigoríficos
Os ideiais não vêem com garantia,

é preciso continuar
a pôr os ideais à prova.
pois estes não servem para nada
se ficarem em casa.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Zizek, anedotas racistas, ou como fazer guerra segundo Deleuze e Guattari

Vi no Youtube um vídeo novo de uma palestra de Slavoj Zizek, "Politics between Fear and Terror". Começa por falar de cinema, a demonstrar filme por filme que Spielberg tem uma obsessão com a figura paterna e explica porque é que Mulder e Scully preferem andar à procura de extra-terrestres em vez de fazerem sexo. Depois, com Hegel e Marx pelo meio, fala-nos também de violência e racismo, de filmes catástrofe ultra-realistas e pretensamente anti-hollywood sobre o 11 de setembro.

Zizek refere também que o Exército de Israel usa como manual de treino o livro Mil Platôs de Gilles Deleuze e Félix Guattari para suas manobras e estratégias militares. Fala também de Borat e conta também imensas anedotas racistas sobre croatas, montenegrinos, etc., e explica porque é que as anedotas racistas são muito importantes na convivência e solidariedade entre os povos. Vejam vocês mesmos.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

The Organ - Grab That Gun

Tenho andado a ouvir este álbum de 2004 dos The Organ: Grab That Gun. É um rock com inspiração nos anos 80, instrumentalmente parecido com Echo & The Bunnymen e The Sound. Quanto á voz, eu diria que é uma Brian Molko a cantar como o Morrisey. Quem quiser que saque o álbum aqui do Album Base e vejam ainda aqui o vídeo da música Steven Smith para terem uma ideia.


A "Raça portuguesa", Futebol, Ter e Ser




Estranhos Dias. Com o país bloqueado por camiões, Portugal ganhou aos turcos e aos checos com golos de dois portugueses que falam com sotaque brasileiro. Entretanto o presidente elogia a raça portuguesa.

Muito se tem falado e discutido sobre a questão dos jogadores brasileiros a jogar por Portugal. Há quem diga que só deviam jogar jogadores 100% portugueses porque não precisamos de brasileiros, etc. Para já nunca entendi essa do 100% português, como se a nacionalidade fosse como a quantidade de laranja de um sumo natural.

Mas pensemos realmente, o que é ser português? O que é uma nacionalidade? Muitas outras selecções jogam também com "estrangeiros".

Se quisermos, a nacionalidade é, quanto mais não seja, uma questão jurídica. Pela lei, todos estes jogadores são tão nacionais como os outros. Na verdade o Deco ou o Pepe são tão portugueses como um pedreiro, engenheiro ou advogado que veio do Brasil para Portugal, e que passados uns anos obteve a nacionalidade portuguesa. Na verdade não existe qualquer diferença. Quem é contra isto tem que também ser contra a lei da nacionalidade.

Quem defende que as selecções deviam ser "purificadas" deve ter em atenção que existem de facto muitos brasileiros, angolanos, chineses e ucranianos a viver em Portugal. O mesmo acontece com outros países europeus como a Alemanha, Inglaterra, França etc. Não existem só estrangeiros no futebol.

O Futebol não vive separado da vida. Quem diz que o futebol é uma ilusão de massas que nos distraem do "Portugal Real", está equivocado. Isto porque o futebol, na medida em que está inserido na sociedade, é possível também nele vermos os problemas dessa mesma sociedade. A selecção portuguesa tem os seus melhores jogadores a actuar em clubes de topo em Inglaterra e Espanha. Porque não estão estes jogadores a actuar em Portugal? Trata-se de razões económicas.

As centenas de brasileiros que vêm todos os anos para a Europa tentar a sua sorte no mundo da bola, fazem-no por razões económicas. Os que chegam a ganhar muito, são muito poucos. Por parte dos clubes, ir buscar esses jogadores é do mesmo tipo de estratégia das multinacionais que constantemente procuram mão-de-obra mais barata. Do que se trata aqui é de luta de classes.

Quanto à indignação em relação ao facto de haver jogadores "estangeiros" nas selecções eu proponho uma indignação diferente. A indignação é a de que estes jogadores não tiveram oportunidade de jogar e viver do futebol no seu país de origem. Estes jogadores vêm para a Europa onde há capital e melhores condições e meios para ser melhor jogador e ganhar mais dinheiro para a sua família, é por isto que eles vêem para cá.

Perante isto, só nos resta como país decente, receber o melhor possível estes estrangeiros, dar-lhes as condições para darem o melhor que têm para dar ao nosso país.

A globalização tem um efeito inevitável nas nossas vidas e o futebol não é excepção. Quem quiser ser contra os estrangeiros a jogar na selecção deve ser coerente e alinhar junto no protesto contra a globalização.

Quem é adepto do bom futebol deve também defender os valores da solidariedade, da união entre os jogadores das respectivas equipas. O individualismo e a rivalidade dentro delas já se sabe que não augura nada de bom. O que é válido para o futebol também é válido para a vida.

Tenho andado a ler a obra "Ter e Ser" de Erich Fromm (que jogou na minha equipa de futebol filosófico a médio direito da equipa da psicanálise marxista).
Fromm junta de forma coerente os ensinamentos de Buda, Jesus e Marx para estabelecer um programa de mudança social, baseado na distinção entre ter e ser.

A noção de posse é extremamente problemática. É um conceito não só psicológico mas também económico, sendo igualmente importante nas duas acepções.

Assim, levando a noção de propriedade privada muito longe como se tem levado, levantam-se actualmente questões legais altamente problemáticas hoje em dia como a questão dos direitos de autor, das patentes e da propriedade intelectual.

Na vida é muito grande a diferença entre ter e ser. O capitalismo glorifica o modo ter, mas é sem dúvida melhor "ser". Isto pode parecer ao princípio um pouco abstracto e vago mas, quanto a isto, podemos pegar no exemplo do futebol que, mais uma vez, é um bom exemplo do que acontece na vida. Ter uma boa equipa, de facto, não vale nada contra Ser uma boa equipa.

Quem tem uma boa equipa, na verdade não tem nada, pois pode sempre perder esse estatuto no próximo jogo, se o perder. Quando uma equipa É uma boa equipa, só o pode ser jogando. Assim, ser, é um conceito que vive muito mais daquilo que acontece no imediato do que daquilo que já aconteceu ou pode vir a acontecer. A posse define-se mais como algo "que se pode perder".

Não é por acaso que ter a posse da bola não importa muito se não se conseguir fazer nada com ela. E também não é por acaso que se ouve de jogadores e treinadores falar sempre que é melhor pensar "jogo a jogo".

Há quem diga que a política não se devia se intrometer no futebol. O que eu defendo é o contrário: o futebol devia contagiar a política. As combinações entre Deco, Ronaldo, Nuno Gomes e Pepe fazem mais pela união dos povos do que o acordo ortográfico.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Every day I have the Blues, BB King e Rui Veloso,

Encontrei no Youtube este momento especial referente a 1990, no Casino Estoril, que juntou no palco o nosso ruizinho e BB King. O Rui Veloso bem se esforçou por estar à altura.


Entretanto, ando a ouvir este albúm de clássicos do BB King. O meu comentário é: Ihaaaaa uouuuuuuuu yeaaah. Eeeeeveriday I got da bluues.
Experimentem, façam download no Album Base. Yeah Baby.

Giorgio Agamben - Bartleby, Escrita da Potência

Li recentemente esta edição da Assírio e Alvim, Bartleby - Escrita da Potência, que contém um ensaio de Giorgio Agamben: "Bartleby, ou Da Contigência", seguido do próprio conto original Bartleby, da autoria de Herman Mellville.

Giorgio Agamben é um filósofo encantador que gosta sempre de tratar as suas ideias com referência a filósofos medievais e gregos, fazendo ligações inesperadas com o mundo de hoje.

Bartleby é um conto de contornos Kafkianos da autoria de Melville, editado pela primeira vez em 1853, e trata de um misterioso escriba de seu nome Bartleby. Trata-se de uma curiosa personagem que vem trabalhar para um escritório na feitura de cópias e que se recusa quer a verificar as cópias que faz, quer a fazer todo e qualquer serviço de escritório que não seja a cópia, repetindo a sua fórmula "I would prefer not to" com uma calma e frieza que deixa seu patrão exasperado. Posteriormente, o patrão descobre que Bartleby vive literalmente no escritório. Entretanto, Bartleby deixa de escrever, levando consigo o seu "I would prefer not to" até ao fim.

Giorgio Agamben começa por situar Bartleby numa constelação filosófica, começando com a comparação de Aristóteles de "noûs", o intelecto ou pensamento em potência, com uma tabuínha de escrever sobre o qual nada ainda está escrito.

Esta imagem da página em branco foi mais tarde usada por Locke, para definir a mente como sendo à partida, essa página em branco. Agamben refere que esta imagem tinha em si a possibilidade de um equívoco, o que terá contribuído para o seu sucesso: "A mente é, então, não uma coisa, mas um ser de pura potência e a imagem da tabuinha de escrever, sobre a qual nada ainda está escrito, serve precisamente para representar o modo de ser uma pura potência. Toda a potência de ser ou de fazer qualquer coisa é, de facto, para Aristóteles, sempre também potência de não ser ou de não fazer".

Refere ainda o fascínio de Deleuze pela fórmula de Bartleby "I prefer not to" que é definida como agramatical, daí o seu poder devastante: "a fórmula desune as palavras e as coisas, as palavras e as acções, mas também os actos linguísticos e as palavras: ela corta a linguagem de qualquer referência a si ou a outro" (Deleuze)

Agamben segue esta ideia de Deleuze, dizendo que esta fórmula "abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não, o preferível e o não preferido. Mas também, na perspectiva que aqui nos interessa, entre a potência de ser (ou de fazer) a potência de não ser (ou de não fazer)." (Agamben)

Agambem também se desdobra em considerações sobre a escrita como acto de criação, faz uma análise pormenorizada sobre os complexos fenómenos de causalidade envolvidos no acto da escrita, e do seu carácter de contigência, usando as mais diversas fontes como o Islão por exemplo. Agamben refere-se a Bartleby como experiência de verdade que é levada a cabo no sentido de levar a fundo a noção de potência no acto da escrita. Nesta "experiência de verdade" "quem se aventura, arrisca de facto, não tanto a verdade dos próprios enunciados quanto o próprio modo do seu existir e realiza, no âmbito da sua história subjectiva, uma mutação antropológica a seu modo tão decisiva quanto foi, para o primata, a libertação da mão na posição erecta, ou, para o réptil, a transformação dos membros anteriores que o mutou em pássaro". Giro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Brunhoso

Adicionei um novo link para a página da aldeia de Brunhoso, terra natal do "clã" Magalhães. É uma das melhores páginas de aldeia de Portugal, actualizada, com muita informação e imagens sobre a vida e história da aldeia. Está lá a homenagem que fiz no post anterior à ordenação do meu primo José Magalhães Cordeiro (agora já não lhe podemos chamar Zézinho, parece mal).