quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Testemunhas de Jeová, Comunismo e Jesus

No fim de uma noite animada do último Sábado à noite, à hora de ir embora, comecei a produzir estranhos discursos políticos e religiosos de uma forma emocionada, quase cantada. Acaba por ser normal, nestas alturas. Há quem chore, há quem rie, há quem comece aos murros e pontapés, a mim dá-me para isto.

Desta vez, quem estava comigo não estava a achar muita piada. Andava eu a dizer entre outras coisas, que havia uma passagem do novo testamento que mostrava o lado mais marxista de Jesus, que é quando, ao contrário da imagem normal do homem sempre calmo e misericordioso, Jesus enraivecido expulsa os mercadores do templo. Ninguém me ligou nenhuma e isto ficou por ali.

Hoje, vieram a minha casa umas senhoras, testemunhas de Jeová e estive então a conversar com elas. Sempre gostei muito de falar com testemunhas de Jeová. Se, quando era adolescente o fazia por motivos muito basicamente anti-clericais, hoje em dia gosto de falar com eles pelo que eles têm de parecido comigo.

Começaram a falar do estado actual do mundo, onde todos são interesseiros, egoístas, manipuladores, mentirosos, mesquinhos e gananciosos, onde tudo se compra e vende desmesuradamente. Diziam que isto correspondia ao que na bíblia se chama de "últimos dias", fase que antecede o "reino de cristo".

Na minha visão marxista das coisas, isto soa-me bem: substituímos apenas "últimos dias" por "capitalismo" e "reino de cristo" por "comunismo".
Disse-lhes que me revia no que me estavam a dizer, que tinha uma religião que até era parecida, e que se chamava "comunismo".

Fiquei surpreendido por ver as senhoras concordarem comigo, e até acrescentarem que Jesus era "comunista". Tentaram fazer outras pontes. Diziam que a Igreja Católica era um negócio ostensivo e falaram nas cestinhas que passam na missa. Com eles, o dinheiro é recolhido de uma forma mais discreta, por intermédio de uma caixa de donativos, dando as pessoas dinheiro por vontade e não por ostentação.

Eu disse que no meu partido, as pessoas não recebem dinheiro por colar cartazes, ao contrário de outros partidos. Concluímos então, eu e as senhoras, que o verdadeiro conhecimento, aquilo em que acreditamos, não devia nunca ser vendido, mas sim dado e partilhado. Então lembrei-me e falei-lhes dessa passagem da bíblia em que Jesus fica zangado, e nem me deixaram acabar exclamando as duas em uníssono: "a parábola dos mercadores do templo!". Rapidamente elas citaram a bíblia direitinho:

"Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes." (Jo 2:15 a 16) (...) Minha casa é uma casa de oração , mas vós fizestes dela um covil de ladrões! (Mt 21:13)

Sim, também o planeta Terra é um lugar maravilhoso para morar, mas o capitalismo fez dela um covil de ladrões. Que venha o "Julgamento Final" ou "Revolução", chamem-lhe o que quiserem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Rock'n'Roll, Punk e The Cramps: Tese, Antítese e Síntese

O Hegel dizia que a história se movia por um processo dialéctico em que primeiro havia a tese, depois em resposta a antítese, e esta oposição seria resolvida por uma síntese dos dois anteriores. Esta síntese tornar-se-ia a tese seguinte à qual se seguiria uma antítese, e etc.. até ao infinito.

Também na história da música é perfeitamente viável vê-la de um ponto vista dialéctico hegeliano.
Aparentemente o punk do pessoal porco, de cabedal e crista na cabeça, surgiu como algo que não seria assimilável pelo antigo rock'and'roll das bandas vestidas de fatinho branco e gravata (atenção que me refiro a rock'n'roll e não rock no seu sentido mais vasto).
Perante a tese do rock'n'roll o punk seria uma oposição, uma antítese.

Se se pode falar numa síntese entre o rock'n'roll e o punk, temos que falar dos The Cramps. Com os seus acordes e sonaridades blues e rockabilly levados à distorção e a uma rudeza mais própria do Punk, usando de um imaginário Halloween que se revela totalmente adequado em termos filosóficos digamos assim, os Cramps são essa síntese perfeita entre punk e rock'n'roll.

Vejam aqui os rapazes em acção em com a música Goo Goo Muck:

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Objectividade e Obscenidade: Baudrillard e Zizek

"Quando as coisas se tornam mais reais, e dadas e realizadas de forma imediata, é nesse curto-circuito que se faz com que essas coisas se aproximem cada vez mais, e estamos assim no domínio da obscenidade. (...)

Num mundo destes não existe uma comunicação, mas antes uma contaminação de tipo viral, porque tudo se passa de um para outro e de forma imediata. A palavra promiscuidade afirma a mesma coisa: existe imediatamente, sem distanciamento e sem encanto. E até sem verdadeiro prazer. (...)

Existem alguns excessos na obscenidade: apresentar o corpo nu pode ser já brutalmente obsceno, apresentá-lo descarnado, magro ou esquelético é-o ainda mais. De facto podemos observar hoje que toda a problemática crítica dos media se desenrola em redor desse limiar de tolerância para o excesso de obscenidade. Claro, tudo deve ser dito, tudo vai ser dito...
Mas a verdade objectiva é obscena. E mesmo quando nos descrevem todos os pormenores das actividades sexuais de Bill Clinton, a obscenidade é inteiramente irrisória e até nos perguntamos se não existe aí uma dimensão irónica. (...) A obscenidade , ou seja, a visibilidade total das coisas, é a tal ponto insuportável que se torna necessário aplicar uma estratégia da ironia para sobreviver"

Jean Baudrillard em "Palavras de Ordem"



"A sexualidade é a única pulsão travada em si própria, prevertida: ao mesmo tempo, insuficiente e excessiva, com o excesso como forma de aparecimento da falta. Por um lado, a sexualidade é caracterizada pela capacidade universal de proporcionar o sentido metafórico ou subentendido de qualquer actividade e objecto: qualquer elemento, incluindo a reflexão mais abstracta, pode ser experimentado como se «aludisse a isso». (...)

Este excedente universal - esta capacidade por parte da sexualidade de invadir qualquer domínio da experiência humana, de tal maneira que tudo, do alimento à excreção, da agressão ao nosso semelhante (ou agressão do nosso semelhante) ao exercício do poder, pode assumir uma conotação sexual - não é sinal da sua preponderância. É antes sinal de uma certa deficiência em termos estruturais: a sexualidade impele para fora de si própria e invade os sectores adjacentes, precisamente pelo motivo de não poder encontrar satisfação em si própria, pois nunca alcança o seu objectivo"

Slavoj Zizek em "David Lynch, ou a Depressão Feminina"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Segundo o Piso

Este Sábado vai abrir um novo espaço para exposições em Santo Tirso denominado "Segundo o Piso", junto ao Parque D. Maria II. A inaguração é já este sábado e contará com a presença dos trabalhos dos seguintes artistas: Daniel Da Costa, Hélder Almeida, Hélder Castro, Joana da Conceição e Micaela Amaral.



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Música, Kierkegaard e os Estádios Eróticos Imediatos de Siddhartha Gautama e Nick Drake

O sentido da audição é o primeiro a desenvolver-se no ser humano, e é o mais fino no desenvolvimento das noções de sequência e de tempo. Sem estas noções está comprometida a capacidade de entender significados, comunicação, mensagem etc. Depois, toda a linguagem e comunicação não pode existir sem afectos, amor e relações de empatia. E a música é o melhor meio de exprimir o espírito da sensualidade.

Kierkegaard tem sobre esta questão uma reflexão interessante em "Estádios Eróticos Imediatos" que desenvolve na forma de comentário à ópera Don Giovanni de Mozart:

"The most abstract ideia conceivable is the spirit of sensuality. But in what medium can it be represented? Only in music.
It cannot be represented in sculpturem for in itself it is a kind of quality of inwardness. It cannot be painted, for it cannot be grasped in fixed contours, it is a energy, a storm, impatience, passion, and so on, in all their lyrical quality, existing not in a single moment but in a succession of moments, (...) it is not an epic, for it has not reached the level of words; it moves constantly in an immediacy. Nor can it be represented, therefore, in poetry. The only medium that can represent it is music. For music has an element of time in it yet it does not lapse in time"

Também Siddartha Gautama obteve a sua iluminação quando ouviu o som do rio a correr e nunca mais deixou de estar sintonizado com aquele rio. As pessoas iam ter com ele, aquele que mais tarde seria conhecido como Buda, e ele levava-os de uma margem para a outra, muitas das vezes sem saberem que estavam perante quem procuravam.

Nick Drake, esse cantor que morreu jovem tem uma música deliciosa chamada "The River Man":

Gonna see the river man
Gonna tell him all I can
'bout the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don't suppose
It's meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go


Este texto é parte de um comentário meu a uma bela reflexão no Blog "O Homem que Sabia Demasiado" que questiona se a música precisa de significado. Vale a pena espreitar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O cão e as dobras de Deleuze

Em jeito de "comentário ao comentário" feito no post anterior, que refere uma tendência em muitos dos posts que por aí pululam neste blog "em derrubar barreiras, encurtar distancias e estabelecer a comunicação entre elementos aparentemente díspares":

Diria que o que se trata aqui são de linhas de fuga, fluxos do desejo com seus cortes e recortes, um contínuo processo de desterritorialização e de reterritorialização. Em termos territoriais, a minha inspiração é Gilles Deleuze que, junto com Félix Guattari, penetraram em mim como um vírus sendo essa característica viajante do pensamento de que o comentador anónimo fala, um dos síntomas precisamente desse vírus.

Gilles Deleuze é o filósofo dos movimentos, das formas, dos terrítórios, não gosta de sítios fechados, poder-se-á até dizer que sofria de uma claustrofobia filosófica. Dizia que queria sair da Filosofia através da Filosofia.

Um documento valiosíssimo disponível a todos os mortais que Deleuze nos deixou foi o "Abecedário de Deleuze" que consiste numa entrevista com Claire Parnet gravada em vídeo, documento que, segundo a claúsula da entrevista, apenas podia ser revelado depois da sua morte

Começa com a palavra Animal, onde ele diz que (ao contrário do Iggy Pop ou do Padre António Vieira), nunca se identificou muito com o cão por ser um animal doméstico que ladra. O latido, para Deleuze é um momento de mau gosto na ordem estética da natureza. Deleuze nunca conheceu o famoso Mambo, canino com quem coabito e que tem a notável e louvável caracterísitca de nunca ladrar.

Vejam aqui um excerto da entrevista que mostra um pouco o alcance da filosofia de Deleuze que consegue ser uma inspiração para pintores, médicos, mecânicos, dobradores de papéis, surfistas, exército israelita, mosquitos, carrapatos, prostitutas, homens de negócios e os mais diversos modos de ser.



Gilles Deleuze: Quero sair da filosofia pela filosofia. É isso o que me interessa.

Claire Parnet: O que isso quer dizer?

Gilles Deleuze: Dou um exemplo, como isso é para depois de minha morte, posso deixar de ser modesto. Acabo de escrever um livro sobre um grande filósofo chamado Leibniz e insistindo em uma noção que me parece importante nele, mas que é muito importante para mim: a noção de dobra. Considero que fiz um livro de filosofia sobre essa noção, um pouco estranha, de dobra. O que me acontece depois? Recebo cartas, como sempre, há cartas insignificantes, mesmo se são encantadoras e calorosas, e me toquem muito. São cartas que me dizem, muito bem... são cartas de intelectuais que gostaram ou não do livro. E então recebo duas cartas, dois tipos de cartas, em que esfrego os olhos... Há cartas de pessoas que dizem: "Mas sua história de dobra, somos nós". E percebo que são pessoas que fazem parte de uma associação que agrupa 400 pessoas na França, hoje, e deve crescer. É a associação de dobradores de papéis, eles têm uma revista, me enviam a revista e dizem: "Concordamos totalmente, o que você faz é o que fazemos". Digo para mim: isso eu ganhei. Recebo outra carta, e falam da mesma maneira e dizem: "A dobra somos nós". É uma maravilha.

Primeiro isso lembra Platão, porque em Platão... os filósofos, para mim, não são pessoas abstratas, são grandes escritores, grandes autores bem concretos. Em Platão há uma história que me enche de alegria, e está ligada ao início da filosofia, voltaremos a isso depois. O tema de Platão é: ele dá uma definição, por exemplo, o que é o político? O político é o pastor dos homens, e sobre isso há muita gente que diz: o político somos nós, por exemplo, o pastor chega e diz: visto os homens, logo sou o verdadeiro pastor dos homens. O açougueiro diz: alimento os homens, sou o pastor dos homens. Os rivais chegam... Tive esta experiência, os dobradores de papéis chegam e dizem: a dobra somos nós. Os outros, que me enviaram o mesmo tipo de carta, é incrível, foram os surfistas. À primeira vista não há relação alguma com os dobradores de papéis. Os surfistas dizem: "concordamos totalmente, pois, o que fazemos? Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza. Para nós, a natureza é um conjunto de dobras móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, habitar a dobra da onda é a nossa tarefa". Habitar a dobra da onda e, com efeito, eles falam disso de modo admirável. Eles pensam, não se contentam em surfar, eles pensam o que fazem. Voltaremos a falar disto se chegarmos ao esporte [sport], ao S...

Claire Parnet: Está longe. Partimos do encontro, são encontros, os dobradores de papéis?

Gilles Deleuze: São encontros. Quando digo sair da filosofia pela filosofia... Sempre me aconteceu isso, são encontros, encontrei os dobradores de papéis, não preciso vê-los, aliás, ficaríamos decepcionados, provavelmente, eu ficaria, e eles ainda mais. Não preciso vê-los, mas tive um encontro com o surfe, com os dobradores de papéis, literalmente, saí da filosofia pela filosofia, é isso um encontro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os Cães de Iggy Pop e Padre António Vieira

No ensaio Dois Cães, Alcir Pécora diz sobre o cão que:
"na hora da identidade em perigo, o animal latiu no sermão de Vieira e também na voz de Iggy Pop" (...)

"O primeiro (Iggy Pop) berrava que queria ser o meu cachorro, a qualquer preço; o segundo protestava reiteradamente ao Superior dos Jesuítas na Província de Portugal, quando se encontrava na iminência de ser expulso da ordem por conta das várias intrigas políticas em que se envolvera, que preferia ser um cão à porta da Companhia de Jesus do que receber a máxima investidura eclesiástica em Portugal. De fato, El-Rei lhe oferecera qualquer posto, como compensação do afastamento da ordem." (...)

"Ambos, em algum momento de sua vida, julgaram que um cão era a melhor figura de sua identidade em perigo, e então acharam que deveriam repeti-lo para mim, sincronizando tempos, lugares e línguas distantes. Fizeram isso uma vez, outra vez, e depois por dias e anos a fio."

Vejam também o rockeiro de 61 anos aqui a berrar I Wanna be Your Dog, numa excelente actuação em Bruxelas perante um público extasiado e animado como se estivesse a ouvir um sermão do Padre António Vieira:


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Zen, Alan Watts e Sérgio Godinho

"O nosso problema está em que o poder do pensamento nos dá a capacidade de construir símbolos de coisas, estranhos às próprias coisas, incluindo a de criar um símbolo, uma ideia de nós próprios, estranha a nós próprios. Porque a ideia é muito mais apreensível do que a realidade, e o símbolo muito mais estável que o facto, aprendemos a identificar-nos com a ideia que fizemos de nós próprios. (...)

Daí a intuição subjectiva de um "ego" que "tem" uma mente, de um sujeito interiormente isolado a quem sucedem experiências não desejadas. Com a característica enfâse que pôe no concreto, o Zen indica que o nosso precioso "ego" é apenas uma ideia, bastante útil e legítima se for tomada pelo que é, mas desastrosa se identificada com a nossa verdadeira natureza. Dir-se-ia, pois, que o libertar-se da distinção subjectiva entre "eu" e "minha experiência", é descobrir a verdadeira relação entre mim e o mundo "exterior" (...)

Alan Watts em "O Budismo Zen"

"Pode alguém ser quem não é,
Pode alguém ser quem não é
Pode alguém ser quem não é?"

Ségio Godinho

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Globalização do Orgasmo Obsessivo, Amor Cortês e Sado-Masoquismo

Outro dia encontrei este site do movimento Global Orgasm. A ideia é combinar um dia do ano para toda a gente no mundo ter um orgasmo simultâneo. Com isso esperam libertar "energias positivas" no mundo para que haja menos guerra e menos armas de destruição em massa.

Dizem que podemos fazê-lo sozinhos através da masturbação ou acompanhados. É possível ver um vídeo onde o homem do casal mentor do movimento alerta para a necessidade de, no momento do orgasmo, visualizarmos na nossa mente imagens de paz no mundo. Como tal, o homem nota que é preciso praticar muito para que isto seja feito da maneira certa, deixando ainda o alerta para que não se façam mais bebés no dia do orgasmo por causa dos problemas de excesso de população mundial.

Há ainda o apelo a saberes "científicos" onde mostram um aparelho que nota alterações em cálculos randómicos electrónicos para o dia do orgasmo. O aparelho produz um gráfico que vai para cima e para baixo, o que hoje serve muito bem para dar ares de prova e credibilidade.

Este mundo está doido. Antes de mais nada convém salientar o utilitarismo e ritualismo que aqui é imputado à relação sexual. O mentor do projecto ao alertar para a necessidade de praticar o orgasmo para sair bem no momento certo, diz muito de como a relação sexual para este casal se tornou uma operação altamente programada e mecanizada.

A relação sexual, efectuada desta maneira, é um sintoma de que esta se processa a um nível muito mental, egóica e pouco espontânea. O que há é um encontro previamente estabelecido onde cada um já sabe previamente o que o outro irá fazer, anulando-se assim qualquer perigo de uma interacção espontânea, real, e imediata entre o casal. Toda a emocionalidade é aqui posta de lado.

Ou melhor, toda não. Quando a relação sexual atinge estes trâmites, há uma emoção particular que lhe assiste que é a de um grande sentimento de culpa. Para neuróticos obsessivos como é o caso, basta uma imagem mental menos bonita lhes vir à cabeça que imediatamente se sentem culpados e sujos. Ou essa imagem da cabeça corresponde aos seus ideais, ou se não corresponde, há uma sensação de sujidade que é preciso limpar, uma sensação de culpa que é preciso expiar.

Um neurótico obsessivo por exemplo, se se depara com uma imagem mental de homossexualidade, fica extremamente preocupado por pensar que pode ser honossexual, como se as imagens e pensamentos fossem já um acto.

Daí a pretensão de acharem que podem mudar o mundo com imagens mentais de paz no momento do orgasmo, como se a imagem ou o pensamento fossem um acto.

As imagens, pensamentos e restantes eventos mentais do fluxo da consciência humana não devem ser confundidas com o acto, a acção.

A mente não é acção, mas sim "pura potência", no sentido de Giorgio Agamben: Toda a potência de fazer é também potência de não fazer. Sendo o acto imutável e irreparável, no acto não cabe a categoria de possibilidade que corresponde ao pensamento.
O neurótico obsessivo portanto, ao tomar o pensamento como acto, nega ao pensamento toda o seu carácter de possibilidade, sendo que é o mundo do possível e do impossível que constitui a mente como pura potência. Assim, a omnipotência dos pensamentos de um neurótico obsessivo traduz-se numa impotência efectiva do pensamento, na medida em que lhe retira toda a imaginação, ou seja, a possibilidade de pensar o possível e o impossível.

Ainda sobre o casal do orgasmo globalizado, acrescentaria ainda que seu relacionamento sexual rege-se pelas normas do sadismo e do masoquismo. Aliás, a mulher quando fala no vídeo do site, realça precisamente essa posição superior da mulher na concepção que apresentam da humanidade. Trata-se aqui do esquema típico do amor cortês em que a mulher é quem manda (sádica) no homem que corteja a mulher de formas várias (masoquista que encena a sua própria servidão).

É a isto a que Zizek se refere quando diz que o sadismo e masoquismo que surgem no séc. XIX, tão em voga nos dias de hoje, é um sucedâneo do antigo amor cortês da época medieval, na medida em que neste se encontra subentendida a antiga relação feudal entre o senhor e o vassalo, onde os dois elementos da relação nunca estão numa relação de igualdade, daí a importância do contrato, que se mantém até aos dias de hoje, como fixação das regras que definem o relacionamento entre duas pessoas.

Neste casal "moderno", há também este contrato social, na medida em que, se virmos no site, há a possibilidade de dar donativos, comprar t-shirts e tapetes de rato do orgasmo global, etc. A união que vemos neste casal assume um caractér económico inegável, o que mais uma vez se insere nessa excessiva regulamentação e ritualização da relação.

Este elemento económico define e complementa toda a natureza da relação sadomasoquista obsessiva entre os dois. Este casal nunca produzirá bebés, mas sim dinheiro e mais dinheiro. Aliás, a possibilidade de um bebé é assustadora para este casal (poria o contrato em perigo), basta ver por observações como esta feitas no site:
"Every cute baby is another consumer. Let’s make children even more valued by making fewer of them, before the pressures of overpopulation drive our children to kill each other. "

sábado, 26 de julho de 2008

The Format - Dog Problems

Vejam este videoclip delicioso dos The Format:

sábado, 19 de julho de 2008

DJs Estaline + KGB: A Ditadura do Rock'n'Roll




















Há já algum tempo (um ano?) que o meu alter-ego DJ Estaline se encontra fora de actividade.
Mas é já este Sábado o regresso do socialismo ao Bar Carpe Diem, em Santo Tirso, onde irei fazer minha propaganda musical com jazz, blues, rock dos anos 50', 60, 70'. 80', 90', 2000... rock moderno, rock antigo, música mexicana, Zeca Afonso, Tchaikovsky e Pauliteiros de Miranda.

Mas desta vez, Estaline não estará sozinho. Um agente secreto do KGB cuja identidade não vou revelar, também estará presente para dar o seu contributo musical para esta reunião da classe operária do rock. Apareçam.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Estado do Mundo: Civilização do Trauma, Museus-Cemitério e a Igreja do Índio

"E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, «cadáveres adiados que procriam». Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora nós precisamos do futuro como do ar que respiramos."

Manuel Gusmão na revista ACTO #8, O Futuro

No post anterior destaquei dois artigos do livro "o estado do mundo", o de Sloterdijk e o do João Barrento. Falta dar o devido destaque a outros dois ensaios. Um é o do Santiago Kovadloff "A Construção do Presente, Feições Filosóficas do Conceito de Trauma". Com uma linguagem muita clara, límpida e ao mesmo tempo, profunda, Kovadloff tem passagens como estas:






"Bem poderia acontecer, e de facto acontece, que o homem aspire a congelar numa interpretação definitiva, de intenção exaustiva e inamovível, o fluxo do tempo, a dinâmica da actualidade
. Quando isto acontece, o homem não provém já do porvir, e sim do passado. Sempre, é claro, que o passado for entendido nos termos que aqui proponho: o fixo, o calcário, (...) e nós todos sabemos que o outro nome eminente para designar o imodificável é o de dogma. Dogmatizar o presente é o mesmo que habitá-lo com vocação de passado. A razão dogmática pode ser entendida com expressão da lógica traumática. Nela o tempo aparece cristalizado e, nessa medida, o discurso subjectivo não opera"

Museus-Cemitério:


A construção de um museu corresponde precisamente a esta lógica de habitar o presente com vocação de passado. Há uma ligação entre o coleccionar e o guardar com uma pulsão de morte, estando conservação e a posse no ocupar desse buraco negro do desejo que nunca poderá ser satisfeito.

Há um outro artigo neste "O Estado do Mundo" muito interessante de Moira Simpson: "Um mundo de Museus: Novos Conceitos, Novos Modelos". Simpson fala da evolução do conceito de museu desde os tempos que eram obra de coleccionadores privados, até ao tempo em que se tornaram instituições sob a ègide da ciência e da arte, retirando no processo, bens culturais dos índios que usavam no dia-a-dia, na vivência das suas culturas. Alguns índios conseguiram recuperar bens que haviam perdido para os museus, dando-lhes um uso vivo que segundo Moira Simpson, alerta para a necessidade de um novo modelo de museu que faça reviver culturas ao invés de as enterrar definitivamente.

Isto fez-me lembar o que Gianni Vatimo diz no livro "Aventuras da Diferença" que li recentemente, sobre as relações entre a ciência e arte na perspectiva de Nietzsche e Heidegger, quando qualifica a ciência desta maneira:

"O "contar" e calcular da ciência não é um numerador, para ela, contar significa "contar com", isto é, poder estar segura de alguma coisa, de um número cada vez maior de coisas. A ciência responde ao apelo do princípio com um (...) perseguir e capturar. (...) Ela é animada pelo "espírito de vingança de que Zaratustra quer libertar o homem."

Acompanhando ainda Moira Simpson, esta fala-nos do testemunho de um índio aquando da inauguração de um museu: "Não devemos chamar-lhe museu, porque não somos um povo morto; chamemos-lhe a Casa do Tesouro Skeena".

Simpson diz que "Para alguns povos, essa "morte" pode ser metafórica e referir-se aos objectos que foram retirados da sua cultura de origem e colocados nos expositores ou nos amramzéns de um museu, onde se vêem desprovidos da vida social activa que lhes confere significado."

O povo indío americano era uma cultura nómada, eles não tinham casas fixas. Mudavam consoante os ditames dos ciclos da natureza, com os quais mantinham relação íntima. Se para os índios a ideia de uma casa fixa é estranha, a de um museu tanto mais estranho é.

Termino ainda com as palavras de Charles Eastman autor nativo-americano, que no livro "A Alma do Índio" caracteriza assim a estranheza dos indíos, povo nómada, perante a noção de igreja ou casa de culto

"Não havia quaisquer templos ou santuários entre nós, excepto os da natureza. Sendo um homem natural, o ìndio era intensamente poético. Ele julgaria sacrílego construir uma casa para Aquele que pode ser encontrado cara a cara nas misteriosas, sombrias naves da floresta primeva, ou no seio ensolarado das pradarias virgens, sobre vertiginosas agulhas e pináculos de rocha nua, e situado além da na abóbada adornada do céu nocturno. Aquele que se a Si mesmo de leves mantos de nuvens, aí na orla do mundo visível onde o nosso Bisavô Sol atiça a fogueira do seu acampamento nocturno, aquele que cavalga sobre o rigoroso vento do norte, ou exala para diante o Seu espírito sobre os ares aronáticos do Sul, cuja canoa-de-guerra se lança sobre majestosos rios e mares interiores - Ele não precisa de uma catedral mais pequena!"

Rosto e Paisagem II: Sloterdijk, eu a fazer de Stezaker e "O Estado do Mundo"

Andei a ler este livro que me emprestaram, a segunda edição de "O Estado do Mundo" publicada pela Gulbenkian. Tem 10 ensaístas, um poema e um portfolio de uma artista. Dos ensaios que se me revelaram com mais "Potência", destaco João Barrento com o texto "O Jardim Devastado e o Perfil da Esperança", um texto muito bem escrito, rico em referências bem escolhidas de autores como Agamben, Kafka, Wittgenstein e termina com Manuel Gusmão e Llansol.

Há também Peter Sloterdijk, autor que anda na moda de quem nunca tinho lido nada, apenas folheado, tendo já sentido o impacto dos títulos dos livros e capítulos que escolhe. Este texto chama-se "Os novos frutos da Ira: Pós-Comunismo, Neoliberalismo, Islamismo."













Primeiro diz que o comunismo está velho arcaico, reumático, coitadinho. Diz que a Igreja teve se adaptar ao capitalismo ficando "bonzinha", e como que relegou seu autoritarismo para o sector político. A herança católica do juízo final, segundo Sloterdijk, terá sido aproveitada no campo político pelo comunismo:

"Quando no ano de 1848, foi possível afirmar, em tom de certa auto complacência, que um espectro andava à solta pela Europa, intimidando e assustando todos os governos, de Paris a Moscovo, esta mudança era um testemunho da situação depois da "morte de Deus" com a qual também a função do Juízo Final - juntamente com vários outros departamentos da jurisdição divina - teve de ser transferida para o bem e para o mal, para instâncias terrenas."

"Aquilo que desde início tornou verdadeiramente espectral o comunismo ascendente e lhe conferiu a a força de atrair a si os reflexos paranóicos dos seus adversários, foi a sua capacidade, cedo reconhecida, de ameaçar de destruição o status quo vigente. (...) O negócio da vingança do Juízo Final, ou dito de forma mais comedida, do equilíbrio unversal do sofrimento, acabaria por escapar de novo das instâncias terrenas"


O que Sloterdijk diz é que o comunismo só funciona enquanto espectro de ameaça do Juízo Final. Mas depois diz também que o Islamismo está em forte expansão e é candidato a ao monopólio do negócio da vingança do juízo final, ao receber de herança do comunismo essa imagem do grande inimigo do eixo do bem mundial, de que a política ocidental tanto precisa.

No entanto o raciocínio inverso é mais interessante. Quais são os motivos que levam os jovens a aderir a organizaçõe terroristas islâmicas? Sloterdijk dá três motivos: os dois primeiros são uma visão simples radical do mundo dividido em bem e mal e uma visão do mundo baseada numa grande luta de grandeza teatral.

Isto são balelas como se sabe, e Sloterdijk também o sabe. O terceiro motivo e mais importante que ele dá é o de "um excesso ddesesperado de vitalidade de um gigantesco grupo de jovens desempregados, sem família própria e sem perspectivas sociais, entre os quinze o os vinte e nove anos (e um pouco mais).

O que Sloterdijk acaba de certo modo por deixar implícito é uma visão marxista da luta de classes que se ajusta perfeitamente àquilo que é o Islão. Por um lado, o Islão é a imagem do inimigo externo que a política e economia ocidental paranóicas tanto precisam. No capitalismo neo-liberal há sempre necessidade de exploradores e explorados. Por outro lado, o Islão é para os islâmicos a certeza de uma justiça divina perante o mal estar social e económico que vivem.

O que existe são dois Islãos devido a uma diferença de classes que é mais importante do que são as diferenças religiosos em termos políticos. E isto é a prova de que felizmente, é verdade o que Sloterdijk deixa entender mas não assume, de que o comunismo ainda existe como espectro efectivamente destruidor do status Quo tradicional: já não se trata de cristãos contra católicos, porque a diferença de classes está implantada nas religiões, havendo ricos capitalistas islâmicos e católicos, e pobres e explorados islâmicos e católicos.

domingo, 6 de julho de 2008

Teste Político

Encontrei um teste político bastante bom, o Political Compass, que combina a diferença esquerda/direita com a variante autoritarismo/libertanismo. Fiz o teste e não me surpreendeu muito. Os testes bons e fiáveis são os que dizem o óbvio.
Também é possível ver os resultados de alguns líderes mundiais. Gosto de me ver longe daquela corja do canto superior direito. Quem quiser que faça também o teste aqui.

sábado, 5 de julho de 2008

José Mário Branco - FMI

A filosofia portuguesa não existe. Os nossos filósofos são poetas, as nossas canções são a nossa metafísica. Um desses filósofos dá pelo nome de José Mário Branco. Soube entretanto, e não ne espanta, que aos 65 anos o cantor voltou à Universidade e teve uma média de 19,1 valores no 1º ano, no ano lectivo de 2005/06 no curso de Linguística da Universidade de Lisboa. No ano passado, o cantor foi o melhor aluno desta universidade.

Na sua música mais emblemática, FMI, de 25 minutos, editada em 1981, José Mário Branco encarna um Artaud que encena um complexo de Édipo português centrado na mãe (sim, os portugueses são matriarcais), fazendo desta música uma The End da Música Portuguesa. Ao mesmo tempo faz um retrato teatral, antropológico, sociológico, filosófico, biológico, escatológico, lógico e ilógico de Portugal e dos Portugueses, fazendo uso de palavrões com um rigor poético notável.

Lembro aqui uns trechos da letra da FMI que mantém totalmente sua relevância nos dias de hoje. Saquem a música e ouçam-na neste link. Recomendo também o download destes dois albums aqui: Ser Solidário e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades.

"Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? (...)

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho?

Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! (...)

A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?!

(...)

Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!

(...)

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta!
(...)

E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...)

Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois. Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.

Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto."

sábado, 28 de junho de 2008

Rosto e Paisagem: John Stezaker e Hermann Broch


John Stezaker: Pairs series «VIII» 2007

"Fechou um pouco os olhos e olhou através da fenda das pálpebras a paisagem do rosto escancarado. E eis que ele se confundia com o rosto da própria paisagem, a orla dos cabelos continuando-se pela ramaria amarelada da floresta (...). Fenómeno tranquilizador e apavorante ao mesmo tempo, quando o olhar anulava assim o divórcio dos objectos, fundia o distinto numa matéria bizarramente homogénea, onde as espécies eram indiscerníveis, sentíamo-nos como que alerta, impressionados por uma recordação, reenviados a determinada coisa, que, fora de toda a convenção, residia no mais recôndito da infância e esse problema sem resposta parecia-se fosso com o que fosse que se ergue da memória como uma advertência. (...)


John Stezaker: Pairs series «III» 2007

E no fluxo das formas, fluxo tão suave como o escoamento da água e do nevoeiro de um pluvioso crepúsculo de Primavera, afigurou-se-lhe que o desmoronar-se tão temido do rosto humano num nada de bossas e depressões devia ser o primeiro estádio a caminho de uma nova e mais luminosa unidade na consonância de uma brumosa beatitude, não já cópia do rosto terreno, mas promessa da similitude divina, gota de cristal que cai, cantando, da nuvem.
E se aquele sublime rosto se despojava de toda a beleza e de toda a familiaridade terrena e parecia, talvez, de princípio, estranho e medonho, mais medonho ainda do que o apagamento do rosto na paisagem, isso só queria dizer que haviam dado o primeiro passo; nada mais era, sem dúvida, que um pressentimento anunciador do pavor divino, mas também a certeza da vida divina em que o terreno se transforma (...).

Hermann Broch em "
Os Sonâmbulos" (1ª Parte: 1888 Pasenow ou o Romantismo)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Pornografia Gay, Trabalho e Alienação

Outro dia vi um documentário sobre o mundo da pornografia feito por um jornalista do Daily Show, não me lembro agora do nome dele. A determinada altura entrevista um actor que fazia todo o tipo de cenas, sexo com mulheres, homens, anal, oral, tudo e mais alguma coisa. Então perguntam-lhe se ele é Gay ao que ele responde firmemente que não! Insistindo, perguntam-lhe se não acha que o facto de fazer sexo com outros homens faz dele gay, ao que ele insiste dizendo que não: "Ah isto é só meu trabalho, na verdade eu não sou gay!"

Isto é o exemplo clássico e perfeito para demonstrar o carácter de alienação do trabalho no mundo moderno. O trabalho, o que a pessoa faz, é visto como algo de separado do sujeito. As pessoas não são engenheiros, pedreiros ou jornalistas. As pessoas têm empregos de engenheiros, pedreiros, jornalistas. Através da divisão entre vida pessoal e familiar, opera-se esta cisão, fazendo com que não haja plena identificação com aquilo que se faz.

Zizek lembra e bem, que na época medieval, quando a sociedade estava dividida por ordens sociais rígidas, nobreza, clero, povo, etc, se perguntássemos a um cavaleiro qual era a sua profissão, essa pergunta pareceria extremamente estúpida. Ele não responderia que tinha a profissão de cavaleiro mas sim "Eu sou um cavaleiro", todo orgulhoso e inchado, com a mão no peito.

Hoje em dia, os Sócrates deste mundo elogiam a "flexisegurança", que consiste em mudar de emprego como quem muda de cuecas, que é consistente com a ideia consumista de mudar sempre de televisão, de carro (ou de mulher), sempre que se encontra uma versão melhor. É neste sentido que Baudelaire inventou o termo "moderno" como a idade da "moda".

"Isto é só o meu trabalho" é a desculpa que as pessoas dão quando não querem admitir para si mesmas aquilo que realmente fazem. O trágico é haver imensos trabalhos imorais (convencer pessoas a comprar coisas que não precisam ou fazer sexo em frente da câmara para vender) que as pessoas fazem para ganhar dinheiro e tentam defender-se dessa imoralidade, operando uma cisão entre aquilo que fazem e aquilo que são.

Minha sugestão é implantar aqui um either/or kierkegaardiano: ou assumir o que se faz, (eu sou pior que todos os gays, sou gay apenas para ganhar dinheiro) ou então rejeitar fazê-lo como um Bartleby, com um "I would prefer not to!"

quinta-feira, 26 de junho de 2008

engenharia dos valores

deixei
os meus ideais
caírem ao chão.

partiram-se,
estão todos estragados.

levei os meus ideais
para ver se tinham arranjo e

O marxismo, por exemplo,
precisa de dois parafusos
e de uma hermenêutica nova

Mais,
o meu humanismo partiu-se em dois
e hoje em dia, esta peça
já não se fabrica

Ver-me-ei obrigado a produzir
novos ideais com as peças velhas,
a usar a lógica para juntar tudo

Ao contrário dos frigoríficos
Os ideiais não vêem com garantia,

é preciso continuar
a pôr os ideais à prova.
pois estes não servem para nada
se ficarem em casa.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Zizek, anedotas racistas, ou como fazer guerra segundo Deleuze e Guattari

Vi no Youtube um vídeo novo de uma palestra de Slavoj Zizek, "Politics between Fear and Terror". Começa por falar de cinema, a demonstrar filme por filme que Spielberg tem uma obsessão com a figura paterna e explica porque é que Mulder e Scully preferem andar à procura de extra-terrestres em vez de fazerem sexo. Depois, com Hegel e Marx pelo meio, fala-nos também de violência e racismo, de filmes catástrofe ultra-realistas e pretensamente anti-hollywood sobre o 11 de setembro.

Zizek refere também que o Exército de Israel usa como manual de treino o livro Mil Platôs de Gilles Deleuze e Félix Guattari para suas manobras e estratégias militares. Fala também de Borat e conta também imensas anedotas racistas sobre croatas, montenegrinos, etc., e explica porque é que as anedotas racistas são muito importantes na convivência e solidariedade entre os povos. Vejam vocês mesmos.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

The Organ - Grab That Gun

Tenho andado a ouvir este álbum de 2004 dos The Organ: Grab That Gun. É um rock com inspiração nos anos 80, instrumentalmente parecido com Echo & The Bunnymen e The Sound. Quanto á voz, eu diria que é uma Brian Molko a cantar como o Morrisey. Quem quiser que saque o álbum aqui do Album Base e vejam ainda aqui o vídeo da música Steven Smith para terem uma ideia.


A "Raça portuguesa", Futebol, Ter e Ser




Estranhos Dias. Com o país bloqueado por camiões, Portugal ganhou aos turcos e aos checos com golos de dois portugueses que falam com sotaque brasileiro. Entretanto o presidente elogia a raça portuguesa.

Muito se tem falado e discutido sobre a questão dos jogadores brasileiros a jogar por Portugal. Há quem diga que só deviam jogar jogadores 100% portugueses porque não precisamos de brasileiros, etc. Para já nunca entendi essa do 100% português, como se a nacionalidade fosse como a quantidade de laranja de um sumo natural.

Mas pensemos realmente, o que é ser português? O que é uma nacionalidade? Muitas outras selecções jogam também com "estrangeiros".

Se quisermos, a nacionalidade é, quanto mais não seja, uma questão jurídica. Pela lei, todos estes jogadores são tão nacionais como os outros. Na verdade o Deco ou o Pepe são tão portugueses como um pedreiro, engenheiro ou advogado que veio do Brasil para Portugal, e que passados uns anos obteve a nacionalidade portuguesa. Na verdade não existe qualquer diferença. Quem é contra isto tem que também ser contra a lei da nacionalidade.

Quem defende que as selecções deviam ser "purificadas" deve ter em atenção que existem de facto muitos brasileiros, angolanos, chineses e ucranianos a viver em Portugal. O mesmo acontece com outros países europeus como a Alemanha, Inglaterra, França etc. Não existem só estrangeiros no futebol.

O Futebol não vive separado da vida. Quem diz que o futebol é uma ilusão de massas que nos distraem do "Portugal Real", está equivocado. Isto porque o futebol, na medida em que está inserido na sociedade, é possível também nele vermos os problemas dessa mesma sociedade. A selecção portuguesa tem os seus melhores jogadores a actuar em clubes de topo em Inglaterra e Espanha. Porque não estão estes jogadores a actuar em Portugal? Trata-se de razões económicas.

As centenas de brasileiros que vêm todos os anos para a Europa tentar a sua sorte no mundo da bola, fazem-no por razões económicas. Os que chegam a ganhar muito, são muito poucos. Por parte dos clubes, ir buscar esses jogadores é do mesmo tipo de estratégia das multinacionais que constantemente procuram mão-de-obra mais barata. Do que se trata aqui é de luta de classes.

Quanto à indignação em relação ao facto de haver jogadores "estangeiros" nas selecções eu proponho uma indignação diferente. A indignação é a de que estes jogadores não tiveram oportunidade de jogar e viver do futebol no seu país de origem. Estes jogadores vêm para a Europa onde há capital e melhores condições e meios para ser melhor jogador e ganhar mais dinheiro para a sua família, é por isto que eles vêem para cá.

Perante isto, só nos resta como país decente, receber o melhor possível estes estrangeiros, dar-lhes as condições para darem o melhor que têm para dar ao nosso país.

A globalização tem um efeito inevitável nas nossas vidas e o futebol não é excepção. Quem quiser ser contra os estrangeiros a jogar na selecção deve ser coerente e alinhar junto no protesto contra a globalização.

Quem é adepto do bom futebol deve também defender os valores da solidariedade, da união entre os jogadores das respectivas equipas. O individualismo e a rivalidade dentro delas já se sabe que não augura nada de bom. O que é válido para o futebol também é válido para a vida.

Tenho andado a ler a obra "Ter e Ser" de Erich Fromm (que jogou na minha equipa de futebol filosófico a médio direito da equipa da psicanálise marxista).
Fromm junta de forma coerente os ensinamentos de Buda, Jesus e Marx para estabelecer um programa de mudança social, baseado na distinção entre ter e ser.

A noção de posse é extremamente problemática. É um conceito não só psicológico mas também económico, sendo igualmente importante nas duas acepções.

Assim, levando a noção de propriedade privada muito longe como se tem levado, levantam-se actualmente questões legais altamente problemáticas hoje em dia como a questão dos direitos de autor, das patentes e da propriedade intelectual.

Na vida é muito grande a diferença entre ter e ser. O capitalismo glorifica o modo ter, mas é sem dúvida melhor "ser". Isto pode parecer ao princípio um pouco abstracto e vago mas, quanto a isto, podemos pegar no exemplo do futebol que, mais uma vez, é um bom exemplo do que acontece na vida. Ter uma boa equipa, de facto, não vale nada contra Ser uma boa equipa.

Quem tem uma boa equipa, na verdade não tem nada, pois pode sempre perder esse estatuto no próximo jogo, se o perder. Quando uma equipa É uma boa equipa, só o pode ser jogando. Assim, ser, é um conceito que vive muito mais daquilo que acontece no imediato do que daquilo que já aconteceu ou pode vir a acontecer. A posse define-se mais como algo "que se pode perder".

Não é por acaso que ter a posse da bola não importa muito se não se conseguir fazer nada com ela. E também não é por acaso que se ouve de jogadores e treinadores falar sempre que é melhor pensar "jogo a jogo".

Há quem diga que a política não se devia se intrometer no futebol. O que eu defendo é o contrário: o futebol devia contagiar a política. As combinações entre Deco, Ronaldo, Nuno Gomes e Pepe fazem mais pela união dos povos do que o acordo ortográfico.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Every day I have the Blues, BB King e Rui Veloso,

Encontrei no Youtube este momento especial referente a 1990, no Casino Estoril, que juntou no palco o nosso ruizinho e BB King. O Rui Veloso bem se esforçou por estar à altura.


Entretanto, ando a ouvir este albúm de clássicos do BB King. O meu comentário é: Ihaaaaa uouuuuuuuu yeaaah. Eeeeeveriday I got da bluues.
Experimentem, façam download no Album Base. Yeah Baby.

Giorgio Agamben - Bartleby, Escrita da Potência

Li recentemente esta edição da Assírio e Alvim, Bartleby - Escrita da Potência, que contém um ensaio de Giorgio Agamben: "Bartleby, ou Da Contigência", seguido do próprio conto original Bartleby, da autoria de Herman Mellville.

Giorgio Agamben é um filósofo encantador que gosta sempre de tratar as suas ideias com referência a filósofos medievais e gregos, fazendo ligações inesperadas com o mundo de hoje.

Bartleby é um conto de contornos Kafkianos da autoria de Melville, editado pela primeira vez em 1853, e trata de um misterioso escriba de seu nome Bartleby. Trata-se de uma curiosa personagem que vem trabalhar para um escritório na feitura de cópias e que se recusa quer a verificar as cópias que faz, quer a fazer todo e qualquer serviço de escritório que não seja a cópia, repetindo a sua fórmula "I would prefer not to" com uma calma e frieza que deixa seu patrão exasperado. Posteriormente, o patrão descobre que Bartleby vive literalmente no escritório. Entretanto, Bartleby deixa de escrever, levando consigo o seu "I would prefer not to" até ao fim.

Giorgio Agamben começa por situar Bartleby numa constelação filosófica, começando com a comparação de Aristóteles de "noûs", o intelecto ou pensamento em potência, com uma tabuínha de escrever sobre o qual nada ainda está escrito.

Esta imagem da página em branco foi mais tarde usada por Locke, para definir a mente como sendo à partida, essa página em branco. Agamben refere que esta imagem tinha em si a possibilidade de um equívoco, o que terá contribuído para o seu sucesso: "A mente é, então, não uma coisa, mas um ser de pura potência e a imagem da tabuinha de escrever, sobre a qual nada ainda está escrito, serve precisamente para representar o modo de ser uma pura potência. Toda a potência de ser ou de fazer qualquer coisa é, de facto, para Aristóteles, sempre também potência de não ser ou de não fazer".

Refere ainda o fascínio de Deleuze pela fórmula de Bartleby "I prefer not to" que é definida como agramatical, daí o seu poder devastante: "a fórmula desune as palavras e as coisas, as palavras e as acções, mas também os actos linguísticos e as palavras: ela corta a linguagem de qualquer referência a si ou a outro" (Deleuze)

Agamben segue esta ideia de Deleuze, dizendo que esta fórmula "abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não, o preferível e o não preferido. Mas também, na perspectiva que aqui nos interessa, entre a potência de ser (ou de fazer) a potência de não ser (ou de não fazer)." (Agamben)

Agambem também se desdobra em considerações sobre a escrita como acto de criação, faz uma análise pormenorizada sobre os complexos fenómenos de causalidade envolvidos no acto da escrita, e do seu carácter de contigência, usando as mais diversas fontes como o Islão por exemplo. Agamben refere-se a Bartleby como experiência de verdade que é levada a cabo no sentido de levar a fundo a noção de potência no acto da escrita. Nesta "experiência de verdade" "quem se aventura, arrisca de facto, não tanto a verdade dos próprios enunciados quanto o próprio modo do seu existir e realiza, no âmbito da sua história subjectiva, uma mutação antropológica a seu modo tão decisiva quanto foi, para o primata, a libertação da mão na posição erecta, ou, para o réptil, a transformação dos membros anteriores que o mutou em pássaro". Giro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Brunhoso

Adicionei um novo link para a página da aldeia de Brunhoso, terra natal do "clã" Magalhães. É uma das melhores páginas de aldeia de Portugal, actualizada, com muita informação e imagens sobre a vida e história da aldeia. Está lá a homenagem que fiz no post anterior à ordenação do meu primo José Magalhães Cordeiro (agora já não lhe podemos chamar Zézinho, parece mal).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Pequena Homenagem a um Diácono

No último Sábado estive em Lisboa a assistir à ordenação do meu primo José Magalhães Cordeiro que agora é diácono da Igreja. Faço-te aqui uma pequena homenagem.

A carreira de padre é uma escolha corajosa e difícil nos tempos de hoje, e tu és uma pessoa especial, inteligente, sempre muito bem disposto, com um grande sentido de humor, que sempre teve uma ligação especial com crianças e jovens. Vais ser um excelente padre.

Todos temos que fazer escolhas. E escolher implica sacrifícios. E é pelas escolhas que faz que um homem se constrói e progride. Como tal, admiro o compromisso para toda a vida que tu fazes por aquilo em que acreditas como um gesto de uma fundura e profundidade tal que é raro hoje em dia.

O filósofo que mais influenciou minha vida, Soren Kierkegaard, era um padre protestante que no seu livro Fear and Trembling diz-nos:

No! No one shall be forgotten who was great in this world; but everyone was great in his own way, and everyone in proportion to the greatness of what he loved. For he who loved himself became great in himself, and he who loved others became great trough his devotion, but he who loved God became greater than all. (...)
one became great through expecting the possible, another by expecting the eternal; but he who expected the impossible became the greater than all.

(Tradução minha: Não! Ninguém será esquecido dos que foram grandes neste mundo; mas todos foram grandes à sua maneira e todos na proporção da grandeza daquilo que amaram. Pois aquele que se amou a si mesmo tornou-se grande em si mesmo, e aquele que amou outros tornou-se grande pela sua devoção, mas aquele que amou Deus foi o maior de todos. (...) Um tornou-se grande por esperar o possível, outro por esperar o eterno, mas aquele que esperou o impossível tornou-se o maior de todos.)

És um rapaz novo, bem parecido, e a tua escolha trará desgosto a muitas mulheres, é certo. Há até quem diga que a carreira de padre é uma castração. É verdade. Mas também, segundo Freud, somos todos castrados, não só os padres. Todos temos de aprender a reprimir pulsões e instintos sexuais de uma ou de outra maneira, a isso se chama muitas vezes "educação".

Queria por fim, Zé, deixar-te as palavras de um outro homem, Lanza del Vasto, católico fervoroso que viajou a pé de Itália até à Índia, que fala assim sobre a castidade:

"A castidade é a prova dos fortes. Apenas eles a defrontam vitoriosamente. Por um santo que ela conduz ao êxtase, quantos fracos vota ela ao ressequimento, à agrura, ao desespero, à angústia, à obsessão. Que a castidade não seja constrangimento mas libertação.
Que ela não seja uma repugnância contranatura, irrazoável ou desrazoável quase tanto como a inversão ou a desvergonha. Mostra-te livre, quer dizer desprendido, e não cativo da abstenção, crispado na recusa ou guindado na afectação. (...) A castidade vale o amor em nome do qual ela é mantida "

Boa sorte e um abraço do teu primo!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Buddy Guy - Hold That Plane






















Ando apaixonado por este álbum fabuloso de 1972: Hold that Plane de Buddy Guy. Tinha um best-of dele que ouvia bastantes vezes, mas depois de ouvir este álbum, decididamente já não acredito em best-ofs. Este álbum é muito melhor que o cd dos hits. Há quem chame a isto simplesmente blues de chicago, mas é muito mais do que isso. Buddy Guy é um génio que inspirou uma geração inteira de músicos de blues e do rock. Jimmy Page dos Led Zeppelin afirma: “Buddy Guy is an absolute monster”.

É extremamente difícil explicar ao certo o conjunto de sensações que este álbum me provoca. Como dizia Aldous Huxley, a música é o que está mais perto de exprimir o inexprimível.
Ouvindo este álbum fico num certo transe cool, começo a balançar o meu corpo ao som da música. Não é alegre nem triste, mas é profundamente emotivo. Há uma comunhão íntima no fundo da minha carne que se agita, que aceita de bom grado estas sonoridades como algo de libertário, libertino, libertador, poderoso, espiritual, sexual.




























Se se quiser buscar as emoções no seu estado mais puro e abstracto, o melhor a fazer é pegar em música. E a música de Buddy Guy trata de uma emoção em particular chamada "blues", que não se deve confundir com outro tipo de emoção. Quem quiser saber o que é isso de estar com os "blues", terá que ouvir e participar do acontecimento. Ao princípio é como quem se apaixona pela primeira vez, fica-se meio parvo, sem saber o que fazer, ingenuamente contente e iludido.

A voz de Buddy Guy espanta todos os males, todas as palermices, pequenas e grandes frustrações do dia-a-dia de uma forma segura e fácil, tal como uma vassoura. E as suas notas de guitarra como que me dobram sucessivamente a alma, libertando-a de vícios.

Quem quiser que saque este álbum aqui neste link do blog Album Base

terça-feira, 27 de maio de 2008

Arseny Tarkovsky

















Hoje, 27 de Maio, fazem 19 anos da morte do poeta russo Arseny Tarkovsky, pai do famoso realizador Andrei Tarkovsky. Recordo aqui um de seus poemas:

Vida, Vida

1

Não acredito em pressentimentos, nem agoiros
Me assustam. Não evito a calúnia
Ou o veneno. Não há morte sobre a terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há
Que ter medo da morte aos sete
Nem aos setenta. O real e a luz
Existem, mas não a morte ou a treva.
Viemos hoje à enseada,
E o cardume da imortalidade veio
Quando puxava as redes.

2

Vivei na casa - e a casa viverá.
Invocarei qualquer dos séculos
para lá construir a minha casa.
Por isso tenho vossos filhos a meu lado
E também vossas mulheres, sentados à mesa,
Mesa para o magnífico avô e para o neto.
Cumpre-se aqui e agora o futuro,
E se eu ao de leve vos dou a minha bênção
É porque só restam esses cinco raios de luz.
Omoplatas minhas como vigas mestras
Sustentam cada dia que engendra o passado,
Com a vara de agrimensura meço o tempo
E tanto atravesso como sobrevoo os montes Urais.

3

Escolho uma cidade à minha medida.
Guia-nos o sul com remoinhos de pó sobre a estepe;
Renques daninhos, pragas de gafanhotos,
As cintilações faiscantes das ferraduras polidas,
Tudo profetizava - visões
De monge - que eu iria perecer.
Peguei no destino, atei-o à sela;
E agora que estou no futuro, permaneço
Hirto nos estribos com uma criança

Só quero a imortalidade
Para que o sangue flua pelas eras.

De boa vontade daria a vida
Por um lugar seguro e quente,
Não me guiasse a agulha aérea viva
Pelo mundo como a uma linha

Arseny Tarkovsky

Born to be Wilde

Fiz uma pesquisa no google por "Born to be Wilde", para ver quantas pessoas se lembraram do mesmo trocadilho, e achei esta pérola da literatura de bolso com o mesmo nome.
Diz na capa: "Janelle Denison is a master at creating the perfect bad boy" Há um vídeo e tudo:


Acho que não há enganos: "Sexy, seductive, suspenseful", acho que estão mesmo a falar deste blog.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Realismo e o Elogio da Ingenuidade

"A antipatia do séc. XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do séc. XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho"

Oscar Wilde em "O Retrato de Dorian Gray"


Quantas vezes não se ouve no discurso mundano do dia-a-dia expressões como: "temos que ser realistas!", seguido de uma possibilidade ameaçadora; "na realidade temos que aceitar isto e aquilo", como quem faz uma cedência a uma qualquer ameaça no ar, perigosa.
Nisto os políticos são muito bons (em discurso mundano), e dizem muitas vezes "temos que ser realistas, as coisas não são tão boas como se poderia pensar". Há quem diga até de uma forma mais elucidativa: "eu não sou pessimista, sou realista".

O realismo trata de algo de chocante e de mau, alguma exigência cruel, etc. Coloca-se a realidade como contrário de um ponto de vista ingénuo e romântico que diz que no fundo tudo está bem e que tudo corre pelo melhor. Ser realista é portanto, focar o problema e o que está mal, ser objectivo e racional numa perspectiva de resolução de catástrofes.

Isto é um sistema pelo qual, quando somos realistas, trazemos à consciência todas as coisas más. É o processo pelo qual, segundo uma perspectiva psicodinâmica, o recalcado retorna à consciência.

O que isto significa é que o realismo (como qualquer tipo de "racionalidade") precisa do seu imaginário, que a um nível psíquico, chamamos inconsciente (imagens, memórias, sonhos), que neste caso está recheado de acontecimentos catastróficos. É por isso que Lacan definia o "Real", no seu triângulo real-imaginário-simbólico como o acontecimento traumático que não se consegue assimilar em termos simbólicos (dai a razão de retornar sempre).

Freud dizia que o homem era dominado primeiro por um princípio do prazer e mais tarde quando fica neurótico, desenvolvia o princípio da realidade. O princípio da realidade é estruturante de um ego vigilante, tendo como função "adaptar-se às exigências do mundo externo".

Isto permite-nos falar desta "realidade cruel" como algo de fundamentalmente externo e separado do sujeito. Por isso é que um realismo exacerbado pode perfeitamente resultar em paranóia.

É aliás necessária essa cisão para que se possa falar num eu autónomo pensante, num "penso logo existo" cartesiano. E nesta perspectiva "realista", o Sujeito é fundamentalmento narcisista e perfeito, sendo postulado todo o mal como algo de externo "que acontece" e é aí nesse outro termo da relação que se encontra a realidade. Se este jogo entre dois termos se mantiver e aprofundar, temos um eu cada vez mais perfeito e cada vez mais idealizado e narcísico, e uma "realidade" cada vez mais cruel e ameaçadora e temos os ingredientes para, numa descompensação, termos uma psicose de delírios narcísicos e paranóicos.

Este funcionamento dialéctico pode funcionar de maneiras diferentes, embora este seja o mais comum na sociedade actual, materialista, secular, utilitarista.
Podemos contrapor com uma visão cristã anterior, mais comum nos nossos avós, segundo o qual existe um Deus, exterior que é, fundamentalmente bom e perfeito. Aqui, a perfeição está do lado de Deus, a vida são provações e testes e todos os homens são pecadores.

Não vamos dizer que esta perspectiva é melhor ou pior. Hoje, será uma perspectiva considerada entre outras coisas, como "ingénua", "romântica" e "pouco realista", pois precisa de crendices. Mas também o homem moderno precisa das suas crenças, por exemplo no "Real", que é o Deus de hoje, mau e vingativo e objectivo, um Deus muito parecido com os deuses pagãos primitivos, muito ligados às catástrofes naturais (externas e objectivas). Daí também o noticiário mostrar também catástrofes naturais: vivemos num mundo pagão com Deuses múltiplos, acabou o monoteísmo.

Quanto à visão cristã antiga, penso que há algo que se pode recuperar e está relacionada com essa "ingenuidade" de que é acusada. Faço aqui então esse "elogio da ingenuidade"

Não se pode dissociar o realismo moderno das correntes filosóficas do séc. XVIII do iluminismo e do positivismo que glorificam o homem como ser pensante, racional, que conseguiria dominar a natureza por intermédio da razão, portanto, um eu "perfeito", narcisista, idealizado.

Voltaire viveu nessa altura e muito gozou e criticou essa posição filosófica humana tão arrogante e tão cheia de si. Foi um escritor e pensador genial que apimentava os seus contos e histórias com críticas mordazes, irónicas e picantes sobre os defeitos e falhas humanas.



Uma das suas personagens mais famosas é o Ingénuo, da Hurânia:
"Sempre dei pelo nome de Ingénuo - replicou o hurão - e em Inglaterra sempre me chamaram assim, pois digo sempre ingenuamente o que penso, assim como faço tudo quanto quero."
Trata-se de uma personagem que, para além de dizer sempre despreocupadamente aquilo que pensa, é dotado de uma enorme curiosidade e gosto de conhecer o mundo e é, ao mesmo tempo, humilde e desinteressada sendo que, por ter estas características, ao longo das histórias de Voltaire vai causando sensação e escândalo no confronto com outras personagens comuns, mesquinhas, interesseiras e egoístas.

Numa outra versão desta personagem, o "Cândido", há uma crença imputada a esta personagem retirada directamente do postulado de Leibniz de que "este é o melhor dos mundos possíveis". Cândido é uma personagem parecida com o "Ingénuo" que vai passando por imensas provações, é feito escravo, anda na guerra, é raptado, perde-se, acontece-lhe tudo. Mas no meio dessas provações vai prosseguindo sempre com a ideia de que aquele é "o melhor dos mundos possíveis", mantendo sempre seu optimismo ingénuo.

Em contraponto de um realismo pessimista, proponho então essa ingenuidade optimista em que ao invés de olhar sobre o mundo à procura de ameaças na defesa de um ego orgulhoso e arrogante, há um prazer em olhar o mundo não em defesa de um eu, mas em contemplação daquilo que supera largamente o âmbito de um eu individual. Uma perspectiva em que assumimos a nossa pequenês perante um mundo grande e misterioso.

Depois de Nietzsche preencher a certidão de óbito de Deus, esta morte foi confirmada pelos diálogos ecuménicos em que os líderes religiosos admitem haver espaço para outras religiões ao invés da tentativa antiga de tentar universalizar seu Deus. É isto que a morte de Deus significa, já não existe o Deus monoteísta, ao invés temos uma variedade de religiões que toda a gente diz que respeita (sem seguir até ao fundo) um politeísmo oficial, um retorno ao paganismo.

Assim, o que divide essencialmente as pessoas não é a religião. Como dizia Oscar Wilde, já não há separação entre os que acreditam em Deus e os que não acreditam. O que há é uma divisão entre optimistas e pessimistas. Há duas posições que podemos escolher. A primeira é: "realisticamente, temos que assumir que as pessoas são más e mesquinhas e egoístas" ou ao invés considerar que "as pessoas são naturalmente bondosas e procuram a felicidade".

Ambas as posições são crenças, pois nenhuma destas proposições é verificável. Não podemos correr o mundo e ver pessoa a pessoa, se a humanidade é boa ou má. Por isso temos que escolher.

Eu escolho a segunda, a posição ingénua, a posição que, ao invés de glorificar o poder da razão humana sobre a natureza, arrumando o universo em duas ou três ideias e permitindo-nos a arrogância de pensar que somos perfeitos por sabermos tudo sobre o mundo, pelo contrário parte do princípio de que nunca perceberemos o mundo na sua totalidade pois numa posição ingénua são os sentidos a fonte priveligiada do conhecimento.

Os sentidos são superiores à razão por duas razões. Primeiro, sem os sentidos não haveria razão, ou seja, os sentidos são a causa primeira da razão. Em segundo lugar, o que provém dos sentidos é sempre excessivo, enquanto que a razão é sempre reducionista.

Em suma, no realismo pessimista, pensa-se que se sabe tudo através da razão, e como a razão só serve interesses pessoais, fica-se com um ego do tamanho do mundo. Na posição ingénua que defendo há uma humildade perante o "excesso de mundo" que nos provém dos sentidos.

É esta uma perspectiva que assume que o conhecimento maior do mundo não provém da experiência e da razão, mas sim dos sentidos, que são o alimento do pensamento racional. É uma perspectiva parecida com os empiristas ingleses que Voltaire admirava.

Num dos contos de Voltaire, Micrómegas, um gigante vindo de outro planeta, chega à Terra e um barco cheio de cientistas e filósofos que ao princípio julgava serem insectos, naufraga na sua mão de gigante e começa a falar com eles. A princípio julgava aqueles bichinhos como seres que "gozam as benesses bem puras do vosso globo, (...) devem passar a vida a amar e a pensar."

Rapidamente o gigante é desmentido por um dos humanos, que diz que "há cem mil loucos da nossa espécie usando chapéu que matam outros animais com as cabeças com turbantes, ou que são por estes chacinados"

Desgostoso, o gigante continua a ouvir um partidário de Descartes que dizia que "a alma é um espírito puro que recebeu no ventre materno todas as ideias metafísicas e que, ao sair para o exterior, é obrigada a aprender de novo tudo quanto soube na perfeição"

Pouco impressionado com este "insecto", o gigante ri-se imenso ainda de um partidário de S.Tomás que diz seriamente que todas as coisas do universo foram feitas para servir o homem, e fica impressionado com as palavras de um partidário de Locke que diz o seguinte:
"Que haja substâncias imateriais e inteligentes, disso não duvido. Mas que seja impossível a Deus comunicar o discernimento à matéria, ah! disso duvido mesmo. Venero o poder eterno. Não me cabe a mim abordá-lo. Nada afirmo. Contento-me em crer que existem bastantes mais coisas possíveis do que aquilo que imaginamos"

sábado, 17 de maio de 2008

Campeonato Europeu de Futebol Filosófico

Vai começar o Euro 2008 de futebol, mas o que eu que aqui venho falar é de outro campeonato: o Campenato Europeu de Futebol Filosófico. O primeiro jogo decorreu hoje entre o Existencialismo Fenomenológico e a equipa da Psicanálise Marxista:


Existencialismo Fenomenológico 1 - 1 Psicanálise Marxista

Houve empate nesta primeira jornada entre os existencialistas e os psicodinâmicos de esquerda.
Tratou-se de um belo espectáculo desportivo, com ambas as equipas viradas para o ataque, com grandes jogadas de especulação filosófica a serem explanadas no terreno de jogo.

Os existencialistas apresentaram uma equipa montada num nítido 4-3-3, enquanto que os neuróticos marxistas actuaram no seu dialéctico esquema de 4 -4 -2 clássico.

Logo no início da partida, aos 5 minutos houve uma falta perigosa do psicólogo existencialista Frankl, muito perto da grande área, em zona frontal à baliza. Adorno encarregou-se de bater o livre e o francês Jean Paul Sartre, que estava na barreira, levou as "mãos sujas" à bola, tendo sido assinalada grande penalidade. Marx, o capitão da equipa, não perdoou e o
guarda redes russo Dostoievski sofreu o "Crime e Castigo".

Com 1-0 no marcador os existencialistas partiram para cima do adversário, à procura do prejuízo. O flanco direito da equipa esteve particularmente activo, com os franceses Camus e Sartre a ganharem várias vezes a linha de fundo donde saíram cruzamento perigosos perante a passividade de Marcuse. Numa dessas ocasiões, Nietzsche, com uma enorme "vontade de poder" ganhou de cabeça na área a Freud, e marcou um belíssimo golo, que fixou o resultado final. Lacan ficou a olhar para a bola a entrar na baliza como se de uma cena obscena se tratasse.

Deleuze e Guattari ainda tentaram fazer das suas famosas combinações esquizofrénicas de cortes e recortes dos fluxos de bola, mas Schopenhauer esteve muito sóbrio e seguro, abafando as diabruras destes dois. Também Zizek tentou inverter o rumo dos acontecimentos, muito irrequieto e nervoso no flanco esquerdo, com uma velocidade desconcertante mas muitas vezes inconsequente.

Destaque ainda para um remate ao poste de Kierkegaard que foi o guia espiritual da equipa do existencialismo fenomenológico.