sábado, 28 de junho de 2008

Rosto e Paisagem: John Stezaker e Hermann Broch


John Stezaker: Pairs series «VIII» 2007

"Fechou um pouco os olhos e olhou através da fenda das pálpebras a paisagem do rosto escancarado. E eis que ele se confundia com o rosto da própria paisagem, a orla dos cabelos continuando-se pela ramaria amarelada da floresta (...). Fenómeno tranquilizador e apavorante ao mesmo tempo, quando o olhar anulava assim o divórcio dos objectos, fundia o distinto numa matéria bizarramente homogénea, onde as espécies eram indiscerníveis, sentíamo-nos como que alerta, impressionados por uma recordação, reenviados a determinada coisa, que, fora de toda a convenção, residia no mais recôndito da infância e esse problema sem resposta parecia-se fosso com o que fosse que se ergue da memória como uma advertência. (...)


John Stezaker: Pairs series «III» 2007

E no fluxo das formas, fluxo tão suave como o escoamento da água e do nevoeiro de um pluvioso crepúsculo de Primavera, afigurou-se-lhe que o desmoronar-se tão temido do rosto humano num nada de bossas e depressões devia ser o primeiro estádio a caminho de uma nova e mais luminosa unidade na consonância de uma brumosa beatitude, não já cópia do rosto terreno, mas promessa da similitude divina, gota de cristal que cai, cantando, da nuvem.
E se aquele sublime rosto se despojava de toda a beleza e de toda a familiaridade terrena e parecia, talvez, de princípio, estranho e medonho, mais medonho ainda do que o apagamento do rosto na paisagem, isso só queria dizer que haviam dado o primeiro passo; nada mais era, sem dúvida, que um pressentimento anunciador do pavor divino, mas também a certeza da vida divina em que o terreno se transforma (...).

Hermann Broch em "
Os Sonâmbulos" (1ª Parte: 1888 Pasenow ou o Romantismo)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Pornografia Gay, Trabalho e Alienação

Outro dia vi um documentário sobre o mundo da pornografia feito por um jornalista do Daily Show, não me lembro agora do nome dele. A determinada altura entrevista um actor que fazia todo o tipo de cenas, sexo com mulheres, homens, anal, oral, tudo e mais alguma coisa. Então perguntam-lhe se ele é Gay ao que ele responde firmemente que não! Insistindo, perguntam-lhe se não acha que o facto de fazer sexo com outros homens faz dele gay, ao que ele insiste dizendo que não: "Ah isto é só meu trabalho, na verdade eu não sou gay!"

Isto é o exemplo clássico e perfeito para demonstrar o carácter de alienação do trabalho no mundo moderno. O trabalho, o que a pessoa faz, é visto como algo de separado do sujeito. As pessoas não são engenheiros, pedreiros ou jornalistas. As pessoas têm empregos de engenheiros, pedreiros, jornalistas. Através da divisão entre vida pessoal e familiar, opera-se esta cisão, fazendo com que não haja plena identificação com aquilo que se faz.

Zizek lembra e bem, que na época medieval, quando a sociedade estava dividida por ordens sociais rígidas, nobreza, clero, povo, etc, se perguntássemos a um cavaleiro qual era a sua profissão, essa pergunta pareceria extremamente estúpida. Ele não responderia que tinha a profissão de cavaleiro mas sim "Eu sou um cavaleiro", todo orgulhoso e inchado, com a mão no peito.

Hoje em dia, os Sócrates deste mundo elogiam a "flexisegurança", que consiste em mudar de emprego como quem muda de cuecas, que é consistente com a ideia consumista de mudar sempre de televisão, de carro (ou de mulher), sempre que se encontra uma versão melhor. É neste sentido que Baudelaire inventou o termo "moderno" como a idade da "moda".

"Isto é só o meu trabalho" é a desculpa que as pessoas dão quando não querem admitir para si mesmas aquilo que realmente fazem. O trágico é haver imensos trabalhos imorais (convencer pessoas a comprar coisas que não precisam ou fazer sexo em frente da câmara para vender) que as pessoas fazem para ganhar dinheiro e tentam defender-se dessa imoralidade, operando uma cisão entre aquilo que fazem e aquilo que são.

Minha sugestão é implantar aqui um either/or kierkegaardiano: ou assumir o que se faz, (eu sou pior que todos os gays, sou gay apenas para ganhar dinheiro) ou então rejeitar fazê-lo como um Bartleby, com um "I would prefer not to!"

quinta-feira, 26 de junho de 2008

engenharia dos valores

deixei
os meus ideais
caírem ao chão.

partiram-se,
estão todos estragados.

levei os meus ideais
para ver se tinham arranjo e

O marxismo, por exemplo,
precisa de dois parafusos
e de uma hermenêutica nova

Mais,
o meu humanismo partiu-se em dois
e hoje em dia, esta peça
já não se fabrica

Ver-me-ei obrigado a produzir
novos ideais com as peças velhas,
a usar a lógica para juntar tudo

Ao contrário dos frigoríficos
Os ideiais não vêem com garantia,

é preciso continuar
a pôr os ideais à prova.
pois estes não servem para nada
se ficarem em casa.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Zizek, anedotas racistas, ou como fazer guerra segundo Deleuze e Guattari

Vi no Youtube um vídeo novo de uma palestra de Slavoj Zizek, "Politics between Fear and Terror". Começa por falar de cinema, a demonstrar filme por filme que Spielberg tem uma obsessão com a figura paterna e explica porque é que Mulder e Scully preferem andar à procura de extra-terrestres em vez de fazerem sexo. Depois, com Hegel e Marx pelo meio, fala-nos também de violência e racismo, de filmes catástrofe ultra-realistas e pretensamente anti-hollywood sobre o 11 de setembro.

Zizek refere também que o Exército de Israel usa como manual de treino o livro Mil Platôs de Gilles Deleuze e Félix Guattari para suas manobras e estratégias militares. Fala também de Borat e conta também imensas anedotas racistas sobre croatas, montenegrinos, etc., e explica porque é que as anedotas racistas são muito importantes na convivência e solidariedade entre os povos. Vejam vocês mesmos.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

The Organ - Grab That Gun

Tenho andado a ouvir este álbum de 2004 dos The Organ: Grab That Gun. É um rock com inspiração nos anos 80, instrumentalmente parecido com Echo & The Bunnymen e The Sound. Quanto á voz, eu diria que é uma Brian Molko a cantar como o Morrisey. Quem quiser que saque o álbum aqui do Album Base e vejam ainda aqui o vídeo da música Steven Smith para terem uma ideia.


A "Raça portuguesa", Futebol, Ter e Ser




Estranhos Dias. Com o país bloqueado por camiões, Portugal ganhou aos turcos e aos checos com golos de dois portugueses que falam com sotaque brasileiro. Entretanto o presidente elogia a raça portuguesa.

Muito se tem falado e discutido sobre a questão dos jogadores brasileiros a jogar por Portugal. Há quem diga que só deviam jogar jogadores 100% portugueses porque não precisamos de brasileiros, etc. Para já nunca entendi essa do 100% português, como se a nacionalidade fosse como a quantidade de laranja de um sumo natural.

Mas pensemos realmente, o que é ser português? O que é uma nacionalidade? Muitas outras selecções jogam também com "estrangeiros".

Se quisermos, a nacionalidade é, quanto mais não seja, uma questão jurídica. Pela lei, todos estes jogadores são tão nacionais como os outros. Na verdade o Deco ou o Pepe são tão portugueses como um pedreiro, engenheiro ou advogado que veio do Brasil para Portugal, e que passados uns anos obteve a nacionalidade portuguesa. Na verdade não existe qualquer diferença. Quem é contra isto tem que também ser contra a lei da nacionalidade.

Quem defende que as selecções deviam ser "purificadas" deve ter em atenção que existem de facto muitos brasileiros, angolanos, chineses e ucranianos a viver em Portugal. O mesmo acontece com outros países europeus como a Alemanha, Inglaterra, França etc. Não existem só estrangeiros no futebol.

O Futebol não vive separado da vida. Quem diz que o futebol é uma ilusão de massas que nos distraem do "Portugal Real", está equivocado. Isto porque o futebol, na medida em que está inserido na sociedade, é possível também nele vermos os problemas dessa mesma sociedade. A selecção portuguesa tem os seus melhores jogadores a actuar em clubes de topo em Inglaterra e Espanha. Porque não estão estes jogadores a actuar em Portugal? Trata-se de razões económicas.

As centenas de brasileiros que vêm todos os anos para a Europa tentar a sua sorte no mundo da bola, fazem-no por razões económicas. Os que chegam a ganhar muito, são muito poucos. Por parte dos clubes, ir buscar esses jogadores é do mesmo tipo de estratégia das multinacionais que constantemente procuram mão-de-obra mais barata. Do que se trata aqui é de luta de classes.

Quanto à indignação em relação ao facto de haver jogadores "estangeiros" nas selecções eu proponho uma indignação diferente. A indignação é a de que estes jogadores não tiveram oportunidade de jogar e viver do futebol no seu país de origem. Estes jogadores vêm para a Europa onde há capital e melhores condições e meios para ser melhor jogador e ganhar mais dinheiro para a sua família, é por isto que eles vêem para cá.

Perante isto, só nos resta como país decente, receber o melhor possível estes estrangeiros, dar-lhes as condições para darem o melhor que têm para dar ao nosso país.

A globalização tem um efeito inevitável nas nossas vidas e o futebol não é excepção. Quem quiser ser contra os estrangeiros a jogar na selecção deve ser coerente e alinhar junto no protesto contra a globalização.

Quem é adepto do bom futebol deve também defender os valores da solidariedade, da união entre os jogadores das respectivas equipas. O individualismo e a rivalidade dentro delas já se sabe que não augura nada de bom. O que é válido para o futebol também é válido para a vida.

Tenho andado a ler a obra "Ter e Ser" de Erich Fromm (que jogou na minha equipa de futebol filosófico a médio direito da equipa da psicanálise marxista).
Fromm junta de forma coerente os ensinamentos de Buda, Jesus e Marx para estabelecer um programa de mudança social, baseado na distinção entre ter e ser.

A noção de posse é extremamente problemática. É um conceito não só psicológico mas também económico, sendo igualmente importante nas duas acepções.

Assim, levando a noção de propriedade privada muito longe como se tem levado, levantam-se actualmente questões legais altamente problemáticas hoje em dia como a questão dos direitos de autor, das patentes e da propriedade intelectual.

Na vida é muito grande a diferença entre ter e ser. O capitalismo glorifica o modo ter, mas é sem dúvida melhor "ser". Isto pode parecer ao princípio um pouco abstracto e vago mas, quanto a isto, podemos pegar no exemplo do futebol que, mais uma vez, é um bom exemplo do que acontece na vida. Ter uma boa equipa, de facto, não vale nada contra Ser uma boa equipa.

Quem tem uma boa equipa, na verdade não tem nada, pois pode sempre perder esse estatuto no próximo jogo, se o perder. Quando uma equipa É uma boa equipa, só o pode ser jogando. Assim, ser, é um conceito que vive muito mais daquilo que acontece no imediato do que daquilo que já aconteceu ou pode vir a acontecer. A posse define-se mais como algo "que se pode perder".

Não é por acaso que ter a posse da bola não importa muito se não se conseguir fazer nada com ela. E também não é por acaso que se ouve de jogadores e treinadores falar sempre que é melhor pensar "jogo a jogo".

Há quem diga que a política não se devia se intrometer no futebol. O que eu defendo é o contrário: o futebol devia contagiar a política. As combinações entre Deco, Ronaldo, Nuno Gomes e Pepe fazem mais pela união dos povos do que o acordo ortográfico.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Every day I have the Blues, BB King e Rui Veloso,

Encontrei no Youtube este momento especial referente a 1990, no Casino Estoril, que juntou no palco o nosso ruizinho e BB King. O Rui Veloso bem se esforçou por estar à altura.


Entretanto, ando a ouvir este albúm de clássicos do BB King. O meu comentário é: Ihaaaaa uouuuuuuuu yeaaah. Eeeeeveriday I got da bluues.
Experimentem, façam download no Album Base. Yeah Baby.

Giorgio Agamben - Bartleby, Escrita da Potência

Li recentemente esta edição da Assírio e Alvim, Bartleby - Escrita da Potência, que contém um ensaio de Giorgio Agamben: "Bartleby, ou Da Contigência", seguido do próprio conto original Bartleby, da autoria de Herman Mellville.

Giorgio Agamben é um filósofo encantador que gosta sempre de tratar as suas ideias com referência a filósofos medievais e gregos, fazendo ligações inesperadas com o mundo de hoje.

Bartleby é um conto de contornos Kafkianos da autoria de Melville, editado pela primeira vez em 1853, e trata de um misterioso escriba de seu nome Bartleby. Trata-se de uma curiosa personagem que vem trabalhar para um escritório na feitura de cópias e que se recusa quer a verificar as cópias que faz, quer a fazer todo e qualquer serviço de escritório que não seja a cópia, repetindo a sua fórmula "I would prefer not to" com uma calma e frieza que deixa seu patrão exasperado. Posteriormente, o patrão descobre que Bartleby vive literalmente no escritório. Entretanto, Bartleby deixa de escrever, levando consigo o seu "I would prefer not to" até ao fim.

Giorgio Agamben começa por situar Bartleby numa constelação filosófica, começando com a comparação de Aristóteles de "noûs", o intelecto ou pensamento em potência, com uma tabuínha de escrever sobre o qual nada ainda está escrito.

Esta imagem da página em branco foi mais tarde usada por Locke, para definir a mente como sendo à partida, essa página em branco. Agamben refere que esta imagem tinha em si a possibilidade de um equívoco, o que terá contribuído para o seu sucesso: "A mente é, então, não uma coisa, mas um ser de pura potência e a imagem da tabuinha de escrever, sobre a qual nada ainda está escrito, serve precisamente para representar o modo de ser uma pura potência. Toda a potência de ser ou de fazer qualquer coisa é, de facto, para Aristóteles, sempre também potência de não ser ou de não fazer".

Refere ainda o fascínio de Deleuze pela fórmula de Bartleby "I prefer not to" que é definida como agramatical, daí o seu poder devastante: "a fórmula desune as palavras e as coisas, as palavras e as acções, mas também os actos linguísticos e as palavras: ela corta a linguagem de qualquer referência a si ou a outro" (Deleuze)

Agamben segue esta ideia de Deleuze, dizendo que esta fórmula "abre uma zona de indiscernibilidade entre o sim e o não, o preferível e o não preferido. Mas também, na perspectiva que aqui nos interessa, entre a potência de ser (ou de fazer) a potência de não ser (ou de não fazer)." (Agamben)

Agambem também se desdobra em considerações sobre a escrita como acto de criação, faz uma análise pormenorizada sobre os complexos fenómenos de causalidade envolvidos no acto da escrita, e do seu carácter de contigência, usando as mais diversas fontes como o Islão por exemplo. Agamben refere-se a Bartleby como experiência de verdade que é levada a cabo no sentido de levar a fundo a noção de potência no acto da escrita. Nesta "experiência de verdade" "quem se aventura, arrisca de facto, não tanto a verdade dos próprios enunciados quanto o próprio modo do seu existir e realiza, no âmbito da sua história subjectiva, uma mutação antropológica a seu modo tão decisiva quanto foi, para o primata, a libertação da mão na posição erecta, ou, para o réptil, a transformação dos membros anteriores que o mutou em pássaro". Giro.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Brunhoso

Adicionei um novo link para a página da aldeia de Brunhoso, terra natal do "clã" Magalhães. É uma das melhores páginas de aldeia de Portugal, actualizada, com muita informação e imagens sobre a vida e história da aldeia. Está lá a homenagem que fiz no post anterior à ordenação do meu primo José Magalhães Cordeiro (agora já não lhe podemos chamar Zézinho, parece mal).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Pequena Homenagem a um Diácono

No último Sábado estive em Lisboa a assistir à ordenação do meu primo José Magalhães Cordeiro que agora é diácono da Igreja. Faço-te aqui uma pequena homenagem.

A carreira de padre é uma escolha corajosa e difícil nos tempos de hoje, e tu és uma pessoa especial, inteligente, sempre muito bem disposto, com um grande sentido de humor, que sempre teve uma ligação especial com crianças e jovens. Vais ser um excelente padre.

Todos temos que fazer escolhas. E escolher implica sacrifícios. E é pelas escolhas que faz que um homem se constrói e progride. Como tal, admiro o compromisso para toda a vida que tu fazes por aquilo em que acreditas como um gesto de uma fundura e profundidade tal que é raro hoje em dia.

O filósofo que mais influenciou minha vida, Soren Kierkegaard, era um padre protestante que no seu livro Fear and Trembling diz-nos:

No! No one shall be forgotten who was great in this world; but everyone was great in his own way, and everyone in proportion to the greatness of what he loved. For he who loved himself became great in himself, and he who loved others became great trough his devotion, but he who loved God became greater than all. (...)
one became great through expecting the possible, another by expecting the eternal; but he who expected the impossible became the greater than all.

(Tradução minha: Não! Ninguém será esquecido dos que foram grandes neste mundo; mas todos foram grandes à sua maneira e todos na proporção da grandeza daquilo que amaram. Pois aquele que se amou a si mesmo tornou-se grande em si mesmo, e aquele que amou outros tornou-se grande pela sua devoção, mas aquele que amou Deus foi o maior de todos. (...) Um tornou-se grande por esperar o possível, outro por esperar o eterno, mas aquele que esperou o impossível tornou-se o maior de todos.)

És um rapaz novo, bem parecido, e a tua escolha trará desgosto a muitas mulheres, é certo. Há até quem diga que a carreira de padre é uma castração. É verdade. Mas também, segundo Freud, somos todos castrados, não só os padres. Todos temos de aprender a reprimir pulsões e instintos sexuais de uma ou de outra maneira, a isso se chama muitas vezes "educação".

Queria por fim, Zé, deixar-te as palavras de um outro homem, Lanza del Vasto, católico fervoroso que viajou a pé de Itália até à Índia, que fala assim sobre a castidade:

"A castidade é a prova dos fortes. Apenas eles a defrontam vitoriosamente. Por um santo que ela conduz ao êxtase, quantos fracos vota ela ao ressequimento, à agrura, ao desespero, à angústia, à obsessão. Que a castidade não seja constrangimento mas libertação.
Que ela não seja uma repugnância contranatura, irrazoável ou desrazoável quase tanto como a inversão ou a desvergonha. Mostra-te livre, quer dizer desprendido, e não cativo da abstenção, crispado na recusa ou guindado na afectação. (...) A castidade vale o amor em nome do qual ela é mantida "

Boa sorte e um abraço do teu primo!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Buddy Guy - Hold That Plane






















Ando apaixonado por este álbum fabuloso de 1972: Hold that Plane de Buddy Guy. Tinha um best-of dele que ouvia bastantes vezes, mas depois de ouvir este álbum, decididamente já não acredito em best-ofs. Este álbum é muito melhor que o cd dos hits. Há quem chame a isto simplesmente blues de chicago, mas é muito mais do que isso. Buddy Guy é um génio que inspirou uma geração inteira de músicos de blues e do rock. Jimmy Page dos Led Zeppelin afirma: “Buddy Guy is an absolute monster”.

É extremamente difícil explicar ao certo o conjunto de sensações que este álbum me provoca. Como dizia Aldous Huxley, a música é o que está mais perto de exprimir o inexprimível.
Ouvindo este álbum fico num certo transe cool, começo a balançar o meu corpo ao som da música. Não é alegre nem triste, mas é profundamente emotivo. Há uma comunhão íntima no fundo da minha carne que se agita, que aceita de bom grado estas sonoridades como algo de libertário, libertino, libertador, poderoso, espiritual, sexual.




























Se se quiser buscar as emoções no seu estado mais puro e abstracto, o melhor a fazer é pegar em música. E a música de Buddy Guy trata de uma emoção em particular chamada "blues", que não se deve confundir com outro tipo de emoção. Quem quiser saber o que é isso de estar com os "blues", terá que ouvir e participar do acontecimento. Ao princípio é como quem se apaixona pela primeira vez, fica-se meio parvo, sem saber o que fazer, ingenuamente contente e iludido.

A voz de Buddy Guy espanta todos os males, todas as palermices, pequenas e grandes frustrações do dia-a-dia de uma forma segura e fácil, tal como uma vassoura. E as suas notas de guitarra como que me dobram sucessivamente a alma, libertando-a de vícios.

Quem quiser que saque este álbum aqui neste link do blog Album Base

terça-feira, 27 de maio de 2008

Arseny Tarkovsky

















Hoje, 27 de Maio, fazem 19 anos da morte do poeta russo Arseny Tarkovsky, pai do famoso realizador Andrei Tarkovsky. Recordo aqui um de seus poemas:

Vida, Vida

1

Não acredito em pressentimentos, nem agoiros
Me assustam. Não evito a calúnia
Ou o veneno. Não há morte sobre a terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há
Que ter medo da morte aos sete
Nem aos setenta. O real e a luz
Existem, mas não a morte ou a treva.
Viemos hoje à enseada,
E o cardume da imortalidade veio
Quando puxava as redes.

2

Vivei na casa - e a casa viverá.
Invocarei qualquer dos séculos
para lá construir a minha casa.
Por isso tenho vossos filhos a meu lado
E também vossas mulheres, sentados à mesa,
Mesa para o magnífico avô e para o neto.
Cumpre-se aqui e agora o futuro,
E se eu ao de leve vos dou a minha bênção
É porque só restam esses cinco raios de luz.
Omoplatas minhas como vigas mestras
Sustentam cada dia que engendra o passado,
Com a vara de agrimensura meço o tempo
E tanto atravesso como sobrevoo os montes Urais.

3

Escolho uma cidade à minha medida.
Guia-nos o sul com remoinhos de pó sobre a estepe;
Renques daninhos, pragas de gafanhotos,
As cintilações faiscantes das ferraduras polidas,
Tudo profetizava - visões
De monge - que eu iria perecer.
Peguei no destino, atei-o à sela;
E agora que estou no futuro, permaneço
Hirto nos estribos com uma criança

Só quero a imortalidade
Para que o sangue flua pelas eras.

De boa vontade daria a vida
Por um lugar seguro e quente,
Não me guiasse a agulha aérea viva
Pelo mundo como a uma linha

Arseny Tarkovsky

Born to be Wilde

Fiz uma pesquisa no google por "Born to be Wilde", para ver quantas pessoas se lembraram do mesmo trocadilho, e achei esta pérola da literatura de bolso com o mesmo nome.
Diz na capa: "Janelle Denison is a master at creating the perfect bad boy" Há um vídeo e tudo:


Acho que não há enganos: "Sexy, seductive, suspenseful", acho que estão mesmo a falar deste blog.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Realismo e o Elogio da Ingenuidade

"A antipatia do séc. XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do séc. XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho"

Oscar Wilde em "O Retrato de Dorian Gray"


Quantas vezes não se ouve no discurso mundano do dia-a-dia expressões como: "temos que ser realistas!", seguido de uma possibilidade ameaçadora; "na realidade temos que aceitar isto e aquilo", como quem faz uma cedência a uma qualquer ameaça no ar, perigosa.
Nisto os políticos são muito bons (em discurso mundano), e dizem muitas vezes "temos que ser realistas, as coisas não são tão boas como se poderia pensar". Há quem diga até de uma forma mais elucidativa: "eu não sou pessimista, sou realista".

O realismo trata de algo de chocante e de mau, alguma exigência cruel, etc. Coloca-se a realidade como contrário de um ponto de vista ingénuo e romântico que diz que no fundo tudo está bem e que tudo corre pelo melhor. Ser realista é portanto, focar o problema e o que está mal, ser objectivo e racional numa perspectiva de resolução de catástrofes.

Isto é um sistema pelo qual, quando somos realistas, trazemos à consciência todas as coisas más. É o processo pelo qual, segundo uma perspectiva psicodinâmica, o recalcado retorna à consciência.

O que isto significa é que o realismo (como qualquer tipo de "racionalidade") precisa do seu imaginário, que a um nível psíquico, chamamos inconsciente (imagens, memórias, sonhos), que neste caso está recheado de acontecimentos catastróficos. É por isso que Lacan definia o "Real", no seu triângulo real-imaginário-simbólico como o acontecimento traumático que não se consegue assimilar em termos simbólicos (dai a razão de retornar sempre).

Freud dizia que o homem era dominado primeiro por um princípio do prazer e mais tarde quando fica neurótico, desenvolvia o princípio da realidade. O princípio da realidade é estruturante de um ego vigilante, tendo como função "adaptar-se às exigências do mundo externo".

Isto permite-nos falar desta "realidade cruel" como algo de fundamentalmente externo e separado do sujeito. Por isso é que um realismo exacerbado pode perfeitamente resultar em paranóia.

É aliás necessária essa cisão para que se possa falar num eu autónomo pensante, num "penso logo existo" cartesiano. E nesta perspectiva "realista", o Sujeito é fundamentalmento narcisista e perfeito, sendo postulado todo o mal como algo de externo "que acontece" e é aí nesse outro termo da relação que se encontra a realidade. Se este jogo entre dois termos se mantiver e aprofundar, temos um eu cada vez mais perfeito e cada vez mais idealizado e narcísico, e uma "realidade" cada vez mais cruel e ameaçadora e temos os ingredientes para, numa descompensação, termos uma psicose de delírios narcísicos e paranóicos.

Este funcionamento dialéctico pode funcionar de maneiras diferentes, embora este seja o mais comum na sociedade actual, materialista, secular, utilitarista.
Podemos contrapor com uma visão cristã anterior, mais comum nos nossos avós, segundo o qual existe um Deus, exterior que é, fundamentalmente bom e perfeito. Aqui, a perfeição está do lado de Deus, a vida são provações e testes e todos os homens são pecadores.

Não vamos dizer que esta perspectiva é melhor ou pior. Hoje, será uma perspectiva considerada entre outras coisas, como "ingénua", "romântica" e "pouco realista", pois precisa de crendices. Mas também o homem moderno precisa das suas crenças, por exemplo no "Real", que é o Deus de hoje, mau e vingativo e objectivo, um Deus muito parecido com os deuses pagãos primitivos, muito ligados às catástrofes naturais (externas e objectivas). Daí também o noticiário mostrar também catástrofes naturais: vivemos num mundo pagão com Deuses múltiplos, acabou o monoteísmo.

Quanto à visão cristã antiga, penso que há algo que se pode recuperar e está relacionada com essa "ingenuidade" de que é acusada. Faço aqui então esse "elogio da ingenuidade"

Não se pode dissociar o realismo moderno das correntes filosóficas do séc. XVIII do iluminismo e do positivismo que glorificam o homem como ser pensante, racional, que conseguiria dominar a natureza por intermédio da razão, portanto, um eu "perfeito", narcisista, idealizado.

Voltaire viveu nessa altura e muito gozou e criticou essa posição filosófica humana tão arrogante e tão cheia de si. Foi um escritor e pensador genial que apimentava os seus contos e histórias com críticas mordazes, irónicas e picantes sobre os defeitos e falhas humanas.



Uma das suas personagens mais famosas é o Ingénuo, da Hurânia:
"Sempre dei pelo nome de Ingénuo - replicou o hurão - e em Inglaterra sempre me chamaram assim, pois digo sempre ingenuamente o que penso, assim como faço tudo quanto quero."
Trata-se de uma personagem que, para além de dizer sempre despreocupadamente aquilo que pensa, é dotado de uma enorme curiosidade e gosto de conhecer o mundo e é, ao mesmo tempo, humilde e desinteressada sendo que, por ter estas características, ao longo das histórias de Voltaire vai causando sensação e escândalo no confronto com outras personagens comuns, mesquinhas, interesseiras e egoístas.

Numa outra versão desta personagem, o "Cândido", há uma crença imputada a esta personagem retirada directamente do postulado de Leibniz de que "este é o melhor dos mundos possíveis". Cândido é uma personagem parecida com o "Ingénuo" que vai passando por imensas provações, é feito escravo, anda na guerra, é raptado, perde-se, acontece-lhe tudo. Mas no meio dessas provações vai prosseguindo sempre com a ideia de que aquele é "o melhor dos mundos possíveis", mantendo sempre seu optimismo ingénuo.

Em contraponto de um realismo pessimista, proponho então essa ingenuidade optimista em que ao invés de olhar sobre o mundo à procura de ameaças na defesa de um ego orgulhoso e arrogante, há um prazer em olhar o mundo não em defesa de um eu, mas em contemplação daquilo que supera largamente o âmbito de um eu individual. Uma perspectiva em que assumimos a nossa pequenês perante um mundo grande e misterioso.

Depois de Nietzsche preencher a certidão de óbito de Deus, esta morte foi confirmada pelos diálogos ecuménicos em que os líderes religiosos admitem haver espaço para outras religiões ao invés da tentativa antiga de tentar universalizar seu Deus. É isto que a morte de Deus significa, já não existe o Deus monoteísta, ao invés temos uma variedade de religiões que toda a gente diz que respeita (sem seguir até ao fundo) um politeísmo oficial, um retorno ao paganismo.

Assim, o que divide essencialmente as pessoas não é a religião. Como dizia Oscar Wilde, já não há separação entre os que acreditam em Deus e os que não acreditam. O que há é uma divisão entre optimistas e pessimistas. Há duas posições que podemos escolher. A primeira é: "realisticamente, temos que assumir que as pessoas são más e mesquinhas e egoístas" ou ao invés considerar que "as pessoas são naturalmente bondosas e procuram a felicidade".

Ambas as posições são crenças, pois nenhuma destas proposições é verificável. Não podemos correr o mundo e ver pessoa a pessoa, se a humanidade é boa ou má. Por isso temos que escolher.

Eu escolho a segunda, a posição ingénua, a posição que, ao invés de glorificar o poder da razão humana sobre a natureza, arrumando o universo em duas ou três ideias e permitindo-nos a arrogância de pensar que somos perfeitos por sabermos tudo sobre o mundo, pelo contrário parte do princípio de que nunca perceberemos o mundo na sua totalidade pois numa posição ingénua são os sentidos a fonte priveligiada do conhecimento.

Os sentidos são superiores à razão por duas razões. Primeiro, sem os sentidos não haveria razão, ou seja, os sentidos são a causa primeira da razão. Em segundo lugar, o que provém dos sentidos é sempre excessivo, enquanto que a razão é sempre reducionista.

Em suma, no realismo pessimista, pensa-se que se sabe tudo através da razão, e como a razão só serve interesses pessoais, fica-se com um ego do tamanho do mundo. Na posição ingénua que defendo há uma humildade perante o "excesso de mundo" que nos provém dos sentidos.

É esta uma perspectiva que assume que o conhecimento maior do mundo não provém da experiência e da razão, mas sim dos sentidos, que são o alimento do pensamento racional. É uma perspectiva parecida com os empiristas ingleses que Voltaire admirava.

Num dos contos de Voltaire, Micrómegas, um gigante vindo de outro planeta, chega à Terra e um barco cheio de cientistas e filósofos que ao princípio julgava serem insectos, naufraga na sua mão de gigante e começa a falar com eles. A princípio julgava aqueles bichinhos como seres que "gozam as benesses bem puras do vosso globo, (...) devem passar a vida a amar e a pensar."

Rapidamente o gigante é desmentido por um dos humanos, que diz que "há cem mil loucos da nossa espécie usando chapéu que matam outros animais com as cabeças com turbantes, ou que são por estes chacinados"

Desgostoso, o gigante continua a ouvir um partidário de Descartes que dizia que "a alma é um espírito puro que recebeu no ventre materno todas as ideias metafísicas e que, ao sair para o exterior, é obrigada a aprender de novo tudo quanto soube na perfeição"

Pouco impressionado com este "insecto", o gigante ri-se imenso ainda de um partidário de S.Tomás que diz seriamente que todas as coisas do universo foram feitas para servir o homem, e fica impressionado com as palavras de um partidário de Locke que diz o seguinte:
"Que haja substâncias imateriais e inteligentes, disso não duvido. Mas que seja impossível a Deus comunicar o discernimento à matéria, ah! disso duvido mesmo. Venero o poder eterno. Não me cabe a mim abordá-lo. Nada afirmo. Contento-me em crer que existem bastantes mais coisas possíveis do que aquilo que imaginamos"

sábado, 17 de maio de 2008

Campeonato Europeu de Futebol Filosófico

Vai começar o Euro 2008 de futebol, mas o que eu que aqui venho falar é de outro campeonato: o Campenato Europeu de Futebol Filosófico. O primeiro jogo decorreu hoje entre o Existencialismo Fenomenológico e a equipa da Psicanálise Marxista:


Existencialismo Fenomenológico 1 - 1 Psicanálise Marxista

Houve empate nesta primeira jornada entre os existencialistas e os psicodinâmicos de esquerda.
Tratou-se de um belo espectáculo desportivo, com ambas as equipas viradas para o ataque, com grandes jogadas de especulação filosófica a serem explanadas no terreno de jogo.

Os existencialistas apresentaram uma equipa montada num nítido 4-3-3, enquanto que os neuróticos marxistas actuaram no seu dialéctico esquema de 4 -4 -2 clássico.

Logo no início da partida, aos 5 minutos houve uma falta perigosa do psicólogo existencialista Frankl, muito perto da grande área, em zona frontal à baliza. Adorno encarregou-se de bater o livre e o francês Jean Paul Sartre, que estava na barreira, levou as "mãos sujas" à bola, tendo sido assinalada grande penalidade. Marx, o capitão da equipa, não perdoou e o
guarda redes russo Dostoievski sofreu o "Crime e Castigo".

Com 1-0 no marcador os existencialistas partiram para cima do adversário, à procura do prejuízo. O flanco direito da equipa esteve particularmente activo, com os franceses Camus e Sartre a ganharem várias vezes a linha de fundo donde saíram cruzamento perigosos perante a passividade de Marcuse. Numa dessas ocasiões, Nietzsche, com uma enorme "vontade de poder" ganhou de cabeça na área a Freud, e marcou um belíssimo golo, que fixou o resultado final. Lacan ficou a olhar para a bola a entrar na baliza como se de uma cena obscena se tratasse.

Deleuze e Guattari ainda tentaram fazer das suas famosas combinações esquizofrénicas de cortes e recortes dos fluxos de bola, mas Schopenhauer esteve muito sóbrio e seguro, abafando as diabruras destes dois. Também Zizek tentou inverter o rumo dos acontecimentos, muito irrequieto e nervoso no flanco esquerdo, com uma velocidade desconcertante mas muitas vezes inconsequente.

Destaque ainda para um remate ao poste de Kierkegaard que foi o guia espiritual da equipa do existencialismo fenomenológico.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Prémio "Talentos Pessoanos"

Tenho andado ocupado com afazeres académicos, pelo que venho aqui hoje limpar as teias de aranha dos cantos do blog e expressar o meu contentamento por saber que fiquei empatado em primeiro lugar do concurso Talentos Pessoanos da Universidade Fernando Pessoa, na modalidade de poesia com o trabalho "Bolas de Sabão".

Este trabalho é constituído por uma selecção de cinco poemas, sendo cada um deles considerado uma “bola de sabão”. As bolas de sabão não são objectos mas sim acontecimentos.
Uma bola de sabão quando se desfaz, fica com a sua parte de dentro virada para fora, ou seja, do tamanho do mundo, embora os nossos olhos ocultem o surgimento deste gigantesco nada.
Estes poemas são momentos de vida arrancados da cadeia infinita de causas e consequências a que chamamos tempo e que, virados ao contrário, se reterritorializaram nestas “Bolas de Sabão”.

Recebo esta notícia pouco tempo depois do meu aniversário, dia 9 de Maio. Há cerca de três anos, também no dia 9 de Maio de 2005, escrevi o seguinte poema que faz parte deste trabalho:



quanto vale
um belo poema
que não escrevi?

quanto vale
um sonho meu
sem tradução?

talvez tanto
como bolas de sabão
vendidas ao quilo,

talvez tanto
como um dia perfeito
passado sozinho.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

9 de Maio

Não ia deixar passar este dia 9 de Maio sem narcisicamente me vangloriar de hoje ser o meu dia de anos, se bem que não haja nenhum mérito da minha parte: fazer anos significa que a terra deu mais uma volta ao sol e que nós entretanto não morremos.

Mas para muita gente, os números e as datas têm significado profundo e dizem muita coisa. Carl Jung era um desses. Dizia ele que "o número nos ajuda, antes e acima de tudo, a pôr ordem no caos das aparências. É o instrumento indicado para criar ordem ou para apreender uma certa regularidade já presente, mas ainda desconhecida, isto é, um certo ordenamento entre as coisas."

Então vejamos que acontecimentos estão ligados ao dia 9 de Maio. Após curta investigação, descobri que o dia 9 de Maio, para além de ser o dia da Europa, é também o dia em que na Rússia se comemora a vitória URSS na 2ª guerra mundial.

Mais: em 9 de Maio de 1386, foi assinada a Aliança Luso-Britânica entre Portugal e Inglaterra, a mais antiga aliança entre nações em vigor;

Em 9 de Maio de 1605 é publicada a primeira parte Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes;
A 9 de Maio de 1920 Joana D'Arc é canonizada, e também Thomas More foi canonizado a 9 de Maio de 1935.

Ah, e mais importante do que isto tudo, no dia 9 de Maio é também comemorado o "Dia do Orgasmo" na localidade de Piauí, no Brasil. Gostava de saber o que Jung (ou a Maya) tem a dizer sobre tudo isto.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Nova Águia, China, Tibete e Reencarnação Democrática

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

Vai ser lançada no dia 19 de Maio, no Porto, a revista Nova Águia, que pretende retomar o espírito da antiga Águia. Esta revista é também um orgão do MIL, Movimento Internacional Lusófono, ao qual associei o meu nome há uns tempos. Trata-se um movimento que pretende reflectir sobre a ideia de pátria e de uma ideia de Portugal fundada em valores universais.

No dia 30 de Abril houve uma conferência de imprensa aqui no Porto sobre o lançamento desta revista e eu decidi dar lá um pulo, mesmo não sendo jornalista. Afinal, decorreu na fundação José Antunes que descobri ser muito perto de onde moro. Vi o Paulo Borges, Celeste Natário, o Renato Epifânio, em entrevistas. No fim cumprimentei-os, troquei algumas poucas palavras, disse que fazia parte do movimento. Depois tive que me vir embora pois tinha afazeres.

De qualquer maneira, o lançamento oficial da revista é 19 de Maio. Terá entre outras coisas um texto inédito de Agustina Bessa-Luís.

Tive conhecimento do MIL e da Nova Águia há uns meses. Em Dezembro do ano passado comprei o livro Cantos de Amor do VI Dalai Lama. São poemas repletos de lirismo e sensualidade, escritos por um dos Dalai Lamas mais excêntricos que já existiram. O livro tem uma introdução muito boa do Paulo Borges, nome que fixei, e que mais tarde vim a saber ser o presidente da União Budista Portuguesa e membro da direcção do MIL e da Nova Águia.

Nessa introdução é descrita a vida e o contexto histórico de Tsangyang Gyatso, sexto Dalai Lama nascido em 1683. Gyatso foi um Dalai Lama boémio, de cabelos compridos, e suas paixões eram vinho, poesia, mulheres e tabernas. Foi o único Dalai Lama que recusou solenemente os votos monásticos. Amado pelo povo, deixou uma obra poética vasta e muito difundida entre o povo tibetano principalmente. O seu reinado corresponde ao mesmo tempo a um período conturbado na história do tibete, tal como a de hoje. Ocupado pelos mongóis, foi nessa altura que os Chineses interviram e libertaram os tibetes da ocupação mongol. É aliás esse ainda o principal argumento do governo chinês quando dizem que o tibete faz parte da China.

Temos visto actualmente nas notícias ser tratada a questão do Tibete. A viagem da tocha olímpica tem causado incómodos e confrontos vários por onde tem passado. Fala-se em boicote de jogos olímpicos e outras eventualidades. Entretanto, a China reatou diálogos com o actual Dalai Lama, o que lança uma atmosfera de expectativa em todo o mundo que acompanha a questão.

No entanto, a China avisou que a questão da independência estaria fora das conversações. Sobre o que é que andarão a conversar, então? Eu aposto que devem andar a negociar "reencarnações".
Para quem não sabe, a China aprovou há algum tempo uma lei que regulamenta a reencarnação. Pode parecer estranho mas é isso mesmo: uma lei que diz que em território chinês a reencarnação só é admissível do ponto de vista legal mediante determinadas condições tal e tal, etc.

O que se pretende daqui é logicamente a tentativa da China de controlar o próximo Dalai Lama e a sua descendência. A passagem do Dharma, processo que designa o líder espiritual e político do povo tibetano, faz-se como sempre se fez, através da reencarnação, por intermédio de um oráculo. Perante a lei que os chineses fizeram aprovar, em resposta o Dalai Lama já sugeriu que a passagem do Dharma poderia modificar-se, passar a ser feita através do voto de um conselho de anciãos do tibete, ou seja uma espécie de democracia. Também já ouvimos Dalai Lama referir que se demitirá do cargo de líder secular do Tibete caso a violência atinja níveis incontroláveis, pelo que ficaria neste caso apenas com a tutela religiosa e relegando a tutela política do tibete.

Esta discussão sobre a descendência dos Dalai Lamas leva-nos de volta ao poeta, mulherengo e boémio VI Dalai Lama dos anos 1700 e tal. Também na altura houve a discussão acerca da transmissão do Dharma. A rígida estrutura monástica tibetana da altura não gostava muito da vida lírica e rockeira do seu Dalai Lama. Chegaram a consultar o oráculo para confirmar se aquele ser libertino seria o verdadeiro Dalai Lama e a resposta terá sido a mesma: aquele é o Dalai Lama de todos os tibetanos, quem não o seguir será infiel. Mais tarde, Gyatso desapareceu, morreu ou foi morto, não se sabe ao certo. O que é certo é que houve uma discussão profunda na altura sobre se deveriam mudar a descendência dos Dalai Lamas para uma descendência hereditária, pois este tinha muitos descendentes espalhados pelo Tibete dessa forma.

A discussão sobre a reencarnação do Dalai Lama também se discute hoje, passados uns bons 300 anos, embora condições bastante diferentes. Eu pela minha parte, digo que não confio no governo chinês, aquilo não é socialismo nenhum, trata-se mais de um certo capitalismo de estado. Contudo, se há esperança para o comunismo chinês, penso que o segredo está em conseguir com tornar o regime chinês mais humano. Para que tal aconteça, o governo chinês devia valorizar o budismo que lhe pode ser muito útil nesse sentido. De recordar que o budismo é a religião mais praticada pela maioria dos chineses.

E também o governo tibetano, apelidado de teocrático, penso que se trata antes do mais antigo e mais avançado sistema democrático que existe: a reencarnação. Se o líder é escolhido ao "acaso", digamos assim (acaso é a forma como nós ocidentais apelidamos o divino), quer dizer que qualquer um de nós pode ser Dalai Lama, em termos probabilísticos. Só desta forma é que fazemos justiça à crença democrática de que somos todos iguais.

A minha proposta para fazer evoluir o sistema democrático dos países ocidentais como o conhecemos é: sortear o líder entre todos os cidadãos. (sortear porque no mundo de hoje é dos poucos rituais mágicos que nos resta). Termino com um poema de Gyatso, o VI Dalai Lama:


CANTO DE LHASA

Pavões da Índia oriental,
Papagaios das profundezas de Kongpo,
Nascidos embora em países distintos
Em Lhasa se reencontram, onde gira a Roda do Dharma.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

maria vai com as outras, Jorge Luis Borges e Ruy Belo

Outro dia passei na "maria vai com as outras" , loja de livros, tabacos, chás, artesanato, mobiliário, vinhos, etc, na rua do Almada. Aquilo tem uma decoração que que faz lembrar uma cozinha de avó e uma loja de design pós-moderno, tudo ao mesmo tempo. Encontrei lá um livrinho muito giro e a bom preço (7 euros!): Poemas Escolhidos de Jorge Luís Borges traduzidos por Ruy Belo. Aqui deixo uma pérola:

Arte Poética

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdermos como o rio
E que os rostos passam como a água

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,



Ver só a morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e Humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável

Jorge Luis Borges

terça-feira, 22 de abril de 2008

Arte Moderna, Morte e Capitalismo

No Domingo, critiquei a arte moderna foleira que anda por aí, consequência da economização e mercantilismo da arte que subvertem a própria produção artística. Hoje, vi no JN, uma entrevista com Cruzeiro Seixas, figura importante da arte portuguesa que esteve na génese do surrealismo. É um artista que tem evitado expor seus trabalhos, tendo desta feita aberto uma excepção por se tratar de uma exposição de homenagem a Mário Cesariny.

Como justificação da sua recusa em expor o seu trabalho fala-nos sobre a situação da arte em Portugal que encaixa perfeitamente na análise que eu aqui tinha deixado no Domingo:

"A questão é que o mercado das exposições está totalmente distorcido. Hoje, as exposições estão nas mãos de meia dúzia de pessoas que se impõem e se colocam à frente de tudo e de todos. O que se passa é que a arte está entregue a uns aventureiros que fazem tudo e mais alguma coisa para vender. (...)



Hoje acontecem exposições todos os dias e muitas delas são de qualidade duvidosa. Há casos em que o pintor acaba de fazer o quadro, a tinta ainda está fresca e vai logo a correr fazer uma exposição. Tanto ele como o galerista ficam todos contentes, mesmo que a tinta ainda lhes pegue nos dedos. Ora, isso é incrível, porque o pintor acaba por entrar no sistema e, se é verdade que o dinheiro ajuda, também não é menos verdade que não é tudo. O dinheiro, as vendas não podem controlar a arte e muito menos o acto da criação. No meu tempo, era muito diferente, tínhamos a ditadura de Salazar. Hoje, temos a ditadura de pequenos pintores, galeristas e intelectuais que usam a cultura para si próprios e com um resultado muito particular, ter uma vida luxuosa.
(...) Ainda continuo a pensar que o artista deve ser do contra. Contra o Estado, contra o estabelecido, e o que se verifica agora é precisamente o contrário. Há uns senhores galeristas que pedem isto e aquilo e os pintores cumprem imediatamente. A arte não é para se estar de acordo, nem para os artistas se acomodarem às situações.

Entendo pelo que vejo, pelo que me apercebo, que há um baixar os braços dos artistas. Parece q
ue não há ideias novas e o que se vai vendo é uma espécie de academismo da arte moderna. É uma asneira completa e, por isso, surgem por aí todos os dias nomes de que nunca ouvimos falar e, por outro lado, há um leque enorme de grandes exposições que deveriam ser feitas e que ninguém as faz".

Ainda sobre a arte moderna vi no Blog "O Homem que Sabia Demasiado" um post acerca daquele "artista", Guillermo Vargas, que resolveu colocar numa exposição de arte um cão a morrer à fome, e que tem suscitado grande polémica a nível mundial. Comentei da seguinte maneira:

"o gajo (o "artista") pôs-nos todos a falar sobre ele por todos os cantos do mundo. Imaginem quanto não vale agora um trabalho dele! Ele chegou ao estatuto de "polémico mundial" o que é o máximo que se atinge na carreira artística hoje em dia.

É a mesma estratégia dos filmes catástrofe: há um gozo lacaniano perverso em ver representados os nossos maiores medos, um certo gozo super-egóico.

A morte aterroriza-nos, e o medo da morte é o que sustém o edifício da sociedade. Sem o medo da morte não haveria capitalismo, não haveria comércio, não haveria necessidade de iogurtes com bifidus activos e outras palermices. Ninguém mais precisaria de tentar vender seja o que for a ninguém. Quando se esvai o medo da morte, todo o pensamento utilitarista capitalista aparece como coisa de gente assustada demais para viver.

O capitalismo funciona sob o imaginário da morte. O artista vende imaginário. Mais cedo mais tarde haveria artistas a tentar vender a morte."

Não quero terminar sem deixar aqui as palavras com que Adorno começa a sua "Teoria Estética":
"Tornou-se manifesto que tudo o que diz respeito à arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação ao todo, e até mesmo o seu direito à existência. A perda do que se poderia fazer de modo não reflectido ou sem problemas não é compensada pela infinidade manifesta do que se tornou possível e que se propõe à reflexão.

O alargamento das possibilidades revela-se em muitas dimensões como estreitamento. A extensão imensa do que nunca foi pressentido, a que se arrojaram os movimentos artísticos revolucionários cerca de 1910, não proporcionou a felicidade prometida pela aventura. (...)

Entrou-se cada vez mais no turbilhão dos novos tabus; por toda a parte os artistas se alegravam menos do reino de liberdade recentemente adquirido do que aspiravam de novo a uma pretensa ordem, dificilmente mais sólida."
Theodor Adorno

domingo, 20 de abril de 2008

Teste de personalidade do super-herói, história ideologia e política na BD

Fiz um teste para saber que super-herói da Marvel é que eu sou. Aquando da minha infância e adolescência, eu era um leitor e coleccionador fervoroso de banda desenhada da Marvel. Fiquei surpreendido pelos resultados: o teste disse-me que sou Jamie Madrox, o homem múltiplo.
Madrox tem a capacidade de se multiplicar a si mesmo indefinidamente, em imensos clones. Andava sempre com uma ou duas sósias que aproveitava para ter diálogos. Eu gostava muito dele, pois era um é personagem cómico e a ideia de ter muitos eus parece-me uma coisa apelativa de um ponto de vista mais esquizóide.

Em segundo lugar ficou o Doutor Estranho, um mago da califórnia esotérico, com uma fatiota de astrólogo, que fazia variados feitiços.

Em terceiro lugar, ficou o Surfista Prateado, um personagem silencioso, todo prateado, com uma prancha de Surf, que aparecia raramente nas histórias, surfando pelas galáxias fora com divagações filosóficas.

O Homem múltiplo é um dos mutantes do universo da Marvel. Contextualizando, primeiro havia o professor Xavier e os seu X-Men, criação dos anos 60, e depois aparecerem mais mutantes e mais grupos de mutantes. Jamie Madrox é de uma terceira geração de mutantes.

Uma coisa que sempre me interessou foi os paralelismos entre a história americana e a história da banda desenhada americana, quer da Marvel quer da DC Comics.

Por exemplo: a história do movimentos civis americanos em volta da questão racial. Os americanos tinham muitos negros que eram discriminados. Eram humanos, mas eram vistos (e ainda são) como sendo de outra raça. Na altura surgiram duas correntes: a de Martin Luther King, visão mais humanista e universalista, que defendia que brancos e negros deviam viver em igualdade e cooperação mútua, e a de Malcolm X, que defendia que os negros eram de uma raça superior e que se devia emancipar superiorizando-se aos brancos.

Agora a história dos mutantes da Marvel: Começaram a aparecer casos de pessoas que eram diferentes por terem super-poderes, devido a determinações genéticas. A opinião pública descrimina activamente estes chamados "mutantes". Aparece o professor Xavier, telepata, a dizer numa perspectiva humanista e universalista, que humanos e mutantes devem unir esforços pelo bem comum. Para o efeito, Xavier cria uma escola para treinar mutantes e seus super-poderes num grupo (X-Men) que ajude as pessoas para dar uma imagem positiva dos mutantes à sociedade. Já Magneto, que tinha poderes magnéticos, o arqui-inimigo do professor Xavier, argumenta que os mutantes eram de uma raça superior e que se devia emancipar superiorizando-se aos humanos comuns, cria assim a irmandade dos mutantes.

Mas há muitos mais paralelismos: a guerra fria, as grandes questões sociais, a droga, a tecnologia, todas as questões do mundo durante o séc.XX, estão lá representada. Mais, o próprio paradigma dos super-heróis vai se modificando. Se nos primórdios dos anos 20, os super-herois eram lineares, idealistas, com uma clara oposição entre os maus e os bons, este paradigma foi mudando para o do anti-herói ou outras versões, acompanhando mudanças sociológicas. A análise ideológica e histórica da banda desenhada é interessantíssima e não se esgota aqui num post.

Vejam na Wikipedia o artigo sobre o universo Marvel que desenvolve um pouco estas questões sociais na banda desenhada.

Maçãs, Caravanas, Amor platónico, Arte, Salazar, Merda, Idealismo e Materialismo













Ontem estive no Gato Vadio para a apresentação do livro "Caravana" do Rui Amaral. À entrada, apareceu ele gentilmente a oferecer maçãs. O livro, a "Caravana" começa precisamente com esta curta definição de Literatura: "Uma macieira que dá laranjas".
Foi bem jogado. Mas, penso eu com os meus botões, afinal eram maçãs ou laranjas?

Quem lá esteve, saberá. E quem lá esteve também ouviu o Rui Amaral ler um dos contos do livro que dá pelo nome "Amor Platónico":

"Para passar o tempo, Platão decidiu divertir-se à custa da sensibilidade de certos poetas. Pois bem, o que fez Platão? Inventou o amor platónico.
Depois, aborrecido com a sua própria invenção, saiu de casa e foi às putas."

Bem, uma coisa vos garanto, este livro não vos deixará aborrecido como Platão. Acho eu. O Rui Lage na apresentção que o Rui Amaral é do mesmo universo do Jorge Luis Borges e do português Gonçalo Tavares, e pelo que li e vi e ouvi, subscrevo.


Outra coisa: isto aconteceu na Rua do Rosário, que é transversal à Rua Miguel Bombarda, onde esteve a decorrer mais uma, como é que se diz, arty party for arty people. Então andámos por ali a espreitar dezenas de galerias de arte ali inauguradas, com animações pela rua toda. Tudo isto com o patrocínio da Famous Grouse. Sim, Whisky à borla. Mas, devo dizer, a maioria das galeria foram uma decepção.

Algumas lá para o fim, ainda me prenderam um pouco, mas... assustam-me algumas tendências que ali vejo espelhadas. Uma tela enorme com a cara do Salazar em mutação de umas fotografias lá do gajo. Sim, gajo. Tratou-se de dar um ar cool, diria, uma gaijificação do Salazar. O que interessa é chocar e tal, ya, tá-se bem. Trata-se da fórmula modernista já gasta de quebrar o tabu. E assim, a arte prossegue de revolução em revolução sem nunca sair da merda. Sim, merda no sentido mais sociológico (de Zygmunt Bauman, por exemplo) do termo se quisermos. Houve aquele conhecido senhor cuja famosa obra era um lata de merda chamada "mérde d'artiste". Não é que recentemente o museu que detem a "lata", teve mesmo a lata de abrir a lata, constatar que ela estava vazia, protestou e reclamou pela falta da dita "merda"! Sim, pois tratava-se de muito dinheiro diziam.

Pois, justamente Freud lembrava como o dinheiro é o correspondente simbólico da "merda". A nossa relação com a merda (e o dinheiro, por consequência) é estabelecida na fase anal quando temos uns três aninhos e temos de controlar o nosso esfincter para aprendermos a não nos borrarmos sozinhos. A sabermos tomar conta da nossa higiene. O prazer do controlo é um prazer da fase anal. As neuroses obsessivas, denotam uma fixação nessa fase (daí que um obsessivo se evoluir na sua neurose, possa ter compulsões de limpeza, etc). E é neste sentido que eu digo que há um tipo de arte que por aí abunda, que é uma arte meramente merdosa (controlo da merda=dinheiro) e isto é o mesmo que tal como vivemos numa sociedade que só pensa em dinheiro (dinheiro=merda).
















Mas não quero dar a ideia de que tudo é mau e tal, este mundo está perdido, etc. É bom haver estes eventos aqui na bela cidade do Porto e que envolvam muita gente, como foi o caso de ontem. Admito que haja quem simplesmente tenha saudade do Salazar. Eu, contudo, tenho saudades de um Portugal que ainda não existe. Sou um utópico. E arte não deve viver sufocada pelo dinheiro. A economização e mercantilismo da arte subverte a própria produção artística, torna-a um produto obsessivo de controlo. Impede a expressão utópica num mundo em que vemos a história a ser reescrita vezes sem conta num movimento de eterno retorno, por questões económicas.

Precisamos de um futuro. E o futuro começa na arte. Nisto sou um idealista. Um comunista idealista, se quisermos. Parece uma contradição. É-o de facto. E também o capitalismo vive das suas contradições. Mas as contradições só são visíveis à luz de um pensamento dialéctico. Já vi materialistas assumidos adoptarem posições tremendamente idealistas, e idealistas revelarem um muito básico materialismo. Seja como for, precisamos de um futuro, e de uma arte que o pinte, não necessariamente através de um realismo soviético, que visto de certa forma, é altamente idealista.

A arte acontece todos os dias. Estar vivo é um acontecimento artístico. A arte é um momento revelado em sua eternidade. A arte é um nó que se dá ao tempo. Um acontecimento que quer ser memória e que se transmuta em acontecimento. O artista é somente um intermediário. Somos todos. Mediadores do espaço e do tempo. Traçamos as linhas e guardamos a boa forma. Ver a linha formada pelo bando de aves, a forma do vento das folhas, a geometria dos limites do mundo. Cérebros são como galáxias, com constelações de neurónios: ursa maior, ursa menor, neurose, imagem do sapato azul, chuva e sistemas abertos. A arte é a beleza primeira, garante da esperança última, na luta do homem com o caos.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Eleições Americanas, Zizek e as Edições Pedago

A propósito do post que aqui coloquei há tempos sobre o pequenino livro de Zizek "Os direitos humanos e o nosso descontentamento", recebi um mail do Pedro Patacho, das edições Pedago, que editou este livro e ficou contente por vê-lo comentado aqui no Born to be Wilde. É uma editora pequena e aproveito para saudar o Pedro Patacho pela escolha que fez editar essa obra deste psicanalista comunista com sotaque de leste.

O Pedro Patacho aproveitou também para dizer que muito brevemente será publicado pelas edições Pedago outro caderno semelhante a esse, também da autoria do Zizek: Para uma apropriação do legado europeu pela esquerda. Fico à espera.

Ainda em relação ao Zizek, vejam a entrevista que ele deu na América sobre as eleições americanas, defendendo a tese de que todo o mundo devia poder votar nas eleições americanas, excepto os americanos.

Sobredotados, a Maria e Aldous Huxley

Na semana passada, no dia 9 de Abril, eu e alguns colegas organizámos o seminário ibérico de sobredotação - diferentes olhares na Universidade Fernando Pessoa. Estiveram lá a Doutora Carmén Pomar, e o Doutor Francisco Reyes Cora e a Doutora Ema Oliveira, especialistas em Sobredotação. Eu e meus colegas também participámos numa das mesas, onde apresentei com o meu colega Carlos Marques um estudo de caso. Carlos falou na situação da "Maria", rapariga de 13 anos, sobredotada, com um QI de 149, cujo pai é trolha em Espanha e a mãe é vendedor part-time. Para lá das apresentações mais teóricas, nossa participação suscitou um interesse acrescido por se tratar de um caso pessoal e não de sobredotados em abstracto. Falei no fim, onde apresentei reflexões algo políticas que fizemos acerca deste caso. Para esse momento propus colocarmos no fim uma passagem de um livro de Aldous Huxley de 1927: "Sobre a Democracia e outros Estudos":

"A nossa política educacional baseia-se em duas enormes falácias. A primeira é a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias autónomas, cujos números podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas ideias. A segunda falácia, é que, todas as mentes são semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educação são sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos métodos, para dentro de mentes radicalmente diferentes.
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio."

No fim de ler esta passagem, salientei a data, 1927, e acrescentei por fim que, ou Huxley era um visionário ou que havia problemas muito antigos. No público houve alguns indivíduos que se denominavam professores, que ficaram bastante irritados com a nossa Maria, com o Huxley e com 1927 e fizeram irritadas insinuações e perguntas confusas. Fiquei todo contente, por sentir ter criado aquela agitação. Até àquele momento, o público tinha estado muito sereno e manso.

De facto, este livro de Huxley é fantástico. Fala sobre a Democracia e critica-a de uma forma tão aberta e tão livre, coisa que hoje não estamos habituados a fazer hoje em dia em que o conceito de democracia foi sacro-santificado. Jacques Ranciére é um dos autores referência actuais sobre o tema da democracia. Mas o conhecido livro dele, "Ódio à Democracia", nunca o cheguei a acabar: Foi nessa altura que, por tuta e meia comprei este excelente livro de Aldous Huxley e esqueci Ranciére. Ele fala em democracia, educação, psicologia de uma forma clara e com aquele estilo apelativo e agradável próprio de Huxley, tal como a sua restante obra revela em livros como "Admirável Mundo Novo", ou "As portas da percepção". Recomendo!

domingo, 6 de abril de 2008

The Pervert's Guide to Cinema

Vi há dias o documentário "The Pervert's Guide to Cinema", onde Slavoj Zizek faz uma interpretação psicanalítica de vários clássicos do cinema, pegando em filmes de David Lynch, Hitchcock, Tarkovsky, e muitos outros. É tanto um guia de cinema para iniciados como um curso de psicanálise para amadores. Aqui está a primeira parte. Os restantes 14 bocados podem ser vistos totalmente à borla no youtube.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Dia das mentiras, Ekman, Artaud e sistemas imunitários

Hoje, 1 de Abril, dia das mentiras, fiquei contente por ver Paul Ekman na televisão a falar nas mentiras do José Sócrates. Não estive no simpósio da Bial a ouvir o Paul Ekman pois estive eu próprio nestes dias ocupado com arte de mentir chamada teatro como referi no post anterior.

Ekman é um perito no decifrar das emoções faciais. Tem uma perspectiva Darwinista do corpo humano segundo o qual, por exemplo as rugas que os velhos apresentam na cara e as suas feições gerais, dependem do total de movimentações habituais que esses velhos apresentaram na cara durante as suas vidas. Se eu sorrir toda a minha vida, no fim terei essa sorriso estampado, encrustado, sulcado, agarrado à minha cara. As emoções mudam-nos fisicamente. Tudo isto são coisas que são pacíficas actualmente do ponto de vista científico.

Mas quando um maluco e drogado encenador de teatro chamado Antoine Artaud no princípio do séc. XX diz que o teatro tem como fim modificar e recriar o corpo humano, e que a morte foi inventada, era razão para, como o fizeram, acharem que ele estava maluco e darem-lhe choques eléctricos, ou que era um grande poeta. De facto era-o, mas não só. Devemos revisitar Artaud e fazer-lhe uma revisão científica. Tal como aliás, ele o teria desejado:

"No teatro, poesia e ciência devem, de ora em diante, identificar-se. Toda a emoção tem bases orgânicas. A cultivar a sua emoção no seu corpo é que o actor volta a carregar a densidade voltaica. Saber-se de antemão em que pontos do corpo devemos tocar, é atirar o espectador aos transes mágicos. E desta preciosa espécie de ciência é que a poesia, no teatro, desde há muito se desabituou." Artaud

O teatro é a arte pela qual os actores acreditam na mentira que contam e executam levando o público a partilhar da ilusão e da magia do corpo. Porque as possibilidades do corpo excedem a imaginação e no entanto suportam-se em imaginário. No fundo da nossa carne está também lá o dilema da verdade e da mentira, que mais não é o dilema do eu e do que não é eu.

Tomemos isto de um ponto de vista muito materialista, muito físico: há o cérebro, mas o cérebro faz parte do sistemas nervoso que é enorme, tem nervos que se espalham por todo o corpo. E depois há o sistema imunitário com o qual mantém íntimas relações. A missão de um sistema imunitário é: destruir tudo o que não é "eu". Não é só o cérebro, esse calhau cinzento que nos dá identidade. Nossos sistemas imunitários também precisam de ter uma imagem daquilo que é eu e o que não é. Nosso sistema imunitário, o mesmo que nos protege de gripes, vírus e infecções, também tem memórias, que são muito mais duradouras. Essa dialéctica do que é e do que não é "eu", traduzida de forma muito simplista entre verdade e mentira, não é somente uma abstracção filosófica: está inscrita no nosso corpo, na própria carne, na matéria de que somos feitos. Isto é visível até por exemplo no nosso sentido de visão. Senão, vejamos o que diz o imunologista Gerald Calahan sobre isto:

"our immune systems tell us that the portraits of self are true (when they aren't). So, at the very heart of the self live two lies. We are a storytelling species. It is our stories that sustain us. Even the most rudimentary of human infections requires that we imagine we know and care about who we are. Likewise, any infection, no matter how minor, would be enough to destroy us without an iron-clad image of non-self, and the ability to act on it. We need both stories and the lies they conceal."

Ah, é verdade, o Artaud dizia que a morte foi inventada. Também nisto, é bem capaz de ter razão, segundo uma perspectiva muita larga da evolucionismo. Callahan fala-nos, neste excelente livro "Faith, Madness and Spontaneous Human Combustion", que as bactérias são imortais. Ou melhor, elas podem morrer, mas não morrem naturalmente, não tem a morte inscrita nos genes como nós. As bactérias são organismos mais básicos do que os seres humanos. Nalgum ponto da evolução, as regras de reprodução para a nossa espécie mudaram, de forma a que nossa espécie está sempre a renovar-se através da morte. Aliás nossas próprias células vão morrendo e renovando-se de tempos. O que fica é a imagem, esse molde e contra-molde de um eu e de um não eu. Desta natureza dialéctica do "eu" humano advém a angústia existencial do ser humano que, segundo Kierkegaard assume três variantes: Desespero da não consciência de possuir um eu, desespero em não querer ser um eu, e um terceiro que é o desespero de querer ser um eu.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Minimal Show, Artaud, o Teatro e a Peste

Sexta-feira foi para o meu grupo de teatro, mais um dia de "Minimal Show", desta vez no auditório Eurico Melo em Santo Tirso. O público esteve em bom número e deu-nos boas reacções. Quanto a nós, penso que estivemos bem, fazemos esta peça com gozo e paixão e penso que isso se nota em palco. É uma peça muito física, muito exigente fisicamente de forma a parecermos uns desenhos animados vivos. E o teatro é muito disso: a invenção e reinvenção do corpo. Espinosa por exemplo perguntava-se muito: "o que pode um corpo?" Já Artaud dizia que o actor é "intérprete sagrado das ocultas virtualidades do corpo"

Durante estes dias andei também inspirado por "Eu, Antonin Artaud", livro de textos vários deste homem multi-facetado que foi actor, encenador, maluco, pintor e poeta, que esteve na génese do movimento surrealista. Para Artaud, o corpo é algo de mágico e de transcendente: a eternidade é visceral e corpórea, a morte foi inventada e o teatro é a revolução do corpo.
No seu texto "O teatro e a peste", Artaud estabelece a relação entre estes dois elementos:

"A peste apodera-se de imagens que dormem, de uma desordem latente, e de repente empurra-as até aos gestos mais extremos; e o teatro, também ele, se apodera de gestos e os empurra até ficarem fora de si: tal como a peste, refaz a cadeia entre o que é e o que não é, entre a virtualidade do possível e o que existe na natureza materializada. (...)

Como a peste, o teatro é uma crise que se desenlaça com a morte ou com a cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa, e depois dela nada mais resta a não ser a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo, não adquirível sem destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; (...) levando os homens a verem-se como são, faz cair a máscara, põe à mostra a mentira, a frouxidão, a baixeza e a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria, que chega às mais claras certezas dos sentidos; e revelando a colectividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isto, nunca teriam tido."

Artaud coloca no fim o problema de saber se "neste mundo que escorrega, suicida sem dar por isso, será encontrado um núcleo de homens capazes de impor esta noção superior do teatro que a todos nós restituirá o equivalente natural e mágico dos dogmas em que deixámos acreditar"

quinta-feira, 27 de março de 2008

Nenhures de Daniel Jonas, ou A Banana de Paranoid Park

Estreia hoje no Teatro Carlos Alberto o espectáculo "Nenhures" de Daniel Jonas. Ontem fui ver o ensaio geral. A peça não tem um enredo simples e determinado. Trata-se mais de uma amálgama de gestos, música e poesia, tudo numa misturadora dos sonhos de um lugar: "nenhures". Desvarios de um dramaturgo com seus alter-egos em palco brincando com as palavras e os encontros. Daniel Jonas é um poeta novo, com uma linguagem luxuriante e brincalhona. Conheço a poesia dele há pouco tempo. Uma vez estava a ver no cinema o Paranoid Park do Gus Van Sant e o Daniel Jonas estava sentado dois lugares ao lado. Ouvi-o comentar uma música de Elliot Smith. À saída do cinema vi-o a comer uma banana que levava no bolso. Este acontecimento e a imagem dele a comer a banana levou-me a querer conhecer mais a sua poesia, pois os poetas conhecem-se nos detalhes. E posso dizer que a banana foi um bom augúrio, trata-se de um bom poeta. Como dramaturgo, esta estreia dele promete. Se não tiverem sítio para onde ir, já sabem: "Nenhures".

domingo, 23 de março de 2008

Os Nove Mil Milhões de Nomes de Deus de Arthur C. Clarke e o humor

Já não coloco aqui nada há uma semana. Na quarta-feira morreu Arthur C. Clarke. O funeral foi ontem, no Sri Lanka, ao som da música de 2001 Odisseia no Espaço, apesar de Clarke ter pedido por escrito que a sua morte não fosse acompanhada de qualquer tipo de ritual religioso. Pois que sua religião era outra, chamada ficção científica, com outros rituais e outras músicas. Clarke não se livra assim tão facilmente da religiosidade. Nunca li nenhum livro dele mas lembro-me do resumo que Jean Baudrillard fez de uma obra dele: "Os nove mil milhões de nomes de Deus":

"Num romance de ciência-ficção, uma confraria de lamas perdidos no fundo do Tibete, dedicam toda a sua vida à recitação dos nomes de Deus, que são inúmeros: nove mil milhões. Quando os tiverem dito e declinado todos, então o mundo acabará, um ciclo completo do mundo. Chegar ao fim do mundo a pé, palavra por palavra, esgotando o conjunto dos significantes de Deus - tal é o seu delírio religioso - ou a verdade da sua pulsão de morte.

Mas os lamas soletram lentamente, o seu ofício dura há séculos. Ouvem então falar de misteriosas máquinas ocidentais, que podem gravar e soletrar a uma velocidade fabulosa. E um deles encomendou um potente computador à IBM para apressar a sua tarefa. Técnicos americanos vêm aos montes do Tibete instalar e programar a máquina. Segundo eles, três meses serão suficientes para chegar ao fim dos nove mil milhões de nomes. Claro que os técnicos não dão o mínimo crédito às consequências proféticas desta contabilidade e, pouco antes do prazo da operação, temendo que os monges se voltem contra eles perante o fracasso da sua profecia, fogem do mosteiro. É então que, ao regressarem ao mundo civilizado, vêem as estrelas a apagar-se uma a uma."

Em nota de rodapé, Baudrillard comenta ainda que "o humor deste romance é tanto mais disparatado quanto procura, erradamente, inscrever a morte onde a pulsão de morte está barrada: os sistemas cibernéticos."

Isto é tirado do livro "Troca Simbólica e a Morte" que comprei há cerca de um ano numa feira do livro do Mercado Ferreira Borges. Não conhecia nada dele, fiquei entusiasmado com a forma como ele descrevia as mais diversas manifestações da pulsão de morte na sociedade moderna. Poucos dias depois, Jean Baudrillard morreu (6 de Março de 2007).

Passado mais de um ano depois, fui agora a uma outra feira no mercado Ferreira Borges, com livros a 1 euro, e encontrei um livro do Gilles Lipovetsky, "A Era do Vazio". Já há algum tempo que procurava ler algo dele. É um sociólogo crítico do moderno e do pós-moderno na mesma linha de Baudrillard, mas muito mais pobre no estilo. Critica a sociedade de consumo, etc etc, faz o discurso clássico da perda de valores, do individualismo e do hedonismo. Mas tem um capítulo interessante sobre o humor que no entanto padece de um problema, na minha opinião: trata o riso e o cómico de forma séria. Tenta explicar o humor e chega a distinguir o cómico velho do cómico moderno com um discurso racional e sério que, basicamente, não tem piada nenhuma.

A maneira de dizer é tão importante quanto o que se diz. O que se diz também é a maneira com que o dizemos, especialmente em anedotas. O erro de tentar explicar o humor de forma séria é o mesmo de pessoas que não entendem uma anedota e pedem que se "explique" a piada.

Freud com a psicanálise tentou explicar tudo. Obviamente que não o conseguiu, mas tentou-o de facto. Freud interpretava coisas como lapsos, sonhos, esquecimentos e anedotas, coisas que são à partida pouco "explicáveis", com hipóteses que ligavam as causas a motivos sexuais, material que curiosamente é muito usado para fazer piadas.

Wittgenstein deu duas hipóteses para Freud tentar explicar tudo com o sexo:
a) ele quer explicar tudo o que é belo de uma maneira porca, querendo com isso quase dizer que ele gosta da obscenidade. Não é obviamente este o caso.
b) As relações que ele estabelece interessam enormemente as pessoas. Têm um encanto. Destruir preconceitos tem encanto.

Wittgenstein é sem dúvida mais engraçado do que Freud, e talvez por isso mesmo foi um bom crítico da sua obra. Já Lacan, que fez uma cisão no movimento psicanalítico tal como a igreja protestante se formou separando-se da igreja católica, também sofre de um problema de estilo.

Zizek é o maior fã de Lacan, mas não lhe perdoa a seriedade excessiva e o estilo rígido e obscuro com que falava na televisão francesa. Zizek
detesta o estilo de Lacan, e usa anedotas e piadas nos seus trabalhos.

Hegel também é um chato, mas teve em Kierkegaard um crítico muito bem humorado, como era preciso. O humor é a forma mais sublime de crítica. Um dos critérios para asseverar a qualidade de um autor é o seu sentido de humor. Como dizia Bergson, o humorista é um moralista disfarçado de sábio. Relembro aqui um texto engraçado de Kierkegaard, sobre o riso:

"Something wonderful happened to me. I was transported into the seventh heaven. All the gods sat there in assembly. By special grace I was accordd the favour of a wish. "Will You", said Mercury, "have youth, or power, or a long life, or the prettiest girl, or any other of many splendours we have in our chest of knick-knacks? So choose, but just one thing."
For a moment, I was at a loss. Then I addressed myself to the gods as follows: "Esteemed contemporaries, I choose one thing: always to have the laughter on my side" Not a single word did one god offer in answer; on the contrary, they all began to laugh. From this I concluded that my prayer was fulfilled and that the gods knew how to express themselves with taste, for it would hardly been fitting gravely to answer, "it has been granted to you"

domingo, 16 de março de 2008

Zizek, Direitos Humanos e a "Terceira Via"

Comprei um livro de Zizek na Fnac por 4,5 euros: "Os Direitos humanos e o Nosso Descontentamento". Este pequeno livro com pouco mais de 40 páginas é uma transcrição de uma comunicação feita por Slavoj Zizek em 1999 sobre os direitos humanos na altura em que se deu o bombardeamento da Nato sobre a Jugoslávia, na altura contra a limpeza étnica operada por Milosevic no Kosovo.

Zizek fala-nos um pouco das relações entre todos aqueles países da antiga Jugoslávia. Nestes, inclui-se a Eslovénia que teve a sua independência muito cedo. Sobre os seus compatriotas, Zizek diz: "Nós, eslovenos, não somos ninguém, somos retrógrados, andamos a copular com ovelhas, com animais. Não tenho quaisquer ilusões sobre nós, eslovenos"

Mais a sério, ou nem por isso, Zizek explica como os direitos humanos são na verdade os direitos que nos permitem violar os 10 mandamentos: "O que significa o direito à privacidade? Basicamente, o direito ao adultério, praticado em segredo, quando ninguém nos vê ou ninguém tem o direito de se imiscuir na no nossa vida. O que significa o direito de perseguir a felicidade e de possuir propriedade privada? Basicamente o direito a roubar, a explorar os outros. O que significa a liberdade de imprensa e a liberdade de expressar a opinião? O direito a mentir. O direito que os cidadãos livres têm de possuir armas - é claramente o direito de matar. E, em última análise, a liberdade de crença religiosa - o direito de celebrar falsos deuses."

Zizek fala também nas diferenças políticas entre a esquerda e a direita nos dias de hoje. Fazendo lembrar Lyotard, refere o desaparecimento das grandes narrativas e projectos históricos-políticos da direita e da esquerda nos tempos que correm. Vivemos hoje como se tivéssemos chegado finalmente ao futuro e que agora não há mais nada para a frente: "Há duas décadas atrás as pessoas ainda discutiam o futuro político da humanidade. Será que o capitalismo vai prevalecer ou será que vai ser suplantado pelo comunismo ou por uma outra forma de totalitarismo? Hoje em dia, pelo contrário, podemos imaginar facilmente a extinção da vida humana, da raça humana, ou o fim da vida na terra, mas é impossível imaginar uma alteração muito mais modesta do sistema social - é como se, mesmo que se extinguisse toda a vida na Terra, o capitalismo pudesse de alguma forma permanecer intacto. Portanto, é possível imaginar o fim do mundo, mas não é possível imaginar o fim do capitalismo."

Zizek fala-nos ainda da "Terceira Via": "Não é sintomático que a conversa sobre a terceira via se torne tão popular precisamente na altura em que os últimos vestígios da segunda via desapareceram? Hoje em dia não existe segunda via. Assim, o que a terceira via significa é precisamente que não existe uma segunda via."

Vemos aqui como o marxismo de Zizek assume contornos muito peculiares, em certos pontos distanciando-se bastante da imagem tradicional daquilo que é ser de esquerda. Tal como quando defende uma visão do cristianismo como uma ideologia revolucionária. A este respeito fizeram-lhe a seguinte pergunta: "A sua postura ideológica alterou-se, tornou-se menos marxista? - Zizek: Não, que eu saiba não. Quando muito, tornei-me mais marxista."