terça-feira, 15 de abril de 2008

Eleições Americanas, Zizek e as Edições Pedago

A propósito do post que aqui coloquei há tempos sobre o pequenino livro de Zizek "Os direitos humanos e o nosso descontentamento", recebi um mail do Pedro Patacho, das edições Pedago, que editou este livro e ficou contente por vê-lo comentado aqui no Born to be Wilde. É uma editora pequena e aproveito para saudar o Pedro Patacho pela escolha que fez editar essa obra deste psicanalista comunista com sotaque de leste.

O Pedro Patacho aproveitou também para dizer que muito brevemente será publicado pelas edições Pedago outro caderno semelhante a esse, também da autoria do Zizek: Para uma apropriação do legado europeu pela esquerda. Fico à espera.

Ainda em relação ao Zizek, vejam a entrevista que ele deu na América sobre as eleições americanas, defendendo a tese de que todo o mundo devia poder votar nas eleições americanas, excepto os americanos.

Sobredotados, a Maria e Aldous Huxley

Na semana passada, no dia 9 de Abril, eu e alguns colegas organizámos o seminário ibérico de sobredotação - diferentes olhares na Universidade Fernando Pessoa. Estiveram lá a Doutora Carmén Pomar, e o Doutor Francisco Reyes Cora e a Doutora Ema Oliveira, especialistas em Sobredotação. Eu e meus colegas também participámos numa das mesas, onde apresentei com o meu colega Carlos Marques um estudo de caso. Carlos falou na situação da "Maria", rapariga de 13 anos, sobredotada, com um QI de 149, cujo pai é trolha em Espanha e a mãe é vendedor part-time. Para lá das apresentações mais teóricas, nossa participação suscitou um interesse acrescido por se tratar de um caso pessoal e não de sobredotados em abstracto. Falei no fim, onde apresentei reflexões algo políticas que fizemos acerca deste caso. Para esse momento propus colocarmos no fim uma passagem de um livro de Aldous Huxley de 1927: "Sobre a Democracia e outros Estudos":

"A nossa política educacional baseia-se em duas enormes falácias. A primeira é a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias autónomas, cujos números podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas ideias. A segunda falácia, é que, todas as mentes são semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educação são sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos métodos, para dentro de mentes radicalmente diferentes.
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio."

No fim de ler esta passagem, salientei a data, 1927, e acrescentei por fim que, ou Huxley era um visionário ou que havia problemas muito antigos. No público houve alguns indivíduos que se denominavam professores, que ficaram bastante irritados com a nossa Maria, com o Huxley e com 1927 e fizeram irritadas insinuações e perguntas confusas. Fiquei todo contente, por sentir ter criado aquela agitação. Até àquele momento, o público tinha estado muito sereno e manso.

De facto, este livro de Huxley é fantástico. Fala sobre a Democracia e critica-a de uma forma tão aberta e tão livre, coisa que hoje não estamos habituados a fazer hoje em dia em que o conceito de democracia foi sacro-santificado. Jacques Ranciére é um dos autores referência actuais sobre o tema da democracia. Mas o conhecido livro dele, "Ódio à Democracia", nunca o cheguei a acabar: Foi nessa altura que, por tuta e meia comprei este excelente livro de Aldous Huxley e esqueci Ranciére. Ele fala em democracia, educação, psicologia de uma forma clara e com aquele estilo apelativo e agradável próprio de Huxley, tal como a sua restante obra revela em livros como "Admirável Mundo Novo", ou "As portas da percepção". Recomendo!

domingo, 6 de abril de 2008

The Pervert's Guide to Cinema

Vi há dias o documentário "The Pervert's Guide to Cinema", onde Slavoj Zizek faz uma interpretação psicanalítica de vários clássicos do cinema, pegando em filmes de David Lynch, Hitchcock, Tarkovsky, e muitos outros. É tanto um guia de cinema para iniciados como um curso de psicanálise para amadores. Aqui está a primeira parte. Os restantes 14 bocados podem ser vistos totalmente à borla no youtube.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Dia das mentiras, Ekman, Artaud e sistemas imunitários

Hoje, 1 de Abril, dia das mentiras, fiquei contente por ver Paul Ekman na televisão a falar nas mentiras do José Sócrates. Não estive no simpósio da Bial a ouvir o Paul Ekman pois estive eu próprio nestes dias ocupado com arte de mentir chamada teatro como referi no post anterior.

Ekman é um perito no decifrar das emoções faciais. Tem uma perspectiva Darwinista do corpo humano segundo o qual, por exemplo as rugas que os velhos apresentam na cara e as suas feições gerais, dependem do total de movimentações habituais que esses velhos apresentaram na cara durante as suas vidas. Se eu sorrir toda a minha vida, no fim terei essa sorriso estampado, encrustado, sulcado, agarrado à minha cara. As emoções mudam-nos fisicamente. Tudo isto são coisas que são pacíficas actualmente do ponto de vista científico.

Mas quando um maluco e drogado encenador de teatro chamado Antoine Artaud no princípio do séc. XX diz que o teatro tem como fim modificar e recriar o corpo humano, e que a morte foi inventada, era razão para, como o fizeram, acharem que ele estava maluco e darem-lhe choques eléctricos, ou que era um grande poeta. De facto era-o, mas não só. Devemos revisitar Artaud e fazer-lhe uma revisão científica. Tal como aliás, ele o teria desejado:

"No teatro, poesia e ciência devem, de ora em diante, identificar-se. Toda a emoção tem bases orgânicas. A cultivar a sua emoção no seu corpo é que o actor volta a carregar a densidade voltaica. Saber-se de antemão em que pontos do corpo devemos tocar, é atirar o espectador aos transes mágicos. E desta preciosa espécie de ciência é que a poesia, no teatro, desde há muito se desabituou." Artaud

O teatro é a arte pela qual os actores acreditam na mentira que contam e executam levando o público a partilhar da ilusão e da magia do corpo. Porque as possibilidades do corpo excedem a imaginação e no entanto suportam-se em imaginário. No fundo da nossa carne está também lá o dilema da verdade e da mentira, que mais não é o dilema do eu e do que não é eu.

Tomemos isto de um ponto de vista muito materialista, muito físico: há o cérebro, mas o cérebro faz parte do sistemas nervoso que é enorme, tem nervos que se espalham por todo o corpo. E depois há o sistema imunitário com o qual mantém íntimas relações. A missão de um sistema imunitário é: destruir tudo o que não é "eu". Não é só o cérebro, esse calhau cinzento que nos dá identidade. Nossos sistemas imunitários também precisam de ter uma imagem daquilo que é eu e o que não é. Nosso sistema imunitário, o mesmo que nos protege de gripes, vírus e infecções, também tem memórias, que são muito mais duradouras. Essa dialéctica do que é e do que não é "eu", traduzida de forma muito simplista entre verdade e mentira, não é somente uma abstracção filosófica: está inscrita no nosso corpo, na própria carne, na matéria de que somos feitos. Isto é visível até por exemplo no nosso sentido de visão. Senão, vejamos o que diz o imunologista Gerald Calahan sobre isto:

"our immune systems tell us that the portraits of self are true (when they aren't). So, at the very heart of the self live two lies. We are a storytelling species. It is our stories that sustain us. Even the most rudimentary of human infections requires that we imagine we know and care about who we are. Likewise, any infection, no matter how minor, would be enough to destroy us without an iron-clad image of non-self, and the ability to act on it. We need both stories and the lies they conceal."

Ah, é verdade, o Artaud dizia que a morte foi inventada. Também nisto, é bem capaz de ter razão, segundo uma perspectiva muita larga da evolucionismo. Callahan fala-nos, neste excelente livro "Faith, Madness and Spontaneous Human Combustion", que as bactérias são imortais. Ou melhor, elas podem morrer, mas não morrem naturalmente, não tem a morte inscrita nos genes como nós. As bactérias são organismos mais básicos do que os seres humanos. Nalgum ponto da evolução, as regras de reprodução para a nossa espécie mudaram, de forma a que nossa espécie está sempre a renovar-se através da morte. Aliás nossas próprias células vão morrendo e renovando-se de tempos. O que fica é a imagem, esse molde e contra-molde de um eu e de um não eu. Desta natureza dialéctica do "eu" humano advém a angústia existencial do ser humano que, segundo Kierkegaard assume três variantes: Desespero da não consciência de possuir um eu, desespero em não querer ser um eu, e um terceiro que é o desespero de querer ser um eu.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Minimal Show, Artaud, o Teatro e a Peste

Sexta-feira foi para o meu grupo de teatro, mais um dia de "Minimal Show", desta vez no auditório Eurico Melo em Santo Tirso. O público esteve em bom número e deu-nos boas reacções. Quanto a nós, penso que estivemos bem, fazemos esta peça com gozo e paixão e penso que isso se nota em palco. É uma peça muito física, muito exigente fisicamente de forma a parecermos uns desenhos animados vivos. E o teatro é muito disso: a invenção e reinvenção do corpo. Espinosa por exemplo perguntava-se muito: "o que pode um corpo?" Já Artaud dizia que o actor é "intérprete sagrado das ocultas virtualidades do corpo"

Durante estes dias andei também inspirado por "Eu, Antonin Artaud", livro de textos vários deste homem multi-facetado que foi actor, encenador, maluco, pintor e poeta, que esteve na génese do movimento surrealista. Para Artaud, o corpo é algo de mágico e de transcendente: a eternidade é visceral e corpórea, a morte foi inventada e o teatro é a revolução do corpo.
No seu texto "O teatro e a peste", Artaud estabelece a relação entre estes dois elementos:

"A peste apodera-se de imagens que dormem, de uma desordem latente, e de repente empurra-as até aos gestos mais extremos; e o teatro, também ele, se apodera de gestos e os empurra até ficarem fora de si: tal como a peste, refaz a cadeia entre o que é e o que não é, entre a virtualidade do possível e o que existe na natureza materializada. (...)

Como a peste, o teatro é uma crise que se desenlaça com a morte ou com a cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa, e depois dela nada mais resta a não ser a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo, não adquirível sem destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; (...) levando os homens a verem-se como são, faz cair a máscara, põe à mostra a mentira, a frouxidão, a baixeza e a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria, que chega às mais claras certezas dos sentidos; e revelando a colectividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isto, nunca teriam tido."

Artaud coloca no fim o problema de saber se "neste mundo que escorrega, suicida sem dar por isso, será encontrado um núcleo de homens capazes de impor esta noção superior do teatro que a todos nós restituirá o equivalente natural e mágico dos dogmas em que deixámos acreditar"

quinta-feira, 27 de março de 2008

Nenhures de Daniel Jonas, ou A Banana de Paranoid Park

Estreia hoje no Teatro Carlos Alberto o espectáculo "Nenhures" de Daniel Jonas. Ontem fui ver o ensaio geral. A peça não tem um enredo simples e determinado. Trata-se mais de uma amálgama de gestos, música e poesia, tudo numa misturadora dos sonhos de um lugar: "nenhures". Desvarios de um dramaturgo com seus alter-egos em palco brincando com as palavras e os encontros. Daniel Jonas é um poeta novo, com uma linguagem luxuriante e brincalhona. Conheço a poesia dele há pouco tempo. Uma vez estava a ver no cinema o Paranoid Park do Gus Van Sant e o Daniel Jonas estava sentado dois lugares ao lado. Ouvi-o comentar uma música de Elliot Smith. À saída do cinema vi-o a comer uma banana que levava no bolso. Este acontecimento e a imagem dele a comer a banana levou-me a querer conhecer mais a sua poesia, pois os poetas conhecem-se nos detalhes. E posso dizer que a banana foi um bom augúrio, trata-se de um bom poeta. Como dramaturgo, esta estreia dele promete. Se não tiverem sítio para onde ir, já sabem: "Nenhures".

domingo, 23 de março de 2008

Os Nove Mil Milhões de Nomes de Deus de Arthur C. Clarke e o humor

Já não coloco aqui nada há uma semana. Na quarta-feira morreu Arthur C. Clarke. O funeral foi ontem, no Sri Lanka, ao som da música de 2001 Odisseia no Espaço, apesar de Clarke ter pedido por escrito que a sua morte não fosse acompanhada de qualquer tipo de ritual religioso. Pois que sua religião era outra, chamada ficção científica, com outros rituais e outras músicas. Clarke não se livra assim tão facilmente da religiosidade. Nunca li nenhum livro dele mas lembro-me do resumo que Jean Baudrillard fez de uma obra dele: "Os nove mil milhões de nomes de Deus":

"Num romance de ciência-ficção, uma confraria de lamas perdidos no fundo do Tibete, dedicam toda a sua vida à recitação dos nomes de Deus, que são inúmeros: nove mil milhões. Quando os tiverem dito e declinado todos, então o mundo acabará, um ciclo completo do mundo. Chegar ao fim do mundo a pé, palavra por palavra, esgotando o conjunto dos significantes de Deus - tal é o seu delírio religioso - ou a verdade da sua pulsão de morte.

Mas os lamas soletram lentamente, o seu ofício dura há séculos. Ouvem então falar de misteriosas máquinas ocidentais, que podem gravar e soletrar a uma velocidade fabulosa. E um deles encomendou um potente computador à IBM para apressar a sua tarefa. Técnicos americanos vêm aos montes do Tibete instalar e programar a máquina. Segundo eles, três meses serão suficientes para chegar ao fim dos nove mil milhões de nomes. Claro que os técnicos não dão o mínimo crédito às consequências proféticas desta contabilidade e, pouco antes do prazo da operação, temendo que os monges se voltem contra eles perante o fracasso da sua profecia, fogem do mosteiro. É então que, ao regressarem ao mundo civilizado, vêem as estrelas a apagar-se uma a uma."

Em nota de rodapé, Baudrillard comenta ainda que "o humor deste romance é tanto mais disparatado quanto procura, erradamente, inscrever a morte onde a pulsão de morte está barrada: os sistemas cibernéticos."

Isto é tirado do livro "Troca Simbólica e a Morte" que comprei há cerca de um ano numa feira do livro do Mercado Ferreira Borges. Não conhecia nada dele, fiquei entusiasmado com a forma como ele descrevia as mais diversas manifestações da pulsão de morte na sociedade moderna. Poucos dias depois, Jean Baudrillard morreu (6 de Março de 2007).

Passado mais de um ano depois, fui agora a uma outra feira no mercado Ferreira Borges, com livros a 1 euro, e encontrei um livro do Gilles Lipovetsky, "A Era do Vazio". Já há algum tempo que procurava ler algo dele. É um sociólogo crítico do moderno e do pós-moderno na mesma linha de Baudrillard, mas muito mais pobre no estilo. Critica a sociedade de consumo, etc etc, faz o discurso clássico da perda de valores, do individualismo e do hedonismo. Mas tem um capítulo interessante sobre o humor que no entanto padece de um problema, na minha opinião: trata o riso e o cómico de forma séria. Tenta explicar o humor e chega a distinguir o cómico velho do cómico moderno com um discurso racional e sério que, basicamente, não tem piada nenhuma.

A maneira de dizer é tão importante quanto o que se diz. O que se diz também é a maneira com que o dizemos, especialmente em anedotas. O erro de tentar explicar o humor de forma séria é o mesmo de pessoas que não entendem uma anedota e pedem que se "explique" a piada.

Freud com a psicanálise tentou explicar tudo. Obviamente que não o conseguiu, mas tentou-o de facto. Freud interpretava coisas como lapsos, sonhos, esquecimentos e anedotas, coisas que são à partida pouco "explicáveis", com hipóteses que ligavam as causas a motivos sexuais, material que curiosamente é muito usado para fazer piadas.

Wittgenstein deu duas hipóteses para Freud tentar explicar tudo com o sexo:
a) ele quer explicar tudo o que é belo de uma maneira porca, querendo com isso quase dizer que ele gosta da obscenidade. Não é obviamente este o caso.
b) As relações que ele estabelece interessam enormemente as pessoas. Têm um encanto. Destruir preconceitos tem encanto.

Wittgenstein é sem dúvida mais engraçado do que Freud, e talvez por isso mesmo foi um bom crítico da sua obra. Já Lacan, que fez uma cisão no movimento psicanalítico tal como a igreja protestante se formou separando-se da igreja católica, também sofre de um problema de estilo.

Zizek é o maior fã de Lacan, mas não lhe perdoa a seriedade excessiva e o estilo rígido e obscuro com que falava na televisão francesa. Zizek
detesta o estilo de Lacan, e usa anedotas e piadas nos seus trabalhos.

Hegel também é um chato, mas teve em Kierkegaard um crítico muito bem humorado, como era preciso. O humor é a forma mais sublime de crítica. Um dos critérios para asseverar a qualidade de um autor é o seu sentido de humor. Como dizia Bergson, o humorista é um moralista disfarçado de sábio. Relembro aqui um texto engraçado de Kierkegaard, sobre o riso:

"Something wonderful happened to me. I was transported into the seventh heaven. All the gods sat there in assembly. By special grace I was accordd the favour of a wish. "Will You", said Mercury, "have youth, or power, or a long life, or the prettiest girl, or any other of many splendours we have in our chest of knick-knacks? So choose, but just one thing."
For a moment, I was at a loss. Then I addressed myself to the gods as follows: "Esteemed contemporaries, I choose one thing: always to have the laughter on my side" Not a single word did one god offer in answer; on the contrary, they all began to laugh. From this I concluded that my prayer was fulfilled and that the gods knew how to express themselves with taste, for it would hardly been fitting gravely to answer, "it has been granted to you"

domingo, 16 de março de 2008

Zizek, Direitos Humanos e a "Terceira Via"

Comprei um livro de Zizek na Fnac por 4,5 euros: "Os Direitos humanos e o Nosso Descontentamento". Este pequeno livro com pouco mais de 40 páginas é uma transcrição de uma comunicação feita por Slavoj Zizek em 1999 sobre os direitos humanos na altura em que se deu o bombardeamento da Nato sobre a Jugoslávia, na altura contra a limpeza étnica operada por Milosevic no Kosovo.

Zizek fala-nos um pouco das relações entre todos aqueles países da antiga Jugoslávia. Nestes, inclui-se a Eslovénia que teve a sua independência muito cedo. Sobre os seus compatriotas, Zizek diz: "Nós, eslovenos, não somos ninguém, somos retrógrados, andamos a copular com ovelhas, com animais. Não tenho quaisquer ilusões sobre nós, eslovenos"

Mais a sério, ou nem por isso, Zizek explica como os direitos humanos são na verdade os direitos que nos permitem violar os 10 mandamentos: "O que significa o direito à privacidade? Basicamente, o direito ao adultério, praticado em segredo, quando ninguém nos vê ou ninguém tem o direito de se imiscuir na no nossa vida. O que significa o direito de perseguir a felicidade e de possuir propriedade privada? Basicamente o direito a roubar, a explorar os outros. O que significa a liberdade de imprensa e a liberdade de expressar a opinião? O direito a mentir. O direito que os cidadãos livres têm de possuir armas - é claramente o direito de matar. E, em última análise, a liberdade de crença religiosa - o direito de celebrar falsos deuses."

Zizek fala também nas diferenças políticas entre a esquerda e a direita nos dias de hoje. Fazendo lembrar Lyotard, refere o desaparecimento das grandes narrativas e projectos históricos-políticos da direita e da esquerda nos tempos que correm. Vivemos hoje como se tivéssemos chegado finalmente ao futuro e que agora não há mais nada para a frente: "Há duas décadas atrás as pessoas ainda discutiam o futuro político da humanidade. Será que o capitalismo vai prevalecer ou será que vai ser suplantado pelo comunismo ou por uma outra forma de totalitarismo? Hoje em dia, pelo contrário, podemos imaginar facilmente a extinção da vida humana, da raça humana, ou o fim da vida na terra, mas é impossível imaginar uma alteração muito mais modesta do sistema social - é como se, mesmo que se extinguisse toda a vida na Terra, o capitalismo pudesse de alguma forma permanecer intacto. Portanto, é possível imaginar o fim do mundo, mas não é possível imaginar o fim do capitalismo."

Zizek fala-nos ainda da "Terceira Via": "Não é sintomático que a conversa sobre a terceira via se torne tão popular precisamente na altura em que os últimos vestígios da segunda via desapareceram? Hoje em dia não existe segunda via. Assim, o que a terceira via significa é precisamente que não existe uma segunda via."

Vemos aqui como o marxismo de Zizek assume contornos muito peculiares, em certos pontos distanciando-se bastante da imagem tradicional daquilo que é ser de esquerda. Tal como quando defende uma visão do cristianismo como uma ideologia revolucionária. A este respeito fizeram-lhe a seguinte pergunta: "A sua postura ideológica alterou-se, tornou-se menos marxista? - Zizek: Não, que eu saiba não. Quando muito, tornei-me mais marxista."

terça-feira, 11 de março de 2008

Lou Reed e Leonard Cohen

Leonard Cohen vem a Portugal para dar um concerto em Lisboa no dia 19 de Julho. No mesmo dia, Lou Reed estará igualmente em Lisboa a dar um concerto! Como fazer? Fazer a cruel escolha entre optar por um ou outro, ou cortar-me a meio e assistir aos dois concertos? Se me cortar a meio, deixo meu coração a ver Leonard Cohen e as minhas mãos a estalar os dedos no concerto de Lou Reed?

Entretanto, se Lou Reed e Leonard Cohen vão dividir Lisboa, já antes estiveram juntos em Nova Iorque num momento histórico na história do Rock. Leonard Cohen entrou para o "Rock and Roll Hall of Fame" e na cerimónia foi precisamente Lou Reed quem fez as honras da casa. Encontrei no Youtube o registo deste momento histórico onde é possível ver Lou Reed a declamar Cohen, e Cohen a citar Hank Williams.





Há um verso famoso de Cohen que ganha um sentido novo na boca de Lou Reed: "There's a crack in everything, that's where the light gets in". Lou Reed foi sujeito a um tratamento idiota de choques eléctricos quando era novo devido a seu "temperamento". Essa experiência foi algo de muito marcante na vida de Lou Reed que descreve essa experiência como tendo sentido um calor tremendo e visto um forte luz branca. Essa experiência está reflectida em músicas como a "White Light - White Heat", ainda do tempo em que era vocalista dos Velvet Underground.

É também interessante ver Leonard Cohen a responder a Lou Reed, dizendo-lhe que há muitos anos que este fazia parte da sua própria "Ghostly Hall of Fame". Cohen atravessa um momento peculiar da sua longa vida, pois enquanto esteve no mosteiro Zen Mount Baldy, na California, o seu manager desbaratou sua fortuna e assim que voltou da vida de monge viu-se metido novamente em complicações neuróticas e ter que pensar em dinheiro. É por isso que o vemos a fazer esta tournée mundial, que lhe vai permitir, como ele diz, pagar a renda mais um dia, e ajudar a família. Mas Leonard Cohen nunca foi de se queixar muito. Numa entrevista Cohen diz: "I have no money left. I'm not saying it's bad; I have enough of an understanding of the way the world works to understand that these things happen."

Para Cohen, as questões práticas são da mesma ordem que as questões espirituais: "I don't think there is any other consideration but practical. I've never been able to disassociate the spiritual from the practical. I think that what we call the spirit or spirituality is the most intense form of the practical." Como dizia o ditado Zen, a espiritualidade não é pensar em Deus enquanto se descasca batatas: Deus é descascar batatas.

domingo, 9 de março de 2008

A música "parabéns a você" tem dono

Vocês já se questionaram sobre quem inventou a famosa canção "Parabéns a você, nesta data querida..."? Imaginem que o autor da música tivesse registado os respectivos direitos de autor e que toda a gente tinha de pagar para cantar os parabéns em público. Parece ficção?

A Wikipedia diz que a melodia da música foi criada pelas irmãs americanas Mildred e Patricia Smith Hill. Em 1875, essas duas professoras primárias de Louisville, no estado do Kentucky, resolveram compor uma canção para as crianças cantarem na entrada da escola: "Good Morning to All" ("Bom dia a Todos"), com uma letra bem diferente da atual. As irmãs registraram a música em 1893, mas em 1924 ela apareceu sem autorização num livro editado pelo americano Robert Coleman, que surrupiou a melodia e a primeira frase de "Good Morning to All" - o segundo verso ele já alterou para "Happy Birthday To You", o popular "parabéns a você". Na nova versão, a música ganhou popularidade.

Mas, em 1933, Jessica Hill, irmã das criadoras da melodia, resolveu brigar na Justiça pelos direitos autorais da música. Ela venceu: desde então, acredite se quiser, é preciso pagar royalties para tocar o "Parabéns" no rádio, na TV ou no cinema.
Segundo a revista americana Forbes, a gravadora Warner - a atual detentora dos direitos da música - factura em média 2 milhões de dólares por ano só com os royalties do "Parabéns".

É engraçado, mas não me acredito nesta história da Wikipedia. Assim, fui investigar mais um bocado na internet e encontrei uma história bem mais imaginativa e mais fantástica sobre as origens desta música. Encontrei esta história que faz mais justiça a esta música tão célebre:

"A verdade é que "Parabéns Pra Você" foi composta por Doutor Helmanns que, cansado de ser comparado à maionese, foi para Madagascar sob o pretexto de fazer pesquisas científicas. Lá, Doutor Helmanns conheceu a tribo dos Makataka. Os Makataka faziam um impressionante ritual de sacrifício onde ofereciam um homem canhoto ao deus deles. Todos ficaram admirados e a música foi se popularizando entre doutores e mestrandos do mundo inteiro. Anos depois, o hitmaker Morris Albert aproveitou a música dos Makataka e a transformou em Parabéns Pra Você, que foi lançada em disco e fita cassete, na voz de Caetano. Em pouco tempo, a canção tornou-se um sucesso. Tocou no carnaval, ganhou o primeiro lugar na Billboard, levou um grammy e teve até clipe estreando no Fantástico. Doutor Helmanns foi esquecido com o passar dos anos. Nas raras vezes em que é lembrado, é por seu nome parecer muito com o da marca de maionese."

Se dantes as histórias sobre as origens das coisas eram contadas de boca em boca de geração em geração durante milénios, hoje as historias das origens são disputadas por vários indivíduos para ganharem dinheiro. É qualquer coisa do género: "estás a ver o sol? fui eu que o inventei, sempre que fizeres uso dele tens de me conceder privilégios (dinheiro)."

Parece ridículo e absurdo alguém arrogar-se dono do sol. Há aquela história de uma tribo mexicana cujo líder era responsável por vigiar o sol, para que ele nascesse e se pusesse todos os dias. O equívoco é o mesmo que se estende a toda a noção de mercadoria e de propriedade privada. É comum vermos hoje em dia anúncios a vender um "crédito habitação" ou assim, acoplada à mensagem "seja feliz" ou algo assim. Isto parte do princípio de que se pode vender a felicidade acoplada num objecto.

Isto corresponde a um tipo de pensamento animista, muito presente nas crianças. Uma criança desenha um sol colocando-lhe um sorriso e dois olhos, ou seja, atribuímos características humanas a coisa não humanas. E depois arrogamo-nos da sua posse, como quem se arroga da posse de uma mulher ou de uma mãe ou de um filho. As leis das trocas económicas de mercadorias, têm as mesmas leis do tipo de troca emocional entre pessoas. Já Marx dizia que o valor é uma relação entre pessoas dissimulada numa relação entre coisas.

terça-feira, 4 de março de 2008

Sonambulismo, Arbeit Macht Frei, e Kierkegaard

Foi publicado um estudo que diz que um em cada cinco americanos perdeu interesse no sexo. Esta baixa na libido americana deve-se a graves problemas de sono: cerca de 50 milhões de americanos sofrem de problemas de sono, 36% de toda a população já adormeceu a ao volante.
Os americanos dormem em média 6 horas e 40 minutos por dia.

O estilo de vida americano, com as horas e os minutos todos contados, três empregos e quilos de cafeína e açúcar não deixa muito espaço para dormir e sonhar. De facto dormir, é uma perda de tempo, pois enquanto se dorme não se faz dinheiro. Aliás, já há americanos a trabalhar 30 horas por dia, no sector financeiro. Pois enquanto é noite na América, estão abertas bolsas noutro lado do mundo, em Hong-Kong por exemplo, que é preciso acompanhar.

Os americanos e a civilização que inventaram, sofre de demasiada consciência, de um ego demasiado vigilante, de um utilitarismo extremo que não deixa espaço ao sonho. Falta um espaço para sonhar, para o inconsciente. E esse espaço precisa de um tempo. Um tempo para não haver tempo. Quando toda a nossa vida está massacrada pela noção abstracta de tempo, o que há é uma sensação de urgência permanente. Este estilo de vida está bem expresso em filmes catástrofe, ou em séries como 24, que funcionam em "tempo real".

Esta reificação da noção abstracta do tempo faz de nós autênticos robôs. Privados do sono normal, perdemos capacidade crítica, somos mais conformistas, não pensamos tão bem. Simplesmente, se não sonhássemos, não poderíamos sequer ser capazes de pensar. Quem vive sem sonho só resta sonhar acordado num sonambulismo zombie. Há muitas seitas que privam os seus fieis do tempo normal de sono para assim eles se conformarem mais, e estarem mais sugestionáveis. Só assim é que se consegue pôr massas inteiras de pessoas em rituais, todas iguais, feitos carneiros.

Na alemanha Nazi, os campos de concentração tinham a seguinte divisa à porta: "Arbeit Macht Frei", que quer dizer: "O trabalho liberta". Uma apresentadora alemã foi despedida por dizer estas três palavrinhas num programa de televisão, a um senhor em linha que dizia estar atrasado para o emprego.Vejam aqui: http://www.publico.clix.pt/videos/?v=20080201181927&z=1

Um exagero. Os alemães não entendem uma piada. Na verdade, trata-se de pura ironia.
Soren Kierkegaard certamente entendia isto:
"Of all ridiculous things in the world what strikes me as most ridiculous of all is being busy in the world, to be a man quick to his meals and quick to his work. So, when, at the crucial moment, I see a fly settle on such a businessman's nose, or he is bespattered by a carriage which passes him by in even greater haste, or the drawbridge is raised, or a tile falls from the roof and strikes him dead, i laugh from the bottom of my heart. And who could help laughing? For what do they achieve, these busy botchers? Are they not like the housewife who, in confusion at the fire in her house, saved the fire-tongs? What else do they salvage from the great fire of life?" Soren Kierkegaard

Entretanto, o grupo de rock indie britânico "Libertines" tem esta música de um minuto só chamada "Arbeit Macht Frei", que eu decidi por aqui em honra do povo americano.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Paul Ekman, Dalai Lama, e Sorrisos Falsos

Há uns tempo dizia eu sobre o José Sócrates que ele tem sorrisos falsos por causa de um músculo em torno do olho, que puxa as bochechas para cima. Isto é o que diz Paul Ekman, psicólogo especialista em emoções faciais e comportamento não verbal, acerca dos sorrisos verdadeiros e falsos. Paul Ekman vem cá a Portugal, ao Porto, para o Simpósio da Bial "Aquém e Além Do Cérebro"no dias 26 a 29 de Março, na Casa do Médico.

Daniel Goleman, no livro "Emoções Destrutivas e Como Dominá-las", relata a conversa que decorreu entre Paul Ekman e o líder do Tibete, o Dalai Lama:
"Em dois dos estudos que fiz com Richard Davidson, descobrimos padrões diferentes de actividade cerebral relacionados com estes dois tipos de sorriso. Muita da actividade cerebral que encontramos quando existe satisfação genuína ocorre apenas se o músculo em torno do olho está envolvido. (...) Neste campo trabalhei apenas nos Estados Unidos. A nossa investigação mostrou que a maioria das pessoas é facilmente enganada pela fraude, até mesmo polícias, psiquiatras, advogados e agentes da alfândega. São incapazes de detectar uma mentira simplesmente conversando com alguém.
- Então e os políticos? - Perguntou o Dalai Lama, sorrindo.
- Só estudei as mentiras dos políticos e não se eles são capazes de perceber se alguém está a mentir."

E vocês, são bons a distinguir sorrisos verdadeiros e falsos? Qualquer um pode fazer este teste usado por Ekman nas suas investigações. Está disponível no site da BBC, aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Os Sonâmbulos, o Mar e a Nau dos Loucos

Ando a ser subjugado por esta obra portentosa de Herman Broch, "Os Sonâmbulos". Divide-se em três partes, mas ando a ler uma edição rara e velhinha comprada por 5 euros que tem as três partes num só volume de setecentas e tal páginas. É um obra portentosa que começa de forma quase inocente, insinuadora, progride, leva-nos numa viagem pela Europa do fim do séc. XIX até à primeira guerra mundial já no séc XX, por intermédio de personagens que sintetizam cada uma, as angústias, as marcas e os estilos das épocas que se desenrolam.

"Os Sonâmbulos" não é só um romance. Hermann Broch, à medida que obra se desenvolve, vai abrindo o jogo a diversos estilos e discursos que vão desde a acção do próprio romance, passando por momentos de poesia, devaneio filosófico e ensaio estético, tudo a um nível de escrita altíssimo e delicioso. Tem momentos tocantes de profundidade e lucidez de pensamento assim como momentos de humor caricato em diálogos sempre interessantes. A determinada altura, há um passagem sobre o mar que me fez cócegas na alma. Vejam:

"Lá longe o passageiro do paquete (...) não concebe o perigo onde entretanto está mergulhado, não tem consciência de que uma alta montanha de água o separa do fundo dos mares, que é a terra. Só aquele que visa a um objectivo tem medo, pois pelo seu objectivo é que ele teme . (...) Quem vai sobre as ondas do mar não tem objectivo e não pode cumprir-se: está encerrado em si mesmo. Nele o possível dormita. Quem quer que seja que o ame só o pode amar pelo que ele promete, pelo que repousa nele, não pelo que atingiu ou pelo que atingirá. Por isso o homem da terra firme ignora o amor e toma por amor a ansiedade em que vive. (...) Ora quem procura o amor procura o oceano. Fala talvez ainda da terra que está longe, para além dos mares, mas os seus pensamentos estão alhures, pois crê sem fim a viagem, esperança de alma solitária, esperança de se abrir e de acolher a alma estrangeira que nasce da bruma luminosa e se esvai dentro dele, o homem sem entraves, e que o reconhecer naquilo que ele é, o próprio ser, para além do nascimento e da morte."

Esta pequena digressão de Hermann Broch sobre o mar fez-me lembrar um outro romance:
"O Marinheiro que perdeu as graças do mar" de Yukio Mishima, que fala de um Marinheiro que deixa a sua vida no mar para abraçar uma vida em Terra com Fusako e seu filho Noboru:
"Foi o mar que me fez começar a pensar no amor, mais do que outra coisa; quero dizer, num amor por que valha a pena morrer, num amor que consuma uma pessoa. Para um homem fechado durante todo o tempo num barco de aço, o mar assemelha-se demasiado a uma mulher. Coisas como um mar dolente, tempestades marinhas, caprichos do mar, a beleza do peito do mar reflectindo o sol poente, tudo isso se pode conhecer quando se está num barco. Mas mais do que isso, está-se num navio que monta e cavalga o mar e que é constantemente rejeitado, tal como o velho ditado sobre as milhas e milhas de água que não podem matar-nos a sede. A natureza rodeou o marinheiro com todos estes elementos femininos e, no entanto, ele é mantido tão longe quanto um homem pode estar do corpo quente, vivo, da mulher. É aí que problema começa, aí mesmo - tenho a certeza"

O Mar como símbolo do amor, ou da sua ausência. O mar e a sua completa supremacia sobre a nossa pequenês. O mar, sempre tão maior do que qualquer coisa que imaginemos, é forte e simples, líquido e difícil. O viajante do mar abandona-se ao caos, ao esquecimento da terra e a promessa de uma nova. É o mar como o supremo intervalo entre o eu e o outro, uma contemplação das fronteiras infinitas entre a ordem da terra e a indeterminação do mar.
Em boa verdade, quem se abandona ao mar já não tem pátria pois a sua pátria é o mar que banha todas as terras. O viajante do mar está fora do mundo dos homens e é neste sentido, louco na sua verdadeira acepção, tal como mostra a Nau dos Loucos de Bosch

Foucault explica, na sua "História da Loucura", que durante os séculos XV e XVI, os loucos eram escorraçados, enfiados em barcos para deambularem de terra em terra, para serem expulsos de novo, condenados a andar no mar "ad infinitum". Diz Foucault que "confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro da sua própria partida. Mas a isso a água acrescenta a massa obscura dos seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais do que isso, ela purifica. Além do mais, a navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela cada um é confiado ao seu próprio destino, todo embarque é potencialmente, o último. É para o outro mundo que parte o louco em barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca. (...) Postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até aos nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência."

Minimal Show

O João Marques mandou-me algumas fotos do espectáculo "Minimal Show" de Sergi Belbel e Miguel Górriz que o meu grupo de teatro "A Corte da Mula" apresentou no Centro Cultural de Vila das Aves no passado dia 26 de Janeiro. As fotos não ficaram lá muito definidas mas esta deixou-me intrigado:
Foi uma boa estreia. Tivemos muito público e fomos bem recebidos. Mais importante ainda, foi para nós um gozo a interpretação desta peça. Aproveito para anunciar que vamos repetir a brincadeira no auditório Eurico de Melo em Santo Tirso no dia 27 de Março.

Relembro a ficha técnica que eu inventei:
"Trata-se de uma peça dos anos 80 com poucas falas mas muita acção que se situa o seu espaço psicológico entre a esquizofrenia o pós-modernismo. Cenas repetidas que se cruzam umas com as outras, personagens sem identidade em que só lhes resta a procura de uma mecânica dos gestos. Dir-se-ia também que há em determinado momento uma espécie de salto entre o teatro e o meta-teatro. A banda sonora terá ainda um toque de Glam-Rock neste espectáculo. Enfim, se tiverem oportunidade vejam por vocês mesmos. Eu lá estarei, a impersonar a histérica personagem "C"

Direcção: Mário Costa
Som e Desenho: luz Ratão
Caracterização: Tina
Interpretação Carla Azevedo, Miguel Marques, Nuno Rabino, Sandra Mestre e Zé (C'est Moi)"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O Advento Vaginal do Redentor Ponto G


O mundo científico assiste nestes dias a um debate sem precedentes acerca do ponto G da vagina das mulheres. Isto sem dúvida inaugurará uma nova época na história da humanidade. Nos anos 80, mitologias urbanas falavam na emergência de um novo messias, o ponto G. Mas os relatos dessas mulheres que tinham orgasmos melhores e mais fortes que as outras por causa de terem sido abençoadas pelos deuses com o magnânime Ponto G, são relatos fantásticos e obscuros que tem suscitado grande apreensão, incertezas e excitação no mundo até aos dias de hoje.
Mas gloriosos dias se aproximam com a vinda do redentor Ponto G que será visível em todas as vaginas da terra: "Pela primeira vez", disse Jannini à revista New Scientist, torna-se possível determinar de maneira simples, rápida e barata se uma mulher tem ou não um ponto G."

Simples, rápida e barata! Sim, hoje qualquer homem pode saber se a mulher dos seus sonhos tem ponto G! E se tiver, isso significa que esse homem será o feliz contemplado com um espécime novo dessa raça de mulheres novas. Já não é preciso gastar tempo em preliminares e ambientes românticos que exercitem a imaginação e excitem a fêmea. Basta saber com exames ecográficos se existe um ponto G e estimulá-lo para obter numerosos orgasmos automáticos. Viva o mundo moderno! Máxima eficiência! Máximo pragmatismo! Tudo simples, rápido e barato!

Actualmente a maior tarefa da humanidade é saber quantas mulheres têm ponto G. As que não têm devem ser encaminhadas para o programa "novas oportunidades" para outro tipo de funções pois não ter Ponto G, se ainda não é mau para a economia, vai ser num futuro próximo.

"Estamos agora a determinar quantas mulheres têm um ponto G", diz-nos Jannini. "Isso é fácil e é apenas uma questão de tempo: queremos ter pelo menos 200 participantes antes de publicar."
Mas, "o que é mais importante", os investigadores estão já a pensar em possíveis fármacos que permitam aumentar o ponto G das mulheres que o têm.
Quem quiser saber mais vejam esta notícia do Público.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

o lobby gay e a homossexualidade militante

Acabei de descobrir que sou 36% Gay. Façam também este teste engraçado e pateta. O que se pode perguntar é: “Mas afinal de contas és paneleiro ou não?” O mais preciso que posso responder é : ”36%”.
Na verdade, sempre me deixou curioso as rígidas divisões entre homossexualidade e heterossexualidade, entre outras caixotas mentais. Normalmente essa distinção acaba no fundo por ser bastante banal e simplória, em que se diz que o homossexual é o homem que ama homens e a mulher que ama mulheres. Pela minha experiência, é para mim evidente a maioria dos homens amar homens e mulheres e as mulheres amarem homens e mulheres também. Incluindo Gays. Já vi homens também amarem cães, gatos, pássaros, carros, computadores. Mas o que acontece hoje em dia é um fenómeno curioso que é o que eu chamo de homossexualidade militante. Por vários países desse mundo, Canadá, América, Brasil, Israel, Espanha já existem partidos gays. A revindicação dos direitos dos homossexuais está na ordem do dia em muitos países. Na arte então está-se a tornar um lobby poderosíssimo. Há festivais de cinema Gay e Lésbico, há paradas gay, há de tudo. Em relação a isto há uma conversa que ouvi uma vez que é elucidativa: fui à estreia da apresentação do trabalho artístico de um amigo meu, o Hélder, na Maia. Foi com ele que ouvimos o dono do espaço contar que conhecia um rapaz que era um artista novo, cheio de talento, que andava à procura de apoio por parte de cooperativas e grupos de arte, e eis que um desses grupos, bastante influente, começou a acompanhar o trabalho do jovem durante algum tempo. O jovem ficou todo contente mas eis que depois teve a notícia de que não podia ser associado aquele grupo pois não era gay.

A maior lição de sempre de Freud é que o sexo está em todo o lado. Não vale a pena amarrar o desejo como diz Deleuze, porque o desejo é sempre trangressor. E a segunda lição de Freud é a de que, a partir do momento em que há regras para a sexualidade, há uma sociedade. Freud no seu livro “Totem e Tabu”, analisou tribos primitivas e concluiu que eles tinham basicamente duas instâncias sociais, o totem e o tabu. Os totems designavam os clãs, podia ser um animal, árvore, planta, pedra ou um qualquer objecto. Servia para dar nome aos clãs, distingue as linhagens (muitas delas são na forma primitiva, linhagens matrilineares). Os tabus são as proibições acerca da sexualidade, como por exemplo a impossibilidade de ter relações sexuais com membros do mesmo clã. O violar das regras é punido com a morte. É tão proibido o acto como falar dele abertamente ou sequer simbolizá-lo. Assim, Totem e Tabu são indissociáveis. É preciso distinguir os clãs para poder haver regras da sexualidade. E as regras da sexualidade só podem existir se se puder distinguir as linhagens, pois as regras teriam o designo ou a consequência de impedir a consanguinidade. É por isto que é impossível separar a lei e a moral do sexo, pois todo o edifício da moral é construído nos pilares da sexualidade. É por isso que o livro “Totem e Tabu” é dos melhores livros de Freud. A essência da sua obra está lá toda.

Uma das conclusões que Freud tira nesse livro é no quão parecidos somos, do ponto de vista psicológico, com os homens primitivos. Estes operam segundo mecanismos comuns a homens neuróticos modernos. Há por exemplo o que Freud chama de omnipotência dos pensamentos. Quando o pensamento é tomado por Real. Havia uma tribo, mexicana se não me engano, em que um dos homens da tribo tinha a elevada responsabilidade de ficar vigiando o sol , todos os dias, a ver se ele se punha e se nascia todos os dias. É o tipo de pensamento em que o mundo depende directamente daquilo que pensamos: como se o mundo exterior funcionasse tal como nossas as cabecinhas o inventam. È este o plano certo para, em conjunto com as regras da sexualidade, podermos pensar num início daquilo que se chama sentimento de culpa. Havia a história de um individuo de uma tribo que se encontrava a comer uns restos de comida que encontrou no chão. Os antropólogos registaram que um amigo seu se dirigiu a ele advertindo-o de que aquilo eram restos da comida do chefe, ao que ele reagiu caindo fulminante no chão, morto, como que envenenado. A questão é termos um indivíduo que acaba envenenado brutalmente tão somente por seu sentimento de culpa. Um dos sintomas de uma neurose obsessiva assim como aquilo que a psicologia cognitiva chama de perturbação obsessivo-compulsiva é a de que existe um sentimento de culpa em relação a pensamentos, ou seja, sentimo-nos culpados só de pensar numa enventualidade terrível, sem sequer a termos cometido realmente. São pessoas muito metódicas, limpinhas, arrumadinhas, que verificam 50 vezes o bico de gás e assim.

Freud dizia que os neuróticos obsessivas sentiam uma compulsão tremenda nestes actos, comparável ao que Kant chamou de Imperativo Categórico. Freud adianta também que o neurótico obsessivo frequentemente tem dúvidas em relação à sua identidade sexual.
O que está em causa é os nomes, o totem necessário para haver uma identifcação. O homem que assume a sua homossexualidade não resolve por si só a sua neurose obsessiva. Porquê? Porque se passa a identificar da mesma forma sob o signo de um outro totem com respectivos tabus e proibições. O “homossexual” tem também proibições e restrições. Há toda uma imagem, conduta e personalidade que é preciso inventar. Nos tempos que correm isto significa muito prosaicamente um mercado novo.

E o modelo para esta nova personalidade é: a mulher. Já verifiquei que os homossexuais mais assumidos são aqueles que mais apresentam certos traços femininos que correspondem na realidade aos preconceitos dos heterossexuais: é a melhor de se diferenciarem. Na verdade somos todos bisexuais, ou somos simplesmente sexuais. Depende muito dos nomes (ou totems) que usamos. O nome homossexualidade é uma crença. Toda linguagem é suportada em crença. E a homofobia é o medo de um homem ser confundido com uma mulher.
Assim, Carl Jung foi inteligente ao inventar o binómio animus/anima para cada um dos sexos. O animus é o lado mais viril do ser humano e anima o mais meigo e feminino. Todo o homem tem um animus e um anima. Todo o homem tem um lado mulher e toda a mulher tem um lado homem. É normal homens amarem homens e mulheres amarem mulheres. O desejo é forte sobre a terra sem se importar muito com o que nós lhe chamamos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Áustria: Estado proíbe construção de mesquitas

Jorg Haider diz que decisão é «um guia para a Europa», face «ao avanço do Islão» no continente.
O Estado federado austríaco da Caríntia, governado pelo populista de direita , proibiu esta terça-feira a construção de mesquitas e minaretes no seu território, depois de aprovar uma lei que regula o aspecto externo dos edifícios.

O aspecto externo dos edifícios? A reconquista do islão será feita com planos de ordenamento de território e mapas municipais? Socorro! Realmente é difícil de imaginar coisa pior. Segundo a líder da oposição regional social-democrata, «Fazemos uma lei para algo que não existe», disse Gaby Schaunig, lembrando ainda que "não havia nenhum pedido para edificar uma mesquita ou minaretes".

Jorg Haider deve andar a ler muito Kafka. Devia fazer como Robert Smith dos The Cure, ler "O Estrangeiro" do Camus e assim fazer uma música como a Killing an Arab ou algo parecido.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Religião, Marx e Matemática Védica

Outro dia um homem abordou-me no meu caminho para a estação, numa das principais ruas de Espinho: "Você conhece os textos védicos?". Eu disse-lhe que sim, que conhecia e pensei nesses textos com cerca 8000 anos de existência, transmitida primeiro por via oral e depois por via escrita. São textos sagrados, muitos deles são base das religiões budista, hinduísta e não só.
Comecei a falar com o homem e ele me descreveu sucintamente os preceitos e modo de vida védicos. Casam-se aos 25, efectuam retiro espiritual aos 50. Não bebem, não fumam, são vegetarianos. Deu-me um livrinho chamado "Vida Simples, Pensamento Elevado".
Continuámos a falar mais um bocadinho antes de nos despedirmos amigavelmente. Pelo caminho olhei para o livrinho que ele me deu. Na capa, via-se na parte inferior, um homem despindo um uniforme de trabalho escuro e sujo, caindo no meio de porcaria, indo em direcção a um cenário campestre de fundo, bucólico, com natureza, vaquinhas, muita relva verde e crianças nadando no rio: a vida em comunidade em harmonia com a natureza. Pensei nos testemunhas de Jeová, com quem sempre gostei de discutir, e que também gostam de falar no paraíso prometido. Mas estes falam no paraíso como algo a alcançar depois da morte, no fim de uma vida de trabalho. Contrariamente, as comunidades védicas advogam o abandono do trabalho e da cidade para viver em vida esse paraíso junto da natureza, restringindo-se dos prazeres do consumismo citadino. Esta última perspectiva, a de querer um paraíso na terra e não numa qualquer vida depois da morte, pareceu-me mais de acordo com uma perspectiva marxista.
Comecei a ler o livrinho e perdi as minhas dúvidas acerca da proximidade dos vedas com Marx. Senão vejam o que diz o sábio Bhaktivedanta Swami Prabhupada;
"Quanto mais continuarmos a aumentar essas indústrias problemáticas para sufocar a energia vital do ser humano, tanto mais haverá inquietação e insatisfação das pessoas em geral, embora apenas umas poucas pessoas possam viver sumptuosamente através da exploração. (...) A produção de máquinas operatrizes e ferramentas aumenta o modo de vida artificial de uma classe de proprietários interessados e mantém milhares de homens à míngua e na inquietação."
Agora comparemos com o que diz Marx em "O Capital": "À medida que diminui o número de grandes capitalistas que usurpam e monopolizam todas as vantagens deste processo de transformação, cresce a miséria, a opressão, a escravidão, a degenerescência, a exploração, mas também a revolta da classe operária"

A diferença mais óbvia entre os vedas e o marxismo, aparentemente, é uma ser de origem oriental e outro ocidental. Mas essa oposição desfaz-se se considerarmos que o marxismo é uma doutrina económica e política. É que a ciência económica ocidental moderna nada seria sem a matemática. Aliás, sem matemática não teríamos coisas como dinheiro, tecnologia, ciência, computadores, todas essas coisas coisas que identificamos como fazendo parte da essência do mundo ocidental. Isto porque a matemática não foi inventada no ocidente. Foi-nos trazida pela cultura árabe, e quem a transmitiu aos àrabes foram... os vedas, na índia.

Na época em que o maior número que os gregos e romanos usavam era 10 6, os hindus usavam números como 10 53 (ou seja, 10 elevado a potência de 53), com nomes específicos pra isso.
Por volta do séc. 5 d.C, enquanto o Ocidente utilizava ainda os desajeitados algarismos romanos, desenvolveu-se na Índia o sistema decimal posicional, idêntico ao que usamos hoje. Nosso sistema é o próprio sistema hindu, transmitido ao Ocidente através dos árabes séculos depois. Os nomes desses algarismos em sânscrito são claro testemunho desta origem oriental:
1 eka, 2 dvi, 3 tri, 4 catur, 5 panca, 6 sat, 7 sapta, 8 asta, 9 nava.
Também foi inventado pelo indiano Aryabhatta o número "zero" (chamado de "vazio"), ingrediente fundamental para uma numeração verdadeiramente posicional.

Interessante também é esta notícia que, acerca da extrema competitividade ao nível da matemática entre os alunos indianos no acesso a cursos de engenharia, tem-se popularizado o uso da chamada matemática védica. São usadas fórmulas de cálculo matemático que são extrapoladas a partir de fontes dos textos védicos. Pradeep Kumar, que ensina matemática védica, diz que há um interesse crescente entre os aspirantes ao Instituto Indiano de Tecnologia em ter ajuda da matemática védica. Ele ensina mais de 200 estudantes na sala e cerca de 600 através de cursos de longa distância. Vejam esta notícia neste link.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Bertolt Brecht nasceu há 110 anos

Faz hoje, dia 10 de Fevereiro, 110 anos do nascimento do poeta e dramaturgo Bertolt Brecht. Este alemão marxista foi contemporâneo de Hitler. Foi também vítima e testemunha de duas guerras mundiais. Sua obra versa em grande parte a temática das dificuldades da vida nos tempos modernos. Em honra deste senhor então, deixo aqui um poema dele chamado precisamente "Tempos Modernos"


Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.

A carne nova come-se com velhos garfos.

Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.

As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.

Bertolt Brecht

Ainda sobre Brecht e os tempos modernos, há um artigo muito bom de Slavoj Zizek sobre o mundo do ciberespaço, que se chama "The Cyberspace Real", em que ele olha para as tecnologias não somente na perspectiva corrente de que estas são a causa de um conjunto infinito de possibilidades da nossa imaginação, mas sim como a tecnologia é o concretizar das possibilidades da imaginação já perspectivadas anteriormente na história da cultura. Destes "futuros anteriores", Zizek destaca por exemplo Madame Bovary de Flaubert e também, uma peça de Brecht, "The Measure Taken", que é usada como modelo para compreensão lacaniana dos ambientes dos jogos virtuais interactivos de multi-jogadores:

"just before his death, when asked about what part of his works effectively augurs the "drama of the future," Brecht instantly answered "The Measure Taken." As Brecht emphasized again and again, The Measure Taken is ideally to be performed without the observing public, just with the actors repeatedly playing all the roles and thus "learning" the different subject-positions — do we not have here the anticipation of the cyberspace "immersive participation," in which actors engage in the "educational" collective role-playing?" Zizek

Vejam o artigo aqui: http://www.egs.edu/faculty/zizek/zizek-the-cyberspace-real.html

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

...

Vi um homem aproximar-se de mim. "Quem será?" pensei. Olhei e vi. Ele observou-me longamente, de cima a baixo. Eu esperava algo dele. Estava à espera de um determinado acontecimento que seria decisivo. Estava a espera de ver nele algo para que pudesse dar-lhe um nome, torná-lo familiar. Mas ele continuava a olhar-me. Vejo-o a olhar-me cada vez mais fundo e atentamente. Eis então que eu disse: "Eis um homem". De repente, sua postura alterou-se. Ergueu-se, pôs-se numa postura recta, séria, olhando displicentemente para os lados. Não fiz caso disso. Não me impressionou a reacção dele. No entanto, permanecia curioso em relação à sua conduta. Havia ali algo de misterioso. Disse-lhe então: "És um homem estranho". Então, ele fez uma cara de enjoado, meteu as mãos à cara e aninhou-se um pouco. Abaixei-me para o espreitar e então vi-o tirar lentamente a mão o que permitiu ver um sorriso diabólico na cara do homem. Estava com uma cara de quem sabe algo que nós não sabemos e tira gozo disso. Aquele sorriso de quem julga estar detentor do conteúdo inconsciente de outra pessoa e então, há uma satisfação secreta em nos apossarmos do outro desta maneira. Eu olho para aquele homem e penso, que mistérios obscenos ele estará congeminando sobre mim. Que homem absurdo. Rio-me. Ele também se ri. Rimo-nos os dois. Eu rio-me daquilo que eu sei dele mas que ele não sabe. Ele ri-se de algo que sabe de mim mas eu não sei. E rimo-nos, não um do outro, mas sim cada um de seu outro particular. Eu paro de rir. Olho fixamente para o homem. Levanto o braço e ele levanta também. Aproximamos as mãos. E então sinto um contacto frio. É o espelho. E então percebo que toda a minha vida estive do lado errado do espelho. Num determinado momento terei trocado de lugar com o meu outro. Quem sabe? Nunca o poderei saber. O meu outro não me deixa dúvidas. Dá-me sempre razão.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Waking Life

Vi o "Waking Life" (ou na tradução para português, Acordar para a Vida) e é simplesmente um dos melhores filmes que já vi. É de 2001, da autoria de Richard Linklaker. Fala-nos sobre o sonho e a vida, determinismo, livre arbítrio, neurobiologia, política, existencialismo, tudo isto de uma forma simples e fluida, tal como de um sonho se tratasse.
Descobri também que é possível ver o filme completo (!!!) neste link:
http://video.google.com/videoplay?docid=7583894250854515095

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Zen, Trabalho e Lazer



Quando criei este blog aqui há uns tempos anunciei o seu teor anti-utilitarista e anti-pragmatista, ou seja, que este blog não serve para rigorosamente nada. Encontrei uns vídeos no youtube do Alan Watts com o título "Work as play" que se enquadram nessa visão.
O Alan Watts é um dos maiores divulgadores ocidentais do Budismo Zen. Neste vídeo, ele fala-nos na rígida divisão no nosso mundo moderno, entre trabalho e lazer. É dado o exemplo de um motorista de autocarros: trata-se de uma tarefa difícil que requer muitas manobras, estar atento às pessoas que entram, dar o troco, etc. A questão aqui é que, se o motorista encarar essa tarefa como "trabalho", então sua vida é um inferno. Mas se ele, ao invés, vir o seu trabalho como um jogo, então o seu emprego torna-se um divertido e desafiante jogo em que constantemente se faz a camioneta dançar por entre o complicado trânsito, fazendo o motorista chegar ao fim do dia completamente acordado e cheio de energia. O outro lado disto é vermos o lazer como um trabalho, por ser feito de forma compulsiva. Alan Watts dá o exemplo de quando era novo e ninguém na sua escola gostava de correr, porque era obrigatório. É o tipo de coisa que acontece quando alguém nos diz: "És obrigado a ser feliz!" Como é que uma ordem destas pode fazer com que alguém se torne realmente feliz? Há uma banda-desenhada do Calvin & Hobbes que ilustra muito bem esta ideia do lazer compulsivo:


A perspectiva Zen do trabalho e do lazer que Alan Watts nos oferece, permite-nos ver o absurdo que se nos apresenta o mundo de hoje, em que nos é vendido prazer empacotado, com a mensagem: Goza! O prazer do jogo tem de acontecer de forma espontânea, senão não é prazer. Espontânea como? quando são desfeitas as noções de causalidade, e de acção programada vista a um fim. Quando o sujeito se funda em acção, sem qualquer vestígio de intencionalidade.

No clássico de Eugen Herrigel, "O Zen e a arte de atirar o arco", Herrigel pergunta ao seu mestre: "Se fecho a mão com todas as minhas forças, o estremecimento ao abri-la é inevitável. Se me esforço por deixá-la relaxada, a corda liberta-se ainda antes de atingir a tensão máxima. (...) Oscilo entre estes dois tipos de fracasso e não encontro solução.
- Tem que segurar a corda do arco como um bebé aperta o dedo que se lhe estende. Segura-o com tanta firmeza que a força daquele punho minúsculo é sempre motivo de admiração. E quando o solta fá-lo sem a menor sacudidela. E sabe porquê? Porque a criança não pensa: agora vou largar o dedo, para agarrar nesta outra coisa. Sem reflctir, sem intenção nenhuma, vai de um objecto a outro, e dir-se-ia que brinca com eles, se não fosse mais exacto achar que são os objectos que brincam com a criança.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Carnaval

Oscar Wilde dizia que o teatro é mais real do que a vida. Assim, o Carnaval é a época mais genuína do ano. Este ano descobri que, afinal de contas sou um pintor francês.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Darth Vader psicanalisado

Sabiam que Darth Vader tem sentimentos inconscientes não resolvidos e recalcados acerca da homossexualidade? Sim, isto e muito mais foi possível deslindar através da técnica da associação de ideias com Darth Vader sentado no divã:

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Peixes, Coincidências, Mãos a abanar

Certa vez Chuang Tzu e um amigo caminhavam à margem de um rio."Veja os peixes nadando na corrente," disse Chuang Tzu, "Eles estão realmente felizes...".
"Você não é um peixe," replicou seu amigo, "Então você não pode saber se eles estão felizes."
"Você não é Chuang Tzu," disse Chuang Tzu, "Então como você sabe que eu não sei que os peixes estão felizes?"

Conto Zen

"No dia 1 de Abril anotei o seguinte: Hoje é sexta-feira. Teremos peixe no almoço. Alguém mencionou de passagem o costume do "peixe de Abril". De manhã, eu anotara uma inscrição: Est homo totus medius piscis ab imo (o homem todo é peixe pela metade, na parte de baixo). À tarde, uma amiga paciente, que eu já não via desde vários meses, mostrou-me algumas figuras extremamente impressionantes de peixes que ela pintara nesse entretempo. À noite mostraram-me uma peça de bordado que representava um monstro marinho com figura de peixe. No dia 2 de abril, de manhã cedo, uma outra paciente antiga, que eu já não via desde vários anos, contou-me um sonho no qual estava à beira de um lago e via um grande peixe que nadava em sua direcção "aportava", por assim dizer, em cima de seus pés. Por esta época, eu estava empenhado numa pesquisa sobre o símbolo do peixe na História. Só uma das pessoas mencionadas tem conhecimento disto. A suspeita de que este caso seja talvez uma coincidência significativa, isto é, uma conexão acausal, é muito natural. Devo confessar que esta sucessão de acontecimentos me causou impressão. Ela tinha para mim um certo carácter numinoso."

Carl Jung em "Sincronicidade"



"(...) era uma coincidência que a imagem de uma caveira, desconhecida para mim, ocupasse o outro lado do pergaminho, mesmo por baixo do meu desenho do escaravelho - e de uma caveira que se assemelhava ao meu desenho, não só no contorno como nas dimensões. Confesso que esta coincidência me deixou positivanente estupefacto, por um instante. É o efeito vulgar desta espécie de coincidências. O espírito esforça-se em estabelecer uma relação, uma ligação da causa com o efeito e, julgando-se impotente para o conseguir, sofre uma espécie de paralisia momentânea."

"O escaravelho de ouro" de Edgar Allan Poe em "Histórias extraordinárias"


O que é uma coincidência? O que tem de tão mágico e especial? Suponhamos dois amigos que conversam no café uma conversa própria de se ter num café ou nem por isso. Um deles pensa para si mesmo como seria bom sair dali e ir até ao parque, para ter uma conversa de parque ou outra qualquer. Nisto, eis que do outro amigo saem umas palavras ingénuas da sua boca dizendo: “estava a pensar ir até ao parque, estamos lá melhor”.Pasmado, o primeiro amigo não sabe que dizer. Como é que ele se foi lembrar da mesma coisa que eu ao mesmo tempo, pensa ele.
Toda a gente sabe o que isto é, ou seja, a toda a gente já deve ter acontecido algo do género, o que nos deixa sempre com uma sensação de magia e transcendência que não conseguimos confirmar nem desmentir.

Foi no sentido desse confirmar ou desmentir que segundo o nosso amigo Freud, inventámos o princípio da realidade. Passar de um modo alucinatório do pensamento, nos tempos em que para o bicho humano só existia sonho, para um modo de realidade, em que tentamos estabelecer o que é verdade e o que é mentira, o que é real e o que não é, e o que veio primeiro e o que vem a seguir neste caótico mundo que nos rodeia e do qual somos parte, de uma forma paradoxal.
É fácil dizer que, ao beber o copo de água, que ele estava cheio, que depois bebi o copo e pousei-o vazio. É o que o bicho humano faz a toda a hora e a cada momento, e quase que não conseguimos imaginarmo-nos doutra maneira. Contamos o tempo, os segundos, os metros, os quilómetros, o que veio primeiro e o que veio a seguir. E foi assim que inventámos o tempo.
Na verdade, antes de nós já havia outros bichos, os que andavam na água, mais tarde, os que andam na terra e os que andam no ar. Na verdade, há quem diga que, a uma certa altura, tudo o que é vivo era exclusivo da água. Os bichos que andavam na água, os peixes.

“Conforme as águas rolam, tu rolas. As águas banham-te e com elas te banhas e nunca emerges. Nunca saber nada, nunca compreender nada. A tua vida é uma represa de sensações ao longo dos teus flancos, um fluxo nas malhas das tuas barbatanas, ao longo da espiral da tua cauda”.

"O Peixe", D.H. Lawrence



O bicho peixe é assim. O mundo para eles é sensações ao longo das barbatanas e das escamas. Não sabe nem compreende nada. Há também as aves, e estes são bichos parecidos, embora às vezes pousem as patas na terra. Se calhar já foram quadrúpedes como nós também já o fomos. A diferença essencial é essa. Refiro-me ao que Deleuze e Guattari entendiam por desterritorialização e reterritorialização. Houve ao momento em que éramos muito peludos e andávamos com as quatros patas no chão. Depois houve um bicho que se levantou e deixou-se estar assim sem fazer das mãos asas como as aves, e sem no entanto voltar a pô-las no chão. As mãos, que antes usávamos para agarrar o chão e o território como fazem os cães, passaram a ficar suspensas entre o céu e a terra.
E o bicho humano nasceu porque passou a ter um território privilegiado, que tem os seus limites no chão opaco e concreto por baixo, e por outro lado, tem o limite de cima, que não tem fim conhecido, que se estende até aos confins do universo. E essa é uma das angústias primordiais do bicho humano. Está permanentemente obrigado a fazer uma ponte entre o finito e o infinito, a estar na terra a olhar para as estrelas, o sol e a lua, mas de mãos a abanar. Que território é este que temos em frente? Como é que algo assim pode ser sentido como nosso? Como vamos sobreviver aqui? As mãos são suficientes para apalpar um palmo de terra, um de cada vez, mas não consegue apalpar o intervalo entre o céu e a terra. A divisão teve que ser feita noutro lugar, num cérebro talvez, e de uma forma abstracta que não ocupe lugar e que nos deixa de mãos a abanar. Como disse Nietzsche, o homem é uma corda esticada sobre o abismo, entre o animal e o super-homem.

Com os nossos dez dedos, começámos talvez por contar estrelas, sem nunca as podermos agarrar. E foi aí talvez que apareceu a matemática, e outras coisas. Mas nossos cérebros primitivos, que até então só serviam para sonhar e para desejar, tiveram que começar a acomodar números e medidas que são a ligação que arranjámos para com este território novo que nos deixa de mãos a abanar. E este território só poderia então ser partilhado entre bichos humanos desta forma. Percebe-se o bicho que sentiu necessidade de escrever os seus mamutes na gruta, para dizer quantos eram. Começou ai a linguagem, e também o tempo, porque nós ainda olhamos para o céu como o cão que põe uma pata primeiro no chão, e depois põe a outra. Primeiro uma, e depois outra. Foi assim que inventámos o tempo, que mais não é do que por as coisas umas a seguir às outras, encadear acontecimentos. Em consequência, inventámos a causalidade, o dizer que isto aconteceu porque teve uma causa, e a causa porque teve uma causa. Não poderíamos fazer isto sem a noção de tempo.

Voltemos aos nossos bichos humanos que estavam no café, e se lembraram “ao mesmo tempo”, de ir até ao parque. Um deles fica maravilhado sem saber porquê. Na verdade, a parte maravilhosa das coincidências, é que não sabemos dizer o que está primeiro nem o que está depois, é aliás isso que define uma coincidência, o não podermos usar a causalidade para explicar o que está a acontecer. E aí experimentamos o mundo da mesma maneira que o primeiro bicho humano, que tirou as patas do chão, olhou para o céu, e ficou pasmado, e assustado talvez, não sei. Quanto a isso só posso imaginar. Como disse William Blake, tudo o que hoje está provado, foi um dia apenas imaginado. No mundo das coincidências, as coisas acontecem todas ao mesmo tempo e não há nada que possamos provar com certeza. É uma ponte aberta para a imaginação. È o lugar que nos lançou para fazermos cultura e civilizações. Tudo isto porque estamos de mãos a abanar. Não somos como os peixes que estavam em contacto e em união com o seu território, de forma fácil e límpida. Nós somos os sem abrigo por excelência. Somos humanos porque estamos perdidos, e as coincidências lembram-nos exactamente isso.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

José Sócrates tem nome de filósofo mas é um sofista

Hoje apetece-me falar do José Sócrates. O José Sócrates tem nome de filósofo mas é um sofista. Está ao serviço de uma retórica cujos fins são os que mais convém no momento. Há quem não olhe a meios para atingir os seus fins. Mas ele não é desses. Ele é sim, dos que não olha a fins para realizar os seus meios. O José Sócrates é um burocrata. Maneja as palavras como a matéria de um exame oral. É um daqueles alunos que são marrões, decoram a matéria e não arriscam nada de verdadeiramente pessoal e genuíno. Há cerca de dois anos, José Sócrates disse que o discurso dos seus adversário faziam-lhe lembrar “as imagens daquele extraordinário antigo ministro da informação do Iraque, que, com os tanques à porta de Bagdad, continuava a anunciar uma grande vitória iraquiana e a prometer que os americanos seriam esmagados... Porque será?”
O que a mim me vem aqui à memória é um conto Zen:

Durante as guerras civis no Japão feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando - todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria. "Seu tolo!!" ele gritou enquanto desembainhava a espada, "não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?"
Mas o mestre permaneceu completamente tranqüilo. "E você percebe," o mestre replicou calmamente, "que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?"

O Sócrates não entende a diferença entre ele e seus adversários políticos, porque os vê na sua pobre e limitada perspectiva do que é a política. Zizek, num artigo seu, fala precisamente no episódio do primeiro ministro Iraquiano. Refere ainda a distinção de Jeane J. Kirkpatrick entre líderes “autoritários” e “totalitários” que a política Americana usou para distinguir os politicos que deveriam ser apoiados na luta contra os regimes comunistas. Os autoritários são mandões pragmáticos e utilitaristas que se preocupam com poder e riqueza e que são indiferentes acerca de assuntos ideológicos, ainda que possam papaguear sobre uma grande causa para efeitos decorativos. Por outro lado, os lideres totalitários são fanáticos que acreditam na ideologia e que estão dispostos a sacrificar tudo pelos seus ideais. Os americanos lidam melhor com os primeiros do que com os segundos.

O Sócrates é dos primeiros, dos autoritários. São os que podem enganar alguém num dia ou outro, mas não por muito tempo. Sócrates instituiu em Portugal a autoridade da higiene e das estatísticas. O que lhe interessa não é fazer tratados que mudem o mundo. A ele basta-lhe que esse tratado se chame “De Lisboa.” O Sócrates gosta de estudos encomendados a técnicos e de choques tecnológicos. Na mensagem de natal, Sócrates fala só dele. Das suas tarefas do défice. Quando fala sobre os portugueses, é em forma de estatística. A estatística é arte de dizer que, se um homem comeu quatro lagostas, e outros três não comeram nada, então cada homem comeu uma lagosta.

Sócrates sabe que a política é a arte de mentir. Mas o desastre dele é que não sabe mentir. Só sabe mentir quem se acredita nas próprias mentiras que conta. Esqueçam tudo e olhem para a cara dele. Quando ele dá más notícias aos portugueses e lhes pede sacrifícios, ele diz isto a sorrir. Aliás, ele diz seja o que for sempre com a mesma cara. Como quem não entende o que lê, mas lendo-o em voz alta. O Sócrates tem sorrisos falsos enquanto fala ao país. A diferença entre um sorriso simulado e um falso reside num pequeno músculo em torno dos olhos que puxa as maçãs do rosto para cima. É a diferença entre a verdade e a mentira. O que Sócrates propõe para Portugal é ridículo e absurdo. Sócrates acha que a evolução de um país se alcança pelo alterar das estatísticas e indicadores. Sócrates confunde os meios pelos fins e isso é absurdo. Uma das expressões máximas do absurdo é o cómico. Nesse sentido, ninguém mostrou tão bem o que é a essência primordial da política do Sócrates como os Gato Fedorento neste Sketch:

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Minimal Show

No próximo fim-de-semana, eu e o meu grupo de teatro "A Corte da Mula", vamos apresentar a peça "Minimal Show" de Sergi Belbel e Miguel Górriz no Centro Cultural de Vila das Aves, no dia 26 de Janeiro às 21:30.

Trata-se de uma peça dos anos 80 com poucas falas mas muita acção que se situa o seu espaço psicológico entre a esquizofrenia o pós-modernismo. Cenas repetidas que se cruzam umas com as outras, personagens sem identidade em que só lhes resta a procura de uma mecânica dos gestos. Dir-se-ia também que há em determinado momento uma espécie de salto entre o teatro e o meta-teatro. A banda sonora terá ainda um toque de Glam-Rock neste espectáculo. Enfim, se tiverem oportunidade vejam por vocês mesmos. Eu lá estarei, a impersonar a histérica personagem "C"

Direcção: Mário Costa
Som e Desenho: luz Ratão
Caracterização: Tina
Interpretação Carla Azevedo, Miguel Marques, Nuno Rabino, Sandra Mestre e Zé (C'est Moi)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Serpente Emplumada

Adicionei um link para o Blog "Serpente Emplumada" do Paulo Borges, presidente da União Budista Portuguesa. A partir de hoje começarei a participar também nesse blog. Aliás hoje postei lá pela primeira vez este poema:

o outro
começa em nós,
mas não sabemos
onde acaba.

sozinhos
nascemos
no rio do amor,
e assim

falar, falar
é fazer uma ponte
e nunca chegar
a acabá-la

e amar
é começar de novo
o que não tem
princípio nem fim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Revista ACTO #8 - O Futuro

Saiu a oitava edição da revista ACTO. O tema desta edição é o futuro, e conta com um texto da minha autoria denominado "2046 - a idade da mentira". Há ainda mais uma dúzia de artigos, ensaios e poemas bastante bons no seu conjunto, incluindo por exemplo um texto do poeta Manuel Gusmão que é, eu diria, iluminante.
Aqui ficam alguns sítios onde podem adquirir a revista:

Livraria Livros e Papeis - Santo Tirso
Matéria Prima - Porto
Estaleiro Cultural Velha-a-Branca - Braga
Cooperativa Cor de Tangerina - Guimarães
Livraria Entrelivros - Tomar

E aqui fica um pequeno excerto do texto "2046 - A idade da mentira".

Joaquim – Olha Serafim, se entendo bem o que me estás a dizer é caso para ficar deprimido só de pensar no futuro.

Serafim – Oh, Joaquim, não te preocupes, afinal, as coisas que te conto não passam no fim de contas de mentiras.

Joaquim – Pois. O que me estás a contar é apenas mais uma mentira entre todas, não é verdade?

Serafim – Não Joaquim. Estou-te a dizer a verdade quando digo que te estou a mentir. Por isso não estou a mentir.

Joaquim – Bem… O que tu acabaste de dizer não faz muito sentido.

Serafim – Sim, mas sabes, há um filósofo inglês, o Bertrand Russel, que se debruçou do ponto de vista lógico sobre a seguinte questão: Se eu disser que sou mentiroso, estou a dizer a verdade ou estou a mentir?

Joaquim – E a que conclusão chegou?

Serafim – A princípio pensava que era um limite da lógica, mas depois achou que era o problema que estava mal colocado do ponto de vista lógico. De qualquer maneira nunca chegou a responder à questão.

Joaquim - Compreendo perfeitamente. Mas diz-me lá uma coisa. Se tudo são mentiras, então, o que é a verdade?

Serafim – A verdade é uma boa mentira

sábado, 12 de janeiro de 2008

Democracias

O conceito de democracia é uma verdadeira mitologia dos tempos que ocorre. Baseia-se na noção de que todos os homens são iguais e no facto de que, ao por todas as pessoas a por uma cruz num de vários quadrados de um boletim, de 4 em 4 anos, está assegurada uma forma de governo justa e fundadada nos reais anseios do povo.
A primeira noção, a de que todos os homens são iguais, não a comento. A segunda, de que uma cruz num quadrado é o garante de liberdade e auto-determinação dos povos, faz-me pensar que nunca chegámos a avançar muito nas práticas da democracia desde que ela foi inventada. Ela é no máximo, uma má estatística, um teste psicológico muito fraquinho. Imaginem que vos passavam um teste de personalidade em que tinham de escolher entre somente quatro opções, personalidade rosa, amarela, laranja, vermelha e vermelho choque. A pessoa escolheria a cor amarela e dir-se ia que tem uma personalidade amarela. Imaginem agora fazer esse teste a todas as pessoas de Portugal e chegavam ao fim e diziam, os portugueses são amarelos. Imaginem agora representantes das vários tipos de cores de pessoas, e os amarelos festejavam todos vestidos de amarelo o facto de os portugueses terem gostado do amarelo. Fazem discursos grandes e dizem, sim portugueses, obrigado por terem escolhido amarelo, sentimos que querem deste portugal um bom portugal, um portugal amarelo!
Este cenário parece surrealista, mas é este é de facto o golpe de teatro fundador das nossas orgulhosas e vaidosas nações ocidentais desenvolvidas.
Penso que é possível fazer muito mais para por as pessoas de facto a tomar em suas mãos o controlo e o poder de decidir as questões que dizem respeito ao seu país.
Acho que existem muitas pessoas que vêem logo o logro que está envolvido que no acto de votar, na estupidez de votar amarelo ou rosa, como se isso fosse representativo de mim, como se isso pudesse ser usado legitimamente para representar alguém que vai fazer longos discursos amarelos e que acham absurdo a noção de voto como ela se nos apresenta. E essas pessoas não votam. É a chamada abstenção. São a classe política mais injustiçada de todas. Minto, a mais injustiçada são os que votam em branco ou voto nulo.

Face a isto eu tenho uma proposta. Se votamos nas eleições legislativas para por um bando de indivíduos a fazer leis num parlamento, acho que é perfeitamente justificável que, havendo já tantas leis, se evite votar para haver proliferação de leis. Isto evitaria situações como aquela lei americana do estado de Kentucky que diz que "Nenhuma mulher deve aparecer em fato de banho em qualquer auto-estrada do estado, a não ser que venha escoltada por, pelo menos, dois polícias ou, em alternativa, venha armada com um bastão", ou então esta da Florida em "é ilegal uma senhora solteira, divorciada ou viúva fazer pára-quedismo aos Domingos à tarde".
Devia haver uma maneira de protestar contra a democracia na maneira como ela é conduzida, sem deixar que alguém pegue no nosso descontentamento para apregoar discursos vaidosos. Trata-se aqui de dar legitimidade política à abstenção.
O que eu proponho é que os votos não realizados, em branco ou nulos, passem a ser representados no parlamento por lugares vazios. O que há na verdade é um roubo de lugares que justamente não deviam pertencer a ninguém. Se fizerem as contas das legislativas de 2005, vão descobrir que existiram 3196674 abstenções, 103537 votos brancos, e 65515 votos nulos. São ao todo 3365726 portugueses que desaparecem num golpe de mágica quando se anuncia que o PS ganhou por 45%. A seguir começam as barbaridades, começa-se a dizer que metade dos portugueses votou no PS, etc.
Estes 45% são a parte apenas dos votos contados, e não uma percentagem do total dos eleitores possíveis. Eu dei-me ao trabalho de fazer as contas:
Primeiro temos as estatísticas oficiais:















E agora, os resultados reais, onde na verdade não foi o PS que ganhou as eleições, mas sim a abstenção.


As consequências da minha proposta ser levada à frente, é que todos os partidos políticos teriam menos deputados. Seriam ao todo 86 lugares vazios no parlamento. Para aprovar qualquer lei, o Partido Socialista teria que fazer uma coligação como PSD, mas nem isso chegaria para chegarem a ser maioria no parlamento. Seriam obrigados a negociar com o O PCP, Os Verdes, O Bloco de Esquerda e o CDS/PP.
A vida política ia ficar mais animada e mais interessante. Todos os partidos teriam de parar com as acusações mútuas e procurar fazer uso em conjunto da precária legitimidade que têm para fazer leis, ao invés da arrogância e da vaidosice que por aí grassa nesses meios. Acho que as vantagens da minha proposta seriam tais que, paradoxalmente a abstenção iria baixar.