Vocês já se questionaram sobre quem inventou a famosa canção "Parabéns a você, nesta data querida..."? Imaginem que o autor da música tivesse registado os respectivos direitos de autor e que toda a gente tinha de pagar para cantar os parabéns em público. Parece ficção?
A Wikipedia diz que a melodia da música foi criada pelas irmãs americanas Mildred e Patricia Smith Hill. Em 1875, essas duas professoras primárias de Louisville, no estado do Kentucky, resolveram compor uma canção para as crianças cantarem na entrada da escola: "Good Morning to All" ("Bom dia a Todos"), com uma letra bem diferente da atual. As irmãs registraram a música em 1893, mas em 1924 ela apareceu sem autorização num livro editado pelo americano Robert Coleman, que surrupiou a melodia e a primeira frase de "Good Morning to All" - o segundo verso ele já alterou para "Happy Birthday To You", o popular "parabéns a você". Na nova versão, a música ganhou popularidade.
Mas, em 1933, Jessica Hill, irmã das criadoras da melodia, resolveu brigar na Justiça pelos direitos autorais da música. Ela venceu: desde então, acredite se quiser, é preciso pagar royalties para tocar o "Parabéns" no rádio, na TV ou no cinema. Segundo a revista americana Forbes, a gravadora Warner - a atual detentora dos direitos da música - factura em média 2 milhões de dólares por ano só com os royalties do "Parabéns".
É engraçado, mas não me acredito nesta história da Wikipedia. Assim, fui investigar mais um bocado na internet e encontrei uma história bem mais imaginativa e mais fantástica sobre as origens desta música. Encontrei esta história que faz mais justiça a esta música tão célebre:
"A verdade é que "Parabéns Pra Você" foi composta por Doutor Helmanns que, cansado de ser comparado à maionese, foi para Madagascar sob o pretexto de fazer pesquisas científicas. Lá, Doutor Helmanns conheceu a tribo dos Makataka. Os Makataka faziam um impressionante ritual de sacrifício onde ofereciam um homem canhoto ao deus deles. Todos ficaram admirados e a música foi se popularizando entre doutores e mestrandos do mundo inteiro. Anos depois, o hitmaker Morris Albert aproveitou a música dos Makataka e a transformou em Parabéns Pra Você, que foi lançada em disco e fita cassete, na voz de Caetano. Em pouco tempo, a canção tornou-se um sucesso. Tocou no carnaval, ganhou o primeiro lugar na Billboard, levou um grammy e teve até clipe estreando no Fantástico. Doutor Helmanns foi esquecido com o passar dos anos. Nas raras vezes em que é lembrado, é por seu nome parecer muito com o da marca de maionese."
Se dantes as histórias sobre as origens das coisas eram contadas de boca em boca de geração em geração durante milénios, hoje as historias das origens são disputadas por vários indivíduos para ganharem dinheiro. É qualquer coisa do género: "estás a ver o sol? fui eu que o inventei, sempre que fizeres uso dele tens de me conceder privilégios (dinheiro)."
Parece ridículo e absurdo alguém arrogar-se dono do sol. Há aquela história de uma tribo mexicana cujo líder era responsável por vigiar o sol, para que ele nascesse e se pusesse todos os dias. O equívoco é o mesmo que se estende a toda a noção de mercadoria e de propriedade privada. É comum vermos hoje em dia anúncios a vender um "crédito habitação" ou assim, acoplada à mensagem "seja feliz" ou algo assim. Isto parte do princípio de que se pode vender a felicidade acoplada num objecto.
Isto corresponde a um tipo de pensamento animista, muito presente nas crianças. Uma criança desenha um sol colocando-lhe um sorriso e dois olhos, ou seja, atribuímos características humanas a coisa não humanas. E depois arrogamo-nos da sua posse, como quem se arroga da posse de uma mulher ou de uma mãe ou de um filho. As leis das trocas económicas de mercadorias, têm as mesmas leis do tipo de troca emocional entre pessoas. Já Marx dizia que o valor é uma relação entre pessoas dissimulada numa relação entre coisas.
Foi publicado um estudo que diz que um em cada cinco americanos perdeu interesse no sexo. Esta baixa na libido americana deve-se a graves problemas de sono: cerca de 50 milhões de americanos sofrem de problemas de sono, 36% de toda a população já adormeceu a ao volante. Os americanos dormem em média 6 horas e 40 minutos por dia.
O estilo de vida americano, com as horas e os minutos todos contados, três empregos e quilos de cafeína e açúcar não deixa muito espaço para dormir e sonhar. De facto dormir, é uma perda de tempo, pois enquanto se dorme não se faz dinheiro. Aliás, já há americanos a trabalhar 30 horas por dia, no sector financeiro. Pois enquanto é noite na América, estão abertas bolsas noutro lado do mundo, em Hong-Kong por exemplo, que é preciso acompanhar.
Os americanos e a civilização que inventaram, sofre de demasiada consciência, de um ego demasiado vigilante, de um utilitarismo extremo que não deixa espaço ao sonho. Falta um espaço para sonhar, para o inconsciente. E esse espaço precisa de um tempo. Um tempo para não haver tempo. Quando toda a nossa vida está massacrada pela noção abstracta de tempo, o que há é uma sensação de urgência permanente. Este estilo de vida está bem expresso em filmes catástrofe, ou em séries como 24, que funcionam em "tempo real".
Esta reificação da noção abstracta do tempo faz de nós autênticos robôs. Privados do sono normal, perdemos capacidade crítica, somos mais conformistas, não pensamos tão bem. Simplesmente, se não sonhássemos, não poderíamos sequer ser capazes de pensar. Quem vive sem sonho só resta sonhar acordado num sonambulismo zombie. Há muitas seitas que privam os seus fieis do tempo normal de sono para assim eles se conformarem mais, e estarem mais sugestionáveis. Só assim é que se consegue pôr massas inteiras de pessoas em rituais, todas iguais, feitos carneiros.
Na alemanha Nazi, os campos de concentração tinham a seguinte divisa à porta: "Arbeit Macht Frei", que quer dizer: "O trabalho liberta". Uma apresentadora alemã foi despedida por dizer estas três palavrinhas num programa de televisão, a um senhor em linha que dizia estar atrasado para o emprego.Vejam aqui: http://www.publico.clix.pt/videos/?v=20080201181927&z=1
Um exagero. Os alemães não entendem uma piada. Na verdade, trata-se de pura ironia. Soren Kierkegaard certamente entendia isto: "Of all ridiculous things in the world what strikes me as most ridiculous of all is being busy in the world, to be a man quick to his meals and quick to his work. So, when, at the crucial moment, I see a fly settle on such a businessman's nose, or he is bespattered by a carriage which passes him by in even greater haste, or the drawbridge is raised, or a tile falls from the roof and strikes him dead, i laugh from the bottom of my heart. And who could help laughing? For what do they achieve, these busy botchers? Are they not like the housewife who, in confusion at the fire in her house, saved the fire-tongs? What else do they salvage from the great fire of life?" Soren Kierkegaard
Entretanto, o grupo de rock indie britânico "Libertines" tem esta música de um minuto só chamada "Arbeit Macht Frei", que eu decidi por aqui em honra do povo americano.
Há uns tempo dizia eu sobre o José Sócrates que ele tem sorrisos falsos por causa de um músculo em torno do olho, que puxa as bochechas para cima. Isto é o que diz Paul Ekman, psicólogo especialista em emoções faciais e comportamento não verbal, acerca dos sorrisos verdadeiros e falsos. Paul Ekman vem cá a Portugal, ao Porto, para o Simpósio da Bial "Aquém e Além Do Cérebro"no dias 26 a 29 de Março, na Casa do Médico.
Daniel Goleman, no livro "Emoções Destrutivas e Como Dominá-las", relata a conversa que decorreu entre Paul Ekman e o líder do Tibete, o Dalai Lama: "Em dois dos estudos que fiz com Richard Davidson, descobrimos padrões diferentes de actividade cerebral relacionados com estes dois tipos de sorriso. Muita da actividade cerebral que encontramos quando existe satisfação genuína ocorre apenas se o músculo em torno do olho está envolvido. (...) Neste campo trabalhei apenas nos Estados Unidos. A nossa investigação mostrou que a maioria das pessoas é facilmente enganada pela fraude, até mesmo polícias, psiquiatras, advogados e agentes da alfândega. São incapazes de detectar uma mentira simplesmente conversando com alguém. - Então e os políticos? - Perguntou o Dalai Lama, sorrindo. - Só estudei as mentiras dos políticos e não se eles são capazes de perceber se alguém está a mentir."
E vocês, são bons a distinguir sorrisos verdadeiros e falsos? Qualquer um pode fazer este teste usado por Ekman nas suas investigações. Está disponível no site da BBC, aqui.
Ando a ser subjugado por esta obra portentosa de Herman Broch, "Os Sonâmbulos". Divide-se em três partes, mas ando a ler uma edição rara e velhinha comprada por 5 euros que tem as três partes num só volume de setecentas e tal páginas. É um obra portentosa que começa de forma quase inocente, insinuadora, progride, leva-nos numa viagem pela Europa do fim do séc. XIX até à primeira guerra mundial já no séc XX, por intermédio de personagens que sintetizam cada uma, as angústias, as marcas e os estilos das épocas que se desenrolam.
"Os Sonâmbulos" não é só um romance. Hermann Broch, à medida que obra se desenvolve, vai abrindo o jogo a diversos estilos e discursos que vão desde a acção do próprio romance, passando por momentos de poesia, devaneio filosófico e ensaio estético, tudo a um nível de escrita altíssimo e delicioso. Tem momentos tocantes de profundidade e lucidez de pensamento assim como momentos de humor caricato em diálogos sempre interessantes. A determinada altura, há um passagem sobre o mar que me fez cócegas na alma. Vejam:
"Lá longe o passageiro do paquete (...) não concebe o perigo onde entretanto está mergulhado, não tem consciência de que uma alta montanha de água o separa do fundo dos mares, que é a terra. Só aquele que visa a um objectivo tem medo, pois pelo seu objectivo é que ele teme . (...) Quem vai sobre as ondas do mar não tem objectivo e não pode cumprir-se: está encerrado em si mesmo. Nele o possível dormita. Quem quer que seja que o ame só o pode amar pelo que ele promete, pelo que repousa nele, não pelo que atingiu ou pelo que atingirá. Por isso o homem da terra firme ignora o amor e toma por amor a ansiedade em que vive. (...) Ora quem procura o amor procura o oceano. Fala talvez ainda da terra que está longe, para além dos mares, mas os seus pensamentos estão alhures, pois crê sem fim a viagem, esperança de alma solitária, esperança de se abrir e de acolher a alma estrangeira que nasce da bruma luminosa e se esvai dentro dele, o homem sem entraves, e que o reconhecer naquilo que ele é, o próprio ser, para além do nascimento e da morte."
Esta pequena digressão de Hermann Broch sobre o mar fez-me lembrar um outro romance: "O Marinheiro que perdeu as graças do mar" de Yukio Mishima, que fala de um Marinheiro que deixa a sua vida no mar para abraçar uma vida em Terra com Fusako e seu filho Noboru: "Foi o mar que me fez começar a pensar no amor, mais do que outra coisa; quero dizer, num amor por que valha a pena morrer, num amor que consuma uma pessoa. Para um homem fechado durante todo o tempo num barco de aço, o mar assemelha-se demasiado a uma mulher. Coisas como um mar dolente, tempestades marinhas, caprichos do mar, a beleza do peito do mar reflectindo o sol poente, tudo isso se pode conhecer quando se está num barco. Mas mais do que isso, está-se num navio que monta e cavalga o mar e que é constantemente rejeitado, tal como o velho ditado sobre as milhas e milhas de água que não podem matar-nos a sede. A natureza rodeou o marinheiro com todos estes elementos femininos e, no entanto, ele é mantido tão longe quanto um homem pode estar do corpo quente, vivo, da mulher. É aí que problema começa, aí mesmo - tenho a certeza"
O Mar como símbolo do amor, ou da sua ausência. O mar e a sua completa supremacia sobre a nossa pequenês. O mar, sempre tão maior do que qualquer coisa que imaginemos, é forte e simples, líquido e difícil. O viajante do mar abandona-se ao caos, ao esquecimento da terra e a promessa de uma nova. É o mar como o supremo intervalo entre o eu e o outro, uma contemplação das fronteiras infinitas entre a ordem da terra e a indeterminação do mar. Em boa verdade, quem se abandona ao mar já não tem pátria pois a sua pátria é o mar que banha todas as terras. O viajante do mar está fora do mundo dos homens e é neste sentido, louco na sua verdadeira acepção, tal como mostra a Nau dos Loucos de Bosch
Foucault explica, na sua "História da Loucura", que durante os séculos XV e XVI, os loucos eram escorraçados, enfiados em barcos para deambularem de terra em terra, para serem expulsos de novo, condenados a andar no mar "ad infinitum". Diz Foucault que "confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro da sua própria partida. Mas a isso a água acrescenta a massa obscura dos seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais do que isso, ela purifica. Além do mais, a navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela cada um é confiado ao seu próprio destino, todo embarque é potencialmente, o último. É para o outro mundo que parte o louco em barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca. (...) Postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até aos nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo da nossa consciência."
O João Marques mandou-me algumas fotos do espectáculo "Minimal Show" de Sergi Belbel e Miguel Górriz que o meu grupo de teatro "A Corte da Mula" apresentou no Centro Cultural de Vila das Aves no passado dia 26 de Janeiro. As fotos não ficaram lá muito definidas mas esta deixou-me intrigado: Foi uma boa estreia. Tivemos muito público e fomos bem recebidos. Mais importante ainda, foi para nós um gozo a interpretação desta peça. Aproveito para anunciar que vamos repetir a brincadeira no auditório Eurico de Melo em Santo Tirso no dia 27 de Março.
Relembro a ficha técnica que eu inventei: "Trata-se de uma peça dos anos 80 com poucas falas mas muita acção que se situa o seu espaço psicológico entre a esquizofrenia o pós-modernismo. Cenas repetidas que se cruzam umas com as outras, personagens sem identidade em que só lhes resta a procura de uma mecânica dos gestos. Dir-se-ia também que há em determinado momento uma espécie de salto entre o teatro e o meta-teatro. A banda sonora terá ainda um toque de Glam-Rock neste espectáculo. Enfim, se tiverem oportunidade vejam por vocês mesmos. Eu lá estarei, a impersonar a histérica personagem "C"
Direcção: Mário Costa Som e Desenho: luz Ratão Caracterização: Tina Interpretação Carla Azevedo, Miguel Marques, Nuno Rabino, Sandra Mestre e Zé (C'est Moi)"
O mundo científico assiste nestes dias a um debate sem precedentes acerca do ponto G da vagina das mulheres. Isto sem dúvida inaugurará uma nova época na história da humanidade. Nos anos 80, mitologias urbanas falavam na emergência de um novo messias, o ponto G. Mas os relatos dessas mulheres que tinham orgasmos melhores e mais fortes que as outras por causa de terem sido abençoadas pelos deuses com o magnânime Ponto G, são relatos fantásticos e obscuros que tem suscitado grande apreensão, incertezas e excitação no mundo até aos dias de hoje. Mas gloriosos dias se aproximam com a vinda do redentor Ponto G que será visível em todas as vaginas da terra: "Pela primeira vez", disse Jannini à revista New Scientist, torna-se possível determinar de maneira simples, rápida e barata se uma mulher tem ou não um ponto G."
Simples, rápida e barata! Sim, hoje qualquer homem pode saber se a mulher dos seus sonhos tem ponto G! E se tiver, isso significa que esse homem será o feliz contemplado com um espécime novo dessa raça de mulheres novas. Já não é preciso gastar tempo em preliminares e ambientes românticos que exercitem a imaginação e excitem a fêmea. Basta saber com exames ecográficos se existe um ponto G e estimulá-lo para obter numerosos orgasmos automáticos. Viva o mundo moderno! Máxima eficiência! Máximo pragmatismo! Tudo simples, rápido e barato!
Actualmente a maior tarefa da humanidade é saber quantas mulheres têm ponto G. As que não têm devem ser encaminhadas para o programa "novas oportunidades" para outro tipo de funções pois não ter Ponto G, se ainda não é mau para a economia, vai ser num futuro próximo.
"Estamos agora a determinar quantas mulheres têm um ponto G", diz-nos Jannini. "Isso é fácil e é apenas uma questão de tempo: queremos ter pelo menos 200 participantes antes de publicar." Mas, "o que é mais importante", os investigadores estão já a pensar em possíveis fármacos que permitam aumentar o ponto G das mulheres que o têm. Quem quiser saber mais vejam esta notícia do Público.
Acabei de descobrir que sou 36% Gay. Façam também este teste engraçado e pateta. O que se pode perguntar é: “Mas afinal de contas és paneleiro ou não?” O mais preciso que posso responder é : ”36%”. Na verdade, sempre me deixou curioso as rígidas divisões entre homossexualidade e heterossexualidade, entre outras caixotas mentais. Normalmente essa distinção acaba no fundo por ser bastante banal e simplória, em que se diz que o homossexual é o homem que ama homens e a mulher que ama mulheres. Pela minha experiência, é para mim evidente a maioria dos homens amar homens e mulheres e as mulheres amarem homens e mulheres também. Incluindo Gays. Já vi homens também amarem cães, gatos, pássaros, carros, computadores. Mas o que acontece hoje em dia é um fenómeno curioso que é o que eu chamo de homossexualidade militante. Por vários países desse mundo, Canadá, América, Brasil, Israel, Espanha já existem partidos gays. A revindicação dos direitos dos homossexuais está na ordem do dia em muitos países. Na arte então está-se a tornar um lobby poderosíssimo. Há festivais de cinema Gay e Lésbico, há paradas gay, há de tudo. Em relação a isto há uma conversa que ouvi uma vez que é elucidativa: fui à estreia da apresentação do trabalho artístico de um amigo meu, o Hélder, na Maia. Foi com ele que ouvimos o dono do espaço contar que conhecia um rapaz que era um artista novo, cheio de talento, que andava à procura de apoio por parte de cooperativas e grupos de arte, e eis que um desses grupos, bastante influente, começou a acompanhar o trabalho do jovem durante algum tempo. O jovem ficou todo contente mas eis que depois teve a notícia de que não podia ser associado aquele grupo pois não era gay.
A maior lição de sempre de Freud é que o sexo está em todo o lado. Não vale a pena amarrar o desejo como diz Deleuze, porque o desejo é sempre trangressor. E a segunda lição de Freud é a de que, a partir do momento em que há regras para a sexualidade, há uma sociedade. Freud no seu livro “Totem e Tabu”, analisou tribos primitivas e concluiu que eles tinham basicamente duas instâncias sociais, o totem e o tabu. Os totems designavam os clãs, podia ser um animal, árvore, planta, pedra ou um qualquer objecto. Servia para dar nome aos clãs, distingue as linhagens (muitas delas são na forma primitiva, linhagens matrilineares). Os tabus são as proibições acerca da sexualidade, como por exemplo a impossibilidade de ter relações sexuais com membros do mesmo clã. O violar das regras é punido com a morte. É tão proibido o acto como falar dele abertamente ou sequer simbolizá-lo. Assim, Totem e Tabu são indissociáveis. É preciso distinguir os clãs para poder haver regras da sexualidade. E as regras da sexualidade só podem existir se se puder distinguir as linhagens, pois as regras teriam o designo ou a consequência de impedir a consanguinidade. É por isto que é impossível separar a lei e a moral do sexo, pois todo o edifício da moral é construído nos pilares da sexualidade. É por isso que o livro “Totem e Tabu” é dos melhores livros de Freud. A essência da sua obra está lá toda.
Uma das conclusões que Freud tira nesse livro é no quão parecidos somos, do ponto de vista psicológico, com os homens primitivos. Estes operam segundo mecanismos comuns a homens neuróticos modernos. Há por exemplo o que Freud chama de omnipotência dos pensamentos. Quando o pensamento é tomado por Real. Havia uma tribo, mexicana se não me engano, em que um dos homens da tribo tinha a elevada responsabilidade de ficar vigiando o sol , todos os dias, a ver se ele se punha e se nascia todos os dias. É o tipo de pensamento em que o mundo depende directamente daquilo que pensamos: como se o mundo exterior funcionasse tal como nossas as cabecinhas o inventam. È este o plano certo para, em conjunto com as regras da sexualidade, podermos pensar num início daquilo que se chama sentimento de culpa. Havia a história de um individuo de uma tribo que se encontrava a comer uns restos de comida que encontrou no chão. Os antropólogos registaram que um amigo seu se dirigiu a ele advertindo-o de que aquilo eram restos da comida do chefe, ao que ele reagiu caindo fulminante no chão, morto, como que envenenado. A questão é termos um indivíduo que acaba envenenado brutalmente tão somente por seu sentimento de culpa. Um dos sintomas de uma neurose obsessiva assim como aquilo que a psicologia cognitiva chama de perturbação obsessivo-compulsiva é a de que existe um sentimento de culpa em relação a pensamentos, ou seja, sentimo-nos culpados só de pensar numa enventualidade terrível, sem sequer a termos cometido realmente. São pessoas muito metódicas, limpinhas, arrumadinhas, que verificam 50 vezes o bico de gás e assim.
Freud dizia que os neuróticos obsessivas sentiam uma compulsão tremenda nestes actos, comparável ao que Kant chamou de Imperativo Categórico. Freud adianta também que o neurótico obsessivo frequentemente tem dúvidas em relação à sua identidade sexual. O que está em causa é os nomes, o totem necessário para haver uma identifcação. O homem que assume a sua homossexualidade não resolve por si só a sua neurose obsessiva. Porquê? Porque se passa a identificar da mesma forma sob o signo de um outro totem com respectivos tabus e proibições. O “homossexual” tem também proibições e restrições. Há toda uma imagem, conduta e personalidade que é preciso inventar. Nos tempos que correm isto significa muito prosaicamente um mercado novo.
E o modelo para esta nova personalidade é: a mulher. Já verifiquei que os homossexuais mais assumidos são aqueles que mais apresentam certos traços femininos que correspondem na realidade aos preconceitos dos heterossexuais: é a melhor de se diferenciarem. Na verdade somos todos bisexuais, ou somos simplesmente sexuais. Depende muito dos nomes (ou totems) que usamos. O nome homossexualidade é uma crença. Toda linguagem é suportada em crença. E a homofobia é o medo de um homem ser confundido com uma mulher. Assim, Carl Jung foi inteligente ao inventar o binómio animus/anima para cada um dos sexos. O animus é o lado mais viril do ser humano e anima o mais meigo e feminino. Todo o homem tem um animus e um anima. Todo o homem tem um lado mulher e toda a mulher tem um lado homem. É normal homens amarem homens e mulheres amarem mulheres. O desejo é forte sobre a terra sem se importar muito com o que nós lhe chamamos.
Jorg Haider diz que decisão é «um guia para a Europa», face «ao avanço do Islão» no continente. O Estado federado austríaco da Caríntia, governado pelo populista de direita , proibiu esta terça-feira a construção de mesquitas e minaretes no seu território, depois de aprovar uma lei que regula o aspecto externo dos edifícios.
O aspecto externo dos edifícios? A reconquista do islão será feita com planos de ordenamento de território e mapas municipais? Socorro! Realmente é difícil de imaginar coisa pior. Segundo a líder da oposição regional social-democrata, «Fazemos uma lei para algo que não existe», disse Gaby Schaunig, lembrando ainda que "não havia nenhum pedido para edificar uma mesquita ou minaretes".
Jorg Haider deve andar a ler muito Kafka. Devia fazer como Robert Smith dos The Cure, ler "O Estrangeiro" do Camus e assim fazer uma música como a Killing an Arab ou algo parecido.
Outro dia um homem abordou-me no meu caminho para a estação, numa das principais ruas de Espinho: "Você conhece os textos védicos?". Eu disse-lhe que sim, que conhecia e pensei nesses textos com cerca 8000 anos de existência, transmitida primeiro por via oral e depois por via escrita. São textos sagrados, muitos deles são base das religiões budista, hinduísta e não só. Comecei a falar com o homem e ele me descreveu sucintamente os preceitos e modo de vida védicos. Casam-se aos 25, efectuam retiro espiritual aos 50. Não bebem, não fumam, são vegetarianos. Deu-me um livrinho chamado "Vida Simples, Pensamento Elevado". Continuámos a falar mais um bocadinho antes de nos despedirmos amigavelmente. Pelo caminho olhei para o livrinho que ele me deu. Na capa, via-se na parte inferior, um homem despindo um uniforme de trabalho escuro e sujo, caindo no meio de porcaria, indo em direcção a um cenário campestre de fundo, bucólico, com natureza, vaquinhas, muita relva verde e crianças nadando no rio: a vida em comunidade em harmonia com a natureza. Pensei nos testemunhas de Jeová, com quem sempre gostei de discutir, e que também gostam de falar no paraíso prometido. Mas estes falam no paraíso como algo a alcançar depois da morte, no fim de uma vida de trabalho. Contrariamente, as comunidades védicas advogam o abandono do trabalho e da cidade para viver em vida esse paraíso junto da natureza, restringindo-se dos prazeres do consumismo citadino. Esta última perspectiva, a de querer um paraíso na terra e não numa qualquer vida depois da morte, pareceu-me mais de acordo com uma perspectiva marxista. Comecei a ler o livrinho e perdi as minhas dúvidas acerca da proximidade dos vedas com Marx. Senão vejam o que diz o sábio Bhaktivedanta Swami Prabhupada; "Quanto mais continuarmos a aumentar essas indústrias problemáticas para sufocar a energia vital do ser humano, tanto mais haverá inquietação e insatisfação das pessoas em geral, embora apenas umas poucas pessoas possam viver sumptuosamente através da exploração. (...) A produção de máquinas operatrizes e ferramentas aumenta o modo de vida artificial de uma classe de proprietários interessados e mantém milhares de homens à míngua e na inquietação." Agora comparemos com o que diz Marx em "O Capital": "À medida que diminui o número de grandes capitalistas que usurpam e monopolizam todas as vantagens deste processo de transformação, cresce a miséria, a opressão, a escravidão, a degenerescência, a exploração, mas também a revolta da classe operária"
A diferença mais óbvia entre os vedas e o marxismo, aparentemente, é uma ser de origem oriental e outro ocidental. Mas essa oposição desfaz-se se considerarmos que o marxismo é uma doutrina económica e política. É que a ciência económica ocidental moderna nada seria sem a matemática. Aliás, sem matemática não teríamos coisas como dinheiro, tecnologia, ciência, computadores, todas essas coisas coisas que identificamos como fazendo parte da essência do mundo ocidental. Isto porque a matemática não foi inventada no ocidente. Foi-nos trazida pela cultura árabe, e quem a transmitiu aos àrabes foram... os vedas, na índia.
Na época em que o maior número que os gregos e romanos usavam era 10 6, os hindus usavam números como 10 53 (ou seja, 10 elevado a potência de 53), com nomes específicos pra isso. Por volta do séc. 5 d.C, enquanto o Ocidente utilizava ainda os desajeitados algarismos romanos, desenvolveu-se na Índia o sistema decimal posicional, idêntico ao que usamos hoje. Nosso sistema é o próprio sistema hindu, transmitido ao Ocidente através dos árabes séculos depois. Os nomes desses algarismos em sânscrito são claro testemunho desta origem oriental: 1 eka, 2 dvi, 3 tri, 4 catur, 5 panca, 6 sat, 7 sapta, 8 asta, 9 nava. Também foi inventado pelo indiano Aryabhatta o número "zero" (chamado de "vazio"), ingrediente fundamental para uma numeração verdadeiramente posicional.
Interessante também é esta notícia que, acerca da extrema competitividade ao nível da matemática entre os alunos indianos no acesso a cursos de engenharia, tem-se popularizado o uso da chamada matemática védica. São usadas fórmulas de cálculo matemático que são extrapoladas a partir de fontes dos textos védicos. Pradeep Kumar, que ensina matemática védica, diz que há um interesse crescente entre os aspirantes ao Instituto Indiano de Tecnologia em ter ajuda da matemática védica. Ele ensina mais de 200 estudantes na sala e cerca de 600 através de cursos de longa distância. Vejam esta notícia neste link.
Faz hoje, dia 10 de Fevereiro, 110 anos do nascimento do poeta e dramaturgo Bertolt Brecht. Este alemão marxista foi contemporâneo de Hitler. Foi também vítima e testemunha de duas guerras mundiais. Sua obra versa em grande parte a temática das dificuldades da vida nos tempos modernos. Em honra deste senhor então, deixo aqui um poema dele chamado precisamente "Tempos Modernos"
Os tempos modernos não começam de uma vez por todas. Meu avô já vivia numa época nova. Meu neto talvez ainda viva na antiga.
A carne nova come-se com velhos garfos.
Época nova não a fizeram os automóveis Nem os tanques Nem os aviões sobre os telhados Nem os bombardeiros.
As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras. A sabedoria continuou a passar de boca em boca.
Bertolt Brecht
Ainda sobre Brecht e os tempos modernos, há um artigo muito bom de Slavoj Zizek sobre o mundo do ciberespaço, que se chama "The Cyberspace Real", em que ele olha para as tecnologias não somente na perspectiva corrente de que estas são a causa de um conjunto infinito de possibilidades da nossa imaginação, mas sim como a tecnologia é o concretizar das possibilidades da imaginação já perspectivadas anteriormente na história da cultura. Destes "futuros anteriores", Zizek destaca por exemplo Madame Bovary de Flaubert e também, uma peça de Brecht, "The Measure Taken", que é usada como modelo para compreensão lacaniana dos ambientes dos jogos virtuais interactivos de multi-jogadores:
"just before his death, when asked about what part of his works effectively augurs the "drama of the future," Brecht instantly answered "The Measure Taken." As Brecht emphasized again and again, The Measure Taken is ideally to be performed without the observing public, just with the actors repeatedly playing all the roles and thus "learning" the different subject-positions — do we not have here the anticipation of the cyberspace "immersive participation," in which actors engage in the "educational" collective role-playing?" Zizek Vejam o artigo aqui: http://www.egs.edu/faculty/zizek/zizek-the-cyberspace-real.html
Vi um homem aproximar-se de mim. "Quem será?" pensei. Olhei e vi. Ele observou-me longamente, de cima a baixo. Eu esperava algo dele. Estava à espera de um determinado acontecimento que seria decisivo. Estava a espera de ver nele algo para que pudesse dar-lhe um nome, torná-lo familiar. Mas ele continuava a olhar-me. Vejo-o a olhar-me cada vez mais fundo e atentamente. Eis então que eu disse: "Eis um homem". De repente, sua postura alterou-se. Ergueu-se, pôs-se numa postura recta, séria, olhando displicentemente para os lados. Não fiz caso disso. Não me impressionou a reacção dele. No entanto, permanecia curioso em relação à sua conduta. Havia ali algo de misterioso. Disse-lhe então: "És um homem estranho". Então, ele fez uma cara de enjoado, meteu as mãos à cara e aninhou-se um pouco. Abaixei-me para o espreitar e então vi-o tirar lentamente a mão o que permitiu ver um sorriso diabólico na cara do homem. Estava com uma cara de quem sabe algo que nós não sabemos e tira gozo disso. Aquele sorriso de quem julga estar detentor do conteúdo inconsciente de outra pessoa e então, há uma satisfação secreta em nos apossarmos do outro desta maneira. Eu olho para aquele homem e penso, que mistérios obscenos ele estará congeminando sobre mim. Que homem absurdo. Rio-me. Ele também se ri. Rimo-nos os dois. Eu rio-me daquilo que eu sei dele mas que ele não sabe. Ele ri-se de algo que sabe de mim mas eu não sei. E rimo-nos, não um do outro, mas sim cada um de seu outro particular. Eu paro de rir. Olho fixamente para o homem. Levanto o braço e ele levanta também. Aproximamos as mãos. E então sinto um contacto frio. É o espelho. E então percebo que toda a minha vida estive do lado errado do espelho. Num determinado momento terei trocado de lugar com o meu outro. Quem sabe? Nunca o poderei saber. O meu outro não me deixa dúvidas. Dá-me sempre razão.
Vi o "Waking Life" (ou na tradução para português, Acordar para a Vida) e é simplesmente um dos melhores filmes que já vi. É de 2001, da autoria de Richard Linklaker. Fala-nos sobre o sonho e a vida, determinismo, livre arbítrio, neurobiologia, política, existencialismo, tudo isto de uma forma simples e fluida, tal como de um sonho se tratasse. Descobri também que é possível ver o filme completo (!!!) neste link: http://video.google.com/videoplay?docid=7583894250854515095
Quando criei este blog aqui há uns tempos anunciei o seu teor anti-utilitarista e anti-pragmatista, ou seja, que este blog não serve para rigorosamente nada. Encontrei uns vídeos no youtube do Alan Watts com o título "Work as play" que se enquadram nessa visão. O Alan Watts é um dos maiores divulgadores ocidentais do Budismo Zen. Neste vídeo, ele fala-nos na rígida divisão no nosso mundo moderno, entre trabalho e lazer. É dado o exemplo de um motorista de autocarros: trata-se de uma tarefa difícil que requer muitas manobras, estar atento às pessoas que entram, dar o troco, etc. A questão aqui é que, se o motorista encarar essa tarefa como "trabalho", então sua vida é um inferno. Mas se ele, ao invés, vir o seu trabalho como um jogo, então o seu emprego torna-se um divertido e desafiante jogo em que constantemente se faz a camioneta dançar por entre o complicado trânsito, fazendo o motorista chegar ao fim do dia completamente acordado e cheio de energia. O outro lado disto é vermos o lazer como um trabalho, por ser feito de forma compulsiva. Alan Watts dá o exemplo de quando era novo e ninguém na sua escola gostava de correr, porque era obrigatório. É o tipo de coisa que acontece quando alguém nos diz: "És obrigado a ser feliz!" Como é que uma ordem destas pode fazer com que alguém se torne realmente feliz? Há uma banda-desenhada do Calvin & Hobbes que ilustra muito bem esta ideia do lazer compulsivo:
A perspectiva Zen do trabalho e do lazer que Alan Watts nos oferece, permite-nos ver o absurdo que se nos apresenta o mundo de hoje, em que nos é vendido prazer empacotado, com a mensagem: Goza! O prazer do jogo tem de acontecer de forma espontânea, senão não é prazer. Espontânea como? quando são desfeitas as noções de causalidade, e de acção programada vista a um fim. Quando o sujeito se funda em acção, sem qualquer vestígio de intencionalidade.
No clássico de Eugen Herrigel, "O Zen e a arte de atirar o arco", Herrigel pergunta ao seu mestre: "Se fecho a mão com todas as minhas forças, o estremecimento ao abri-la é inevitável. Se me esforço por deixá-la relaxada, a corda liberta-se ainda antes de atingir a tensão máxima. (...) Oscilo entre estes dois tipos de fracasso e não encontro solução. - Tem que segurar a corda do arco como um bebé aperta o dedo que se lhe estende. Segura-o com tanta firmeza que a força daquele punho minúsculo é sempre motivo de admiração. E quando o solta fá-lo sem a menor sacudidela. E sabe porquê? Porque a criança não pensa: agora vou largar o dedo, para agarrar nesta outra coisa. Sem reflctir, sem intenção nenhuma, vai de um objecto a outro, e dir-se-ia que brinca com eles, se não fosse mais exacto achar que são os objectos que brincam com a criança.
Oscar Wilde dizia que o teatro é mais real do que a vida. Assim, o Carnaval é a época mais genuína do ano. Este ano descobri que, afinal de contas sou um pintor francês.
Sabiam que Darth Vader tem sentimentos inconscientes não resolvidos e recalcados acerca da homossexualidade? Sim, isto e muito mais foi possível deslindar através da técnica da associação de ideias com Darth Vader sentado no divã:
Certa vez Chuang Tzu e um amigo caminhavam à margem de um rio."Veja os peixes nadando na corrente," disse Chuang Tzu, "Eles estão realmente felizes...". "Você não é um peixe," replicou seu amigo, "Então você não pode saber se eles estão felizes." "Você não é Chuang Tzu," disse Chuang Tzu, "Então como você sabe que eu não sei que os peixes estão felizes?"
Conto Zen
"No dia 1 de Abril anotei o seguinte: Hoje é sexta-feira. Teremos peixe no almoço. Alguém mencionou de passagem o costume do "peixe de Abril". De manhã, eu anotara uma inscrição: Est homo totus medius piscis ab imo (o homem todo é peixe pela metade, na parte de baixo). À tarde, uma amiga paciente, que eu já não via desde vários meses, mostrou-me algumas figuras extremamente impressionantes de peixes que ela pintara nesse entretempo. À noite mostraram-me uma peça de bordado que representava um monstro marinho com figura de peixe. No dia 2 de abril, de manhã cedo, uma outra paciente antiga, que eu já não via desde vários anos, contou-me um sonho no qual estava à beira de um lago e via um grande peixe que nadava em sua direcção "aportava", por assim dizer, em cima de seus pés. Por esta época, eu estava empenhado numa pesquisa sobre o símbolo do peixe na História. Só uma das pessoas mencionadas tem conhecimento disto. A suspeita de que este caso seja talvez uma coincidência significativa, isto é, uma conexão acausal, é muito natural. Devo confessar que esta sucessão de acontecimentos me causou impressão. Ela tinha para mim um certo carácter numinoso."
Carl Jung em "Sincronicidade"
"(...) era uma coincidência que a imagem de uma caveira, desconhecida para mim, ocupasse o outro lado do pergaminho, mesmo por baixo do meu desenho do escaravelho - e de uma caveira que se assemelhava ao meu desenho, não só no contorno como nas dimensões. Confesso que esta coincidência me deixou positivanente estupefacto, por um instante. É o efeito vulgar desta espécie de coincidências. O espírito esforça-se em estabelecer uma relação, uma ligação da causa com o efeito e, julgando-se impotente para o conseguir, sofre uma espécie de paralisia momentânea."
"O escaravelho de ouro" de Edgar Allan Poe em "Histórias extraordinárias"
O que é uma coincidência? O que tem de tão mágico e especial? Suponhamos dois amigos que conversam no café uma conversa própria de se ter num café ou nem por isso. Um deles pensa para si mesmo como seria bom sair dali e ir até ao parque, para ter uma conversa de parque ou outra qualquer. Nisto, eis que do outro amigo saem umas palavras ingénuas da sua boca dizendo: “estava a pensar ir até ao parque, estamos lá melhor”.Pasmado, o primeiro amigo não sabe que dizer. Como é que ele se foi lembrar da mesma coisa que eu ao mesmo tempo, pensa ele. Toda a gente sabe o que isto é, ou seja, a toda a gente já deve ter acontecido algo do género, o que nos deixa sempre com uma sensação de magia e transcendência que não conseguimos confirmar nem desmentir.
Foi no sentido desse confirmar ou desmentir que segundo o nosso amigo Freud, inventámos o princípio da realidade. Passar de um modo alucinatório do pensamento, nos tempos em que para o bicho humano só existia sonho, para um modo de realidade, em que tentamos estabelecer o que é verdade e o que é mentira, o que é real e o que não é, e o que veio primeiro e o que vem a seguir neste caótico mundo que nos rodeia e do qual somos parte, de uma forma paradoxal. É fácil dizer que, ao beber o copo de água, que ele estava cheio, que depois bebi o copo e pousei-o vazio. É o que o bicho humano faz a toda a hora e a cada momento, e quase que não conseguimos imaginarmo-nos doutra maneira. Contamos o tempo, os segundos, os metros, os quilómetros, o que veio primeiro e o que veio a seguir. E foi assim que inventámos o tempo. Na verdade, antes de nós já havia outros bichos, os que andavam na água, mais tarde, os que andam na terra e os que andam no ar. Na verdade, há quem diga que, a uma certa altura, tudo o que é vivo era exclusivo da água. Os bichos que andavam na água, os peixes.
“Conforme as águas rolam, tu rolas. As águas banham-te e com elas te banhas e nunca emerges. Nunca saber nada, nunca compreender nada. A tua vida é uma represa de sensações ao longo dos teus flancos, um fluxo nas malhas das tuas barbatanas, ao longo da espiral da tua cauda”.
"O Peixe", D.H. Lawrence
O bicho peixe é assim. O mundo para eles é sensações ao longo das barbatanas e das escamas. Não sabe nem compreende nada. Há também as aves, e estes são bichos parecidos, embora às vezes pousem as patas na terra. Se calhar já foram quadrúpedes como nós também já o fomos. A diferença essencial é essa. Refiro-me ao que Deleuze e Guattari entendiam por desterritorialização e reterritorialização. Houve ao momento em que éramos muito peludos e andávamos com as quatros patas no chão. Depois houve um bicho que se levantou e deixou-se estar assim sem fazer das mãos asas como as aves, e sem no entanto voltar a pô-las no chão. As mãos, que antes usávamos para agarrar o chão e o território como fazem os cães, passaram a ficar suspensas entre o céu e a terra. E o bicho humano nasceu porque passou a ter um território privilegiado, que tem os seus limites no chão opaco e concreto por baixo, e por outro lado, tem o limite de cima, que não tem fim conhecido, que se estende até aos confins do universo. E essa é uma das angústias primordiais do bicho humano. Está permanentemente obrigado a fazer uma ponte entre o finito e o infinito, a estar na terra a olhar para as estrelas, o sol e a lua, mas de mãos a abanar. Que território é este que temos em frente? Como é que algo assim pode ser sentido como nosso? Como vamos sobreviver aqui? As mãos são suficientes para apalpar um palmo de terra, um de cada vez, mas não consegue apalpar o intervalo entre o céu e a terra. A divisão teve que ser feita noutro lugar, num cérebro talvez, e de uma forma abstracta que não ocupe lugar e que nos deixa de mãos a abanar. Como disse Nietzsche, o homem é uma corda esticada sobre o abismo, entre o animal e o super-homem.
Com os nossos dez dedos, começámos talvez por contar estrelas, sem nunca as podermos agarrar. E foi aí talvez que apareceu a matemática, e outras coisas. Mas nossos cérebros primitivos, que até então só serviam para sonhar e para desejar, tiveram que começar a acomodar números e medidas que são a ligação que arranjámos para com este território novo que nos deixa de mãos a abanar. E este território só poderia então ser partilhado entre bichos humanos desta forma. Percebe-se o bicho que sentiu necessidade de escrever os seus mamutes na gruta, para dizer quantos eram. Começou ai a linguagem, e também o tempo, porque nós ainda olhamos para o céu como o cão que põe uma pata primeiro no chão, e depois põe a outra. Primeiro uma, e depois outra. Foi assim que inventámos o tempo, que mais não é do que por as coisas umas a seguir às outras, encadear acontecimentos. Em consequência, inventámos a causalidade, o dizer que isto aconteceu porque teve uma causa, e a causa porque teve uma causa. Não poderíamos fazer isto sem a noção de tempo.
Voltemos aos nossos bichos humanos que estavam no café, e se lembraram “ao mesmo tempo”, de ir até ao parque. Um deles fica maravilhado sem saber porquê. Na verdade, a parte maravilhosa das coincidências, é que não sabemos dizer o que está primeiro nem o que está depois, é aliás isso que define uma coincidência, o não podermos usar a causalidade para explicar o que está a acontecer. E aí experimentamos o mundo da mesma maneira que o primeiro bicho humano, que tirou as patas do chão, olhou para o céu, e ficou pasmado, e assustado talvez, não sei. Quanto a isso só posso imaginar. Como disse William Blake, tudo o que hoje está provado, foi um dia apenas imaginado. No mundo das coincidências, as coisas acontecem todas ao mesmo tempo e não há nada que possamos provar com certeza. É uma ponte aberta para a imaginação. È o lugar que nos lançou para fazermos cultura e civilizações. Tudo isto porque estamos de mãos a abanar. Não somos como os peixes que estavam em contacto e em união com o seu território, de forma fácil e límpida. Nós somos os sem abrigo por excelência. Somos humanos porque estamos perdidos, e as coincidências lembram-nos exactamente isso.
Hoje apetece-me falar do José Sócrates. O José Sócrates tem nome de filósofo mas é um sofista. Está ao serviço de uma retórica cujos fins são os que mais convém no momento. Há quem não olhe a meios para atingir os seus fins. Mas ele não é desses. Ele é sim, dos que não olha a fins para realizar os seus meios. O José Sócrates é um burocrata. Maneja as palavras como a matéria de um exame oral. É um daqueles alunos que são marrões, decoram a matéria e não arriscam nada de verdadeiramente pessoal e genuíno. Há cerca de dois anos, José Sócrates disse que o discurso dos seus adversário faziam-lhe lembrar “as imagens daquele extraordinário antigo ministro da informação do Iraque, que, com os tanques à porta de Bagdad, continuava a anunciar uma grande vitória iraquiana e a prometer que os americanos seriam esmagados... Porque será?” O que a mim me vem aqui à memória é um conto Zen:
Durante as guerras civis no Japão feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando - todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria. "Seu tolo!!" ele gritou enquanto desembainhava a espada, "não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?" Mas o mestre permaneceu completamente tranqüilo. "E você percebe," o mestre replicou calmamente, "que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?"
O Sócrates não entende a diferença entre ele e seus adversários políticos, porque os vê na sua pobre e limitada perspectiva do que é a política. Zizek, num artigo seu, fala precisamente no episódio do primeiro ministro Iraquiano. Refere ainda a distinção de Jeane J. Kirkpatrick entre líderes “autoritários” e “totalitários” que a política Americana usou para distinguir os politicos que deveriam ser apoiados na luta contra os regimes comunistas. Os autoritários são mandões pragmáticos e utilitaristas que se preocupam com poder e riqueza e que são indiferentes acerca de assuntos ideológicos, ainda que possam papaguear sobre uma grande causa para efeitos decorativos. Por outro lado, os lideres totalitários são fanáticos que acreditam na ideologia e que estão dispostos a sacrificar tudo pelos seus ideais. Os americanos lidam melhor com os primeiros do que com os segundos.
O Sócrates é dos primeiros, dos autoritários. São os que podem enganar alguém num dia ou outro, mas não por muito tempo. Sócrates instituiu em Portugal a autoridade da higiene e das estatísticas. O que lhe interessa não é fazer tratados que mudem o mundo. A ele basta-lhe que esse tratado se chame “De Lisboa.” O Sócrates gosta de estudos encomendados a técnicos e de choques tecnológicos. Na mensagem de natal, Sócrates fala só dele. Das suas tarefas do défice. Quando fala sobre os portugueses, é em forma de estatística. A estatística é arte de dizer que, se um homem comeu quatro lagostas, e outros três não comeram nada, então cada homem comeu uma lagosta.
Sócrates sabe que a política é a arte de mentir. Mas o desastre dele é que não sabe mentir. Só sabe mentir quem se acredita nas próprias mentiras que conta. Esqueçam tudo e olhem para a cara dele. Quando ele dá más notícias aos portugueses e lhes pede sacrifícios, ele diz isto a sorrir. Aliás, ele diz seja o que for sempre com a mesma cara. Como quem não entende o que lê, mas lendo-o em voz alta. O Sócrates tem sorrisos falsos enquanto fala ao país. A diferença entre um sorriso simulado e um falso reside num pequeno músculo em torno dos olhos que puxa as maçãs do rosto para cima. É a diferença entre a verdade e a mentira. O que Sócrates propõe para Portugal é ridículo e absurdo. Sócrates acha que a evolução de um país se alcança pelo alterar das estatísticas e indicadores. Sócrates confunde os meios pelos fins e isso é absurdo. Uma das expressões máximas do absurdo é o cómico. Nesse sentido, ninguém mostrou tão bem o que é a essência primordial da política do Sócrates como os Gato Fedorento neste Sketch:
No próximo fim-de-semana, eu e o meu grupo de teatro "A Corte da Mula", vamos apresentar a peça "Minimal Show" de Sergi Belbel e Miguel Górriz no Centro Cultural de Vila das Aves, no dia 26 de Janeiro às 21:30.
Trata-se de uma peça dos anos 80 com poucas falas mas muita acção que se situa o seu espaço psicológico entre a esquizofrenia o pós-modernismo. Cenas repetidas que se cruzam umas com as outras, personagens sem identidade em que só lhes resta a procura de uma mecânica dos gestos. Dir-se-ia também que há em determinado momento uma espécie de salto entre o teatro e o meta-teatro. A banda sonora terá ainda um toque de Glam-Rock neste espectáculo. Enfim, se tiverem oportunidade vejam por vocês mesmos. Eu lá estarei, a impersonar a histérica personagem "C"
Direcção: Mário Costa Som e Desenho: luz Ratão Caracterização: Tina Interpretação Carla Azevedo, Miguel Marques, Nuno Rabino, Sandra Mestre e Zé (C'est Moi)
Adicionei um link para o Blog "Serpente Emplumada" do Paulo Borges, presidente da União Budista Portuguesa. A partir de hoje começarei a participar também nesse blog. Aliás hoje postei lá pela primeira vez este poema:
o outro começa em nós, mas não sabemos onde acaba.
sozinhos nascemos no rio do amor, e assim
falar, falar é fazer uma ponte e nunca chegar a acabá-la
e amar é começar de novo o que não tem princípio nem fim.
Saiu a oitava edição da revista ACTO. O tema desta edição é o futuro, e conta com um texto da minha autoria denominado "2046 - a idade da mentira". Há ainda mais uma dúzia de artigos, ensaios e poemas bastante bons no seu conjunto, incluindo por exemplo um texto do poeta Manuel Gusmão que é, eu diria, iluminante. Aqui ficam alguns sítios onde podem adquirir a revista:
Livraria Livros e Papeis - Santo Tirso Matéria Prima - Porto Estaleiro Cultural Velha-a-Branca - Braga Cooperativa Cor de Tangerina - Guimarães Livraria Entrelivros - Tomar
E aqui fica um pequeno excerto do texto "2046 - A idade da mentira".
Joaquim – Olha Serafim, se entendo bem o que me estás a dizer é caso para ficar deprimido só de pensar no futuro.
Serafim – Oh, Joaquim, não te preocupes, afinal, as coisas que te conto não passam no fim de contas de mentiras.
Joaquim – Pois. O que me estás a contar é apenas mais uma mentira entre todas, não é verdade?
Serafim – Não Joaquim. Estou-te a dizer a verdade quando digo que te estou a mentir. Por isso não estou a mentir.
Joaquim – Bem… O que tu acabaste de dizer não faz muito sentido.
Serafim – Sim, mas sabes, há um filósofo inglês, o Bertrand Russel, que se debruçou do ponto de vista lógico sobre a seguinte questão: Se eu disser que sou mentiroso, estou a dizer a verdade ou estou a mentir?
Joaquim – E a que conclusão chegou?
Serafim – A princípio pensava que era um limite da lógica, mas depois achou que era o problema que estava mal colocado do ponto de vista lógico. De qualquer maneira nunca chegou a responder à questão.
Joaquim - Compreendo perfeitamente. Mas diz-me lá uma coisa. Se tudo são mentiras, então, o que é a verdade?
O conceito de democracia é uma verdadeira mitologia dos tempos que ocorre. Baseia-se na noção de que todos os homens são iguais e no facto de que, ao por todas as pessoas a por uma cruz num de vários quadrados de um boletim, de 4 em 4 anos, está assegurada uma forma de governo justa e fundadada nos reais anseios do povo. A primeira noção, a de que todos os homens são iguais, não a comento. A segunda, de que uma cruz num quadrado é o garante de liberdade e auto-determinação dos povos, faz-me pensar que nunca chegámos a avançar muito nas práticas da democracia desde que ela foi inventada. Ela é no máximo, uma má estatística, um teste psicológico muito fraquinho. Imaginem que vos passavam um teste de personalidade em que tinham de escolher entre somente quatro opções, personalidade rosa, amarela, laranja, vermelha e vermelho choque. A pessoa escolheria a cor amarela e dir-se ia que tem uma personalidade amarela. Imaginem agora fazer esse teste a todas as pessoas de Portugal e chegavam ao fim e diziam, os portugueses são amarelos. Imaginem agora representantes das vários tipos de cores de pessoas, e os amarelos festejavam todos vestidos de amarelo o facto de os portugueses terem gostado do amarelo. Fazem discursos grandes e dizem, sim portugueses, obrigado por terem escolhido amarelo, sentimos que querem deste portugal um bom portugal, um portugal amarelo! Este cenário parece surrealista, mas é este é de facto o golpe de teatro fundador das nossas orgulhosas e vaidosas nações ocidentais desenvolvidas. Penso que é possível fazer muito mais para por as pessoas de facto a tomar em suas mãos o controlo e o poder de decidir as questões que dizem respeito ao seu país. Acho que existem muitas pessoas que vêem logo o logro que está envolvido que no acto de votar, na estupidez de votar amarelo ou rosa, como se isso fosse representativo de mim, como se isso pudesse ser usado legitimamente para representar alguém que vai fazer longos discursos amarelos e que acham absurdo a noção de voto como ela se nos apresenta. E essas pessoas não votam. É a chamada abstenção. São a classe política mais injustiçada de todas. Minto, a mais injustiçada são os que votam em branco ou voto nulo.
Face a isto eu tenho uma proposta. Se votamos nas eleições legislativas para por um bando de indivíduos a fazer leis num parlamento, acho que é perfeitamente justificável que, havendo já tantas leis, se evite votar para haver proliferação de leis. Isto evitaria situações como aquela lei americana do estado de Kentucky que diz que "Nenhuma mulher deve aparecer em fato de banho em qualquer auto-estrada do estado, a não ser que venha escoltada por, pelo menos, dois polícias ou, em alternativa, venha armada com um bastão", ou então esta da Florida em "é ilegal uma senhora solteira, divorciada ou viúva fazer pára-quedismo aos Domingos à tarde". Devia haver uma maneira de protestar contra a democracia na maneira como ela é conduzida, sem deixar que alguém pegue no nosso descontentamento para apregoar discursos vaidosos. Trata-se aqui de dar legitimidade política à abstenção. O que eu proponho é que os votos não realizados, em branco ou nulos, passem a ser representados no parlamento por lugares vazios. O que há na verdade é um roubo de lugares que justamente não deviam pertencer a ninguém. Se fizerem as contas das legislativas de 2005, vão descobrir que existiram 3196674 abstenções, 103537 votos brancos, e 65515 votos nulos. São ao todo 3365726 portugueses que desaparecem num golpe de mágica quando se anuncia que o PS ganhou por 45%. A seguir começam as barbaridades, começa-se a dizer que metade dos portugueses votou no PS, etc. Estes 45% são a parte apenas dos votos contados, e não uma percentagem do total dos eleitores possíveis. Eu dei-me ao trabalho de fazer as contas: Primeiro temos as estatísticas oficiais:
E agora, os resultados reais, onde na verdade não foi o PS que ganhou as eleições, mas sim a abstenção.
As consequências da minha proposta ser levada à frente, é que todos os partidos políticos teriam menos deputados. Seriam ao todo 86 lugares vazios no parlamento. Para aprovar qualquer lei, o Partido Socialista teria que fazer uma coligação como PSD, mas nem isso chegaria para chegarem a ser maioria no parlamento. Seriam obrigados a negociar com o O PCP, Os Verdes, O Bloco de Esquerda e o CDS/PP. A vida política ia ficar mais animada e mais interessante. Todos os partidos teriam de parar com as acusações mútuas e procurar fazer uso em conjunto da precária legitimidade que têm para fazer leis, ao invés da arrogância e da vaidosice que por aí grassa nesses meios. Acho que as vantagens da minha proposta seriam tais que, paradoxalmente a abstenção iria baixar.
No artigo de Slavoj Zizek: "Censorship Today: Violence, or Ecology as a New Opium for the Masses", é abordada a noção problemática hoje em dia da propriedade intelectual. Bill Gates construiu seu império económico na informática fundamentando-se em noções extremas do conhecimento ser tratado como se fosse proprieade real. Do ponto de vista psicológico, sentir que o nosso pensamento não nos pertence, ou que é algo que pode ser roubado, pode ser um critério para diagnóstico de paranóia. As complicações legais quanto à propriedade intelectual hoje em dia levantam muitas questões legais pela cada vez mais facilidade em copiar e transmitir a informação (através de blogs por exemplo) começa a ser propriamente normal que alguém se queixe que o seu pensamento está a ser roubado, principalmente se estiver a perder dinheiro com isso.
No livro que mostrei aqui há uns tempos do George Steiner, ele diz que “a revolução científico-tecnológica que domina a consciência social e psicológica do Ocidente desde o séc. XVI levou a que toda a concepção de verdade ganhe um rigor mais especial (…). O carácter lógico e matemático das proposições que incorporam a verdade aumenta grandemente a sua abstracção, neutralidade e impessoalidade. Os homens começam a sentir que a verdade está algures “lá fora”. Quanto a este “algures lá fora", Steiner admite não conseguir precisar muito bem esta ideia. Mas esse “lá fora” é nem mais nem menos do que o Corpo sem Órgãos de que nos anos 70, Gilles Deleuze e Félix Guattari falam no Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia: um fluxo de desterritorialização capitalista que liga o corpo à máquina através de cortes e recortes dos fluxos de desejo: “As nossas sociedades procederam (…) a uma vasta privatização dos órgãos, que corresponde à descodificação dos fluxos que se tornaram abstractos” Não é isto de que se trata quando na Índia, comunidades locais subitamente descobrem que as práticas médicas e os materiais que usam há séculos, são agora propriedade de companhias americanas e devem ser compradas a estas? As companhias biogenéticas entretanto fazem a patente de genes e descobrimos agora que partes de nós próprios, os nossos componentes genéticos, já estão “copyrighted”, propriedade de outros. Como sair então desta armadilha preparada por este tipo de sociedade demente, burocrata, tecnocrata, narcisista e obsessiva? Deleuze detestava metáforas. É por isso que ele dizia que “na realidade a sexualidade está em todo o lado: no modo como um burocrata acaricia os seus dossiers, um juiz faz justiça, um homem de negócios faz circular o dinheiro, a burguesia enraba o proletariado, etc. E não é preciso recorrer a metáforas tal como a libido não recorre a metamorfoses”
Desde a repressão sexual na sociedade Vienense da época de Freud até hoje, de facto não avançámos muito. Se antes evitava-se o sexo, as relações eram frias e as pessoas ficavam doentes mentais por causa disso, hoje em dia passou-se a regulamentar de tal forma o sexo, que há manuais para tudo e então as relações tornam-se altamente artificais e a sexualidade mais fetichista. Sim, é possível ver em qualquer revista de mulher: “conquiste qualquer homem em 10 passos”.
É precisamente a este nível que falamos de uma sociedade burocrata e tecnocrata. O erro é sempre o mesmo: a previsibilidade do outro. Quando definimos um processo de sedução em 10 passos, não há aqui uma abertura ao outro, o que há é uma ritualização de processos, o seguir de uma fórmula para ser aplicada, para cuidadosamente não termos que nos confrontar com o outro na sua totalidade, que também é também imprevisível, corporal, inconsciente. Na verdade o que aqui se trata é do velhinho combate entre a emoção e o corpo, a razão e a emoção, que são o sumo das neuroses comuns das pessoas civilizadas. A indústria Biogenética mais não é do que a tentativa desesperada de cobrir completamente o outro de fórmulas abstractas, tentando pré-determinar todas as potencialidades de cada gene, para assim, podermos olhar para um humano e, através de uma amostra de ADN, poder prever as suas acções, querendo eliminar qualquer hipótese de "o outro" fazer qualquer coisa de inesperado, de ousado de diferente, com medo que qualquer coisa de emocional se transmita, como um vírus. É esta alergia a um contacto genúino com os outro que move a ciência. No entanto estas tentativas poderão sair frustradas... pela própria ciência. Senão vejam notícias recentíssimas de um grupo de cientistas que tentam codificar o genoma humano.
Segundo Guigó, os estudiosos pensavam que os genes se relacionavam "como as contas de um colar", com as fronteiras entre eles sendo definidas e delimitadas. Dessa vez, no entanto, os cientistas perceberam que, às vezes, é difícil distinguir alguns genes de outros porque eles se sobrepõem e podem inclusive formarem conjuntos. Dessa forma, há dificuldades para determinar qual é a quantidade precisa de genes do genoma humano, que poderia ser de 20 mil a 30 mil. Mas mais interessante do que isto são as seguintes experiências. A primeira, levada a cabo por militares, foram recolhidas amostras de leucócitos (células sanguíneas brancas) de um número de doadores. Essas amostras foram colocadas em um local equipado com um aparelho de medição das mudanças eléctricas. Nessa experiência, o doador era colocado num local e submetido a “estímulos emocionais” provenientes de videoclips que geravam emoções ao doador. O DNA era colocado em um lugar diferente do que se encontrava o doador, mas no mesmo edifício. Ambos, doador e seu DNA, eram monitorizados e quando o doador mostrava seus altos e baixos emocionais (medidos em ondas elétricas) o DNA expressava respostas idênticas ao mesmo tempo. Não houve lapso e retardo de tempo de transmissão. Os altos e baixos do DNA coincidiram exactamente com os altos e baixos do doador. Os militares queriam saber o quão distantes podiam ser separados o doador e seu DNA para continuarem a observar o mesmo efeito. Pararam de experimentar quando a separação atingiu 80 quilómetros entre o DNA e seu doador e continuaram tendo o mesmo resultado. Sem lapso e sem retardo de transmissão. O DNA e o doador tiveram as mesmas respostas ao mesmo tempo. Uma segunda experiência foi realizada pelo Instituto Heart Math e o documento que lhe dá suporte tem este título: Efeitos locais e não locais de freqüências coerentes do coração e alterações na conformação do DNA. Nessa experiência pegou-se em DNA de placenta humana (a forma mais “pura” de DNA) e colocou-se num recipiente onde se podia medir suas alterações. 28 amostras foram distribuídas, em tubos de ensaio, ao mesmo número de pesquisadores previamente treinados. Cada pesquisador havia sido treinado a gerar e sentir sentimentos, e cada um deles manifestava fortes emoções. O que se descobriu foi que o DNA mudou de forma de acordo com os sentimentos dos pesquisadores. Quando os pesquisadores sentiram gratidão, amor e apreço, o DNA respondeu relaxando-se e seus filamentos esticaram. O DNA tornou-se mais grosso. Quando os pesquisadores sentiram raiva, medo ou stress, o DNA respondeu ficando mais apertado. Tornou-se mais curto e apagou vários códigos. Os códigos de DNA ligaram-se novamente quando os pesquisadores tiveram sentimentos de amor, alegria, gratidão e apreço. Essa experiência foi aplicada posteriormente a pacientes com HIV positivo. Descobriram que os sentimentos de amor, gratidão e apreço criaram respostas de imunidade 300.000 vezes maiores que a que tiveram sem eles.
Se os sentimentos genuínos alteram o DNA, de um ponto de vista político, penso que isto é bom para as classes baixas, que não têm de pagar um cêntimo para verem alterado o seu ADN, e mau para quem pretende enriquecer à custa do ADN e vai ver seus planos frustrados por não conseguir fazer melhor que a natureza, presente em todos nós. Lembremo-nos da fórmula de Albert Cossery: aquilo que toda a gente tem, não tem valor de troca. Isto porque a economia nunca vende a coisa mesmo, o original, ou seja uma emoção genuína. Porque se é vendida, já não é genuína: a mercadoria nunca cumpre a sua promessa implícita, esse "algo mais". Isto é perfeitamente demonstrável com o exemplo de uma prostituta. Não é por acaso que é a profissão mais antiga do mundo: é o exemplo perfeito para compreender a junção de Marx e Freud na compreensão do mundo civilizado. O homem paga à mulher para fazerem amor, mas o que daí resulta não são emoções genuínas mas sim um conjunto de actos mecânicos estereotipados, em que o a mulher apenas representa gemidos que sejam suficientemente convincentes, e o homem se sente culpado por achar que não consegiu dar prazer à mulher. A estrutura da mercadoria da prostituta é assim a mesma da do café descafeinado e da cerveja sem álcool de que fala Zizek. Se quiserem vejam no post mais abaixo um vídeo que postei dele.
Desta forma, cultivar bons sentimentos genuínos para com os outros é um acto anti-utilitarista e anti-pragmatista, e portanto, revolucionário. Apetece assim reformular o lema de Lenine: “operários de todo o mundo, uni-vos” para um simples "Operários de todo o mundo, amai-vos uns aos outros”. Eu sei que essa última parte da é de Jesus, mas é isto é como aquela música dos Pear Jam “Love Boat Captain”: “Its already been sung, but it cant be said enough, All you need is love” Eddie Vedder cita aqui John Lennon e dedica-a também a 9 pessoas que morreram num concerto deles e deixo aqui o vídeo de uma das músicas que mais amo dos pearl jam. Reparem na letra.
Um dia passeava com a minha Jane no Porto e vimos um pequeno pássaro no passeio. Ali, quieto, preso ao chão, não se desviou um milímetro do nosso trajecto. Era um pássaro novo, parecia ferido, incapaz de voar. Sentimos compaixão e decidimos pegar nele para o deixar no jardim do marquês, ali perto, onde pensei que estaria mais seguro. Abaixei-me para pegar nele com as mãos, mas à primeira tentativa ele abanou-se e escapou-se das minhas mãos. Tentei outra vez e quando estava quase a tocar-lhe, eis que ele irrompeu dali para fora batendo as asas sofregamente. Mas algo estava mal. O pássaro, ferido, não conseguia subir, e então voou rasteiro pela estrada fora. Um momento antes, um carro vinha com alguma velocidade e vi o inevitável: o pássaro voou em direcção ao pneu, o pneu correu em direcção ao pássaro. No segundo seguinte esvoaçaram penas. Dei a mão para salvar a vida a um pássaro e ele usou a mão que lhe dei para voar em direcção à morte. É um choque ver num instante a vida e a morte darem as mãos, comigo hoje aqui, de mãos a abanar. A morte vem e passa, assim como a vida. A memória fica e é a memória que dói. Dói não podermos agarrar as memórias pois as memórias são tudo o que não podemos agarrar. E assim ficamos, dizendo “e agora?”, de mãos a abanar, condenados a ser absurdamente livres.
Este Albert Cossery é um romancista egípcio que vive num quarto de hotel em Paris há muitos anos e escreve romances deliciosos sobre mendigos, ladrões e putas. Cossery tem a habilidade de mostrar de forma simples o mundo caótico mas simples dos pobres e desafortunados. Cito aqui um pequeno trecho do seu livro "Cores da Infâmia":
" - Não te aflijas com isso. Não sou daqueles que se entregam a trabalhos muitas vezes inúteis, julgando cumprir a sua parte de um ritual obrigatório. O único tempo precioso, minha querida Nahed, é o que o homem consagra à reflexão. Isto é uma destas verdades indecentes que os mercadores de escravos abominam.
- É no entanto espantoso que a verdade não entre pelos olhos dentro de todos os homens!
- Desengana-te. A verdade é conhecida de toda a gente, mas uma coisa conhecida de toda a gente não possui nenhum valor de troca. Estás a ver os patifes que controlam a informação a vender verdades... Na melhor das hipóteses, toda a gente se ria deles. Por uma razão bem simples. A verdade não tem nenhum futuro, ao passo que a mentira é portadora de grandes esperanças."
Se me perguntassem o que é que tem falhado no conflito entre israel e palestina, gostava de ter sempre à minha beira o Tom Waits para lhe pedir para cantar esta música do último álbum dele:
Young Abdel Mahdi (Shahmay) was only 18 years old, He was the youngest of nine children, never spent a night away from home. And his mother held his photograph, opening the New York Times To see the killing has intensified along the road to peace
There was a tall, thin boy with a whispy moustache disguised as an orthodox Jew. On a crowded bus in Jerusalem, some had survived World War Two. And the thunderous explosion blew out windows 200 yards away. With more retribution and seventeen dead along the road to peace
Now at King George Ave and Jaffa Road passengers boarded bus 14a In the aisle next to the driver Abdel Mahdi (Shahmay) And the last thing that he said on earth is "God is great and God is good" And he blew them all to kingdom come upon the road to peace
Now in response to this another kiss of death was visited upon Yasser Taha, Israel says is an Hamas senior militant And Israel sent four choppers in, flames engulfed, tears wide open And it killed his wife and his three year old child leaving only blackened skeletons
It's found his toddlers bottle and a pair of small shoes and they waved them in front of the cameras. But Israel says they did not know that his wife and child were in the car. There are roadblocks everywhere and only suffering on TV. Neither side will ever give up their smallest right along the road to peace
Israel launched it's latest campaign against Hamas on Tuesday Two days later Hamas shot back and killed five Israeli soldiers So thousands dead and wounded on both sides most of them middle eastern civilians. They fill the children full of hate to fight an old man's war and die upon the road to peace.
"And this is our land we will fight with all our force" say the Palastinians and the Jews. Each side will cut off the hand of anyone who tries to stop the resistance. If the right eye offends thee then you must pluck it out. And Mahmoud Abbas said Sharon had been lost out along the road to peace
Once Kissinger said "we have no friends, America only has interests" Now our president wants to be seen as a hero and he's hungry for re-election. But Bush is reluctant to risk his future in the fear of his political failures. So he plays chess at his desk and poses for the press 10,000 miles from the road to peace
In the video that they found at the home of Abdel Mahdi (Shahmay) He held a Kalashnikov rifle and he spoke with a voice like a boy He was an excellent student, he studied so hard, it was as if he had a future. He told his mother that he had a test that day out along the road to peace
The fundamentalist killing on both sides is standing in the path of peace. But tell me why are we arming the Israeli army with guns and tanks and bullets? And if God is great and God is good why can't he change the hearts of men? Well maybe God himself is lost and needs help Maybe God himself he needs all of our help Maybe God himself is lost and needs help He's out upon the road to peace
Well maybe God himself is lost and needs help Maybe God himself he needs all of our help And he's lost upon the road to peace And he's lost upon the road to peace Out upon the road to peace.
Li recentemente este livro do George Steiner: "Nostalgia do Absoluto". É um autor que expressa bem as suas ideias, é um senhor de letras clássico, gosta muito dos gregos. Faz uma análise histórica àquilo que ele chama de nostalgia do absoluto. Fala-nos das tentativas de substituição da mitologia religiosa por parte de autores como Freud, Marx e Levi-Strauss, todos eles acabando por criar todos as suas mitologias científicas e políticas. Diz que, como estes três são de herança judaica o seu atéismo judeu levou-os a recorrer de certa a forma a buscar as tradições proféticas próprias do judaísmo. É engraçado verificar como steiner mostra que Freud se descreveu da seguinte maneira: "completamente afastado da religião dos meus pais". Mas Freud não fica por aqui: "Se me perguntassem: que lhe resta de judaico? Teria de responder:«muito provavelmente a essência»". Até aqui tudo bem. O problema talvez, é Steiner desbaratar no final estes três autores como tentativas falhadas e ilusões semelhante às igrejas vazias de hoje em dia. Para mim, ser comunista é uma crença religiosa. Porque não? Nisso concordo com Steiner. Mas se é assim, não podemos vê-lo como uma experiência falhada, como se fosse feita em laboratório e os resultados não tenham dado certo com a hipótese. A crença religiosa trata de acreditar no impossível, numa utopia. Como disse Oscar Wilde, as pessoas só podem acreditar no impossível, nunca no improvável. Ou como disse Kierkegaard, que há um absurdo no acto de fé. Mas enfim, Steiner depois fala desdenhosamente de ET's astrologia, ecologia, e orientalismo, como mitos populares de gente nova sem rumo, etc. É um livro simpático, para quem gosta dos gregos, do kant, e assim. É para racionalistas ocidentais conservadores.
Este é um vídeozinho curtinho com uma pequena amostra do pensamento fresco desse psicanalista nervoso, marxista, cómico, lacaniano, radical, político e genial que é Slavoj Zizek.
Aqui mostro-vos uma conferência de Giorgio Agamben, genial pensador italiano que aqui faz uma "teologia da política", ou seja, fala-nos das fundações teológicas das nossas instituições políticas, mostrando como a separação entre poder legislativo e poder executivo é um velho problema debatido e resolvido muitos séculos antes pelo vaticano. Sim, é fantástico ver Agamben mostrar como a Santíssima Trindade é uma das principais noções de economia, e como os media efectuam o papel antes reservado aos anjos de "adminstrar a glória". Este é só uma primeira parte, o restante podem ver no youtube
Caros leitores de Blog, aqui apresento-vos um conto. Trata-se de uma história, que um dia fui convidado a ir contar a 100 meninos de um infantário da APPACDM em Famalicão. Chama-se "A Lingua das Árvores":
Esta é a história de um homem, um pastor, que guardava as ovelhas à sombra da sua árvore. Num dia de primavera, sentado na relva, o homem ouviu um murmúrio. Continuou a ouvir, atento, e aí viu que era a árvore que sussurrava. Continuou a ouvir, e viu a dança da árvore ao vento. Continuou a ouvir e aprendeu a língua das árvores. Continuou a ouvir e aprendeu a língua da relva, a língua das flores e a língua da terra. O sol começou a pôr-se e o homem foi embora para a aldeia. Tinha ouvido e aprendido muito coisa. Sentia-se grato por toda a verdade que encontrou na árvore. As pedras já não eram só pedras, as plantas já não eram só plantas. Todo o mundo se havia transformado em algo de novo perante os seus olhos. Quando chegou, o homem quis contar a sua experiência à aldeia toda. Ele havia aprendido a língua das árvores. Toda a gente quis então saber como era, mas o homem não sabia bem como mostrar. Começou a fazer muitos gestos, a mexer muito as mãos, a tentar mostrar como era a dança das árvores. Muitos começaram a mexer-se como ele, e divertiram-se com isso. Mas houve uma pessoa que desconfiou e achou que isso só, não era ouvir as árvores, e alguns começaram a duvidar. O homem tentou soltar sons da boca parecidos com o murmúrio da árvore e quase todos o imitaram e acharam aquilo divertido. Mas houve duas pessoas que duvidaram de que a árvore realmente estivesse a dizer alguma coisa e chamaram ao homem mentiroso. Muitas pessoas então começaram a duvidar do homem pois achavam as dúvidas razoáveis, e outras queriam saber mais da experiência do homem porque gostavam da dança. O homem estava preocupado pois, por um lado, o que havia aprendido era algo de tão verdadeiro e bom para ele que não estava contente por algumas pessoas duvidarem, pois assim não teriam oportunidade de ver o mesmo que ele viu. Por outro lado, as outras pessoas que acreditaram nele gostaram da dança. Mas a dança era só um exemplo, uma imitação da árvore. Eles pareciam só interessados na dança e não na verdade da árvore. O homem tentou explicar melhor. Mas as explicações e os exemplos ainda não convenceram todos. E muitos dos que se diziam convencidos pareciam aceitar aquilo com uma ligeireza tal, dando muitas opiniões e piadas, que não terão aprendido ainda a linguagem das árvores tal como o homem a recebera em toda a sua gravidade e consequência. O homem tentou explicar melhor, mas por cada explicação havia mais dúvidas e mais opiniões. Nunca mais acabou a discussão na aldeia. Viajantes chegavam e ficavam interessados na discussão sobre a língua das árvores. Por essa altura já havia mais de cem explicações do que aconteceu. Cada viajante escolhia a verdade que encontrava nas várias histórias, para então levar uma história que a próxima aldeia entendesse. Mas não entendiam. E então o desentendimento espalhou-se por todo mundo desta forma. Havia a história que dizia que a língua das árvores era apenas mexer muito com as mãos, outros diziam que não havia árvore nenhuma e que um pastor tinha inventado uma língua e apenas deu uma árvore como exemplo. Outras histórias diziam que não havia pastor nenhum e que a sua história tinha sido inventada pelos chefes da primeira aldeia que queriam dar a conhecer a aldeia para atrair viajantes e mercadores que trouxessem riqueza Havia também homens que diziam que as histórias não tinham começado naquela aldeia, mas na sua, e disputavam entre si qual das aldeias era a originária das histórias. Outros homens ainda, diziam que todas as histórias são mentiras, pois tinham observado as árvores por dentro e por fora e que ela não tinha mãos para dançar, nem voz para falar, portanto nunca poderia ter ensinado nada a nenhum homem. Houve homens que achavam que não se tinha observado bem as árvores e inventaram muitos instrumentos úteis para observar melhor a árvores à procura por exemplo de mãos ou bocas muito pequenas. Esses homens chamaram-se a si cientistas. Outros preferiam pintar uma árvore ou dançar como uma árvore pois isso era divertido e a árvore parecia assim verdadeira para elas. A esses chamaram-nos de artistas. Outros ainda, procuravam dar explicações cada vez melhores das histórias, usando a lógica e as palavras certas, ao que foram chamados de filósofos. E foi assim que o desentendimento se espalhou e se dividiu sobre a terra. Entretanto a maioria das pessoas vão-se divertindo com as danças, pinturas, canções e poemas dos artistas, os instrumentos e as técnicas úteis e confortáveis dos cientistas, e os filósofos discutem quais são as melhores explicações das histórias pelo prazer de conversar.Claro que o que está a ser narrado, também é somente uma história que não sabemos qual a extensão de verdade que podemos nela encontrar. Diz-se no entanto, que a árvore continua no seu sítio, à espera que haja alguém que ainda a queira ouvir.