Na verdade, sempre me deixou curioso as rígidas divisões entre homossexualidade e heterossexualidade, entre outras caixotas mentais. Normalmente essa distinção acaba no fundo por ser bastante banal e simplória, em que se diz que o homossexual é o homem que ama homens e a mulher que ama mulheres. Pela minha experiência, é para mim evidente a maioria dos homens amar homens e mulheres e as mulheres amarem homens e mulheres também. Incluindo Gays. Já vi homens também amarem cães, gatos, pássaros, carros, computadores. Mas o que acontece hoje em dia é um fenómeno curioso que é o que eu chamo de homossexualidade militante. Por vários países desse mundo, Canadá, América, Brasil, Israel, Espanha já existem partidos gays. A revindicação dos direitos dos homossexuais está na ordem do dia em muitos países. Na arte então está-se a tornar um lobby poderosíssimo. Há festivais de cinema Gay e Lésbico, há paradas gay, há de tudo. Em relação a isto há uma conversa que ouvi uma vez que é elucidativa: fui à estreia da apresentação do trabalho artístico de um amigo meu, o Hélder, na Maia. Foi com ele que ouvimos o dono do espaço contar que conhecia um rapaz que era um artista novo, cheio de talento, que andava à procura de apoio por parte de cooperativas e grupos de arte, e eis que um desses grupos, bastante influente, começou a acompanhar o trabalho do jovem durante algum tempo. O jovem ficou todo contente mas eis que depois teve a notícia de que não podia ser associado aquele grupo pois não era gay.A maior lição de sempre de Freud é que o sexo está em todo o lado. Não vale a pena amarrar o desejo como diz Deleuze, porque o desejo é sempre trangressor. E a segunda lição de Freud é a de que, a partir do momento em que há regras para a sexualidade, há uma sociedade. Freud no seu livro “Totem e Tabu”, analisou tribos primitivas e concluiu que eles tinham basicamente duas instâncias sociais, o totem e o tabu. Os totems designavam os clãs, podia ser um animal, árvore, planta, pedra ou um qualquer objecto. Servia para dar nome aos clãs, distingue as linhagens (muitas delas são na forma primitiva, linhagens matrilineares). Os tabus são as proibições acerca da sexualidade, como por exemplo a impossibilidade de ter relações sexuais com membros do mesmo clã. O violar das regras é punido com a morte. É tão proibido o acto como falar dele abertamente ou sequer simbolizá-lo. Assim, Totem e Tabu são indissociáveis. É preciso distinguir os clãs para poder haver regras da sexualidade. E as regras da sexualidade só podem existir se se puder distinguir as linhagens, pois as regras teriam o designo ou a consequência de impedir a consanguinidade. É por isto que é impossível separar a lei e a moral do sexo, pois todo o edifício da moral é construído nos pilares da sexualidade. É por isso que o livro “Totem e Tabu” é dos melhores livros de Freud. A essência da sua obra está lá toda.
Uma das conclusões que Freud tira nesse livro é no quão parecidos somos, do ponto de vista psicológico, com os homens primitivos. Estes operam segundo mecanismos comuns a homens neuróticos modernos. Há por exemplo o que Freud chama de omnipotência dos pensamentos. Quando o pensamento é tomado por Real. Havia uma tribo, mexicana se não me engano, em que um dos homens da tribo tinha a elevada responsabilidade de ficar vigiando o sol , todos os dias, a ver se ele se punha e se nascia todos os dias. É o tipo de pensamento em que o mundo depende directamente daquilo que pensamos: como se o mundo exterior funcionasse tal como nossas as cabecinhas o inventam. È este o plano certo para, em conjunto com as regras da sexualidade, podermos pensar num início daquilo que se chama sentimento de culpa. Havia a história de um individuo de uma tribo que se encontrava a comer uns restos de comida que encontrou no chão. Os antropólogos registaram que um amigo seu se dirigiu a ele advertindo-o de que aquilo eram restos da comida do chefe, ao que ele reagiu caindo fulminante no chão, morto, como que envenenado. A questão é termos um indivíduo que acaba envenenado brutalmente tão somente por seu sentimento de culpa. Um dos sintomas de uma neurose obsessiva assim como aquilo que a psicologia cognitiva chama de perturbação obsessivo-compulsiva é a de que existe um sentimento de culpa em relação a pensamentos, ou seja, sentimo-nos culpados só de pensar numa enventualidade terrível, sem sequer a termos cometido realmente. São pessoas muito metódicas, limpinhas, arrumadinhas, que verificam 50 vezes o bico de gás e assim.
Freud dizia que os neuróticos obsessivas sentiam uma compulsão tremenda nestes actos, comparável ao que Kant chamou de Imperativo Categórico. Freud adianta também que o neurótico obsessivo frequentemente tem dúvidas em relação à sua identidade sexual.
O que está em causa é os nomes, o totem necessário para haver uma identifcação. O homem que assume a sua homossexualidade não resolve por si só a sua neurose obsessiva. Porquê? Porque se passa a identificar da mesma forma sob o signo de um outro totem com respectivos tabus e proibições. O “homossexual” tem também proibições e restrições. Há toda uma imagem, conduta e personalidade que é preciso inventar. Nos tempos que correm isto significa muito prosaicamente um mercado novo.
E o modelo para esta nova personalidade é: a mulher. Já verifiquei que os homossexuais mais assumidos são aqueles que mais apresentam certos traços femininos que correspondem na realidade aos preconceitos dos heterossexuais: é a melhor de se diferenciarem. Na verdade somos todos bisexuais, ou somos simplesmente sexuais. Depende muito dos nomes (ou totems) que usamos. O nome homossexualidade é uma crença. Toda linguagem é suportada em crença. E a homofobia é o medo de um homem ser confundido com uma mulher.
Assim, Carl Jung foi inteligente ao inventar o binómio animus/anima para cada um dos sexos. O animus é o lado mais viril do ser humano e anima o mais meigo e feminino. Todo o homem tem um animus e um anima. Todo o homem tem um lado mulher e toda a mulher tem um lado homem. É normal homens amarem homens e mulheres amarem mulheres. O desejo é forte sobre a terra sem se importar muito com o que nós lhe chamamos.







Voltemos aos nossos bichos humanos que estavam no café, e se lembraram “ao mesmo tempo”, de ir até ao parque. Um deles fica maravilhado sem saber porquê. Na verdade, a parte maravilhosa das coincidências, é que não sabemos dizer o que está primeiro nem o que está depois, é aliás isso que define uma coincidência, o não podermos usar a causalidade para explicar o que está a acontecer. E aí experimentamos o mundo da mesma maneira que o primeiro bicho humano, que tirou as patas do chão, olhou para o céu, e ficou pasmado, e assustado talvez, não sei. Quanto a isso só posso imaginar. Como disse William Blake, tudo o que hoje está provado, foi um dia apenas imaginado. No mundo das coincidências, as coisas acontecem todas ao mesmo tempo e não há nada que possamos provar com certeza. É uma ponte aberta para a imaginação. È o lugar que nos lançou para fazermos cultura e civilizações. Tudo isto porque estamos de mãos a abanar. Não somos como os peixes que estavam em contacto e em união com o seu território, de forma fácil e límpida. Nós somos os sem abrigo por excelência. Somos humanos porque estamos perdidos, e as coincidências lembram-nos exactamente isso.



