quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Paranóia, Amor, Genoma Humano e Revolução.

No artigo de Slavoj Zizek: "Censorship Today: Violence, or Ecology as a New Opium for the Masses", é abordada a noção problemática hoje em dia da propriedade intelectual. Bill Gates construiu seu império económico na informática fundamentando-se em noções extremas do conhecimento ser tratado como se fosse proprieade real.
Do ponto de vista psicológico, sentir que o nosso pensamento não nos pertence, ou que é algo que pode ser roubado, pode ser um critério para diagnóstico de paranóia.
As complicações legais quanto à propriedade intelectual hoje em dia levantam muitas questões legais pela cada vez mais facilidade em copiar e transmitir a informação (através de blogs por exemplo) começa a ser propriamente normal que alguém se queixe que o seu pensamento está a ser roubado, principalmente se estiver a perder dinheiro com isso.

No livro que mostrei aqui há uns tempos do George Steiner, ele diz que “a revolução científico-tecnológica que domina a consciência social e psicológica do Ocidente desde o séc. XVI levou a que toda a concepção de verdade ganhe um rigor mais especial (…). O carácter lógico e matemático das proposições que incorporam a verdade aumenta grandemente a sua abstracção, neutralidade e impessoalidade. Os homens começam a sentir que a verdade está algures “lá fora”.
Quanto a este “algures lá fora", Steiner admite não conseguir precisar muito bem esta ideia. Mas esse “lá fora” é nem mais nem menos do que o Corpo sem Órgãos de que nos anos 70, Gilles Deleuze e Félix Guattari falam no Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia: um fluxo de desterritorialização capitalista que liga o corpo à máquina através de cortes e recortes dos fluxos de desejo: “As nossas sociedades procederam (…) a uma vasta privatização dos órgãos, que corresponde à descodificação dos fluxos que se tornaram abstractos”
Não é isto de que se trata quando na Índia, comunidades locais subitamente descobrem que as práticas médicas e os materiais que usam há séculos, são agora propriedade de companhias americanas e devem ser compradas a estas? As companhias biogenéticas entretanto fazem a patente de genes e descobrimos agora que partes de nós próprios, os nossos componentes genéticos, já estão “copyrighted”, propriedade de outros.
Como sair então desta armadilha preparada por este tipo de sociedade demente, burocrata, tecnocrata, narcisista e obsessiva? Deleuze detestava metáforas. É por isso que ele dizia que “na realidade a sexualidade está em todo o lado: no modo como um burocrata acaricia os seus dossiers, um juiz faz justiça, um homem de negócios faz circular o dinheiro, a burguesia enraba o proletariado, etc. E não é preciso recorrer a metáforas tal como a libido não recorre a metamorfoses”

Desde a repressão sexual na sociedade Vienense da época de Freud até hoje, de facto não avançámos muito. Se antes evitava-se o sexo, as relações eram frias e as pessoas ficavam doentes mentais por causa disso, hoje em dia passou-se a regulamentar de tal forma o sexo, que há manuais para tudo e então as relações tornam-se altamente artificais e a sexualidade mais fetichista. Sim, é possível ver em qualquer revista de mulher: “conquiste qualquer homem em 10 passos”.

É precisamente a este nível que falamos de uma sociedade burocrata e tecnocrata. O erro é sempre o mesmo: a previsibilidade do outro. Quando definimos um processo de sedução em 10 passos, não há aqui uma abertura ao outro, o que há é uma ritualização de processos, o seguir de uma fórmula para ser aplicada, para cuidadosamente não termos que nos confrontar com o outro na sua totalidade, que também é também imprevisível, corporal, inconsciente. Na verdade o que aqui se trata é do velhinho combate entre a emoção e o corpo, a razão e a emoção, que são o sumo das neuroses comuns das pessoas civilizadas. A indústria Biogenética mais não é do que a tentativa desesperada de cobrir completamente o outro de fórmulas abstractas, tentando pré-determinar todas as potencialidades de cada gene, para assim, podermos olhar para um humano e, através de uma amostra de ADN, poder prever as suas acções, querendo eliminar qualquer hipótese de "o outro" fazer qualquer coisa de inesperado, de ousado de diferente, com medo que qualquer coisa de emocional se transmita, como um vírus. É esta alergia a um contacto genúino com os outro que move a ciência.
No entanto estas tentativas poderão sair frustradas... pela própria ciência.
Senão vejam notícias recentíssimas de um grupo de cientistas que tentam codificar o genoma humano.

Segundo Guigó, os estudiosos pensavam que os genes se relacionavam "como as contas de um colar", com as fronteiras entre eles sendo definidas e delimitadas. Dessa vez, no entanto, os cientistas perceberam que, às vezes, é difícil distinguir alguns genes de outros porque eles se sobrepõem e podem inclusive formarem conjuntos. Dessa forma, há dificuldades para determinar qual é a quantidade precisa de genes do genoma humano, que poderia ser de 20 mil a 30 mil.
Mas mais interessante do que isto são as seguintes experiências. A primeira, levada a cabo por militares, foram recolhidas amostras de leucócitos (células sanguíneas brancas) de um número de doadores. Essas amostras foram colocadas em um local equipado com um aparelho de medição das mudanças eléctricas. Nessa experiência, o doador era colocado num local e submetido a “estímulos emocionais” provenientes de videoclips que geravam emoções ao doador. O DNA era colocado em um lugar diferente do que se encontrava o doador, mas no mesmo edifício.
Ambos, doador e seu DNA, eram monitorizados e quando o doador mostrava seus altos e baixos emocionais (medidos em ondas elétricas) o DNA expressava respostas idênticas ao mesmo tempo. Não houve lapso e retardo de tempo de transmissão.
Os altos e baixos do DNA coincidiram exactamente com os altos e baixos do doador. Os militares queriam saber o quão distantes podiam ser separados o doador e seu DNA para continuarem a observar o mesmo efeito. Pararam de experimentar quando a separação atingiu 80 quilómetros entre o DNA e seu doador e continuaram tendo o mesmo resultado. Sem lapso e sem retardo de transmissão. O DNA e o doador tiveram as mesmas respostas ao mesmo tempo.
Uma segunda experiência foi realizada pelo Instituto Heart Math e o documento que lhe dá suporte tem este título: Efeitos locais e não locais de freqüências coerentes do coração e alterações na conformação do DNA. Nessa experiência pegou-se em DNA de placenta humana (a forma mais “pura” de DNA) e colocou-se num recipiente onde se podia medir suas alterações. 28 amostras foram distribuídas, em tubos de ensaio, ao mesmo número de pesquisadores previamente treinados. Cada pesquisador havia sido treinado a gerar e sentir sentimentos, e cada um deles manifestava fortes emoções.
O que se descobriu foi que o DNA mudou de forma de acordo com os sentimentos dos pesquisadores.
Quando os pesquisadores sentiram gratidão, amor e apreço, o DNA respondeu relaxando-se e seus filamentos esticaram. O DNA tornou-se mais grosso.
Quando os pesquisadores sentiram raiva, medo ou stress, o DNA respondeu ficando mais apertado. Tornou-se mais curto e apagou vários códigos.
Os códigos de DNA ligaram-se novamente quando os pesquisadores tiveram sentimentos de amor, alegria, gratidão e apreço. Essa experiência foi aplicada posteriormente a pacientes com HIV positivo. Descobriram que os sentimentos de amor, gratidão e apreço criaram respostas de imunidade 300.000 vezes maiores que a que tiveram sem eles.

Se os sentimentos genuínos alteram o DNA, de um ponto de vista político, penso que isto é bom para as classes baixas, que não têm de pagar um cêntimo para verem alterado o seu ADN, e mau para quem pretende enriquecer à custa do ADN e vai ver seus planos frustrados por não conseguir fazer melhor que a natureza, presente em todos nós. Lembremo-nos da fórmula de Albert Cossery: aquilo que toda a gente tem, não tem valor de troca.
Isto porque a economia nunca vende a coisa mesmo, o original, ou seja uma emoção genuína. Porque se é vendida, já não é genuína: a mercadoria nunca cumpre a sua promessa implícita, esse "algo mais". Isto é perfeitamente demonstrável com o exemplo de uma prostituta. Não é por acaso que é a profissão mais antiga do mundo: é o exemplo perfeito para compreender a junção de Marx e Freud na compreensão do mundo civilizado. O homem paga à mulher para fazerem amor, mas o que daí resulta não são emoções genuínas mas sim um conjunto de actos mecânicos estereotipados, em que o a mulher apenas representa gemidos que sejam suficientemente convincentes, e o homem se sente culpado por achar que não consegiu dar prazer à mulher. A estrutura da mercadoria da prostituta é assim a mesma da do café descafeinado e da cerveja sem álcool de que fala Zizek. Se quiserem vejam no post mais abaixo um vídeo que postei dele.

Desta forma, cultivar bons sentimentos genuínos para com os outros é um acto anti-utilitarista e anti-pragmatista, e portanto, revolucionário. Apetece assim reformular o lema de Lenine: “operários de todo o mundo, uni-vos” para um simples "Operários de todo o mundo, amai-vos uns aos outros”. Eu sei que essa última parte da é de Jesus, mas é isto é como aquela música dos Pear Jam “Love Boat Captain”: “Its already been sung, but it cant be said enough, All you need is love”
Eddie Vedder cita aqui John Lennon e dedica-a também a 9 pessoas que morreram num concerto deles e deixo aqui o vídeo de uma das músicas que mais amo dos pearl jam. Reparem na letra.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

uma mãozinha

Um dia passeava com a minha Jane no Porto e vimos um pequeno pássaro no passeio. Ali, quieto, preso ao chão, não se desviou um milímetro do nosso trajecto. Era um pássaro novo, parecia ferido, incapaz de voar. Sentimos compaixão e decidimos pegar nele para o deixar no jardim do marquês, ali perto, onde pensei que estaria mais seguro.
Abaixei-me para pegar nele com as mãos, mas à primeira tentativa ele abanou-se e escapou-se das minhas mãos. Tentei outra vez e quando estava quase a tocar-lhe, eis que ele irrompeu dali para fora batendo as asas sofregamente.
Mas algo estava mal. O pássaro, ferido, não conseguia subir, e então voou rasteiro pela estrada fora. Um momento antes, um carro vinha com alguma velocidade e vi o inevitável: o pássaro voou em direcção ao pneu, o pneu correu em direcção ao pássaro. No segundo seguinte esvoaçaram penas.
Dei a mão para salvar a vida a um pássaro e ele usou a mão que lhe dei para voar em direcção à morte. É um choque ver num instante a vida e a morte darem as mãos, comigo hoje aqui, de mãos a abanar.
A morte vem e passa, assim como a vida. A memória fica e é a memória que dói. Dói não podermos agarrar as memórias pois as memórias são tudo o que não podemos agarrar. E assim ficamos, dizendo “e agora?”, de mãos a abanar, condenados a ser absurdamente livres.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Albert Cossery - As Cores da Infâmia


Este Albert Cossery é um romancista egípcio que vive num quarto de hotel em Paris há muitos anos e escreve romances deliciosos sobre mendigos, ladrões e putas. Cossery tem a habilidade de mostrar de forma simples o mundo caótico mas simples dos pobres e desafortunados. Cito aqui um pequeno trecho do seu livro "Cores da Infâmia":

" - Não te aflijas com isso. Não sou daqueles que se entregam a trabalhos muitas vezes inúteis, julgando cumprir a sua parte de um ritual obrigatório. O único tempo precioso, minha querida Nahed, é o que o homem consagra à reflexão. Isto é uma destas verdades indecentes que os mercadores de escravos abominam.

- É no entanto espantoso que a verdade não entre pelos olhos dentro de todos os homens!

- Desengana-te. A verdade é conhecida de toda a gente, mas uma coisa conhecida de toda a gente não possui nenhum valor de troca. Estás a ver os patifes que controlam a informação a vender verdades... Na melhor das hipóteses, toda a gente se ria deles. Por uma razão bem simples. A verdade não tem nenhum futuro, ao passo que a mentira é portadora de grandes esperanças."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Tom Waits - Road to Peace

Se me perguntassem o que é que tem falhado no conflito entre israel e palestina, gostava de ter sempre à minha beira o Tom Waits para lhe pedir para cantar esta música do último álbum dele:




Young Abdel Mahdi (Shahmay) was only 18 years old,
He was the youngest of nine children, never spent a night away
from home. And his mother held his photograph, opening the New
York Times To see the killing has intensified along the road to peace

There was a tall, thin boy with a whispy moustache disguised as
an orthodox Jew. On a crowded bus in Jerusalem, some had survived
World War Two. And the thunderous explosion blew out windows
200 yards away. With more retribution and seventeen dead
along the road to peace

Now at King George Ave and Jaffa Road passengers boarded bus 14a
In the aisle next to the driver Abdel Mahdi (Shahmay) And the last
thing that he said on earth is "God is great and God is good"
And he blew them all to kingdom come upon the road to peace

Now in response to this another kiss of death was visited upon
Yasser Taha, Israel says is an Hamas senior militant
And Israel sent four choppers in, flames engulfed, tears wide open
And it killed his wife and his three year old child leaving
only blackened skeletons

It's found his toddlers bottle and a pair of small shoes and they
waved them in front of the cameras. But Israel says they did not
know that his wife and child were in the car. There are roadblocks
everywhere and only suffering on TV. Neither side will ever give up
their smallest right along the road to peace

Israel launched it's latest campaign against Hamas on Tuesday
Two days later Hamas shot back and killed five Israeli soldiers
So thousands dead and wounded on both sides most of them middle
eastern civilians. They fill the children full of hate to fight
an old man's war and die upon the road to peace.

"And this is our land we will fight with all our force"
say the Palastinians and the Jews. Each side will cut off the hand
of anyone who tries to stop the resistance. If the right eye offends
thee then you must pluck it out. And Mahmoud Abbas said Sharon had
been lost out along the road to peace

Once Kissinger said "we have no friends, America only has interests"
Now our president wants to be seen as a hero and he's hungry for
re-election. But Bush is reluctant to risk his future in the fear
of his political failures. So he plays chess at his desk and poses
for the press 10,000 miles from the road to peace

In the video that they found at the home of Abdel Mahdi (Shahmay)
He held a Kalashnikov rifle and he spoke with a voice like a boy
He was an excellent student, he studied so hard, it was as if he
had a future. He told his mother that he had a test that day out
along the road to peace

The fundamentalist killing on both sides is standing in the path
of peace. But tell me why are we arming the Israeli army with guns
and tanks and bullets? And if God is great and God is good why can't
he change the hearts of men? Well maybe God himself is lost and
needs help Maybe God himself he needs all of our help
Maybe God himself is lost and needs help
He's out upon the road to peace

Well maybe God himself is lost and needs help
Maybe God himself he needs all of our help
And he's lost upon the road to peace
And he's lost upon the road to peace
Out upon the road to peace.

Nostalgia do Absoluto - George Steiner


Li recentemente este livro do George Steiner: "Nostalgia do Absoluto". É um autor que expressa bem as suas ideias, é um senhor de letras clássico, gosta muito dos gregos. Faz uma análise histórica àquilo que ele chama de nostalgia do absoluto. Fala-nos das tentativas de substituição da mitologia religiosa por parte de autores como Freud, Marx e Levi-Strauss, todos eles acabando por criar todos as suas mitologias científicas e políticas. Diz que, como estes três são de herança judaica o seu atéismo judeu levou-os a recorrer de certa a forma a buscar as tradições proféticas próprias do judaísmo. É engraçado verificar como steiner mostra que Freud se descreveu da seguinte maneira: "completamente afastado da religião dos meus pais". Mas Freud não fica por aqui: "Se me perguntassem: que lhe resta de judaico? Teria de responder:«muito provavelmente a essência»".
Até aqui tudo bem. O problema talvez, é Steiner desbaratar no final estes três autores como tentativas falhadas e ilusões semelhante às igrejas vazias de hoje em dia. Para mim, ser comunista é uma crença religiosa. Porque não? Nisso concordo com Steiner. Mas se é assim, não podemos vê-lo como uma experiência falhada, como se fosse feita em laboratório e os resultados não tenham dado certo com a hipótese. A crença religiosa trata de acreditar no impossível, numa utopia. Como disse Oscar Wilde, as pessoas só podem acreditar no impossível, nunca no improvável. Ou como disse Kierkegaard, que há um absurdo no acto de fé.
Mas enfim, Steiner depois fala desdenhosamente de ET's astrologia, ecologia, e orientalismo, como mitos populares de gente nova sem rumo, etc.
É um livro simpático, para quem gosta dos gregos, do kant, e assim. É para racionalistas ocidentais conservadores.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

poema de natal

Hoje vou dar largas ao meu imenso espírito natalício. Aqui está um poema meu de Natal:

entram pelos olhos dentro
milhões e milhões de luzinhas,
hoje é um dia bastante chinês.

é natal, é natal,
máquinas para os meninos
bonecas de plástico para as meninas

o natal é todos os dias
quando um homem quer
e quando uma mulher deixa.

o pai natal tem frio,
bebe coca-cola junto à lareira.
o menino Jesus deixa

pois nunca será grande
com o burro à perna
e os reis à espreita.

Zizek



Este é um vídeozinho curtinho com uma pequena amostra do pensamento fresco desse psicanalista nervoso, marxista, cómico, lacaniano, radical, político e genial que é Slavoj Zizek.

Giorgio Agamben




Aqui mostro-vos uma conferência de Giorgio Agamben, genial pensador italiano que aqui faz uma "teologia da política", ou seja, fala-nos das fundações teológicas das nossas instituições políticas, mostrando como a separação entre poder legislativo e poder executivo é um velho problema debatido e resolvido muitos séculos antes pelo vaticano. Sim, é fantástico ver Agamben mostrar como a Santíssima Trindade é uma das principais noções de economia, e como os media efectuam o papel antes reservado aos anjos de "adminstrar a glória". Este é só uma primeira parte, o restante podem ver no youtube

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A língua das àrvores

Caros leitores de Blog, aqui apresento-vos um conto. Trata-se de uma história, que um dia fui convidado a ir contar a 100 meninos de um infantário da APPACDM em Famalicão. Chama-se "A Lingua das Árvores":

Esta é a história de um homem, um pastor, que guardava as ovelhas à sombra da sua árvore. Num dia de primavera, sentado na relva, o homem ouviu um murmúrio. Continuou a ouvir, atento, e aí viu que era a árvore que sussurrava. Continuou a ouvir, e viu a dança da árvore ao vento. Continuou a ouvir e aprendeu a língua das árvores. Continuou a ouvir e aprendeu a língua da relva, a língua das flores e a língua da terra. O sol começou a pôr-se e o homem foi embora para a aldeia. Tinha ouvido e aprendido muito coisa. Sentia-se grato por toda a verdade que encontrou na árvore. As pedras já não eram só pedras, as plantas já não eram só plantas. Todo o mundo se havia transformado em algo de novo perante os seus olhos.
Quando chegou, o homem quis contar a sua experiência à aldeia toda. Ele havia aprendido a língua das árvores. Toda a gente quis então saber como era, mas o homem não sabia bem como mostrar. Começou a fazer muitos gestos, a mexer muito as mãos, a tentar mostrar como era a dança das árvores. Muitos começaram a mexer-se como ele, e divertiram-se com isso. Mas houve uma pessoa que desconfiou e achou que isso só, não era ouvir as árvores, e alguns começaram a duvidar. O homem tentou soltar sons da boca parecidos com o murmúrio da árvore e quase todos o imitaram e acharam aquilo divertido.
Mas houve duas pessoas que duvidaram de que a árvore realmente estivesse a dizer alguma coisa e chamaram ao homem mentiroso. Muitas pessoas então começaram a duvidar do homem pois achavam as dúvidas razoáveis, e outras queriam saber mais da experiência do homem porque gostavam da dança. O homem estava preocupado pois, por um lado, o que havia aprendido era algo de tão verdadeiro e bom para ele que não estava contente por algumas pessoas duvidarem, pois assim não teriam oportunidade de ver o mesmo que ele viu. Por outro lado, as outras pessoas que acreditaram nele gostaram da dança. Mas a dança era só um exemplo, uma imitação da árvore. Eles pareciam só interessados na dança e não na verdade da árvore. O homem tentou explicar melhor.
Mas as explicações e os exemplos ainda não convenceram todos. E muitos dos que se diziam convencidos pareciam aceitar aquilo com uma ligeireza tal, dando muitas opiniões e piadas, que não terão aprendido ainda a linguagem das árvores tal como o homem a recebera em toda a sua gravidade e consequência. O homem tentou explicar melhor, mas por cada explicação havia mais dúvidas e mais opiniões. Nunca mais acabou a discussão na aldeia.
Viajantes chegavam e ficavam interessados na discussão sobre a língua das árvores. Por essa altura já havia mais de cem explicações do que aconteceu. Cada viajante escolhia a verdade que encontrava nas várias histórias, para então levar uma história que a próxima aldeia entendesse. Mas não entendiam. E então o desentendimento espalhou-se por todo mundo desta forma.
Havia a história que dizia que a língua das árvores era apenas mexer muito com as mãos, outros diziam que não havia árvore nenhuma e que um pastor tinha inventado uma língua e apenas deu uma árvore como exemplo. Outras histórias diziam que não havia pastor nenhum e que a sua história tinha sido inventada pelos chefes da primeira aldeia que queriam dar a conhecer a aldeia para atrair viajantes e mercadores que trouxessem riqueza
Havia também homens que diziam que as histórias não tinham começado naquela aldeia, mas na sua, e disputavam entre si qual das aldeias era a originária das histórias. Outros homens ainda, diziam que todas as histórias são mentiras, pois tinham observado as árvores por dentro e por fora e que ela não tinha mãos para dançar, nem voz para falar, portanto nunca poderia ter ensinado nada a nenhum homem.
Houve homens que achavam que não se tinha observado bem as árvores e inventaram muitos instrumentos úteis para observar melhor a árvores à procura por exemplo de mãos ou bocas muito pequenas. Esses homens chamaram-se a si cientistas. Outros preferiam pintar uma árvore ou dançar como uma árvore pois isso era divertido e a árvore parecia assim verdadeira para elas. A esses chamaram-nos de artistas. Outros ainda, procuravam dar explicações cada vez melhores das histórias, usando a lógica e as palavras certas, ao que foram chamados de filósofos. E foi assim que o desentendimento se espalhou e se dividiu sobre a terra. Entretanto a maioria das pessoas vão-se divertindo com as danças, pinturas, canções e poemas dos artistas, os instrumentos e as técnicas úteis e confortáveis dos cientistas, e os filósofos discutem quais são as melhores explicações das histórias pelo prazer de conversar.Claro que o que está a ser narrado, também é somente uma história que não sabemos qual a extensão de verdade que podemos nela encontrar. Diz-se no entanto, que a árvore continua no seu sítio, à espera que haja alguém que ainda a queira ouvir.

"British Sandwich Association"

Os deuses devem estar loucos! Encontrei o site da "British Sandwich Association". Sim, caro leitor de blogs, é mesmo isso o que você está a pensar: uma associação britânica da sandwich.
Qual a finalidade? Em primeiro lugar:

"To safeguard the integrity of the sandwich market by setting standards for sandwich making, by encouraging excellence in sandwich making and by encouraging the development of the industry in terms of skills, innovation and overall market development."

Se quiserem confirmem voçês mesmos no link: http://www.sandwich.org.uk/
Eu fiquei de tal forma inspirado que decidi fazer um manifesto do "Partido Nacionalista Trabalhista Tosta Mista". Aqui vai:

Somos militantes do Partido Nacionalista Trabalhista Tosta Mista e defendemos a reforma das leis que regulam a actividade hoteleira responsável por aconselhar por exemplo, a ordem pela qual se introduz, caso a caso, primeiro o fiambre e depois o queijo. É um ultraje, uma indignação que me move, que me faz agir,defender os direitos do cidadãos consumidores de tostas mistas por esse país fora e os outros portugueses também, emigrantes em pior situação ainda, porque no estrangeiro não sabem fazer tostas mistas como um português e o embaixador e o cônsul não querem saber, desde que lhe tragam a torrada e o resto do sustento.
A tosta mista portuguesa define a nossa portugalidade mais até que o cozido, esse grande lobby
responsável pela decadência da cultura tosta mística. Lord Sandwich, um dia pôs chicha no meio do pão, permitindo continuar a jogar cartas enquanto comia. Aí tivemos os fundamentos da filosofia do pragmatismo, e os alicerces da revolução industrial. Lutaremos sempre até ao fim, e lá estaremos onde houver mais queijo do que fiambre, ou mais fiambre do que queijo, lá estaremos para combater as desigualdades inerentes à dialéctica interna da tosta mista.

Olá!

Finalmente criei um blogue pessoal! Chamo-me José Magalhães, o título deste blog é "Born to be Wilde" numa pequena homenagem a Oscar Wilde, esse "genius" do genial séc. XIX.
Irei aqui despejar pensamentos, poemas, e links de acordo com meus interesses, e outras inutilidades. Acima de tudo será um blog anti-utilitarista, e anti-pragmatista. Ou seja, este blog não servirá para rigorosamente para nada.

Aviso: Serão frequentes aqui as referências a Freud, Kierkegaard Marx, Deleuze, entre muitos outros personagens estranhas e aberrações no campo da filosofia, arte, literatura e psicologia.